NOVO SITE

 

Continuem a ler os textos do escritor Roberto Muniz Dias no seu novo site pessoal, acessando:

www.robertomunizdias.com

OBRIGADO!

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Bate-papo online com escritores de literatura contemporânea: processo criativo e mercado.

Hangout – bate-papo online com autores contemporâneas e suas obras
Postado por: Roberto Muniz

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Bate-papo online com escritores de literatura contemporânea: processo criativo e mercado. (Clique aqui para assistir ao vídeo)

Participe do hangout com os escritores:
 
Roberto Muniz Dias
Paulo Sérgio Moraes
Alex Francisco
Ben Oliveira
Alexandre Willer Melo
Moa Sipriano
Helder Caldeira 
 

Estes autores falarão sobre processo criativo e mercado literário.

Este será o primeiro encontro de muitos.

Você assiste ao vivo e pode interagir com os autores. 
Marque na agenda e participe!

Música no corpo de fuga

Capa do livro MÚSICA NO CORPO DE FUGA de Fabrício Fernandez.

Música no corpo de Fuga é um livro de encontros, mas não são encontros quaisquer. São encontros com o perdido da gente, aquele pedaço que ruiu, fendeu e partiu literalmente em errático destino. A fuga não é escapatória somente, é também um outro encontro, no entanto, já tem algo de pacífico. Mas nem tudo neste livro do escritor e jornalista Fabrício Fernandez é dissonância. Há uma ligeira melancolia que nivela as almas das personagens que estão em busca de uma identidade com o lugar de acolhimento e pertencimento. Lucas é um migrante que sem motivos quer fugir de Vitória, abriga-se por algum tempo em Brasília e é atormentado pela arquitetura egoísta e isoladora. Juli é um nativo que, mesmo acomodado ao plano da cidade, não se encontra no espaço de seu corpo. Ambos estão claramente em fuga.

O livro é repleto de referências literárias e musicais como se a literatura e a música fossem compondo este ser cambiante e andarilho. Aliás, é forte a presença de uma temática Nolliana aqui em seu texto: todos são andarilhos de si e de seus próprios rumos. Mas é impossível viver sempre sobre rastros perdidos:

“Qualquer consistência de permanência física era necessária para estar ou pertencer”, diz o terapeuta de Lucas. E por algumas vezes, Lucas tentou enraizar, porém o concreto ou o barro vermelho de Brasília não promoveram o ideal espaço. Mas ficamos em dúvida se a culpa – estamos sempre procurando um motivo, culpa – era, de fato, da cidade atordoadora. Aliás, a cidade era nova  e novo pode ser desafiador. Então nos perdemos nestes vacilos da existência de Lucas e Juli. “Quem são Lucas e Juli?”, me perguntei algumas vezes durante a leitura. Por incrível que pareça eu me encontrei neles. Somos estrangeiros nesta terra procurando um pedaço perdido e isso angustia quando a busca se mostra mais forte do que este desejo do reencontro.

Música no corpo de Fuga me deixou uma tarde em plena discussão comigo mesmo, sobre estas questões de existência, pertencimento e busca – ou seria fuga? Por alguns momentos, somos levados a concluir que realmente a fuga é o lugar do perdido, é lá que se encontra nosso pedaço outro. Mas em algum momento Lucas afirma: “Quem potencializa o isolamento sou eu…” E não será? Estamos na busca do fendido que nada mais é do que uma espécie de busca pelo amor: o calor, a família, os amigos, um amor vivido no passado… ou pode ser também uma busca pelo o que não-deve-ser-amor.

“Será que na vastidão desconhecida do amor a gente se amplia ou se reduz um pouco?”

Sei que fui me perdendo ao longo da leitura e, ao mesmo tempo, me recompunha na trilha sonora embutida na leitura porque algo do passado refazia o todo. Não era um todo completo porque assim como Lucas, também me perdera na arquitetura dos prédios e das almas dos candangos zumbis.

No fundo Lucas e Juli são pedaços de si mesmos perdidos, e que por alguma falha numa lei física que explicasse o magnetismo dos corpos, eles se excetuaram. É isso, exceção. Ali o conjunto daquelas almas, não parecia ter alguma regra descrita ou que não pudesse ser romanticamente burlada.

Mas em que pese a fuga em Música no corpo de Fuga não me pareceu um adeus.

O Branco Se Suja Pelo Esforço Ou Aos Feios Sábios Os Belos Bobos

Disponibilizo (gratuitamente) aos leitores os três primeiros capítulos de meu mais recente livro. Colocarei aqui, SEMANALMENTE, um capítulo novo. Conto com a leitura e impressões de vocês. Conto com vocês!

Um diário de bordo perde seu propósito original. O relato das aventuras de um turista retoma uma história de um livro-guia. Nesta viagem (em duplo sentido) o personagem-narrador vai alinhavando ficção da ficção e realidade para compor uma história de busca, autoconhecimento e amor. Uma novela intimista, mas que revela algo maior como a tentativa de sair do lugar comum da vida.

Veja mais sobre o projeto: http://www.wattpad.com/85176605-o-branco-se-suja-pelo-esfor%C3%A7o-ou-aos-feios-s%C3%A1bios

Book trailer do livro URÂNIOS

Numa sociedade em que se prevalece a valorização da monogamia ou do amor romântico, falar sobre a vivência do poliamor ou dos relacionamentos abertos ainda causa espanto – até mesmo nas mais modernas uniões LGBT. Mas é de maneira humana, profunda e livre de preconceitos ou clichês que o escritor e mestre em literatura Roberto Muniz Dias abre a discussão e traz à tona o assunto em seu quarto livro, “Urânios” [Metanoia], que aborda os sabores e dissabores da relação de um casal formado por três homens. E que supre a lacuna de obras brasileiras sobre o tema. (Neto Lucon)

“Tudo tem um começo. Pelo menos para as histórias, sejam em quaisquer das articulações com as verdades de cada um. O princípio pode ser por uma mentira. Se ela for bem contada, pode parecer História. E para ser História bastam dois ingredientes: uma presunção de verdade e um idiota para creditá-la valor. Eu fui o idiota. E tem sido assim por muito tempo. Muitas histórias contadas e muitos idiotas que a vivem.

Vivi essa história com intensidade. Todos já eram adultos. Não vai ser necessário o passado para entender o presente e o futuro das coisas acontecidas. Elas por si só se encaminharam nesses anos de convívio. Personagens, pano de fundo, um enredo e uma duração no tempo. Estava pronta a história. No entanto, ela tem um princípio; ela foi me dada sem muitas limitações. Fui testemunha do tempo deles; da velocidade na qual tudo se passou. Às vezes podia ser tão natural; às vezes parecia tão impreciso quanto o destino poderia se revelar. Eis a minha verdade:”

Onde comprar: http://www.metanoiaeditora.com/loja/products/Ur%E2nios.html

In a society in which prevails monogamy and romantic love, talking about the experience of polyamory or open relationships still cause amazement – even in the most modern LGBT unions. But is in human, deep and free of clichés or prejudices ways that the writer and literature teacher, Roberto Muniz Dias, open the discussion and brings up the subject in his fourth book, “Urânios” [Metanoia Publishing House], which addresses the flavors and disappointments of a relationship formed by three men. And that fills the gap of Brazilian works on the subject. (Neto Lucon, Literature Journalist)

“Everything has a beginning, at least for the stories, at any of the joints with the truths of each one. The beginning can be a lie, if it is well told, can transform into History. And to be so, just two ingredients are enough: a presumption of truth and an idiot to credit its value. I was an idiot. And it’s been this way for a long time. Many stories had been told and many idiots had been lived that way.

I lived this story with intensity. All were already adults. The past will not be necessary to understand the present and future of things that happened. They themselves were heading these years all together. Characters, backgrounds, storyline and duration in time. The story was ready. However, it had a beginning; it was given to me without many limitations. I was a witness of their time; the speed at which everything happened. Sometimes it could be so natural; sometimes seemed as imprecise as fate would unfold. That is my truth:”

Where to buy: http://www.metanoiaeditora.com/loja/products/Ur% E2nios.html

Lançamento de URÂNIOS em São Paulo

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Autografando na Livraria Blooks. São Paulo. 02 de maio de 2014.

O mais novo livro, Urânios, do escritor e mestre em literatura, Roberto Muniz Dias, foi lançado no dia 2 de Maio de 2014.

A obra tematiza o poliamor sob o ponto de vista de um homem que relata suas memórias de um amor nada convencional. Entre o presente e o passado, um quadro de um galo colorido o remete sempre a esta paixão inusitada. O amor entre esses três homens se intensifica à medida que não descobrem o quê fazer com ele. No final, as identidades são esfaceladas pela lembrança, pelos medos, ciúmes e a morte das coisas vivas.

A ideia do livro surgiu sobre a questão do poliamor; das diferenças entre atitudes num relacionamento; um questionamento sobre o que é o amor, se poderia ser fragmentado ou deveria ser inteiro? Uma divagação, em primeira pessoa, de como um indivíduo lidava com a ideia de dividir o objeto de desejo; como seria um contato que quebrasse todas as opiniões internas sobre o amor romântico ou burguês. Essa pessoa se pergunta, dentro de uma estória não linear, entre o passado e o presente, nas lembranças e experiências de um amor nada convencional, como a mudança pode ser libertadora e, ao mesmo tempo um claustro. Em resumo, uma estória sobre desconstruir-se como indivíduo, reinventar-se e depois perder-se.

Trecho do livro:

“Tudo tem um começo. Pelo menos para as histórias, sejam em quaisquer das articulações com as verdades de cada um. O princípio pode ser por uma mentira. Se ela for bem contada, pode parecer História. E para ser História bastam dois ingredientes: uma presunção de verdade e um idiota para creditá-la valor. Eu fui o idiota. E tem sido assim por muito tempo. Muitas histórias contadas e muitos idiotas que a vivem.

Vivi essa história com intensidade. Todos já eram adultos. Não vai ser necessário o passado para entender o presente e o futuro das coisas acontecidas. Elas por si só se encaminharam nesses anos de convívio. Personagens, pano de fundo, um enredo e uma duração no tempo. Estava pronta a história. No entanto, ela tem um princípio; ela foi me dada sem muitas limitações. Fui testemunha do tempo deles; da velocidade na qual tudo se passou. Às vezes podia ser tão natural; às vezes parecia tão impreciso quanto o destino poderia se revelar. Eis a minha verdade…”

Comentários sobre o livro:

“Em Urânios, novo livro de Roberto Muniz, que com sensibilidade trabalha seus personagens e suas experiências com profundidade, conduzindo uma trama que vai abrindo caixas dentro das quais se encontram outras caixas até que o protagonista se depara com uma verdade fundamental…” (Sérgio Viula, Escritor)

“Você é colocado para dentro dessa narrativa e, embora já saiba do resultado, quer saber como se deu tudo isso.” (Neto Lucon, Jornalista)

Sobre o autor:

Roberto Muniz Dias é romancista, contista, poeta, artista plástico e mestre em Literatura pela UnB (Universidade de Brasília). Também formado em Letras e Direito, integra a Comissão de Tolerância e Diversidade Sexual da 93ª Subseção de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo. Foi premiado pela Fundação Monsenhor Chaves com menção honrosa pela obra “Adeus Aleto”. Publicou ainda “Um Buquê Improvisado”, “O Príncipe – O Mocinho ou o Herói podem ser Gays” e recentemente lançou seu livro: Errorragia: contos, crônicas e inseguranças.

Fonte: -http://www.benoliveira.com/2014/04/lancamento-do-livro-uranios-do-escritor.html

Adquira já o seu: http://www.metanoiaeditora.com/loja

Book trailer do livro ERRORRAGIA

 

Book trailer do primeiro livro de contos do escritor Roberto Muniz Dias intitulado ERRORRAGIA. Publicado pela editora Escândalo, Errorragia reúne 25 textos que passeiam pelos delírios, sonhos e pesadelos do autor.

Em seu tão aguardado livro de contos, o romancista e pesquisador Roberto Muniz Dias abusa de seu estilo intimista e rebuscado, já comprovado em criações anteriores. “Errorragia” (Ed. Escândalo) faz um passeio pelas memórias, delírios, sonhos e pesadelos do autor.
Os personagens de “Errorragia” vagueiam pelos labirintos da própria existência numa busca por respostas, explicações. É também um modo particular de descortinar vivências homoafetivas. A coletânea reúne 25 textos e cada um traz uma dedicatória especial.

A seguir alguns trechos dos contos:
“- Nada é tão presente quanto a ausência – você repetia para que eu aprendesse com a dor. Por isso, deixei de caminhar pelo quintal; de colher flores… as sementes caíram no chão uma vez. Nasceu nosso primeiro Ipê amarelo. Mas isso faz tanto tempo. E agora depois de tanto tempo fico catando sementes aladas, daquelas que se pega no ar, parecem pequenas espaçonaves alienígenas.”

“E quando aprendi que para tudo isso, de alguma forma, teria de gostar; beijar pra mim já era uma descoberta reveladora e inspiradora de sonhos, mas gostar de quem beijava era uma impossibilidade quase palpável. Era como encaixar as peças de um Rembrandt dividido em mil pedaços transformados em quebra-cabeças. Eu odiaria um Rembrandt.”

“Sentei-me a mesa, observando o fio entrançado do caminho de mesa; alisando como se pudesse obter a magia de uma confissão. Alisava, alisava e pedia que as coisas pudessem se tornar reais…”
Onde adquirir: http://editoraescandalo.com/site/portfolio/errorragia/
Ficha Técnica do Book Trailer:
Direção e concepção: Cássio Rodrigues
Bailarinos:José Nascimento e Samuel Alvís
Música: Magia, de Hugo Trincado

Urânios

Lançamento de Urânios, Em Breve

Novo livro do escritor Roberto Muniz Dias relata um relacionamento a três.
 Segundo a wikipédia:” Ménage à trois, ou simplesmente ménage, é uma expressão de origem  francesa cujo significado originalmente denominava um domicílio habitado por três pessoas em vez de um casal. Sua tradução literal é “moradia a três”. Atualmente é utilizada para designar os relacionamentos sexuais  entre três pessoas.”
 Capa 1
Um homem relata suas memórias de um amor nada convencional. Entre o presente e o passado, um quadro de um galo colorido o remete sempre a esta paixão inusitada.

O amor entre estes três homens se intensifica à medida que não descobrem o quê fazer com ele. No final, as identidades são esfaceladas pela lembrança, pelos medos, ciúmes e a morte das coisas vivas.

Entre na página do evento: https://www.facebook.com/events/791808080833592/?fref=ts
Novo livro (e-book) do escritor Roberto Muniz Dias disponibilizado para aquisição no site da SARAIVA:
http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/6949240
Roberto Muniz Dias é romancista, contista, poeta, artista plástico e mestre em Literatura pela UNB (Universidade de Brasília). Os textos desse escritor piauiense, de Teresina, são intensos, dramáticos e cheios de vaivens atemporais. De uma tal profundidade de sentimentos que arrebatam o leitor já nas primeiras linhas.
Também formado em Direito, integra a Comissão de Tolerância e Diversidade Sexual da 93ª Subseção de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo. Foi premiado pela Fundação Monsenhor Chaves com menção honrosa pela obra “Adeus Aleto”. Publicou ainda “Um Buquê Improvisado”, “O Príncipe – O Mocinho ou o Herói podem ser Gays” e recentemente lançou seu livro de contos: Errorragia: contos, crônicas e inseguranças.

Vidas provisórias, vidas possíveis

 

Vidas Provisórias

Vidas provisórias, vidas ilusórias

 

As vidas enredadas no novo livro de Edney Silvestre, Vidas Provisórias, encontram-se entrecortadas; no entre-lugar, no entre-tempo. Elas vão, em suas distâncias e proximidades, dialogando entre si. E nós, leitores modelos ou leitores empíricos, vamos cortando uma película de 8mm e com seus furinhos encaixamos as histórias, tentando recontar por meio do desespero alheio nossa linearidade dentro do passado de um Brasil não tão remoto.

Há uma diáspora de esperanças, perdidas na reconstrução da vida por outros espaços, outras identidades. Aí, aquele filme que cortamos, vamos colando num anteparo chamado de memória – ou seria tempo? – os pedaços da vida.

Edney Silvestre vai, verdadeiramente, costurando as memórias e os medos; as vicissitudes e as peripécias de Paulo e Bárbara entrecortados pelos traumas e pelo futuro. Novas identidades inauguram a esperança, mas ainda o passado revisita-os contundentemente.

Temos então duas vidas, duas histórias, duas épocas da história do Brasil em que os anos de chumbo da ditadura militar são reconstruídos milimetricamente por ações, períodos curtos, e uma perfeita descrição dos ambientes, pessoas e lembranças. Ao expatriado só resta as memórias dos sabores, da família e da lembrança.

É possível viver uma nova identidade sem a memória afetiva e perturbadora do passado? Viver longe de nossos referenciais telúricos nos tornam mais preparados para o novo?

Minha recepção do texto de Edney Silvestre levou as minhas leituras internas; intertextualidade com outros livros que lera e que trabalham de forma estilística os mesmos temas em Vidas Provisórias. Foi inevitável não relembrar de Stella Manhathan de Silviano Santiago que relata essa e diáspora de si e da terra como refúgio para uma nova vida. Paulo depois de tortura pela ditadura é asilado em outro país para não ser morto; Bárbara quer encontrar em sua viagem para os EUA a experiência de viver um sonho:“the american way of life”; e os livros de Paulo e Bárbara, que Edney separa propositadamente em cores diferentes, recortados, vão revezando as histórias dos personagens. Tal estilo fez simbolicamente Assis Brasil em Como os que bebem como cães, no qual a experiência da prisão é também recortada entre o pátio e a cela; experiências que nos torna alheios a nós mesmos e tudo o que resta são os poucos vestígios de uma vida anterior – igualmente torturante para quem dela já viveu. Tanto temas como o estilo de contar suas ficcionalidades são revisitados – pelo menos em minha memória de leitor – em Vidas Provisórias. Isto mostra que uma obra sempre nos conecta com nossas experiências como leitores.

E como se inaugura este novo ser, este devir fugindo do seu próprio passado?

Paulo foge, com ajuda do irmão coronel do Exército, para o Chile depois Estocolmo para que não perdesse sua própria vida, mas antes disto sofrera as torturas pelos aparelhos repressores da ditadura militar no Brasil. Já Bárbara foge de uma família sem carinho, de uma recessão econômica, desemprego historicamente avassaladores de um período de incerteza econômica, inflação no Brasil. Brasil é o ponto irradiador destes personagens que vivem entre a saudades e os monstros que o passado alimenta – e por que não um mistério da própria vida?

O livro de Paulo é mais robusto, mais consistente em histórias. Todo seu passado fora apagado, entre registros de nascimento, registros escolares, fichas de emprego, tudo havia sido apagado de sua vida. Assim, vivia a reconstruir sua vida em outra línguas, outro país, outras texturas femininas. Anna seria esta nova textura existencial, essa tessitura de uma nova roupagem a lhe dar um novo significado. Já o livro de Bárbara revela uma mulher saindo da adolescência – ainda a reconhecer o sentido da dor – e descobrindo a vida pelos braços dos outros; pelos olhos dos outros. A família de outrora deixada no Brasil é substituída pela histórias de seus clientes de faxina: putas; Silvio, um cadeirante velho e gay. Enfim, o novo se refazia nessas vidas por diversas formas, repletas de experiências desconhecidas, que na precariedade inventavam suas vidas novas.

Se eu fechar os olhos agora cai como uma luva, não apenas como um recurso do autor para resgatar o sucesso de seus personagens do seu livro anterior – recolhendo da memória de Paulo a amigo de infância Eduardo – mas, como se fosse um recurso fílmico esse abrir e fechar dos olhos, transportando-nos para a próxima cena. É assim que vamos adentrando a narrativa de Edney; levados por um viés específico no qual os fatos históricos vão compondo também as novas rotinas dos personagens Paulo, Anna, os filhos Edward e Joseph; e Bárbara que nada tem dela senão seu futuro. Paralelamente, o autor vai misturando acontecimentos entre os anos de 1970 até 2001 dentro da teia de seu próprio enredo. O pano de fundo fortalece o sentimento de pertença e de degredo; de lembrança e de recomeço. O término da USSR, as crises econômicas, a guerra do Golfo, o ataque do 11 de setembro, as instituições internacionais, enfim, estes acontecimentos vão se misturando à narrativa de forma inteligente como num thriller psicológico.

Os livros de Paulo e Bárbara vão se adensando, enquanto a história é reclamada nas incertezas da nova ordem mundial tal qual a vida dos próprios personagens, enredadas pela contínua força do passado e a urgência para com o novo. A língua, os espaços, a multidão de estanhos costumes vão fortalecendo a necessidade pela vida, apenas pela vida. Os vínculos são fortalecidos pela insistência do amor, da continuidade – e por que não na busca da felicidade roubada. Edney nos transporta por entre as dores de duas almas perdidas pela falta de terra nativa, dos cheiros e lugares de um Brasil deixado para trás. Cada um de nós tem a vida provisória que precisa ter, enquanto tal podemos dela nos aproveitar para rearranjar nossas histórias. O passado é uma esteira movente que nos carrega para além da dor e da existência. Somos precariamente, provisoriamente, num jogo que a vida possa parecer, levados a acertar os passos que uma nova vida nos impele a continuar.

 

 

 

 

Algumas palavras sobre o livro ERRORRAGIA

“Recebi com alegria o livro Erroragia, de Roberto Muniz Dias, publicado recentemente pela editora Escândalo (Porto Alegre, 2013). Prefaciado por Alexandre Willer Melo, o livro é composto por 170 páginas nas quais estão distribuídos 25 textos. O subtítulo – Contos, crônicas e inseguranças – além de dar pistas xs leitorxs sobre o seu conteúdo, evidencia uma caráter típico da literatura contemporânea: a mistura de gêneros. Essa mistura faz-me pensar em textos, que aqui se mostram como uma categoria genérica de escritos ou daquilo que se dá a ler, o que me permite extrapolar a teoria dos gêneros e da classificação textual pensada de modo tradicional, como o fizeram Aristóteles, Horácio e Longinos em A poética clássica. Contos e crônicas remetem-me a gêneros da narrativa ficcional, ainda que crônicas possam ser históricas e de caráter informativo, mas que figuram entre o que, hoje, chamamos de literatura. Já o termo “inseguranças” me remete não a um gênero, mas à memória, à experiência vivida, à vida, o que acaba por me fazer classificar o livro também como um exemplo de “uma escrita do eu”. Portanto, posso pensar que tenho no mesmo volume textos da linguagem denotativa e da conotativa, da linguagem ficcional e da referencial. Além disso, posso pensar em dois pactos sendo feitos com xs leitorxs: o pacto ficcional e o pacto memorialístico. Essa “escrita do eu”, a princípio, pode me levar também ao biografismo, isto é, ao ato de relacionar as experiências narradas com as experiências vividas pelo autor, neste caso Roberto Muniz Dias. No entanto, sabemos que este eu, desde Artur Rimbaud, é “um outro”, como afirmara o poeta francês em carta endereçada a Georges Isambart, em 13 de maio de 1871. Nela se lê: “Je est un autre. Tant pis pour le bois qui se trouve violon, et nargue aux inconscients, qui ergotent sur ce qu’ils ignorent tout à fait!” [grifo meu]. O papel do eu na literatura deu origem a uma das maiores polêmicas conhecidas nesse campo artístico: a acusação de imoral contra Gustave Flaubert, devido à protagonista de seu romance Madame Bovary. Ao ser perguntado no tribunal quem era a personagem, afirmou o autor: “C’est moi”. Neste caso, o moi, ou seja, o eu não é Flaubert, mas significa que Emma é uma criação dele. A observação de outros elementos do livro me levam a algumas considerações. A capa de Erroragia na qual se vê um rosto retalhado, talvez mutilado para ser mais dramático, mas que se quer ou se pretende juntar para formar um todo possível, o que me faz lembrar das pinturas de Pablo Picasso, e cujas partes são sobrepostas evidenciando apenas uma ou outra parte como, por exemplo, a boca, pintada de vermelho, mas em um tom esmaecido ou mais próximo do ferrugem, me faz pensar nesse eu biográfico e até em um eu autobiográfico, mas imediatamente a mesma construção da capa me remete ao que o livro me parece ser de fato: uma construção de eus. Nestes eus estão inclusive o autor, uma vez que a vida me parece ser a sua matéria de carpintaria, matéria esta que foi trabalhada, cortada, lixada, polida, pregada, pintada, usada e entregue xs leitorxs. As manchas estampadas nas páginas me levam a pensar também nessa construção, que se deu, possívelmente, entre outros fazeres, alguns talvez bem cotidianos, como tomar café (Não sei, de fato, se o Roberto toma café enquanto escreve) ou outras bebidas, cujos copos ele divide com o seu material de trabalho (Confesso que sou curioso para ver o Roberto trabalhando…) e o líquido acaba respingando ou sendo derramado sobre as páginas (Será que o Roberto escreve à mão também?). Além do autor, entre os ditos eus estão também aqueles a quem, através de nomes masculinos, são dedicados os textos. E eles são muitos! Segundo declarações de Roberto, os nomes são de homens que marcaram a vida dele de algum modo. Porém, todos os sobrenomes são mutilados, recortados e resumidos a iniciais. Portanto, esses nomes masculinos mutilados podem ser de um homem específico, mas, ao mesmo tempo, de muitos homens. A identidiade como algo certo e acabada é quebrada, fragmentada. Há, desse modo, um diálogo entre capa, subtítulo e estes nomes masculinos, todos eles feitos de partes, de retalhos, que, se não se encaixam perfeitamente como pares, dão xs leitorxs a oportunidade de participar do rico processo de criação que me pareceu ter o livro. Esse diálogo entre capa, subtítulo e nomes é o que, a meu ver, unifica, ainda que isso pareça um paradoxo, e esse paradoxo talvez seja uma característica da literatura contemporânea, a narrativa de Erroragia. E é no paradoxo que se instala um encontro de tempos, ou como queiram, de temporalidades. Os tempos das descobertas e das decepções amorosas, da dúvida e da abertura para possibilidades, o tempo das palavras, quando nos textos encontramos palavras ou expressões arcaicas ou pouco contemporâneas como “introito”, “lira raivosa”, “assunção de compromissos” por assumir compromissos e tantas outras. Assim, Roberto Muniz Dias exige que xs leitorxs façam deslocamentos, que vão e que venham no tempo-espaço da narrativa, no tempo-espaço da língua portuguesa, que junte pedaços, que junte eus, imagens e talvez que assim se encotrem e produzam também a sua erroragia. Sinceramente, tenho dúvidas de que isso seja possível para xs leitorxs de hoje e não falo de leitorxs especializadxs. Falo de quem, no cotidiano atribulado, ainda para para ler. Não se trata aqui de um apelo para que o autor “facilite” a vida dxs leitorxs, mas que pondere quanto ao fato de que o paradoxo de sua linguagem possa resultar em um descompasso, pois quero, muita e muitas vezes, receber com alegria outros livros de Roberto Muniz Dias. Tenho certeza da força do seu desejo de escrever e da sua escrita. Que a ragia de sua escrita não estanque, mas que isso também não o mate.”

Carlos Eduardo Bezerra
Doutor em Literatura/Professor Visitante na empresa Unilab

Novos Lançamentos

Roberto Muniz Dias lança livro-análise sobre literatura infantil

Novo livro da Editora Escândalo aborda homossexualidade na literatura infantil

PrinFlatM

Livro analisa a literatura infantil

Lidar com a diversidade sexual, sob o ponto de vista da orientação sexual, é matéria obrigatória na sala de aula. Segundo os PCN – parâmetros curriculares nacionais –, os professores do ensino fundamental em conjunto com a administração escolar devem abordar o tema de acordo com referenciais necessários para a abordagem em sala de aula. O tema ainda é um tabu, vez que esta prática é claramente tímida dentro da escola. Infelizmente, não existe ainda uma política centralizadora desses assuntos.

Pesquisando sobre o tema, o escritor Roberto Muniz Dias desenvolveu um trabalho acadêmico voltado à análise de dois livros infantis que chamam atenção por tratar a homossexualidade sob dois temas diferentes: a fantasia  e a biologia. Assim surgiu a obra “O príncipe, o mocinho ou o herói podem ser gays”, lançamento de 2013 da Editora Escândalo.

Ambas as histórias analisadas pelo autor retratam a desconstrução dos parâmetros nos quais a sociedade é fundamentada: um alicerce estático. A sociedade é dinâmica e plural. Ela pode normalmente conviver, respeitosamente, com todos os tipos de orientação sexual. O interessante é observar que os assuntos são abordados de forma espontânea. Constata-se, portanto, que a questão é mais cultural do que qualquer outra perspectiva.

Sobre esse assunto existe pouca literatura. Mas Roberto Muniz Dias traz à tona o tema de forma clara, abordando a análise do discurso embutido nessa Literatura Infantil Gay.

http://www.editoraescandalo.com

(Fonte: http://mixbrasil.uol.com.br/cultura-gls/lancamentos/roberto-muniz-dias-lanca-livro-analise-sobre-literatura-infantil.html)

Difícil dar um título.

Retiro as roupas da mala. É um sinal de que vou arrumá-la novamente. E novamente uma nova viagem de volta. Os novos livros roubados do irmão, levados numa sacola que logo fica cheia – mais um indício de retorno.

Ideias se revoltam na cabeça na procura de um cansaço no papel. Invento as pessoas para caber na estória e um novo livro vem à mente. Tudo culpa da experiência. As exigências de fora e de um novo escritor interno – que está adormecido por tantos pensamentos, ou seriam pesadelos?

(…)

Mamãe segue uma rotina. As coisas não podem sair do lugar.  Não posso intervir no sentido das coisas por temer em tirar-lhe o sentido de tudo. Continuo passivelmente observando sua luta diária e manual. Tento me culpar, mas não há culpa se não há crime. Continuo a apreciar o quanto uma heroína não precisa de guerras.

Memórias são inescapáveis. Não consigo colocá-las num entulho sem significado, nem queimá-las como os antigos papeis amarelos. Queimar seria um crime. (…) O quarto continua o mesmo, com seus quadros vivos e suas paredes sorrindo em velhas rachaduras.

(…)

O poeta se senta entre os outros, mas a velhice já lhe é pesada. Misturo-me para parecer culto, para reforçar as leituras, e a voz sai embargada cheia de insegurança Mas grita  lá dentro a alma de um artista que precisa do tempo.

(…)

Está quase tudo pronto: uma roupa sobre a outra. Tudo parece ordenado, pois tudo precisa de uma certa sequencia, uma continuidade. Devo partir para cumprir uma ordem que nunca fora minha, a certeza das coisas está sempre na voz dos mais velhos. Por esta razão, sinto-me preso ao passado, já não sei se tenho mais futuro. O presente ainda alegra.

À noite uma música revela em sua letra a verdade do momento. O que nos unem além da amizade, são as histórias de nossos amores; nossas paixões. Se há um silêncio é para uma pausa para os olhares e sorrisos. E a continuidade das vidas se faz do desembaraço daqueles nós de amizade. Logo logo a vida volta pra ordem.

(…)

Minha mãe quer segurar a mala, quer segurar o choro, mas é impossível suportar a tensão, a atuação. Debulha-se num choro que parece de longa despedida. O velho jovem escritor se emociona em mim. A história está pronta para contar a verdade pela ficção que me tormenta. O livro está pronto na cabeça, mas a cabeça não está pronta para mais uma despedida.

Um antigo destino que parece ser o último, um porto seguro. Braços ansiosos esperam pelo escritor cheio de histórias, livros novos. As lembranças serão revividas. Uma lágrima ou duas revelaram a verdade. A continuidade da vida se dará no esquecimento do que ficou no vazio da bagagem que ficou de onde veio. Um vazio se agiganta para que na próxima ida tudo volte carregado de memórias. E essa é a continuidade da vida; uma certa ordem para o caos; uma certa alegria guardada como antídoto para a tristeza.

Luz nas Trevas – A volta do Bandido da Luz Vermelha

Ainda não sei dar uma descrição que, realmente, quero fazer sobre o filme de “Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. O filme é dirigido por Helena Ignez e Ícaro Martins, é a continuação do “Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla, e narra a trajetória do filho do bandido, o criminoso Tudo-ou-nada, na cidade de São Paulo.

Ney Matogrosso, enclausurado em uma cela, realiza um pequeno show teatral em sua performance no filme. Do que me recordo dos registros do Bandido da Luz Vermelha, a voz doce de Ney parece ser adequada ao papel; a figura física talvez não. Em seus últimos dias de reclusão, o Bandido da Luz Vermelha atingiu um ar de intelectualidade que é permitido somente para aqueles que entendem a amargura da prisão.

Um ar de decadência elevada à categoria de um mito, torna o Bandido um certo arauto de uma classe abandonada pelo seu próprio destino. Repleto de citações filosóficas, o filme beira um libelo contra a corrupção da alma e os valores humanos. Isolado do mundo, criando o seu próprio – com a intervenção da poesia propositada em todo o filme – Ney vai construindo uma imagem quase sólida de um Rimbaud aprisionado; ou de um Kafka alado. Ainda, a esta altura não sei dizer se estava ou não gostando do filme.

A reconstrução dos passos do filho do bandido da Luz Vermelha, Tudo ou Nada, nos confronta com questões deterministas, de uma herança maldita, que parece mais um romance naturalista repaginado pela tensão dos diálogos quase surreais entre os personagens; as cenas a meia luz de uma notívaga São Paulo irrefreável. Parece que, ao longo do filme, tudo é criado com tom caricato, tragicômico, mas com uma aguda crítica as figuras sociais. O Bandido da Luz Vermelha é vitimizado, enquanto a Sociedade, lá fora da prisão, parece mais corrompida e estragada do que os degredados dela mesma.

Há um resgate, não sei se proposital, da pornochanchada. A mulher é usada no seu mais vil mister, sendo sempre objeto nas mãos do homem, seja ele liberto ou prisioneiro de si. A única que parece se desvencilhar desse final é a namorada de Tudo-ou-Nada.  A prostituição não a torna fraca, ao contrário, catapulta sua imagem a uma figura quase helênica. De resto, as outras mulheres parecem fracas e sexualmente diabólicas. Pode ser, como disse, tudo uma construção eivada de uma crítica social subliminar ou descarada. Até agora, tudo parece uma invenção exasperada da vida urbana. A falta de retidão nas pessoas parece ser o fio condutor de cada vida humana.

Voltemos ao Ney, pois parece que o filme foi feito para ele.

Tento gostar da sua atuação tanto quanto gosto dele num palco. Fico em desconforto na poltrona do cinema, idealizo seu desempenho na tentativa de o cineasta sugar de Ney aquela entrega que ele faz em seus shows. Mas parece que Ney se assusta algumas vezes. Ou o grande Ney assusta a intervenção do cineasta. A atuação parece um desabafo, uma leitura dramática da vida do Bandido elevado a uma espécie de intelectual/marginal criado pela opressão. Todos nós temos frases fortes para declamar. Todos nós nos sentimos presos por alguma dor, uma solidão, um destino incerto…Ney fuma, mas parece também que aquilo, aquela terceira pessoa esfumaçada é-lhe estranha e contrário a sua entrega ao papel. Ele se perde, encontra-se, mas, no final, não parece se convencer de que atua.

No final Ney Matogrosso – como me encantei e aprendi a vê-lo, ainda acho que ele seja um diamante a ser lapidado como ator –  aparece cantando.

 

Vou fugir, resistir, amar e escrever

Vou fugir

Para bem longe de mim mesmo

Mas não quero me despedir

Olho para o vulto que se distancia no fundo distante do espelho

 

Vou resistir

A este olhar teu, cansado de não entender

Mas não quero lutar, bater… apanhar.

Parado fico esperando o primeiro movimento.

 

Vou chorar! De novo?

Apiedo-me de minha  condição solitária

Mas não quero caminhar sozinho pela estrada de tijolos sei-lá-do-quê

Olho para frente, um impulso natural.

 

Vou amar

À maneira mais simples e mais comesinha

Mas não vou deixar de exacerbar e dormir de conchinha

Deito-me sempre a mesma hora; essência vermelhas impregnam meu sonho

 

Vou escrever

Essas últimas linhas sobre amores antigos

Mas não vou deixar tudo em branco

Restam pétalas secas de uma rosa vermelha

Por vários abraços

Texto inspirado despropositadamente e magicamente inspirado em Giselle Jacques:

http://mentecatartica.blogspot.com.br/2012/03/por-um-abraco.html

Às vezes o medo vem como forma de carinho. Aproxima-se, afaga, diz-se amigo. Enquanto isso, vou caindo no seu jogo de sedução, embora saiba que é puro interesse. Medo não pode combinar como algo benfeitor. Ou pode?

Sigo acreditando no amor, sobretudo naquele que eu inventei. Mas ainda claudico nessas assunções que faço sobre o meu gostar. Hesito muitas vezes entre o que é fiel e o que errado. Destaco minha insegurança para com o tempo. Os amigos estão indo. E o que resta é a salvação ainda naquilo que me sustenta.

Preciso de um tempo para mim mesmo, como se brincasse de brincar comigo mesmo. Parar para pensar no futuro, não como meta, mas como certeza. Ainda tenho a Literatura como foco. Resta-me poucos dias porque o mestrado termina este ano. E este ano termina os prazos estabelecidos no início do ano.

Tem muita coisa ainda, especialmente aquelas que não sei. E que quando surgem, aparecem nas mais diversas e insólitas formas. Talvez aqui resida um certo sentido para uma normalidade que sempre queremos cumprir.

De novo preciso explicitar que não é tristeza, é fase. E como tal passa como no vídeo-game. Mas minhas vidas são gastas a cada adeus, a cada beijo e a cada palavra que escrevo. Espero ter muitas vidas e superar essas fases com bônus, para poder gastar pelo resto de tempo que me resta.

Desnecessário dizer que este espaço aqui é meu sustentáculo para essas manifestações. Sempre que escrevo ganho 10 pontos no jogo da vida. E continuo a escrever como se pudesse viver várias vidas. Até que um dia encontrarei a minha definitiva.

Diário de Bordo: Encontro com gente de verdade!

Foi cansativo. Foi mágico. Como podem estas sensações se encontrarem tão proximamente?

Mas é assim que me sinto, ao mesmo tempo que me encontro cansado fisicamente,  a alma se preenche de uma energia quase alucinógena; insólita; nunca vivida antes.

Antes era aperto no peito, nervosismo. Encarar pessoas como elas são é sempre um exercício de aprendizagem, como se desse a mão a palmatória ou se levantássemos para aplaudir. Eu ficava sempre confuso. Mas sempre atento a cada palavra, a cada discurso. O ser humano é mesmo um mundo a parte. Cada um com seu universo e panteão de intrinsicalidades. É sempre novo, revigorador como água límpida; como chuva vivificadora. Queria o brilho de todos os olhos que encarei esses dias; toda a luz do sol da cidade maravilhosa e extirpar  dolorosamente toda essa saudade que me toma agora.

Como esquecer-me desses encontros?

Como me desvencilhar( não amar) desse pequeno grande gênio?

A experiência dessa vez se revestiu de uma transcendência que copia o destino do espelho. Estou na frente, estou nos bastidores. Sou ator, autor, sou o que está por detrás que se vislumbra com o protagonista. Que experiência rica! Estar perto de mentes que falam com entusiasmo – aquele raro brilho no olhar – isto tudo me fez repensar minha condição de tudo ser ainda pequeno diante da magnitude dessas pessoas.

Mas me regozijo quando encontro alguém que entende meu discurso, que minha militância tem algo de escopo, de alcance. As almas se entendem nesse vagar, nessa colheita que deve ser de frutos maduros. As sementes são espalhadas. Nos entendemos quando dizemos que sim, sim, existe uma veia literária nossa; existem vozes de um coro sinfônico. Mas mesmo que não haja concordância, temos a certeza de que estamos ainda juntos. Um corte transversal apenas nos distancia não nos torna díspares.

Apenas começamos. É um começo tudo isso. O brinde é antecipatório e de sucesso. Estamos seguros. Sou cineasta de minha filosofia, carregando um tripé nas costas e a ideia de que estamos construindo algo novo, algo nosso, algo pro mundo. Estamos devolvendo letras nosso amor pelo que acreditamos.

Falo em primeira pessoa dos meus dramas e repito os dramas alheios. É um sempre continuar. Sempre sonhando com o próximo passo e acreditando que o projeto do ser-humano ainda pode dar certo.

A magia continua nos meus olhos, na lembrança do passado, nas coincidências e nos percalços. Tudo me enche de energia que impulsiona pra frente.

E com foi bom viver mais esses dias rodeados de seres humanos; de colossos angelicais.

E o sonho sempre nos reaviva a alma.

Autoanálise

            Estou aqui fiel ao computador; ou melhor, ao reflexo do visor do computador. Nele vou começar a implicar comigo mesmo, começando a me perguntar se sou normal. Dizem que sim; e por mais que saiba que essas coisas mexem conosco, relembrei-me uma passagem de minha vida na qual aprendi algumas mensagens sobre autoestima. Algumas delas retratam que a personalidade deve ser demonstrada naturalmente, infligida mesmo quando da necessidade da mentira.

            Bem, personalidade tem a ver com caráter; algo próprio da pessoa. Decerto há as personalidades de caráter conturbado, de conflituoso embate pessoal, de depressão, de instinto criminal. Há aquelas, também, conturbadas com experiências traumáticas e experiências infelizes. Mas no fundo, permanece no criminoso, no maníaco depressivo, no frustrado emocional algum resquício de sanidade mental que o liga ao mundo atual, mesmo num último momento. Esse laço psico-temporal mantém implicações com as manifestações correntes. Esse liame com a natureza humana obriga-o a dirimir atitudes violentas, atos mais danosos; bem como o faz desistir de um crime, por exemplo, tentando o desfazer. O arrependimento surge como uma força maior; um arrebatamento da personalidade intrínseca do ser humano no reconhecimento da sua personalidade pretérita, incorporando sua verdadeira persona. Então fica em nossa memória o registro do exagero, do bizarro e do possível conserto. É assim que funciona a cabeça quando o travesseiro é esse elo psico-temporal. Aí, me pergunto: quem nunca teve sua personalidade extrapolada por não se deixar senhor do momento? Muitos vão marcar sim nesse quadrado: 

            Meu reflexo na tela espelhada do micro insiste em perguntar enquanto escrevo: “– Você é ciumento?” Dia desses, outro consorte, num outro momento passado de minha vida, deu-me como presente um pequeno livro sobre ciúmes. O presente me pegou de arroubo; um sentimento interno de descontrole invadiu-me, causando certo rubor em minha face.

             No entanto, às vezes, temos que agir como se fôssemos normais e reagir como se tudo fosse uma brincadeira. Encarei o desafio – agora me lembro de outro ensinamento sobre autoestima: sempre ouvir acerca de nossos defeitos –; pus-me a ler o pequeno manual. Lá, em pequenas e breves palavras o livro resumia seu pensamento em se fazer tudo com moderação, o famigerado meio-termo.

          Então, pus-me a perguntar como amar em conta-gotas…? Ela, a autora, não falava. A partir de então, deixei meu amor desacorrentado, livre de minhas intolerâncias, meus medos… Enfim tudo que de ruim havia em minha forma de amar. Segui a cartilha do amor sem ciúmes do pequeno livro que ganhei. No final de uma longa relação sem preocupações e usando do amor que liberta – segundo o livreto de como viver que ganhei – acabei despertando em meu consorte o desejo de conhecer outras pessoas, a aventura do amor libertário. O amor libertário no qual o compromisso se encontra na clandestinidade; na discrição das paredes do quarto; no comedimento das palavras sutis; no simples fato da existência, entre outras cousas menos relevantes. Ainda assim a primeira pergunta subsiste – insiste o reflexo.

            Respondo ao meu inoportuno amigo com um exemplo rasteiro como forma de garantir uma percepção clara de minha objetividade. Você não empresta uma peça intima de seu vestuário não simplesmente por causa de higiene, sim por causa de um cuidado extremo das coisas que são suas. Walt Whitman dava seus melhores livros para seus amigos, mas aí subsista um senso de compartilhar conhecimento. Existem pessoas que emprestam as coisas (livros, discos, calcinhas, cuecas, cd’s… namorados) com muitas reservas, por quê? Onde fica o amor libertário da fulana psicóloga?Apenas para não dizer que sou muito louco, admito meu pouco desconhecimento sobre meu lado mediúnico, que me leva ao ponto máximo da projeção astral e quem me conduz ao estado alfa das coisas para confessar que não sou ciumento. Quem não for Buda tampouco seguidor ferrenho de sua filosofia que marque com um “X” nesse quadrado:   

             Prossigo na minha autoanálise. Sei de meus defeitos d’alma, mas quem não os tem. Todos nós somos diferentes. Hoje em dia, proclama-se tanto a favor do respeito às diferenças. José Ângelo Gaiarsa já mencionara em seus estudos – quando escrevia sobre amor – esse aspecto de querermos as coisas como queremos e não admitimos a natureza explicita de cada ser humano. De fato queremos sempre ser Proclusto; com nossa mesa medidora de nossos anseios personificados na pessoa amada.

               Aprendi – digo isto olhando para o reflexo desafiador – que se aprende com a Vida. Quando se é velho e se admite a experiência da vida, há dois tipos de pessoas: a primeira coleciona rugas de tanto arrependimento por viver de forma adestrada; a segunda, em que pese às rugas, vive sempre contando causos da vida, de sua vida. Esta vivida com todos os sabores e dissabores que ela promovia, tentando apenas viver. Quem quiser ser a segunda pessoa, por favor, marque.

            Curtas palavras de autoestima enchem suas gavetas e você não sabe o que fazer com todas elas. À vezes bota no bolso; outras tantas guardam nos bolsos dos outros. Esquece-se de por em prática um arsenal de impropérios que te dizem o que é certo e errado. Mas internamente sua conduta assumida é certa e guia se tornando dono de seus próprios erros e acertos. A vida continua e os méritos de algumas conquistas são celebrados de forma pomposa. Mas as quedas são inevitáveis; essas barreiras que nos tornam mais seres humanos; pensam ser necessária, mas são apenas provas medíocres.

            A vida não deveria ter caminhos, mas possibilidades de ver sempre novos caminhos.

Último solilóquio

Sim, há uma linha tênue entre o amor e ódio. Estou me equilibrando nela. Mas ainda não caí. Segurei até que pudesse atravessar para o outro lado. Sim, “estamos na sarjeta, mas olhamos para as estrelas”, de certa forma estamos lá, mas o que interessa é a felicidade. Não, não vou ficar sozinho como posso ter sido convencido. Vivi uma experiência rica. Rica de erros e acertos que me puseram a pensar no valor da Liberdade – não confundam, incautos, com libertinagem – fato que me torna mais reticente a alguns conceitos. Sim, tudo pode mudar até mesmo pelo valor que damos às convenções. Não há nada mais fixo. Nem mesmo o amor. O amor precisa ser renovado, não se comporta nesse modelo de assunção de verdades. Sim, olho com mais calma agora para o passado. Sei o que é fazer e deixar de fazer, coisas que estão ligadas a um processo deliberativo de responsabilidade. Nada mais.

Sim, respeito e confiança merecem tempo. Não, não sou uma pessoa confiável de começo. Preciso saber onde estou e para onde vou no barco dos outros. E sim, tem luz no final do túnel, sempre. Basta passar o limpa vidros da desconfiança, usando o escudo da não-imersão-total; basta segurar com firmeza o freio-de-mão do carro. E sim, deixe-se soltar com o tempo. O tempo. Sim, ates meu inimigo. Mas hoje sei lidar com ele, como se fosse a pedra de Sísifo. Encaro o desafio todo dia.

Sim, parece que me tomo por um ar diferente que me envolve. Sim, isso! Mais dono de mim, mais senhor de decisões próximas. Não, não estou amargurado, como querem muitos. Estou apenas um pouco mais malicioso, mais experiente!

Dindinha!

O chão batido; uma poeira leve e deliciosa nos sujava de alegria. Para matar a sede o pote cheio de água decantada – ou seria encantada? Tinha a concha e o copo de alumínio. Eu na rua brincando de ser gente, brincando com meus irmãos, vivendo a melhor das férias: a casa da dindinha!

Nos fundos, para limpar a alma, o chuveiro de lata furadinha. A água caía solta como se quisesse me pegar de todos os lados. Não abria os olhos. Era o melhor chuveiro do mundo. De tão alto percebia que o mundo poderia ser assim, de prazeres simples e de alturas indescritíveis.

Do alto me lembro da sua alteza. Ela a gritar comigo – menino de cabelos loiros –; um mimo, o do meio, o queridinho, o diferente! Eu sentia que podia ser diferente. Tudo era diferente naquele pedaço de casa, de rua e de quintal. Afinal quando se é criança a permissão soa como liberdade.

E a dindinha ficava com as mãos nos quartos – as duas – a observar meu comportamento. Ficava olhando, perdia o olhar às vezes e eu nem me tocava de que aquilo tudo: preocupação e zelo misturavam-se ao amor. Amor de mães duas vezes.

Mamãe se desfazia ligeiramente de ser mãe, Dindinha ficava a fazer às vezes. “Tem que comer o que está na mesa!” E não era braveza, era delicadeza. Não dava para sentir a tristeza, vez que depois de todo protocolo à mesa, fazíamos tudo de novo…

…poeira, rua, as atenções de minha querida Dindinha!

História de amor

Infelizmente o tempo que me restou de teu viço é o presente. Não me importa mais teu passado; tuas fotos amarelas. O que temos hoje é ainda o tempo não vivido. Basta-nos isso!

Mas ao contemplar teu rosto ainda novo com o olhar perdido numa visão que não era a minha ainda, faz-me pensar na condição do se. E se o hoje fosse a mim permitido viver aquele teu passado, como seria nossa história?

O  tempo soubera roubar minha juventude mal aproveitada. Passos longos dei em direção ao nada, a ermo; sem sequer saber que poderíamos andar juntos. Caminhar numa mesma história construída.

Queria registrar os diálogos mais densos; a disposição mais espontânea para as coisas mais simples; queria o período longo de um breve piquenique; o abraço eterno como uma brisa; o calor das mãos por entre os cabelos, desvelando algo por vir. Enfim, queria algo menos superficial; algo mais duradouro!

Mas não quero nada amarrado a uma corrente, como se de mim dependesse tudo isso. Quero algo leve e tranquilo – se eu também permitisse; alguma coisa entre o ter e o querer –, mas ainda assim não saberia como realmente o almejo. Pode ser simples, embora tudo se complique pra mim.

Eu ainda quero as fotos. As fotos do teu passado e usar do photoshop para me colocar naquele teu momento. Criar por pura fantasia um momento do passado seu e meu, como se fôssemos ligeiramente prometidos um ao outro. Queria aquele porta-retrato lá na cabeceira da cama. Nós dois todos os dias!

E parar de pensar que tudo que está por vir fica apenas na minha fantasia!

A minha mãe, ao meu irmão, a minha irmã, ao meu pai, aos meus amores e aos meus amigos!

Essência

Tantas vezes falei que não me trairia; tantas vezes ouvi Amy se condoendo de sua incapacidade. Somos todos maus às vezes.

Internalizei uma culpa gigantesca de não considerar as possibilidades como realidades. Temos tanto pouco tempo. Eu sou pessoa jurídica agora e que dialoga diariamente com o cara da minha própria foto. Não se trata de reflexos, mas de outras imagens. Tantas vezes falei que não me esconderia.

Acordo de um sonho e tenho a certeza de que não somos eternos. As palavras servem para os outros. De que me adianta esse pergaminho que apenas eu contemplo?

Ouço uma música até a exaustão. Frases como um estranho numa sala; tenho sido negligente com meu amor parecem atestar outras tantas verdades que deixamos de viver por medo. A vida pode continuar por outro meio, mas eu não queria a poesia póstuma como alento.

Caio numa pesquisa. Perco-me tentando entender o que os outros disseram, e tenho que continuar dizendo a mim mesmo que não terminei ainda. Continuo o passo enquanto os carros se aproximam e se distanciam como se fosse a real definição da vida. A música de ontem já não toca com sua intensidade. Descubro o novo – uma invenção da lembrança para não escapar do passado. O passo com o tempo fica firme, mas claudica na tentativa do acerto.

Não querem deixar que eu seja eu, outra pessoa se impõe – o estranho no quarto, que a música fala. Por que tanta preocupação com o tempo? Por que a medida da imortalidade para nos dar o preço das coisas? E continuo me enganando com minhas poesias!

E tanto me aproximo como me alongo na imagem autointitulada eu. Quando erro, quem sou eu? Existe erro pequeno? E se sim, pode ele se equipara à rejeição? Somos tidos como humanos e se errar é prerrogativa do ser, por que continuo me perguntando tanto? E o reflexo do outro lado pergunta outras tantas coisas que parece melhor desistir da perfeição por um instante!

Não foi a culpa que me esculpiu o medo da educação. Descobri que foi a falta de responsabilidade a que me atribuíram por, claro, ter construído um caminho próprio, longe da margem, tortuoso, cheio de provas. A irresponsabilidade se confunde com o tempo perdido sem esmero. Pra tudo. E isso me ocupa as horas não dormidas e as palavras desferidas. Até quando?

Ligo a televisão para não me sentir sozinho. Mas sei que isso também é uma escolha! Falo muito de amor, saudade, medo, ansiedade com um tom quixotesco que beira o abismo. Mas sei bem que essas coisas me são caras e passageiras. O que não falo é que as outras coisas por serem mais raras são mais vividas com intensidade, como felicidade, sorriso, chuva, sabor de saliva, as cores das palavras, o som das almas e o gosto do beijo.

Não me tenham por poeta da dor. É mentira em essência!

 

ERRO

Novamente os erros. Os erros meus e os erros dos outros. Como desvencilhá-los?

Se reconheço meu erro sou errado – este é o argumento. Se os outros erram eu estou por cima – uma razão minha. Então, erro por me aceitar sem defeitos, coisa que sabemos todos serem passíveis.

Erros! Como lidar com eles? Ou como se livrar deles?

Bem, mais uma vez falo pela boca da experiência. Boca cerrada, nem sempre repleta da real faculdade de suas atribuições. Morremos por ela, já dizia o brocardo!

Os deuses erram. Por que erramos demasiadamente?

Mas o que é o erro senão algo corolário da culpa; uma espécie infame do erro. A culpa por ter feito o que não é próprio ou certo, adequado… Mas quando erramos, erramos.  É um fato inescapável.

E o que se segue ao erro? A assunção da culpa, a autoflagelação; ou a negação incontinenti; talvez uma permanente ignorância do erro se perpetuando por gerações como maldição – algo mais surreal, mas não menos irrealizável do que as alternativas.

Mas o erro é uma imagem do acerto, longinquamente situado no lado contrário. Uma visão não menos maniqueísta, de um roteiro elaborado em que o protagonista, até a última cena, dispõe-se a salvar a princesa. De repente, ele é o dragão! Roteiro ao revés.

Será que o erro guarda em si uma jaula externamente repleta de qualidades, onde feras não se digladiam?

O que é o erro senão feras cheias de razão, disputando suas verdades!

Trinta e um de dezembro/ primeiro de janeiro

Imprecisas são as palavras do início; sempre um pouco perdidas numa condição única.

Quando pensamos na tentativa de se olhar o por dentro das coisas, entramos numa crescente dinâmica do nada.

Que tudo permanece numa loucura imanente como se fosse a própria natureza de uma mente vazia. Tudo parece um pouco ligeiramente fechado.

A perspectiva de mudança opera nos sentidos numa constante rotina de se tido imaginar.

Embora tudo se perda, algo se salva incomunicável, na esperança de realização. Esta se perpetua nas linhas esquecidas do tempo (simbologia). Eu preciso de mudanças e uma nova história. Por onde começar?

Está longa a estrada. Todo início parece algo infindável; algo interminável

A nova história é sempre um pouco sem começo.

Estou tentando começar.

 

HOMOSSILÁBICAS – Seleta de Escritores LGBT

Primeiro Livro da Escândalo Chega ao Mercado

 

Homossilábicas (Foto: Divulgação)Homossilábicas (Foto: Divulgação)

Nasce o primeiro rebento da Editora Escândalo! O livro batizado de “Homossilábicas” traz uma seletíssima equipe de contistas, recheando as 146 páginas da obra com os mais diversos estilos e linguagens.

Como as palavras homossilábicas da gramática da língua portuguesa, que compartilham entre si o mesmo número de sílabas, as palavras do livro Homossilábicas compartilham a mesma temática, exclusivamente LGBT, seguindo à risca a proposta da Escândalo.

Dentre os nomes famosos da coletânea estão Moa Sipriano, Marli Porto e Roberto Muniz Dias. As 12 histórias apresentadas no livro abrangem desde o aspecto mais intimista até o surrealismo insólito, passando por alguns momentos quentes, numa explosão de criatividade e sensibilidade dos autores.

“Estou honrada e orgulhosa por poder trabalhar com tão sublimes autores. E mais ainda por poder dar forma, dar vida a este livro, que era um sonho antigo que eu tinha. Posso dizer que esse é nosso primeiro filho!” diz Giselle Jacques, editora da Escândalo.

A apresentação do livro é assinada pelo badalado escritor Kadu Lago e traz o seguinte trecho:
“Homossilábicas é uma palavra inventada para dar voz a essas letras por vezes tão marginais, por tanto tempo tão caladas (…) Aproximando celebridades e estreantes, este livro vem dar forma, vem dar cara, vem dar a cara à tapa. Vem mostrar que a boa literatura transcende rótulos!”

Conheça mais do livro Homossilábicas e saiba como adquirir o seu no site da Editora Escândalo:www.editoraescandalo.com.

Um pensar caótico

Se tudo pudesse vir a se mais do que o porvir, teria eu alguma certeza além desta da morte, – é pequena diante da vida -; que tenho de autenticamente meu? Minha escrita? Minha verdade? O que é o futuro diante de uma perspectiva decadente do ser?

Eu sou mais do que o além o póstumo, do que realmente posso ser agora. Somente no pó, na poeira é que a essência é vista. Na matéria própria somente existe a matéria insípida que se autoinventa a todo o momento.

Eu sou a matéria de mim, presa à própria excrescência de um estado anormal, perambulando pelas coisas que existem imutáveis. A única coisa que existe é o tempo presente, a inscritura de uma lápide. Meio catastrófica minha visão de futuro, não é?

Nada parece uma resolução melhor do que um ócio elegante e emergentemente absurdo, nem para o viver, nem para a morte. O nada pode parecer simples como dormir em tempo de descanso, parece ser mais do que um paliativo para a vida.

Então, o que resta depois da espera? Se não for o isso de agora: não é sensação de ontem, tampouco alvíssaras do amanhã. É tudo um pouco de nada e absurdo. Hoje tudo parece um pouco fragmentadamente vazio.

Janaína Dutra – A lady of Iron

Director: Vagner De Almeida

Produçtion: GRAB – Grupo de Resistência Asa Branca

Time: 50 minutos

Colr (NTSC) – Estereo – DVD

Video Digital

Brasil – 2011

“They taught us to carry the flag of the penis in front of us

They taught us to carry behind an asshole as an armor

They taught us, therefore, to carry half life in front and half life behind

They taught us everything wrong.”

(Glauco Mattoso)

The sertão* drowns itself with the raining; the dryness turns into music; the vision drowns itself in the possibility of life, freedom. The raining invades the dry soil and gives to the sprout: Jaime a rosebud named Janaína. A twisted angel hurried to dress up herself like a boy. In the hurry, in the confusion of her mission, they pushed so soon his coming and his passing away. Death and life present in a complex set among victories and withdraws. Starting by Janaína’s death to maintain the protesting flag of life. From the dried interior soil, passing through the world back to the interior again; this is the journey of Janaína Dutra –A lady of Iron, film of Vagner de Almeida.

The documentary doesn’t make any mistake. The camera seems to confuse itself with the spectator’s eyes; they seem to be side to side or even to face the sincere closest speeches. It seems that we are seated beside her mother: grounded, proud, near the memorable photographs of his son; as she told him to be the son whom she was mostly proud of. And it couldn’t be different. Ceará, Canindé, Brazil instances which by themselves would define the fate of a little boy that liked to play with high heel shoes. He, there would be still the remaining sexism that put him in this between-place, in this way, yet to be trailed to the gender that didn’t chose to walk in, due to the infamous correct clothing. But Janaína went beyond the dried soil and the richness of the dried homeland that could provide. In the very case of Janaína, the richness came from the family’s friendly core and from the dryness came the World outside, the city of rocks, the Fortress.

It’s hard to put myself out of this text, without borrowing the free subjective indirect perspective of Vagner’s direction and try to – see us like northeasters – see in each situation, in each suffered face, in each speech immensely proud. Vagner knew with poetry to get the moments in which the poetry itself drifted from the cast of Janaina’s life plot. Each word seemed to be a rehearsal, for it was so perfect how they manifested the care, friendship and respect for this activist.

Janaína hold with strength the trophy with proud, being the unique, at her time, the first transvestite to register in the OAB (Lawyers Syndicate in Brazil) acting as an altruist lawyer – forgive-me by the manliness of the Portuguese language, I’m gonna use the female gender from now on – and a fighter for the Transvestites’cause. A kind of Messiah with a cane to teach her people, the Others. The Knowledge as a key to freedom. A door trough which she changed into proud, from which she could get in and out as a citizen, without being a prostitute, knowing that this way – chosen for most of her friends – would be the choice of many. But she was aware that this couldn’t be the only one.

Her fight embodied not only the fight for the transvestites, but reached the claims of the human rights, being victim and protagonist of her own ideology. She was arrested, but soon set herself free as she was playing the hide and seek game; or as she could protest for the arbitrarinesses of the heterosexual world. I ask myself: who was not willing to the world? Who was the victim? These are some questions to be solved before and after watching the film.

She fought against her own fate, but she was involved in collaboration to the Health Minister in the process of the first HIV campaign for prevention of the disease among transvestites; she took part of lots of events that promoted learning about the public policies, and many other activities of her ideology and of her own body.

The hurry for getting dressed the dress brought the fast discourse, the fast demanding for the ticket of her life. The best part of this documentary is to make possible to register her discourse when she was still alive in strength, voice, body and courage of the protagonist-character of many other histories. Watch this film documented and retold by her family and parents is more than a regular register. The director knew how to sew every possible stitching of her life, sewing up a magic chita**, revealing all the legacy left form this transvestite who had a name.

It is impossible not to follow the crying of each interviewed at the end of the movie. The crying seems to be a single one that rocks the final sound track. Maria Bethânia transforms and gives sense to the poetry and life to whom fought for a cause without trembling a single moment. Nothing could restrain Janaína. Maybe her literacy set her free and encapsulated her at the same time, but the fact is that being what se was enabled us to free us than to chain her.

A masterpiece worth a prize***

* the typical dried soil of some reggions of the northeast of Brazil.

**chita is a kind of a regional type of clothing

** *5º For Rainbow Cinema Festival of Culture and Diversity, to the movie picture.

The Association of the São Paulo Proud Parade – 11º Prize “Citizenship and Respect to the Diversity- Best documentary and also for the history of gay activism of the director.

Roberto Muniz Dias

Wrote Adeus a Aleto by Escandalo Editor, is permanent columnist of the http://www.gay1.com.br website and signs up the blog htt://noposthumousparty.wordpress.com

A pele que habito

A pele que habito ‏

 

Não sei se falo de recortes, de introspecção, de obsessão, de transexualismo ou de vaginoplastia…
Não sei como começar essa resenha sobre o novo filme de Almdóvar, A pele que habito. Mas sei que o filme é surpreendente. RoteiroSempre trazendo um artista com um charme notável na arte de interpretar.
Fiquei a pensar como seria mudar 180 graus em minha vida. Mudar meu interior. Acho que metalinguisticamente o filme fala sobre essa necessidade, em um ponto de nossa vida, de mudar, mesmo que por intervenção de terceiros – talvez vocês entendam ao final do filme ou a ler este texto.
Antônio Bandeiras retorna ao posto de galã. O tempo fora-lhe justo ainda mostrando certa, agora, a elegância de seus cabelos ligeiramente grisalhos. Mas este elemento ganha vida e realça os tons de psicopatia que Almodóvar quis lhe dar. Deu certo. A obsessão caiu-lhe como um delicioso segredo.
Segredo é o fio condutor deste filme tão inteligentemente costurado. As peças parecem retalhos soltos, nem precisa dizer que lá na frente vão se constituir o tecido de idéias e teses suscitadas no início.
O filme não é linear. Transporta-nos no tempo, como se fossemos verdadeiramente costurando as histórias do passado e presente.
Bem, não costumo narrar a história, mas dar certa ordem é interessante para entender o desalinhavar dessa costura.
Antônio Bandeiras é Robert um respeitado – não se descarta a déia de ser excêntrico – cirurgião plástico que anuncia sua descoberta. Uma pele, construída em laboratório, que se adapta à pele humana e se transforma numa pele mais resistente. Desnecessário dizer que é uma pele que não enruga. Chama-se Gal – mais tarde descobre-se que Gal era a última esposa dele.

Procurando a linearidade das coisas, entra em cena a moça cativa do médico, que não precisa muito para entender que se trata de um sequestro vez que não é espontânea sua estada por lá. Esta moça veste uma roupa especial que cobre todo seu corpo, uma segunda pele. Passa o dia a escrever em paredes, costurar retalhos em bonecos e praticar yoga.
O doutor Robert a mantém presa e, apesar de ter um controle monitorado por ele e por uma senhora cuidadora, uma espécie de enfermeira, ele adentra o quarto, sempre trancado sem muita resistência por parte da moça. Percebemos que a relação de cativeiro criou laços mais fortes do que a de um paciente e médico.
Admiração e atração encenavam uma ligeira aproximação entre criador e criatura. Seria uma versão moderna de Mery Shelley – O Frankstein? Pensei nisso agora. Deve have uma relação porque no final a condição quase sub-humana do cativo em que sempre aflora um ódio interno mortífero.

Bem, continuando com a história. Então o filme dá indicativos de que esta senhora – que é o grande trunfo de Almodóvar – tem um certo desafeto por essa paciente. Ficamos sabendo disso quando seu filho, vestido com roupas de carnaval, travestido de uma onça ou leopardo, entra na mansão. Dá-se entender que este filho fora criado numa favela, fala um portunhol o que nos leva a crer que tenha nascido no Brasil. Mas em pouco tempo, num desjejum feito pelos dois, na cozinha, o noticiário da TV revela o rosto do filho como suposto ladrão de uma joalheria. De repente, mãe e filho se desentendem, fato que comprova que nunca foram unidos, e ele a prende a mãe a cadeira com cordas. E diante dos monitores de TV que acompanhavam a paciente 24 horas, percebemos que ele, ao olhar para a mulher, vê certa semelhança com a antiga esposa do Dr. Robert. Ele encontra a chave da porta. Entra no quarto monitorado e estupra Vera, a cativa. Antes que possamos entender o passado na pouca conversa entre o estrupador e Vera, Dr. Robert entra no quarto e mata o leopardo ensandecido. O abraço entre a vítima e o Dr. Robert nos leva a crer que não mais existirá o cárcere da cativa. As portas seriam abertas.
Então o filme volta em seis anos no passado. Para explicar alguns fatos. Antes disso somos convidados a conhecer a história do Dr. Robert pela senhora enfermeira que depois de ter visto o filho assassinado, conta toda essa história para Vera. O que nos deixa estarrecido com o que seria o princípio da sociopatia do doutor.
Acho que vou deixar esses detalhes pro arremate final; a derradeira costura.
Bem, voltemos ao passado então. Uma festa num casarão. Dr. Robert confraternizava com amigos e a filha ao longe se refestelava com os amigos. De repente todos estão numa espécie de suruba juvenil, no quintal deste casarão. Dr. Robert sente a ausência da filha no salão e empreende uma busca a filha nesse grande jardim. Entre tantos corpos hedonistas, encontras os rastros deixados pela filha: os sapatos, a jaqueta…enfim o corpo desfalecido da filha. A acordá-la a moça tem um ataque nervoso. No futuro sabemos que a moça reconhece no pais a figura do estuprador. Mais na frente sabemos que a moça enlouquece se suicida jogando-se da janela, que nem fez a mãe – revelação que vou esconder para aqueles que assistirem ao filme.
O filme parece mostra seu mote, ou seu propósito aqui: o pai começa uma perseguição para descobrir quem estuprou a filha. Ao descobrir o cara que a estuprou, segue-o e o sequestra. Mantém-no cativo. Até que reveladoramente o Dr. Robert em conjunto com uma equipe de médicos fazem uma misteriosa cirurgia de vaginoplastia.
Acho que já falei tudo. As imagens vem a cabeça num vórtice. Você não acredita que ele tenha feito a cirurgia, que tenha-o (a) mantido em cativo e tenha se apaixonado por essa Frankestein moderna. Almodóvar confunde e clareia uma relação que a doutrina penal já descrevera: a paixão surgida entre seqüestrador e seqüestrado. Mas ele vai além das medidas que conhecemos. Ele nos embriaga com tanta emoção que fica difícil de duvidar de nossas próprias idiossincrasias.
Seu falar do restante , ou esclarecer mais pontos ficará sem motivação ver o filme. Por esta razão recomendo que vejam a película e apreciem as interpretações magníficas da moça cativa, da velha enfermeira e do esmero lapidador de Almodóvar, nesse filme surpreendente.
Ah, não tente adivinhar o fim. Assista!

VIAGEM SOLITÁRIA de João W. Nery

Estes percorreres por aí à balda,
nestes saudosos antigos eus.
Qual deles deixei no meio da estrada e em que sombra,
me perseguem até onde sou?
(Do poema "Corte em mim, João W. Nery)

“Não julgueis um livro pela capa!” É quase um corolário não julgar. É quase silenciadora a linha divisória que separa os reflexos opostos de João e Joana na capa do Livro Viagem Solitária – memórias de um transexual trinta anos depois – de João W. Nery.

Não julgue o livro como apenas um testemunho comum, pois ele é pura fantasia. É a fantasia de Joana sentindo-se Zeca, ou quando já o homem formado, João, fantasia o mundo real – vez que o constructo do mundo real é fantasia plasmada num artefato que nunca será nosso. Estamos sempre nos encaixando no mundo dos Outros. João tentou escapar da fantasia. E em busca por uma comunidade imaginada, o tempo soube, inteligentemente, decantar sua alma na realidade que sempre lhe fora real.

Viagem Solitária está além do testemunho porque não fica no eu diegético conspiratório de sua sorte. Ele entra na poesia; nas epígrafes iluminadoras; nas mulheres salva-vidas; na coragem do não-anonimato; na delicadeza do ser. Quiseram ficcionado seu relato como se fosse uma experiência fantasticamente única, isolada; e somente na criação quixotesca de seu sonho ele poderia sobreviver. Mas foi além, além do que se pode gendrar no resumo ontológico de uma condição masculina; nem mesmo na centralização falo-imaginada, pois seu sexo estava além do corpóreo, do imagético.

E como é libertador encontrar-se fora do exigido e fazer disso um primado teleológico de sua vida. A experiência de ser um leitor deste testemunho é poder enxergar a si além do que pretendíamos sempre ser. E que sempre estaremos incompletos. Mas ler Viagem Solitária é adentrar num mundo de incompletudes até saber-se que sempre seremos uma lacuna personificada. No entanto, João W. Nery vai preenchendo sua vagina desconstruída com o conhecimento de si e da negação do que não entendia o porquê.

“Devido a esta absurda defasagem entre minha autoimagem e a que faziam de mim, descobri, quase que instintivamente, que na fantasia estaria a gratificação de ser reconhecido. Considero essa solução a balsa salva-vidas com a qual consegui sobreviver a tantos desencontros. Delineadas pelas minhas necessidades vitais, moldei-a de uma forma que podia adaptá-la à realidade.” (NERY, 2011,p.35-36)

A infância é sempre uma fonte de descobertas e fantasias e assim, a priori, por meio dessas pequenas mitologias internas é que João se salvava dos perigos do gênero imposto. A consciência e externalização da representatividade Maria-homem o assustava. Tinha a Maria (Joana), mas o homem João ainda era um devir.

A leitura se perfaz num constante desconstruir e construir, erigindo uma imagem metamorfoseada. Apenas o tempo e a paternidade – mais tarde, em certo ponto, infelizmente, a velhice – tornariam João no verdadeiro homem que inventamos.

Não queria falar de sofrimentos, tampouco de como fui instigado a ler o livro para descobrir como se construiu o falo mágico de João – a estatização do ser homem. Pura fantasia minha, eis que o homem em João, sempre houve, sempre existiu. Decepcionei-me comigo mesmo. Mas de forma alguma essa curiosidade ofuscou o brilhantismo na poética-testemunho de João W. Nery. A alma do poeta não poderia se desvencilhar do narrador.

O eu narrativo escolhera o masculino. Estava convencido, em todos os momentos, de que nunca existira a Joana – senão na memória afetiva dos outros – e não soava provocativo, ou revanchista, tampouco autoafirmativo. Era uma voz de escritura singular, de um homem construído no desejo de ser o que queria ser. Eu não mais procurava o famigerado falo mágico. Demovi-me da experiência da curiosidade para adentrar o mundo dele; assumir o papel do Outro, dele mesmo.

Outra leitura, assim, recomeça. A leitura de um homem João, que ultrapassou minhas expectativas como leitor medíocre, buscando uma fórmula para entender, finalmente, o desejo dele. Deparei-me com um homem maduro e que coincidiu com a última parte do livro: Paternidade.

Mas não convém atribuir os papeis sociais já construídos pela nossa sociedade heteronormativa-judaica-cristã.  A forçosa idéia a que somos conduzidos para confeccionar o homem sob os pressupostos do imperialismo dos gêneros, do binarismo, do maniqueísmo suicida. Pai aqui tem conotação outra, sob o esteio de uma psicologia inclusiva, aberta; de um olhar menos parental, sanguíneo ou genético. A adoção do seu filho tem ares de redenção, de reconhecimento, mas acima de tudo, o sentido heróico e materno de ser pai.

Enfim, a leitura de Viagem Solitária de João W. Nery nos permite concluir que não é uma viagem solitária: não viajamos sós, não estamos sós. Há nesse nosso tortuoso jeito de ser, uma legião de indivíduos ou comunidades mais do que imaginadas que possuem os mesmos anseios apagados; os mesmos medos avolumados; os mesmos sonhos não acalentados; a mesma incompreensão cristã. Porém, no final, todos resistem sempre por existirem histórias de perseverança e, sobretudo, coragem de permanecer lutando.

MELANChOLIA de Lars Von Trier

Melancholia é um grande planeta que se aproxima da terra. Aparentemente não oferece riscos aos humanos, mas a melancolia na terra sim, esta traz a devastação interna de uma alma.

Fiquei tentando entender Justine. A sua leve e ingenuidade iniciais me pôs em cheque com minha capacidade de entender um início de filme. Queria ver beleza e lucidez numa mulher que estava na cerimônia de seu casamento. Queria ver alegria ao invés de melancholia – ops melancolia.

De pronto sabemos que nosso solitário planeta de vida vai ser atingido por Melancholia. Somos adestrados a entender ao som de uma intensa música em tons claramente clássicos, que ora nos emerge numa sombria predestinação convicta e nos submerge com a possibilidade de um erro de cálculo. Ficamos antes da grande colisão, entre as imagens de dor, desespero– e por que não melancolia – e o inescapável nefasto destino a que a melancolia nos submeteu.

A cena do casamento; a festa  nos coloca em contradição pensando na pompa e circunstância da cerimônia em si e na pobreza de valores nos personagens que são apresentados.

Memorável a fala da mãe de Justine – verdadeira personificação da tristeza e frustração daquela vaidade contingente – quando, em seu discurso, fere com palavras a alegria que o momento envolvia e declarava como repugnava a idéia do casamento. Uma reação clara ao ex-marido que se encontrava a mesa rodeados de mulheres – todas para ele eram Betty(s). Todas as mulheres dele pareceriam comuns em vista da ex-mulher frustrada e de discurso seco. Surpresa para quem acompanhava o desenrolar desse imprevisível casamento.

Justine começa a se mostrar uma mulher instável. Em sua própria cerimônia de casamento se isola, toma um banho de banheira clariciano, que me remeteu a Joana de Lispector , e que invariavelmente demonstra que podemos quebrar os nossos protocolos internos. Afinal Melancholia se aproxima e parece como uma grande lua a mexer nos sentidos, nas paixões, na lucidez, na algazarra de nossa aparente racionalidade.

Parei de entender Justine e comecei a entender que o destino da terra não está mais em nossas mãos. Estamos vulneráveis – apesar de Justine pensar que somos o único miserável planeta inteligente. E se estamos sozinhos quem se importará com mais uma grande explosão explicativa de tudo?

A grande lua se voltou contra nós. É grande a melancholia que se aproxima. Lars Von Trier tenta nos mostrar quão grande é nossa melancolia. Ela está presente mesmo em nossos mais insignificantes momentos. Ela é breve, tal qual a conjunção carnal de Justine com o provável colega de trabalho. Tão breve quanto à felicidade do seu futuro marido, Michael, estampada numa foto de macieiras que poderão dar frutos e sombra – preterido em sua primeira noite conjugal.

Mas não temos apenas Justine, temos a sóbria e aparentemente “normal” irmã, mas que se desespera com a possibilidade da grande colisão. De  que vale a pena um bom marido, um castelo como casa, uma família estável, se todo o trabalho vai se desintegrar em minutos?

O embate familiar entre as duas – assim como dos pais-  parece repetir o eterno diálogo maniqueísta; a dualidade das coisas em que nos opomos e nos ajustamos. Estamos sempre alegando o mau e o bem; a felicidade e a melancolia…Mas nem sempre sabemos a medida certa dessas dualidades; o que devemos realmente utilizar para as nossas vidas. Às vezes somos maus e às vezes somos ruins. E ruim vem de ruína. Sempre estamos nos implodindo para nos construir de novo.

Lá vem o grande Melancholia nos atingir sem receios, sem pedidos ou concessões. Atinge direto aos personagens: a plácida Justine e a desesperada irmã. Kirsten Dunst se desnuda em nossa frente para mostrar que nem sempre a lucidez é a resposta certa para a compreensão das coisas. Talvez resida, na loucura dela e nossa, a certeza – como quis Camus colocar no suicídio a resolução para o absurdo – de que estamos sempre errados quando apontamos a lucidez como salvaguarda de nossos sonhos.

Talvez haja uma beleza nesse poético filme sobre o fim do mundo.

Hoje sabemos que, de certa forma, a Melancholia nos atingiu não tão longinquamente.

Era para ser uma História de vida, mas virou um medíocre conto

                         As flores do pêssego

 

Eles eram meus melhores amigos. Poderia dizer que era o mais próximo do grupo ou que me tornei o melhor amigo deles. Relembro as frases de outro amigo as quais diziam que família não se escolhe, mas amigos podem ser escolhidos. E eles me escolheram. Mas como lidar com isso tudo – inclusive com amizade – se eu ainda não conseguia entendê-los em sua principal luta?

(…)

A casa estava sempre cheia de amigos no final de semana. O grande jardim se abria em plantas selecionadas pela sua história e ascendência. Tinha um pinheiro que havia sido dado de presente no quinto aniversário de casamento; tinha a figueira que tinha sido trazida do sul; tinham as patas de elefante que se enfileiravam recepcionando todos os carros que ali chegavam. Elas todas tinham histórias porque cada um dos amigos se revezavam em trazer uma espécie nova e longínqua de lugares diferentes. Podia-se dizer que cada planta tinha seu testemunho assim como o meu; e cada novo galho, a cada nova estação estávamos lá todos juntos.

(…)

Sinto a necessidade de falar da verdade de cada um. Todos já se foram nesse momento. Eu ainda resisto por insistir que ainda vale a pena me lembrar dos grandes amigos que eles eram. Seria difícil para eu registrar além do que acontecia em nossas reuniões; as mesas sempre repletas de cerveja, vodka e muitos amigos.

O primeiro encontro foi por causa de um outro amigo que nos apresentou e, em tom pitoresco, os apresentou como um casal diferente. A árvore que meu amigo trouxera era uma muda de ipê amarelo. Ricardo, o mais velho, recebeu com os olhos brilhando o pequeno pedaço de vida enrolado em papel escuro, sobreposto por um outro papel amanteigado. As flores ainda indefinidas pareciam com qualquer tipo de planta, mas antes que o convidado se manifestasse, Rafael antecipou-se em dizer que era um ipê amarelo. Às vezes me perguntava como ele sabia dessas coisas. E talvez aí já surgisse a primeira característica dele, a antecipação e a capacidade de desvendar as coisas. Por isso nunca deixei que ele me desvendasse desde o começo, pois saberia que não admitiria o comportamento com o qual ele baseava sua vida. Por enquanto todos nós tínhamos um mesmo vício: a conversa solta em meio aos copos de cerveja. E foi nesse momento de descontração, paradoxalmente, parece que me deixei fechar-se um pouco; não revelei minhas primeiras impressões das coisas na primeira reunião. Observara tudo como se fosse normal para mim a incompreensão das coisas. As mãos se tocavam como se gatinhasse o bebê em solo desconhecido, pronto para se alinhar e depois conseguir as coisas por si só. Há sempre uma necessidade de descoberta, só assim nos tornamos humanos. E era de humanidade que precisava me encher naquele momento. Lembrava-se das minhas aulas no mestrado sobre alteridade. Essa coisa do outro, do mundo esteticamente diferente do outro. E lá estavam eles repletos de si. Enquanto eu me sentia o estranho, o fora do eixo. Mas qual era esse eixo que, naquele momento, deixava-me claudicante, como quem se equilibra sobre uma corda sobre um precipício de desinformação.

Não vale a pena, no momento, revelar o conteúdo dos diálogos, vez que ainda não me sentia preparado para comentá-los antes de minha própria transformação. O que deveria ser transformado? Continuei durante toda a cervejada, equilibrando-me nessa corda bamba, e ficava difícil imiscuir-me no diálogo deles.

(…)

Eles sempre ficavam em casa. Nunca deixavam de sair para emendar as festas dos outros. Os outros sempre saíam para as suas festas particulares. Mas eles ficavam na deles. Enquanto isso, eu ficava pensando como seria aquela vida. Como poderiam manejar os pensamentos, os desejos – em pensar nisso relembrava de minhas experiências normais e frustradas –, as coisas divididas, os anseios díspares. Lembrei de minha psicóloga falando sobre individualidades. Como se pode ser individualista quando uma perspectiva de continuidade se conforma sobre as diferentes camadas tectônicas do ser? Eu pensava que poderia conseguir as coisas do jeito que me propus a fazer: pela normalidade, pelo revés dos que os meus medos revelavam, pelo o que já tinha conquistado. Nunca imaginaria que eles conseguiriam se entender nessa confusão de sentimentos, nesse trabalho de ourives de uma relação nascida para ser bruta.

Mas o que poderia eu saber de felicidade se para mim o que tinha vivido era uma relação monogâmica centrada no outro, na maestria como ele falava, na elegância de suas dedos nos ares. Eu vivia eternamente a vida dele. Não tinha tempo para a individualidade. O que era isso pelo amor de Deus?

(…)

Eles tinham recebido uma muda da fruta do conde. Eu sempre gostei de fruta do conde. Trepava no antigo pé da escola e comia até a aula terminar. O mais velho deles tinha mestrado em Literatura e a força com que manejava a enxada parecia de um estivador comum. As costas largas lhe davam ainda toda a masculinidade que restara naqueles tantos anos de vida. Parecia ainda o jovem que nunca perdera o viço. Os músculos se dispunham como se fossem desenhados, cada nova investida contra a terra revelava outro músculo, cada novo músculo me distanciava do pensamento do que aquele homem seria capaz. Era forte. A certeza vinha também acompanhada da maestria como lidava com a terra; de longe aquele homem nada parecia entender de letras. Era um exemplo raro do que sempre tínhamos na cabeça quando se falava em homens-perfeitos. Mas éramos amigos e isso distanciava – isso é mais claro hoje – ainda meus pensamentos da possibilidade de conhecê-lo senão fosse pelo caminho da amizade. E por esse caminho percorri todas as nuances dessa amizade que se construía em mim e ao redor deles. Tornei-me, aos poucos, uma espécie de confidente especial.

(…)

O mais novo era o mais difícil. Tornar-me amigo de Miguel foi a parte menos incentivadora. Possessivo, mau, mais novo. Sempre tive certa falta de empatia com os mais novos. Sempre arrogantes com o conhecimento adquirido no dia anterior, sem ácido em seus comentários. Era a única pessoa, a princípio, que me fez pensar que aquele projeto não poderia dar certo.

Olhei para o pé de pêssego asiático e determinei se em 5 meses não florescesse as primeiras flores eu me distanciaria de todos eles. O pêssego tinha tudo para dar certo.  Fui otimista em ter escolhido o pêssego. Se tivesse escolhido o pé de lichia, aquela terra não teria sido fértil.

As flores  não nasceram até a festa de aniversário do mais velho. Passaram-se 7 meses e ninguém se deu conta das flores de pêssego tampouco da festa.

A Revista TRIP de outubro

 

A Revista TRIP e sua viagem pela Sexualidade e a Inclusão

Gostaria de parabenizar o excelente trabalho editorial da Revista TRIP do mês de outubro que ousou com coragem e seriedade – palavras que parecem um pouco obsoletas no cenário jornalístico nacional – colocar em sua capa a temática da sexualidade.

Veja o texto na íntegra:

http://politicaativa.gay1.com.br/2011/10/revista-trip-e-sua-viagem-pela.html

Desabafo de um amigo intimo!

Quero andar comigo mesmo para ver se consigo suportar meus defeitos. Os outros têm apontado muitos. Mas eu sempre me importei com minhas decisões, não estava muito preocupado com opiniões alheias. Nem ao menos tinha medo de encarar o espelho.

Depois que reiteradas vezes, em que a causa de um término de namoro resultava em dedos em minha direção, comecei a suspeitar de minha sinceridade.

Comecei a entender que não sou eu o dono da verdade, que não tenho que corrigir os vícios de linguagem, tampouco interromper os pensamentos dos outros. Tenho que ouvir, que assumir erros, a assunção de uma verdade de fora, outra. Eu tinha que fazer isso. E, estranhamente, isso parece com esse momento de ficar sozinho – mesmo que diante de meu computador – e parar o ritmo do que achava certo.

É difícil esse jogo com você mesmo, esse de arrumar arapucas para saber se verdadeiramente você cai nelas. Ando meio descrente desse meu “eu” catastrófico no qual me assusta a ideia de me mudar por completo e não fazer valer a máxima que norteava minha vida. Qual é essa bendita máxima? Acho que vou deixar essa pro final. Final?

A primeira coisa a fazer consiste em identificar os erros. Quais são meus erros? Poderia resumi-los no fato de eu ser muito chato, as coisas operam do meu jeito, levo tudo ao pé da letra, sou sensível demasiadamente, sou pessimista, tenho um sorriso forçado. E meu cheiro mais parece embriagar do que excitar. Com tudo isso só posso ser um superchato. Quem deveria de suportar tantos defeitos? Lá no fundo, admito que tenho assustadoramente me suportado – sem espelhos, sem reflexos em paredes de vidro, nos óculos dos outros…nos olhos dos outros. Acho que é isso! Poxa! Como deve ter sido duro para eu aceitar tudo isso. E não quero falar de qualidades. Logo quando pensava que sinceridade fosse a minha maior e melhor qualidade, eis que a vejo minando rapidamente. Não quero me ver agora no reflexo de um espelho – alem de estar mais velho estou quixotescamente imponderável.

Mas como terá sido tão ruim assim viver comigo mesmo, se tenho suportado o encargo da vida sem reclamações mais complexas. Se tenho amigos, tenho um celular que toca e que invariavelmente seria para dividir com um amigo tolas impressões da vida? Frugalidades que preenchem a vida de um certo sentido teleológico, isso tem sido o recheio de minha vida.

E agora, acuado, entre duas razoes que se acometem,  de uma doença chamada cumplicidade alheia, sou taxado de sério demais, de chato demais, de opinioso demais. É errado ter opiniões próprias? Minha professora de português me ensinou a fazer sempre uma leitura critica dos textos, meu pai sempre me alertou para confiar desconfiando, minha mãe me deu esse lado da escrita. Por que devo abandonar, de vez, esses ensinamentos?

(…)

A caminhada se prolonga com esse meu eu mesmo. É por demais silencioso esse vagar do pensamento concentrado em mim – é egoísta demais, penoso demais. Queria um espelho para ver se me reconheço; se tenho ainda aqueles olhos que mamãe sempre se dobrava as minhas chantagens. Eram chantagens? Será que eu já sabia manipular os desejos alheios ao ponto de só garantir minha felicidade? Não sei. Mas mais uma pergunta se amontoa às outras nessa caminhada que parece estar – sem tentar me apropriar do poeta – cheia de pedras. Agora resta saber se devo chutá-las ou construir minha torre. Mesmo assim, não consigo identificar ainda quem de fato sou eu!

O que te encantas?

Eu quis a verdade, eis que me vi chato. Minha régua de procusto, meu medo de perder, minha chance com o nada.

Tudo parece meio isso, meio aquilo. As coisas se assentam numa prateleira escondida, e tudo te parece meio esquisito.

Então te conduzem a porta e você não sabe se que sair, não sabe se a saída é de vez ou  inventada.

Passa a pensar em si como nunca antes pensara e sua saída parece mais como morte anunciada!

Não querem mais teu cheiro, teu valor, tua razão. Te deixam sozinho porque não entendem que o erro faz parte da perfeição.  Não a minha, mas de um conjunto bem maior.

Perdes o senso de territorialidade porque eis que teu terreno é paixão e não o solo, ficas aéreo a pensar no que é verdadeiramente casa!

Ele pega seu braço, quer te mostrar o caminho de casa. Não te deixas sozinho, mas apaga os beijos em teu rosto, vez em quando a lágrima corre. Leva neste ato o que foi  e o que está acontecendo. Tu te perguntas bem baixinho:

_ O que posso fazer meu amor?

Tu te entregas a um choro copioso, soluços,  ao canto molhado da chuva que percorre teu peito agora. O que podes fazer é mais uma vez entender que é fraqueza quando não argumentas com a razão. Então vem as desculpas – que ninguém quer saber de quem – quer apenas ouvi-las. Que adianta o tempo nisso tudo, se ele passa sempre como prova dos insucessos?

_ Não te prendas, não te subjugues, não te entregues fácil assim _,  eis que teus amigos te aconselham dessa forma.

De novo, perdes o chão onde sabias andar, onde sabias dizer o que és teu. Agora te cobras o peso de Atlas, o fardo de Sísifo, dos retrocessos. 

– O que mais me falta? perguntas olhando para os pés no chão!

Queres voar para longe agarrado nas mãos da razão, sobrevoando os descrentes de tua felicidade, eis que eles te querem mais chão. Mas o voo é catártico, não voas por contemplação. Asas de cera não! O peso de um homem comum, também não!

 O que me resta? te perguntas com os pés levemente levantados da terra.

Sobrevoa ainda o que é casa, mas deixa de lado a noção do amor. Carregas contigo o segredo do que poderia ser dividido, mas preferes te encantar ainda com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã.  

XIII CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS. VITÓRIA/ES, OUTUBRO 2011

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Texto apresentado na conferência: A VOZ DO SEREIO

A voz do Sereio- a voz do Sereio - A autoria Homotextualizada.
Autor: Roberto Muniz Dias, mestrando em Literatura pela Universidade de Brasília. robertomunizdias@gmail.com

Neste trabalho, pretendo discutir a empreendida desestabilização do cânone pela crítica literária feminista e as possibilidades abertas; dessa maneira, para os estudos gays e lésbicos. No entanto, a teoria e crítica feminista constituíram ao redor de seu objeto de estudos, a escrita de mulheres. Quando se trata de abordar a escrita de autores gays e autoras lésbicas, os estudos de gênero, embora constituam um ponto de partida, não são suficientes como aporte teórico. A Teoria Queer provê um referencial teórico mais adequado para esse fim, pois permite sondar uma voz identitária outra, encontrável em conjunto de textos que se agrupam em sua linguagem, e por uma temática sexual peculiar, configurando o que podemos denominar de homotextualidade. Um desses textos é a escrita de Caio Fernando Abreu, corpus deste trabalho.
Camerado! This is no book; Who touches this, touches a man; (Is it night? Are we here alone?) It is I you hold, and who holds you; I spring from the pages into your arms-decease calls me forth. So Long (Walt Whitman) 
            Toda vez que releio Morangos Mofados de Caio Fernando Abreu, sinto uma espécie de identificação imediata tal qual aquele homem sob a chuva, o corpo embebido de conhaque e a alma ansiosa, cheia de saudade. Sinto aquela mesma vontade de perceber que alguém me espera e que apresso o passo na correspondência certa dos desejos. A falta de pontuação proposital e o parágrafo extenso me dão uma sensação de ritmo de urgência, o amor não pode se calar. A voz muda do personagem se propaga por entre o som da chuva. Sim, uma voz. Voz rouca, voz inaudível, melancólica; outras vezes, vívida por reafirmar uma condição, um estado, um afeto ou uma identidade.
            As vozes que se dignam a falar, nesse discurso ficcionado, revelam sentimentos guardados, abafados – nem sempre tão resistentes –, imbricados com temas tão apropriados para a hodierna discussão da Literatura Contemporânea. Podem essas vozes maduras de homens gays seguros de sua sexualidade – cônscias de seus papéis como seres performativos dentro da representação que lhes são atributos intrínsecos, registrar um sentimento de genuína autoidentidade?
            E tanta subjetividade pode ser apreendida pelo cientificismo reinante, de uma autoridade positivista, heteronormativa, detentora do cânone estabelecido? A voz gay pode ser objeto para o estudo da Literatura como viés epistemológico? Os estudos e contribuições do feminismo, como produtor de um conhecimento crítico, muito contribuíram para o reconhecimento e inclusão do sujeito-objeto para o entendimento do fazer crítico literário. Para Rita Terezinha Schmidt:
“O que a crítica feminista propõe, no território dos estudos literários, é uma epstemiologia, reumanizada. Alicerçando-se nessa tríade inegociável – interesse + conhecimento+ agenciamento – a crítica feminista promete uma nova tradição de pesquisa. Nova porque os pressupostos e sua prática possibilitam uma interseção de estratégias – política, pessoal, teórica, textual e filosófica – que fazem convergir, no ato e na cena da enunciação, vozes que não têm presença no discurso científico tradicional.” (SCHMIDIT,1994. P.23-32)
            A tríade proposta pela crítica feminista conjuga os elementos cognitivos de uma nova postura pós-modernista, pós-colonialista, dando espaço para estudos baseados na historiografia valorativa de conteúdos de raça, condição social, sexo, minorias. Então, a inclusão do sujeito como partícipe do processo de crítica e construção do saber torna-se o seu diferencial em relação às antigas e ensimesmadas teorias.
          Com propriedade, Terry Eagleton observa que “a vida futura de um fenômeno é parte integrante de seu significado, mas este é um significado do impenetrável aos seus contemporâneos.” (EAGLETON, 2006. P.329). Seria o homem do conto de Caio F. Abreu, sob a chuva, implorando atenção, batendo, batendo, na porta do companheiro. Um marginal ou um ser com identidade própria, amor definido e pleito justo? A quem ele direcionava aquela preocupação e manter-se limpo? Talvez nem o autor soubesse de suas repercussões ficcionais, mas, sim, ele sabia que falava de pessoas e anseios inexprimíveis. Mas é um devir. Somente agora temos a amplitude de sua significação. Parece um deja vú esse passar de páginas de Morangos Mofados.
            Por muito tempo, vivemos imiscuídos num discurso monocromático, essencialmente heteronormativo, patriarcalista, judaico-cristão. Eu entendia tudo isso numa simples frase enunciada pelo meu pai: “futebol é coisa de menino, deixa de lado esses desenhos!” Estava tudo ali embutido. E resgatando Eagleton, vim entender melhor essas normatizações somente agora. A tal questão do gênero-sexualidade nunca foi tão discutida como depois dos movimentos femininstas pós-estruturalistas, dos movimentos lésbicos e gays. E a intedisciplinariedade entre Literatura e os estudos sobre homossexualidade nunca foram tão presentes como no contexto atual. Tanto que a Literatura se tornou um viés para a articulação dessas vozes marginais e desarticulação dos discursos majoritariamente heteronormatizantes de uma escritura que se pretende universal.
            No entanto, como afirma Anselmo Peres Alós, em Narrativas da Sexualidade: Pressupostos para uma poética Queer, os fundamentos dessa poética “não estão apenas a serviço de uma descrição das narrativas, eles também possibilitam uma acurada análise de como o texto reflete, subverte e questiona a realidade no mundo social no qual está inserido.” (ALÓS,2010. P.843) Mas o que uma poética Queer, senão um monte de vozes misturadas numa tentativa de clamar por uma plataforma política homogênea? É possível assegurar as essas vozes tratamento equânime?
            Longe de discutir a legitimidade e hierarquização de anseios, visualizo novamente o homem debaixo da chuva, molhado, com cheiro de conhaque, e de como, talvez o autor nunca tenha se apercebido do que realmente escrevera. Aí reside minha real fascinação pelo texto, naquilo que cabe a mim: a forma como o recebo. Eagleton, ainda em sua Teoria da Literatura, uma introdução, pontua:
 “a teoria da recepção examina o papel do leitor na literatura, e como tal, é algo bastante novo...poderíamos periodizar a história da moderna teoria literária em três fases: uma preocupação com o autor (romantismo sec. XIX); uma preocupação com o texto (Nova Crítica) e uma acentuada transferência de atenção para o leitor... para que uma literatura aconteça, o leitor é tão vital quanto o autor.” (EAGLETON, 2006. Pag.113)
            É aqui onde me localizo, nessa identificação clara com o outro que sou eu mesmo em outro tempo, debaixo da chuva. Mas em tudo o sentimento e o desejo se equivalem. Partindo do ponto de que eu me identifico com a leitura, a apropriação estilística que faço eleva minha categoria identitária a um nível ontológico. A compreensão e reconhecimento do meu status asseguram uma existência mais concreta e sadia. A questão da identidade gay no literário – como meio de expressão dessa voz mencionada – não se trata apenas de reconhecer características de uma poética aristotélica. Alguns querem reconhecer apenas marcas identitárias de uma sexualidade fora do padrão; outros advogam a existência de uma compilação alusiva ao tema. No entanto, segundo MacGee, nos últimos trinta anos no campo da crítica e da teoria literária, os estudos do sujeito “serviram para perceber que o sujeito é, antes de tudo, uma categoria da qual não se pode abrir mão.” (MACGEE, 1992. Pag. 13).
            A Homotextualidade, acertadamente falando como categoria estratégica para a implementação de uma crítica literária, inaugura uma estética experimental de contextualização, uma espécie de temática específica. Tal texto se alinha com outros de temática homoafetiva, reiterando temas e situações na elaboração de uma espécie de sintagma operacional dessas leituras. Por outro lado, a Teoria Queer amalgamou diversos discursos e individualidades, vinculando novos coros de vozes como se a sensação de pertencimento fosse alijada. Como afirma Kristeva, em Estrangeiros para nós mesmos, “todo nativo sente-se mais ou menos estrangeiro em seu próprio lugar.” (KRISTEVA,1994,p.27) A experiência do ser e estar gay promoveu a desconstrução do paradigma heterossexual estabelecido e conferiu  voz e vez àquele que se sentia marginalizado. Pareceu-me que alguém abriu a porta respondendo ao personagem de Caio Fernando Abreu no conto Além do Ponto.
            Que acontece se me declaro gay? Um adulto consciente dos constructos sociais submetidos, aceitos e rejeitados; introjetados e repelidos; refutados e assimilados; como lidar com certo abandono do que se tem experimentado e vivido?
            A questão do gênero, como debatida pelas feministas, abriga certa diversidade. A mulher pode recusar o biológico, refutar a maternidade, então que papéis sociais podem ser desempenhados por ela? Igualmente, ela pode, apesar de lutar por seus direitos, aceitar a maternidade mulher que recusa o biológico, que refuta a maternidade. Essa plêiade de possibilidades parece se desvanecer num discurso radical. Há uma liberdade teleológica sim, uma conformação feliz ou uma identidade decantada. Como disse Focault: “a vontade de ser um sujeito moral e a procura de uma ética da existência era principalmente, na Antiguidade, um esforço para afirmar a própria liberdade e dar a sua própria vida uma certa forma na qual podia se reconhecer e ser reconhecido por outros e onde a posteridade mesma poderia encontrar como exemplo.” (http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/estetica.pdf)
            Entendo que exista uma hodierna descentralização do discurso, ainda citando Focault: “as relações que devemos ter conosco não são de identidade: devem ser relações de diferença de criação, de invocação. É muito difícil ser sempre o mesmo!” (Foucault, 1994, p.739). Mas mesmo com a defasagem do tempo ainda me sinto e me vejo nas linhas de Caio Fernando Abreu, com o sentimento, com a dor, a alegria. Sou parte de um devir estabilizado. Tornei-me um gay pronto. No entanto, dentro desta poética Queer, não há unanimidade em ser este sujeito cambiante focaultiano. A crítica a este postulado é feita pelo movimento Lésbico que procura, também, uma identidade própria neste conjunto. Segundo Jagose, “o ceticismo Queer acerca do evidente estatus de identidade de categorias tornou-se suspeito para aqueles que simplesmente pensam que isto é apenas apolítico ou mesmo uma forma reacionária de intelectualizar.” De certa forma esta desestabilização das identidades é uma clara estratégia de homofobia:
“Nós não podemos permitir que o discurso privilegiado patriarcal (do qual o pós-estruturalismo não é senão uma nova variante) para apagar a identidade coletiva que as lésbicas tem recentemente começado a estabelece...Pois o que realmente  resultou da incorporação  da desconstrução do discurso,  no acadêmico discurso feminista, pelo menos, é que a palavra Lésbica tem sido colocada em aspas, se usada ou mencionada, e a existência de Lésbicas reais tem sido negado, mais uma vez.” (WOLF e  PENELOE, 1993,p 11).
            Parece existir uma luta sectária dentro do movimento Queer para a identificação dessas categorias que antes se unificaram para a luta por direitos e quebra dos estereótipos normativos. Uma espécie de resgate de autoria vislumbra-se nesse momento em que a Teoria Queer tende a perder sua carga política e de representatividade.
            Superadas as questões seminais dos textos edificantes do marxismo-engelismo, do edipiando de Freud e do simbólico de Lacan, tenho a dizer como homem gay maduro, que as práticas realizadas no campo performativo de minha sexualidade, atingiram uma estabilidade que me autoriza distinguir: desconforto de prazer; aceitação de rejeição; sedentarismo de nomadismo. Matei meu Pai, o totem; matei minha mãe: pari-me. Faço parte de uma comunidade unívoca com voz ativa. Sou parte de um coro estabelecido. Podemos falar no Brasil, do marco histórico da aprovação da união civil gay, e isto abaliza uma identificação, uma identidade. Esta respaldo jurídico libertário reforça os pressupostos de Focault quanto à estética da existência, mencionada alhures.
            No entanto, Tânia Swain, no seu Identidade nômade : heterotopias de mim, faz-nos divagar eternamente sobre o que somos, como se pudéssemos desempenhar um papel social inexoravelmente imiscível. Não sou partidário do essencialismo. Tampouco corroboro com os construcionistas que alegam ser a sexualidade algo fluido, o efeito de acondicionamento social. Eu sou o que sou. Porém, o que se quer debater aqui é a ontologia da identidade assumida por um gay adulto, para o qual não mais importa definir conceitos ou desestruturá-los, parte-se deles para um campo de desejos decantados onde se luta por uma existência harmônica, sem uma ideia fixa centrada na constante contestação, nem alicerçando uma passividade de uma verdade não-socrática.
            Os movimentos feministas e de liberação gay trouxeram à baila os problemas de ordem do gênero-sexo-sexualidade. Como afirmou Guacira Lopes Louro: “por certo vivemos num tempo em que os binarismos de gênero e de sexualidade são insuficientes para dizer dos sujeitos e das práticas contemporâneas.” (LOURO, 2008, p.145) Mas dentro do discurso feministas, as alas radicais e as mais brandas, se acotovelavam pela sua verdade. E mais adiante, Guacira se questiona: “Haverá efetivamente, uma única verdade? Ou as verdades serão múltiplas? É possível conviver com a pluralidade das verdades?” (LOURO,2008, p.147). Deixo que o filósofo Sócrates em seu debate com Protágoras estatize que a verdade é relativa.
            Lutamos tanto para o reconhecimento de uma identidade, de uma voz que fora esquecida, ocultada, suprimida, disfarçada, mascarada. Clamamos por igualdade  genuína entre os diversos entes ex-cêntricos, performativos da sociedade. A bandeira da Teoria Queer, ainda sob as matizes do arco-íris, batizada por Teresa de Lauretis ainda flamula com a mesma intensidade? Numa conferência sobre sexualidades gays e lésbicas, ela pronunciou:
“o projeto da conferência foi baseado na premissa especulativa de que homossexualidade não é mais para ser considerada marginal com o fundamento contrário forma estável de sexualidade (heterossexualidade) contra a qual seria definida tanto pela oposição quanto por homologia.” (de Lauretis, 1991: iii).
            Ela advoga – agora reconsidero Eagleton e sua revisão do passado –, por uma nova reconceitualização: “como formas sociais e culturais em seus próprios direitos, embora alguns emergentes e desta forma ainda mal-definidos, descodificados ou dependes discursivamente em formas mais estáveis.” (de LAURETIS, 1991, p.iii-xviii)
            Lauretis se contrapõe à Teoria Queer, termo por ela própria alcunhado, uma vez que  a sistematização desse corpo teórico implicou o silenciamento de alguns grupos. Se há uma discrepância entre interesses, há vozes neste discurso justaposto Queer que pleiteiam características próprias. As reivindicações modernas dos movimentos lésbicos e gays, apartados da miscelânea Queer, constituem autêntica necessidade, não apenas de contestação, e sim de existência. Obviamente que existe uma classe gay norte-americana com expectativas e necessidades diferentes de alguns gays que vivem no mundo árabe, por exemplo, enquanto aqueles lutam por uma maior garantia de direitos, os últimos ainda resistem para poder existir como seres humanos.
            Quando troquei as alianças em meu casamento, as indumentárias que eu e meu companheiro usávamos eram dois fraques, um preto e um branco. Eu usava o branco. Depois de alguns anos, já separado, alguém me alertou para o fato do fraque branco significar: a noiva. Mas em nenhum momento àquela época, deixei-me influenciar por os estereótipos, os símbolos da representação dos papéis. O feminino não me cabia naquela existência. O casamento, a união, a representação de meu papel junto ao meu companheiro era o que mais importava.
           Vivemos num mundo lingüístico e simbólico onde as denominações implicam em atitudes. Portanto, a discussão ente os usos de Queer Theory ou estudos lésbicos e gays se entrelaçam metaforicamente neste exemplo. A teoria Queer seria uma forma de englobar todos os temas ligados à sexualidade diferente, mas dentro da intersecção epistemológica subsiste a tentativa de uma política que não reclama por todos e cada um. As críticas direcionadas à teoria em tela variam entre a perda do foco, um devir constante de sedimentações de interesses diversos e a visibilidade das comunidades sem oportunidades.
         Segundo Jagose, o termo Queer “tem o potencial para trabalhar contra as especificidades lésbica e gay, e desvalorizar todas as análises sobre homofobia e heterocentrismo desenvolvidos largamente pelos críticos gays e lésbicos.” (JAGOSE, 1996, p. 58) E mais a adiante, ela é categórica em afirmar que: “ele (o termo Queer) neutralizará a eficácia das lésbicas e gays como categoria, e esta flexibilidade iria conectá-los com outros cujo comprometimento com políticas anti-homofóbicas é disputado.” (Jagose, 1996, p. 63) Longe de este texto promover uma discussão resolutória, no entanto, fica clara a necessidade de identificação das vozes de forma menos teórica e mais persuasiva. Neste sentido, a conclusão de Jagose sobre o destino deste embate é que:
“Queer não é uma conspiração para desacreditar lésbicas e gays; tampouco desvaloriza os inquestionáveis ganhos feitos pela causa. Seu principal feito é chamar a atenção para as compreensões que – internacionalmente ou de outra forma- são inerentes à mobilização de qualquer categoria indenitária, incluindo ela mesma. (JAGOSE, 1996, p.102)
            Volto a minha releitura de Morangos Mofados e sinto que a voz de Caio Fernando ainda tem uma força peculiar. Mesmo que ele não defendesse uma Literatura Homoafetiva, ele escrevia sobre a perspectiva de um homem gay, com suas problemáticas e suas inquietações. Não sobreviveu a esta contemporaneidade para visualizar o quanto seu trabalho pôde viabilizar a identidade do amor gay, da dor gay, da existência gay. Segundo Anselmo Peres Alós (In Estudos Feministas VOl. 18 N.3/2010, pág. 843), reproduzindo as ideias de Judith Butler:
“...muito mais do que a voz singular de um artista, o artefato literário é a expressão de uma determinada perspectiva, de um determinado conjunto de interesses. As  tensões geradas pelas premissas das teorizações gays, lésbicas e feministas são extremamente produtivas para o desenvolvimento de novas estratégias textuais e intertextuais." (BUTLER, 1999, p.11-20).
            Caio Fernando Abreu não só parte de um ponto de vista particular, ele constrói em sua emblemática narrativa de um fôlego só, contornos de uma subjetividade além da linha; promove a inclusão, a visibilidade.
           Mais uma vez os Morangos Mofados em minhas mãos. E quando releio Aqueles dois volto, o pensamento a toda teoria feminista da qual se retira especialmente que não há um paradigma para o corpo, quando se fala de sexo. No entanto, segundo Butler:
“‘sexo’ é, desta forma, não somente o que alguém tem, ou uma descrição estática do que alguém é: dependerá de uma das normas pelas quais o sujeito torna-se viável, a qual qualifica um corpo para a vida dentro do domínio de inteligibilidade cultural.” (BUTLER, 1993, pag.2).
            E Aqueles dois de Caio Fernando: “...não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais, ou mesmo um pouco burros.” Ainda que não lhes houvesse a compreensão maior de suas sexualidades, a experiência homossexual tornou-se inteligível em suas vidas. E embora os outros da repartição, onde eles trabalhavam, não tinham entendimento do que aconteceria àqueles dois, os outros: “quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.”
                Butler afirma que deve haver um repensar, vez que as relações entre natureza e cultura são decisivas para construção do gênero: “esse repensar chama a atenção para a questão do modelo de construção por onde o social unilateralmente atua sobre o natural e o investe com seus parâmetros e seus significados.” (BUTLER,1993, pag.2) Por isso, repensar a natureza como uma mediação humana, é repensar os novos moldes e estruturas históricas que dão lugar a novos comportamentos sociais. “Aqueles dois” já eram cônscios de seus papéis quando ainda não entendiam sua complexidade. A inteligibilidade de Butler reafirma a condição da identidade como produto.
            Voltando ao viés literário, como forma de propagação da identidade Queer – agora o termo pode ser usado em sua amplitude -, diversas são as vozes que se unem ao coro da identificação como modelo contemporâneo de manifestação de identidade. O amor que não pode dizer seu nome, agora tem uma constituição mais sólida do que antes pudera imaginar. Desde o naturalista/determinista O Bom Crioulo até Berkelley em Bellagio de João Gilberto Noll; ou de Proust com O caminho de Swan a poemas de Gregory Woods, temos reconhecidamente nesse coral de vozes uma característica aglutinadora, o que se chama de Homotextualidade, ou como eu quis alcunhar: a voz do Sereio. Esse ser inventado numa condição de porta-voz, que com seu encanto imaginário, consegue agrupar um conjunto, cada dia mais amplo e afiado, em sua cantiga nada inebriante, nada hipnótica, mas de tom realista e humano. No entanto, orquestra tal como as mulheres, a metáfora de uma música conceitual, falando de homens que se amam, de mulheres que se amam. Ele dá voz ao corpo ou o corpo dá a voz, ou ainda citando Miller: “no corpo de sua escrita e não na escrita de seu corpo.” (MILLER, 1980, p.271). É uma voz que não se pode mais calar.
            Se as feministas sustentaram seu discurso num revisionismo dos conceitos de         Freud e Marx, deve-se contemporizar a fala daqueles escritores que por algum motivo se calaram diante da mesma, ou ainda mais contundente, situação opressora do patriarcalismo, do heterocentrismo, do cristianismo. Este último ainda carrega em suas estruturas a mordaça que ainda proíbe que muitas vozes sejam ouvidas. Mas mesmo assim, o desconstrutivismo de Derrida pode ser emprestado para ruir com todos estes dogmas regulatórios. Afinal tudo foi escrito por este mesmo homem branco-ocidental-freudiano. Porém, hoje, tudo se pulveriza com as desconstruções sobre a ideia do que é ser homem, do que é ser gay à luz da Bíblia, o que é família. Tudo se relativiza quando tentamos polarizar as razões do ser. Tudo se opera no lingüístico, no simbólico e segundo Walter Wink:.
      “A Bíblia vê a homossexualidade negativamente sempre que a menciona. E a repugnância sentida não era apenas por considerá-la contrária a natureza, mas por ser antijudaica, representando a incursão pagã na vida dos judeus. Pura perseguição, sem uma complexa inteligibilidade da condição homossexual.” (WINK, 2008, P,12).
            Isto posto, a Bíblia funcionaria, numa comparação mais que azada, como um Codex obrigatório, um código de condutas sociais, onde as práticas que redundariam das condutas vinculavam gênero ao sexo, enunciando o certo e o errado. E assim vincula estas manifestações proibidas ao pecado. Afortunadamente hoje, este espaço que antes era segregador, rende-se ao postulado maior das leis divinas e acolhe a diferença, com o devido sentido hermenêutico e teleológico da palavra cristão. Há m devido esquecimento de que, às vezes, a própria Bíblia celebrou o amor e amizade entre iguais. Citando o trabalho de Alexandre Feitosa em Bíblia e Sexualidade, ele faz uma análise da história de David e Jonatas – esquecida propositadamente, comparando diversas traduções que citam o versículo bíblico: E sucedeu que, acabando ele de falar com Saul, a alma de Jonatas se ligou com a alma de Davi; e Jonatas o amou como a sua própria alma.(1 Samuel 18.1 ARC) Para Feitosa: “ o autor bíblico utilizou a forma mais profunda de se descrever um amor intenso por alguém: amar com a própria alma.” (FEITOSA,2010,p.105)
            Não há de se contestar que uma identidade formada sobre a superação de alguns pressupostos antes intransponíveis, alicerça toda e qualquer afirmação identitária. Todas essas lutas predecessoras que aconteceram logo após os movimentos feministas e os estudos gays e lésbicos, mais do que apenas uma revolução, eles se estabilizaram no posto, ainda não pacífico, mas numa posição que atesta ao ex-cêntrico alinhar-se ao seu verdadeiro sexo-gênero, ao ponto de lhe conferir uma voz desarticulada do ideal e do imaginário; do padrão e do desalinho. Nem a flauta do Fauno, nem o encantamento da Musa ou da Sereia, apenas a voz do Sereio. 

Bibliografia:
ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. Rio de Janeiro: AGIR,2005.

ALÓS, Anselmo. Estudos Feministas/Universidade Federal de Santa Catarina.Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Centro de Comunicaçõa e Expressão.- v.18, n.3, (2010)-.- Florianópolis: UFSC, 1999.

BUTLER, Judith. Bodies that Matter: on the discursive limits of sex. Routledge.1993,New York.

De Lauretis, Teresa. "Queer Theory: Lesbian and Gay Sexualities." differences: A Journal of Feminist Cultural Studies 3, no. 3 (1991).

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução/ Terry Ealgeton; tradução de Walteensin Dutra; 6ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

FEITOSA, Alexandre. Bíblia e Homossexualidade: verdades e mitos. Rio de janeiro: Metanóia, 2010.

FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits 1954-1988, IV. Paris, Gallimard, 1994.   

JAGOSE,Annamarie. Queer Theory – An introduction. New York University Press, 1996                          

KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos.Trad. Maria Carlota Carvalho Gomes. Rio de janeiro, Rocco, 1994)

(MACGEE, PAtrik. Telling the Other: The Question of Value in Modern and Pos-Colonial Writing. Ithaca. Cornell University Press, 1992.

MILER, Nancy. Women’s autobiography in France: for a dialetic of identification. In: Women and Language in Literature and society, Ed. Sally MacConnel-Ginet, Ruth Borker & Nelly Furmam, Nova York, 1980, p.271

SCHMIDIT, Rita Terezinha, Da Ginolatria à Genologia: sobre a função teórica e prática feminista.IN: FUNCK, Susana Borneo(org). Trocando ideias sobre a mulher e a literatura. Florianóplis, SC. Universidade Federal de Santa Catarina, 1994.
SWAIN, Tania Navarro.
http://tanianavarroswain.com.br/chapitres/bresil/heterotopias%20de%20mim.htm

WINK, Walter. Homossexualidade: perspectivas cristãs. Tradução de Jaci Maraschin. São Paulo. Fonte Editorial, 2008. 

WOLF, Susan J. and Julia Penelope (Eds) (1993) Sexual Practice, Textual Theory: Lesbian Cultural Criticism, Cambridge, Mass.: Blackwell).

ESTRELA CADENTE

Ninguém me disse que hoje eu perderia tudo. Que a estrela cadente seria meu último pedido e não o primeiro por tê-la reconhecida. O pedido foi particular. Cabeça levemente inclinada quase se encostando ao peito. O pensamento positivo. Foi o que me pediram para sempre fazer. O que faço agora? Que pedido faço a uma estrela humana, feita de ferros e tecnologia?

Não passo de uma expectativa de um sonho que pode acabar. Se cair tudo que inventamos, cai sonhos e cai satélites humanos. O sonho do homem que vira poeira no céu lá de cima, de fora de nosso alcance táctil.  Eu sonhava com outros planetas, outras órbitas, outras estrelas.

E agora me vejo olhando pro céu numa perturbação de quem tem a alma roubada, o teto de vidro ou o relento como casa. Mas dizem que a proporção é mínima, numa estatística que assusta só por existir. Olhem pro céu hoje à noite, diz o noticiário.

Estou de prontidão, olhando para minhas mãos, para meu céu de todo dia. O sol que nasceu hoje já me disse que seria diferente, que seria um dia de sol. Mas o que a lua pode trazer? O que pode ser visto num horizonte corrompido por sonhos metálicos?

Hoje o dia amanheceu!

Um beijo com adeus

A língua tentou me conhecer por inteiro, mas me assustei quando chegou até meu rosto. Pensei que não houvesse a ousadia de algo mais íntimo. Intimidade não parecia estar em nosso contrato. Mas não havia contrato naquela noite. Pela primeira vez sentíamos o calor de nossas peles; os joelhos se tocavam levemente.  Era tudo.

Como eu era ingênuo. Perdi tanto tempo em minha vida sendo tão decoroso com essas coisas que não merecem isso. Se houvesse tido tempo de descobrir com antencedência como funcionava o beijo, teria-o feito mais vezes. Hoje só sei escrever sobre ele de uma forma quase inatingível, escolhendo palavras que nunca experiementaria na forma literal. Como eu era ingênuo.

Se soubesse que podia beber saliva doce, alcoolizada ou levemente nicotizada, teria feito mais vezes com o ímpeto da placa de permissão de estacionamento; do permitido ultrapassar. Essas coisas que só se aprendem depois da primeira intenção em ser adulto. Pudera tê-lo sido antes de tudo, começando pelo toque, beijo e terminando a vida com um livro cheio de histórias. Como eu era ingênuo.

E quando aprendi que para tudo isso, de alguma forma, teria de gostar. Beijar pra mim já era uma descoberta reveladora e inspiradora de sonhos, mas gostar de quem beijava era uma impossibilidade quase palpável. Era como encaixar as peças de um Rembrand dividido em mil pedaços tranformados em quebra-cabeças. Eu odiaria um Rembrand. E como eu era ingênuo.

Gostar foi pior que descobri que tinham beijos com gosto de fel. Pessoas poderiam apenas te beijar, joelhos quase unidos num só, mas o pensamento era somente no que o beijo poderia principiar. Depois do gozo, não vinha o beijo. Outras descobertas realizei. Dentre elas, uma coisa que descobri que depois de se gostar, e depois de um grande gozo vem um simples adeus.

Pinóquio com alma

Pinóquio com alma

por Roberto Muniz Dias, sábado, 17 de setembro de 2011 às 08:20 FACEBOOK

Quero voltar a ser Pinóquio. Prateleira limpa, lugar exposto. Cansei de terem-me nos braços, manipulando meus passos, meu molejo, minha personalidade de boneco. Antes eu queria ser humano. Viver como quem me criou; ou viver como os outros viviam. Eu vivia um sonho de criança de madeira articulada. Queria subir árvores, criar um roseiral e ser um homem como meu pai. Eu queria ser tanta coisa pouca, sem capas de super-homem, nem braceletes de mulher maravilha – até então nem sabia que poderia ser. Mas isso não importa. Teve um tempo que pulei da prteleira e brinquei sozinho, dando cada passo de forma tosca e desajeitada. As mãos trêmulas. Ainda sentia que não podia fazer muita coisa sozinho.

Eis que Pinóquio quis voltar do menino ao boneco. Estava cansado de ser um humano fraco, de pernas finas, olhar de vidro e nariz de mentiroso. Eu mentia a mim mesmo que longe de meu criador eu seria melhor. Mas o que mais procurava era encontrar um igual a mim. Lá de cima da prateleira apenas avista os pequenos ursinhos; as bonecas de pano envelhecido e as bolas de gude. Mas eu queria alguém com o mesmo sonho que o meu, de ser humano, de amado de uma forma diferente.

Pulei com o último impulso. Achei meu lugar. Fiquei sentado esperando o olhar humano admirado com minhas articulações de mentira, que não me podiam movimentar, senão pela vontade dos outros. Mas dei de cara com o destino. Não é assim que falam dos que se entregam a prateleira, a vitrine da vida? Pois é, estou aqui de novo.

Quem vai querer um Pinóquio genioso que quer ser humano e não mais um brinquedo; e às vezes quer sair da humanidade e voltar a ser um brinquedo sem dono?

TENTATIVAS

E

        u já não sei mais quem sou eu. Quando me penso farto de algo próximo do comum, começo a pensar no exagero de uma despedida completa desse pensamento. Estou aberto, eu acho, novo para entender as complexidades da vida em comum. Largo certo vícios anteriores como o de falar de outros amores; mesmo sendo coisas do passado e memóraveis: arrepio na espinha de um sexo deixado na memória da pele. “Não, nunca se deve falar desses arrepios do passado”, algum amigo já falou. Calei-me para isso. E tento partir do famigerado ou bendito novo. Estou no começo e é assim que tem que ser: as regras do gostar que mais se parecem exceções vão construindo um codex limitador. E mais e mais vou me fechando de mim, aprendendo a ser ou , do outro.

Q

       uando vou aprender algo de fato? Como quem aprende a dizer não! As coisas mais simples estão na negativa da morte; na negativa de não pular; de não correr riscos; de negar a impaciência. Estou buscando essas coisas simples, mas esbarro no perigo da constante aceitação irrestrita. Saber dizer não é uma sabedoria. Mas de onde posso obter essa sabedoria se me entrego de pronto a uma especulação da vida? E sabedoria tem a ver com resignação de certos poderes egoístas que criamos como defesa. Estou velho e aprendendo que a vida está na novidade e na efemeridade, daqui a pouco sou história na boca e vida dos outros. Não passo de uma tentativa. Aliás, sem dramas existenciais, todos nossos somos tributários de nossa memória póstuma, num amigo, num parente, numa foto, num livro. Não há superação que atinja esses meios. Somos fadados a viver nos outros.

A

        í espero na cama o que queria como verdade: o carinho, o sexo sem procura externa, a segurança…enfim, tudo não passa de ideia nossa, inventada, que ocorre de uma em um milhão. A loteria da verdade. Eu sempre jogo para acertar, mas nem sempre a vitória coincide com planos miraculosos de assistida garantia. Viver é criar pequenos sentimentos para serem herdados, nada prospera aqui.

T

         alvez a espera seja um alento para quem deseja muito da vida; talvez o sonho possa ser um corolário disso tudo. Sonhar tem me feito mais humano, mas não feliz. Felicidade saiu do campo do altruísmo para virar um truísmo de copo plástico, bebe-se no seu e joga-se no lixo. Lá, mais na frente, vou usar outro copo e enchê-lo de minha pretensa sede por tudo, depois jogo fora tudo de novo. E tem reciclagem para isso?

A verdade e a felicidade podem ser jogadas fora e resgatadas sustentavelmente alteradas?

O

        rivotril bateu agora em que as palavras começam a achar a minha verdade. Rendo-me a uma satisfação de completa nulidade do pensar. Confesso que as coisas se confundem. Não são mais o que se trata de espera e de enlouquecimento. Sei do tempo, porque pareço que vou morrer devagarzinho agora, para a amanhã me encher de um novo nada, ou uma nova verdade, ou quiçá, uma nova esperança. Tento ser ainda eu na procura de um encerramento bonito para o texto de agora. O diário das dores começa a amenizar de certa forma, mas ainda assim o mote de minhas angústias é que rebatem herculeamente com os efeitos da tarja preta.

T. R. Ê.S

Part I

No primeiro dia, eu queria saber o que dizer; as palavras certas, sopesando o mesmo carinho para os dois. Mas me atabalhoei e tropecei nas palavras a serem ditas. Saiu um:  seu beijo é mais gostoso, o seu é mais íntimo; o seu olhar fica sempre perdido em mim; o seu olhar está perdido onde?

E continuei nessas divagações iniciais e ingênuas. Eu não podia me mostrar por inteiro, especialmente em minha lascívia, no desejo de ter os dois ao mesmo tempo. Tinha que haver um ensaio, um diálogo, um triálogo, uma taça, não, duas, três taças de vinho.

Me digam o que se diz para dois homens diferentes antes de tê-los completamente…

 Continua…

Part II

Talvez a sugestão do amor fosse uma resposta ao susto levado a tê-los vistos em minha frente completamente discrentes. ” O que deveria ser isto?”, poderia sentir em cada pensamento, mesmo em cabeças separadas.  Eu esperava de mim um comentário justo, mas o que seria azado para um momento em que três pessoas se comiam como quem come uma comida exótica pela primeira vez?

Mas eu poderia dizer amor? Seria amor a palavra incial para o início do carinho? As primeiras carícias tinham que ser pensadas, como se meticulosamente eu esperasse uma reação segura e satisfatória? Não seria fácil não saber como reagir a um carinho não esperado. Quantos viriam? Quantas invasões adentrariam minha ingenuidade de ação? 

Mantive-me inerte. Não queria a inteligência de descobrir todos os caminhos para serem trilhados. Apesar de temer a minha falta de ação,  no íntimo, esperava que não soubesse nada, que me deixasse levar por um prazer desloucado de minha retidão herdada de uma educação por mais limitadora.

Amor ainda não era a resposta, apesar de gritar-me internamente que o que tenho de melhor é sim meu amor.

Continua…

Parte III 

(…)

Eu já cheguei quando tudo estava pronto. O grande girassol já tinha 20cm de diâmetro. Os cachorrinhos me receberam como visita estranha, senão a menorzinha que se jogava na grama, rolava e permanecia de peito aberto as minhas carícias de intruso. Mas ela havia me recepcionado bem. E eu pensava que ali residiria minha única dificuldade: adestrar o carinho de uma cadelinha já dócil e receptiva. Algo no meu peito me avisava que já estava prestes a encontrar a segurança, a tão propalada segurança que sempre buscara e somente encontrara num lar solitário; de uma pessoa boa, mas sozinha. Passado. Vivo desse medo atual. Eu chegara com o braços arrodeados como se segurassem um singelo bule de porcelana, tal era delicada minha entrada no novo recinto.

(…)

Mas eu não sabia como brindar a três. Era fácil entregar-se ao vinho. Sempre foi, mas, daquela vez, o vinho me trouxe pudor. Pudor de abrir mais uma garrafa; pudor de confessar mais uma idiossincrasia; de falar mais uma vez: eu nunca fizera isso antes.              

Mas o que pensam vocês? Que tenha sido uma tentativa somente minha? “Era sério!”, dizia um deles sem me olhar nos olhos. Olhava para o outro em sinal de aprovação, como se entendessem seus códigos corporais e gesticulados maquiavelicamente. Eu era novidade mesmo; naquele sentido de não ser descoberto de primeira, de me guardarem para algo mais meticuloso e mais duradouro…não tinham três taças iguais. Havia as deles. A mim, cabia a outra, a da visita, mas que também nunca existira. Improvisaram-me no gosto de uma das bocas…que vinho era aquele?

Continua…        

Parte IV 

Como poderia dizer o que é sexo, depois do que passei pelas quatro mãos? Tudo havia se perdido naquela cama. Minha experiência de nada valia. Onde estava meu juízo? Onde estariam minhas mãos? Teria as perdido por entre calças e cuecas desconhecidas? Como reparar o suor dos corpos se me cabia o espaço do meio? A dúvida se agigantava a cada volume de sangue que nos enchia. As vezes não podia sentir-me. Parecia que me era tudo simplemente um conjunto, um conjunto de calores, de suspiros, de desejos como se pudesse antecipar os destinos de minhas mãos sem norte.

Um gemido, não era apenas um gemido. Era algo, como se pode descrever isto…? Era uma pequena flâmula de fogo a expandir-se, que insinuava novas entradas e saídas. Como se houvesse caminhos bem orientados de onde entrar, donde sair, onde apertar, onde relaxar. Eu confundia tudo que havia aprendido. Eu me confundia com outro, não os outros, mas não me entendia, como se pudesse sair de mim e visualizar a cena completa por um ângulo superior. Seria aquela massa de corpos feliz e completa que Zeus por inveja e com um raio partiu? Felicidade seria algo naquela visão invejosa de um Deus?

Mas era sexo eu podia sentir em minhas costas, em meu ouvidos por vozes diferentes, em meus pés entrelaçados como desejos de uma fitinha do Bonfim. A boca se perdia entre tantos odores, novos sabores de beijos doces, de salivas trocadas. O gosto leve de álcool e de cigarro também se misturavam num resultado que me dava prazer – pode-se-ia dizer que eram doces? Sei lá…Eram salivas que se amalgamavam em um novo conceito que não queria saber de aprender. Eu apenas estava experimentado ingenua e  propositadamente toda minha ignorância de como conduzir dois homens.

Continua…

Pate Final de um grande começo

Um entrou por trás. Senti-me ameaço pelo seu rosto que não via. Os olhos miravam a parede fixamente. Sem perceber o outro abraçava minha cintura, olhos dele fixos em mim. O que me parecia o início de um ritual, era apenas uma grande ameaça de me aprisionar. Senti-a me preso aos olhos que enxergavam todos meus ângulos mais importantes. Por um instante me percebia parte de um jogo. Saberia eu jogar?

Fechei os olhos. Já não os via como deveria ver. De longe eles me observavam num gostoso soriso conjunto. Os cantos das bocas levemente excitados. Deveria cerrrar as cortinas e preparar a história para o outro dia, antes que me comessem? Ou deixaria de ser levado pelos braços do bailarino e dexar-me-ia conduzir num solo improvisado?

Abri os olhos, mas as vendas me deixavam ver apenas o que pudesse sentir por outros meios. Tateava-me como se quisesse saber se ainda não havia sido comido pelos olhos cheios de dentes e línguas. Novamente, senti-me entregue. Meus lados tremiam só em pensar onde eles poderiam estar. Abri a boca para saber se poderia receber alguma dica. Inclinei meu torso. Tateei mais uma vez o epaço vazio…Só me restava sair do jogo e abrir-me as vendas. Desistir de tentar.

Abri meus olhos com a ajudas das mãos. Era tudo um sonho. Onde eles deveriam estar? Estavam por detrás das vendas. Teria que colocá-las novamente. Hesitei. Levei aos olhos as vendas reveladoras. Apertei o nó e tentei enxergar minha excitação. O cheiro logo veio ao nariz com um leve teor de suor. Senti um calor. Mas era calor de corpo de aproximação, de uma aproximação de sangue pulsante, de fôlego irresistivelmente reconhecível. Calores como vapores contra vidro fresco. A pele exsudava de tanto calor. Não deveria ter tirado as vendas.

Senti. Esta palavra foi a que mais empregeui em minha mente. Senti as presenças novamente. Pela segunda e derradeira vez entreguei-me como se pudesse falar pelos meus olhos fechados. Meu coração levemente pulsando por debaixo do peito; a pele dilatava-se. Se alguma vez tive que me  render em uma guerrra, esta seria a primeira vez que me submetia a dois desejos diferentes e congruentes ao mesmo tempo. Deixei tudo correr pelas mãos deles. O sopro ao ouvido de palavras sujas e doces; o toque sôfrego e macio; a boca enxuta e molhada de tempo em tempo. Os sexos conversavam sobre intimidade. Eu já não sabia o que fazer. Só tinha uma única certeza: não deveria tirar aquelas vendas mágicas que me mostravam o real prazer.

Cadê o Robertinho?

 

Eu sentei sobre a cama que costumava ser a minha. Estava prestes a tirar as meias dos pés. Olhei para o lado, levantei-me. Tudo parecia tempo de ontem, ontem quando meu corpo ainda cabia dentro do armário. Era apenas para me esconder de mim mesmo. E quando abri a porta veio aquele cheiro de memória. Meu medo tinha mudado, mas meu esconderijo permanecia intacto apesar do tempo.

Tudo parecia pouco mudado. As coisas de que havia me livrado, voltaram de alguma forma em outra versão, mais antiga, mais contundente.

 

(…)

Tudo que vejo tem sentido de tempo. Como se pudesse continuar percebendo cada sensação na poeira sobre os móveis, no tempo abafado, nas janelas de madeira. As coisas novas: o pano de filó, a bicicleta hergométrica,  a TV LCD; elas também coexistiam, mas era história nova. Ainda queria do velho tempo a lembrança do que já fui.

Mas tudo parece parado, como se se animasse apenas quando eu voltasse a arrancá-las do passado. Lá na parede, quem nunca teve aquela foto em frente a bandeira nacional? Meu rosto fino, olhar quase pra baixo; à direita um jarro de flores. É engraçado sorrir do tempo. Como é bom reviver coisas deixadas presas à parede do passado.

(…)

Bom é rever o carinho de mãe. A panela no fogão, o pensamento nos passos do filho na cidade lá fora. Ela me fala assim: “Sento para catar o feijão e fico pensando onde está o Roberto!” E continua a fazer o que tem que fazer sem pensar que algo de ruim possa acontecer. Sua preocupação é só em saber que vai dar tudo certo. Onde anda meus pensamentos quando quem mais me ama direciona os seus a mim? Onde poderá estar o Roberto?

(…)

Eu peguei o avião fugindo das lágrimas brasilienses, como se pudesse chorar apenas as de saudades teresinenses. Tola fuga! Estou fugindo de que, de quem? Do passado? Talvez eu fuja de uma tentativa mais suicida de viver o presente. Eu escolhi viver o que acho que é certo, nada além, nada muito meticuloso. Nada que possa realmente matar.

(…)

Somos seres viventes apenas de passado e de presente. Futuro é amanhã e somos por demais hoje. E é bom dar essa volta de mãos dadas com o passado. Parece que toda vizinha sabe que Roberto chegou: o som alto e a voz desafinada a entoar uma música diferente. Eu e meu pequeno castelo de Rapunzel. Cabe perfeitamente o pano de filó na janela. Posso ser perfeitamente a donzela de cabelos salvadores. Eu o the one de Rufus. É a novidade que trouxe para a vizinhança. Menos erasure e mais quieto agora. Afinal já se passaram 17 anos.

(…)

Ainda não me libertei de minha inocência. Toda vez que volto pro meu quarto elevado,  fico retido nessas memórias telúricas que me deixam por demais algo daqui. E não mais me sinto daqui. Dessas paredes quase velhas, de um cupim saudosista de minhas ripas, de minhas estruturas. Os quadros na parede, os adesivos no basculante, o relógio de ponteiro imóvel, as gavetas fechadas, os livros fechados, de tudo isso tenho um pouco de medo. Tenho medo de parar aqui, por aqui.

Toda vez que tiro minhas meias dos pés, me pergunto: “ Fico pensando, onde estará o Roberto?”

 

ERASURE, 04 de agosto de 2011

 

http://youtu.be/_Q5V6L4DJkQ

 

Eu começo esse texto sem voz, sem as pernas…Cantei, pulei. Tantas foram as emoções provocadas pelo show do Erasure ontem, dia 04/08/11, em Brasília. Ter visto Mr. Vincent Clark e Andy Bell bem de pertinho, como se diz, numa apropriação mais do que comum: não tem preço! Na verdade, não tem.

Andy Bell, o vocalista estava bem no palco. Mais magro e mais sarado, para um quarentão que luta contra o HIV é por demais celebrar a vida. E ele a celebra sempre em suas letras. Esse clipe acima é da música Breath of Life: “vou viver meu tempo pelo resto da minha vida!” Parecia que o tempo tinha voltado há anos, quando eu tentava timidamente, na clausura de meu quarto, imitar as peripécias – vamos denominar essas facetas de peripécias – de Andy. Lembro-me agora dele cantando Oh’Lamour (que a multidão de fãs em Brasília cantou num coro só) de sinta liga. E pensava: – Poxa um artista pode ser o que quiser! E vivia imitando, enredando aquelas músicas, procurando entender o que havia por detrás das letras. Um coração partido era o mote de muitas delas, “o amor pode ser mortal”, dizia Leave me to blead. Ele não tocou muitas músicas intimistas. Abriu o show com Hide away, autobiográfica, que conta a história da maioria de nós que temos que abandonar a família por conta da rejeição, conflitos com família, preconceitos. Mas logo em seguida, cantando Breath of Life, o Erasure trouxe de volta os glamorosos tempos dos anos oitenta em que se lidava bem com a sexualidade. O maiô daquela época não tornava Andy feminino, mas atribuía-lhe a marca de seu camping (fechação) ingênuo e ousado. Para mim esta música é a mais emblemática do Erasure, pois fala sobre vida, sobre fantasia. Nunca me satisfiz com as letras dessa música, mesmo quando agora fluente no inglês. “Quero a vida e a vida me quer”, não são frases fáceis de aceitar. Aliás metáforas compõe o estilo de escrever de Andy. O azul pode ser do pássaro ou da tristeza. Blue Shavanah Song é segundo ele umas de suas prediletas. E ela a cantou da forma mais visceral que já vira antes. E pode se dizer que os shows do Erasure também não são completos se não houver as back vocals. Lembro de 92 no show em que cantaram The soldiers return e como o back vocal ficava lindo, coreografado e a batida singela de Mr. Vincent Clark ao fundo. Memorável. Assim como as duas cantoras que abrilhantaram com suas vozes.

O set list Hideaway / Breath of Life / Fingers & Thumbs / Heavenly Action / Always / Push Me Shove Me / Ship of Fools / Victim of Love / Breathe / Chains of Love / Sometimes / Drama / Save Me / Love To Hate You / Blue Savannah / Knocking On Your Door / Who Needs Love Like That / Chorus / Oh L’Amour / A Little Respect / Stop

Achei curto o show. O Erasure tinha música para fazer uma festa inteira, ou seja, enveredar madrugada a dentro. Mas uma hora e meia se passou com gostinho de que poderia continuar. Eu não parava de cantar, completamente extasiado pelas músicas, pela persona do Andy, pelo seu carisma e sua dança esquesitamente sensual.

Em knocing on your door pude perceber seu singelo tchauzinho pra mim. Sim como certeza foi. – Love you Andy – eu gritava já sem voz. Coisa de fã. Então ele me respondeu com seu gesto enquanto cantava. Foi muito bom! Tentei pegar uma de suas toalhas, mas em vão. Um monte de gente disputava o pequeno souvenir. Mas valeu a pena ter ido. As vezes, enquanto cantava, especificamente I love to hate you – o povo cantando- e via todo mundo de braços levantados em coro cantando em coro. Foi lindo. E para o artsta deve ser especialemente recompensador.

“Eu tento sempre encontrar algo que me faça mais doce” Seria assim, literalmente doce? A little respect também contagiou o público. Olhei pra trás e lá estavam todos cantando e novamente os braços em onda. Que sensação gostosa. Eu continuava feito louco, afônico, cantando com todo meu peito.

Faltou Abba, alguém gritou quando terminaram o show metaforicamente com Stop. Mas não foi falta, foi escolha. Afinal a turnê é de seus hits. Mas confesso que faltou umazinha do Abba, pelo menos Voulez Vous. Bons tempos, mas se você comparar Andy (O Erasure) de antes e agora, eles continuam os mesmos!

http://youtu.be/Z-GbjE6O2CM