Luz nas Trevas – A volta do Bandido da Luz Vermelha

Ainda não sei dar uma descrição que, realmente, quero fazer sobre o filme de “Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. O filme é dirigido por Helena Ignez e Ícaro Martins, é a continuação do “Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla, e narra a trajetória do filho do bandido, o criminoso Tudo-ou-nada, na cidade de São Paulo.

Ney Matogrosso, enclausurado em uma cela, realiza um pequeno show teatral em sua performance no filme. Do que me recordo dos registros do Bandido da Luz Vermelha, a voz doce de Ney parece ser adequada ao papel; a figura física talvez não. Em seus últimos dias de reclusão, o Bandido da Luz Vermelha atingiu um ar de intelectualidade que é permitido somente para aqueles que entendem a amargura da prisão.

Um ar de decadência elevada à categoria de um mito, torna o Bandido um certo arauto de uma classe abandonada pelo seu próprio destino. Repleto de citações filosóficas, o filme beira um libelo contra a corrupção da alma e os valores humanos. Isolado do mundo, criando o seu próprio – com a intervenção da poesia propositada em todo o filme – Ney vai construindo uma imagem quase sólida de um Rimbaud aprisionado; ou de um Kafka alado. Ainda, a esta altura não sei dizer se estava ou não gostando do filme.

A reconstrução dos passos do filho do bandido da Luz Vermelha, Tudo ou Nada, nos confronta com questões deterministas, de uma herança maldita, que parece mais um romance naturalista repaginado pela tensão dos diálogos quase surreais entre os personagens; as cenas a meia luz de uma notívaga São Paulo irrefreável. Parece que, ao longo do filme, tudo é criado com tom caricato, tragicômico, mas com uma aguda crítica as figuras sociais. O Bandido da Luz Vermelha é vitimizado, enquanto a Sociedade, lá fora da prisão, parece mais corrompida e estragada do que os degredados dela mesma.

Há um resgate, não sei se proposital, da pornochanchada. A mulher é usada no seu mais vil mister, sendo sempre objeto nas mãos do homem, seja ele liberto ou prisioneiro de si. A única que parece se desvencilhar desse final é a namorada de Tudo-ou-Nada.  A prostituição não a torna fraca, ao contrário, catapulta sua imagem a uma figura quase helênica. De resto, as outras mulheres parecem fracas e sexualmente diabólicas. Pode ser, como disse, tudo uma construção eivada de uma crítica social subliminar ou descarada. Até agora, tudo parece uma invenção exasperada da vida urbana. A falta de retidão nas pessoas parece ser o fio condutor de cada vida humana.

Voltemos ao Ney, pois parece que o filme foi feito para ele.

Tento gostar da sua atuação tanto quanto gosto dele num palco. Fico em desconforto na poltrona do cinema, idealizo seu desempenho na tentativa de o cineasta sugar de Ney aquela entrega que ele faz em seus shows. Mas parece que Ney se assusta algumas vezes. Ou o grande Ney assusta a intervenção do cineasta. A atuação parece um desabafo, uma leitura dramática da vida do Bandido elevado a uma espécie de intelectual/marginal criado pela opressão. Todos nós temos frases fortes para declamar. Todos nós nos sentimos presos por alguma dor, uma solidão, um destino incerto…Ney fuma, mas parece também que aquilo, aquela terceira pessoa esfumaçada é-lhe estranha e contrário a sua entrega ao papel. Ele se perde, encontra-se, mas, no final, não parece se convencer de que atua.

No final Ney Matogrosso – como me encantei e aprendi a vê-lo, ainda acho que ele seja um diamante a ser lapidado como ator –  aparece cantando.

 

Anúncios