Book trailer do livro ERRORRAGIA

 

Book trailer do primeiro livro de contos do escritor Roberto Muniz Dias intitulado ERRORRAGIA. Publicado pela editora Escândalo, Errorragia reúne 25 textos que passeiam pelos delírios, sonhos e pesadelos do autor.

Em seu tão aguardado livro de contos, o romancista e pesquisador Roberto Muniz Dias abusa de seu estilo intimista e rebuscado, já comprovado em criações anteriores. “Errorragia” (Ed. Escândalo) faz um passeio pelas memórias, delírios, sonhos e pesadelos do autor.
Os personagens de “Errorragia” vagueiam pelos labirintos da própria existência numa busca por respostas, explicações. É também um modo particular de descortinar vivências homoafetivas. A coletânea reúne 25 textos e cada um traz uma dedicatória especial.

A seguir alguns trechos dos contos:
“- Nada é tão presente quanto a ausência – você repetia para que eu aprendesse com a dor. Por isso, deixei de caminhar pelo quintal; de colher flores… as sementes caíram no chão uma vez. Nasceu nosso primeiro Ipê amarelo. Mas isso faz tanto tempo. E agora depois de tanto tempo fico catando sementes aladas, daquelas que se pega no ar, parecem pequenas espaçonaves alienígenas.”

“E quando aprendi que para tudo isso, de alguma forma, teria de gostar; beijar pra mim já era uma descoberta reveladora e inspiradora de sonhos, mas gostar de quem beijava era uma impossibilidade quase palpável. Era como encaixar as peças de um Rembrandt dividido em mil pedaços transformados em quebra-cabeças. Eu odiaria um Rembrandt.”

“Sentei-me a mesa, observando o fio entrançado do caminho de mesa; alisando como se pudesse obter a magia de uma confissão. Alisava, alisava e pedia que as coisas pudessem se tornar reais…”
Onde adquirir: http://editoraescandalo.com/site/portfolio/errorragia/
Ficha Técnica do Book Trailer:
Direção e concepção: Cássio Rodrigues
Bailarinos:José Nascimento e Samuel Alvís
Música: Magia, de Hugo Trincado

Algumas palavras sobre o livro ERRORRAGIA

“Recebi com alegria o livro Erroragia, de Roberto Muniz Dias, publicado recentemente pela editora Escândalo (Porto Alegre, 2013). Prefaciado por Alexandre Willer Melo, o livro é composto por 170 páginas nas quais estão distribuídos 25 textos. O subtítulo – Contos, crônicas e inseguranças – além de dar pistas xs leitorxs sobre o seu conteúdo, evidencia uma caráter típico da literatura contemporânea: a mistura de gêneros. Essa mistura faz-me pensar em textos, que aqui se mostram como uma categoria genérica de escritos ou daquilo que se dá a ler, o que me permite extrapolar a teoria dos gêneros e da classificação textual pensada de modo tradicional, como o fizeram Aristóteles, Horácio e Longinos em A poética clássica. Contos e crônicas remetem-me a gêneros da narrativa ficcional, ainda que crônicas possam ser históricas e de caráter informativo, mas que figuram entre o que, hoje, chamamos de literatura. Já o termo “inseguranças” me remete não a um gênero, mas à memória, à experiência vivida, à vida, o que acaba por me fazer classificar o livro também como um exemplo de “uma escrita do eu”. Portanto, posso pensar que tenho no mesmo volume textos da linguagem denotativa e da conotativa, da linguagem ficcional e da referencial. Além disso, posso pensar em dois pactos sendo feitos com xs leitorxs: o pacto ficcional e o pacto memorialístico. Essa “escrita do eu”, a princípio, pode me levar também ao biografismo, isto é, ao ato de relacionar as experiências narradas com as experiências vividas pelo autor, neste caso Roberto Muniz Dias. No entanto, sabemos que este eu, desde Artur Rimbaud, é “um outro”, como afirmara o poeta francês em carta endereçada a Georges Isambart, em 13 de maio de 1871. Nela se lê: “Je est un autre. Tant pis pour le bois qui se trouve violon, et nargue aux inconscients, qui ergotent sur ce qu’ils ignorent tout à fait!” [grifo meu]. O papel do eu na literatura deu origem a uma das maiores polêmicas conhecidas nesse campo artístico: a acusação de imoral contra Gustave Flaubert, devido à protagonista de seu romance Madame Bovary. Ao ser perguntado no tribunal quem era a personagem, afirmou o autor: “C’est moi”. Neste caso, o moi, ou seja, o eu não é Flaubert, mas significa que Emma é uma criação dele. A observação de outros elementos do livro me levam a algumas considerações. A capa de Erroragia na qual se vê um rosto retalhado, talvez mutilado para ser mais dramático, mas que se quer ou se pretende juntar para formar um todo possível, o que me faz lembrar das pinturas de Pablo Picasso, e cujas partes são sobrepostas evidenciando apenas uma ou outra parte como, por exemplo, a boca, pintada de vermelho, mas em um tom esmaecido ou mais próximo do ferrugem, me faz pensar nesse eu biográfico e até em um eu autobiográfico, mas imediatamente a mesma construção da capa me remete ao que o livro me parece ser de fato: uma construção de eus. Nestes eus estão inclusive o autor, uma vez que a vida me parece ser a sua matéria de carpintaria, matéria esta que foi trabalhada, cortada, lixada, polida, pregada, pintada, usada e entregue xs leitorxs. As manchas estampadas nas páginas me levam a pensar também nessa construção, que se deu, possívelmente, entre outros fazeres, alguns talvez bem cotidianos, como tomar café (Não sei, de fato, se o Roberto toma café enquanto escreve) ou outras bebidas, cujos copos ele divide com o seu material de trabalho (Confesso que sou curioso para ver o Roberto trabalhando…) e o líquido acaba respingando ou sendo derramado sobre as páginas (Será que o Roberto escreve à mão também?). Além do autor, entre os ditos eus estão também aqueles a quem, através de nomes masculinos, são dedicados os textos. E eles são muitos! Segundo declarações de Roberto, os nomes são de homens que marcaram a vida dele de algum modo. Porém, todos os sobrenomes são mutilados, recortados e resumidos a iniciais. Portanto, esses nomes masculinos mutilados podem ser de um homem específico, mas, ao mesmo tempo, de muitos homens. A identidiade como algo certo e acabada é quebrada, fragmentada. Há, desse modo, um diálogo entre capa, subtítulo e estes nomes masculinos, todos eles feitos de partes, de retalhos, que, se não se encaixam perfeitamente como pares, dão xs leitorxs a oportunidade de participar do rico processo de criação que me pareceu ter o livro. Esse diálogo entre capa, subtítulo e nomes é o que, a meu ver, unifica, ainda que isso pareça um paradoxo, e esse paradoxo talvez seja uma característica da literatura contemporânea, a narrativa de Erroragia. E é no paradoxo que se instala um encontro de tempos, ou como queiram, de temporalidades. Os tempos das descobertas e das decepções amorosas, da dúvida e da abertura para possibilidades, o tempo das palavras, quando nos textos encontramos palavras ou expressões arcaicas ou pouco contemporâneas como “introito”, “lira raivosa”, “assunção de compromissos” por assumir compromissos e tantas outras. Assim, Roberto Muniz Dias exige que xs leitorxs façam deslocamentos, que vão e que venham no tempo-espaço da narrativa, no tempo-espaço da língua portuguesa, que junte pedaços, que junte eus, imagens e talvez que assim se encotrem e produzam também a sua erroragia. Sinceramente, tenho dúvidas de que isso seja possível para xs leitorxs de hoje e não falo de leitorxs especializadxs. Falo de quem, no cotidiano atribulado, ainda para para ler. Não se trata aqui de um apelo para que o autor “facilite” a vida dxs leitorxs, mas que pondere quanto ao fato de que o paradoxo de sua linguagem possa resultar em um descompasso, pois quero, muita e muitas vezes, receber com alegria outros livros de Roberto Muniz Dias. Tenho certeza da força do seu desejo de escrever e da sua escrita. Que a ragia de sua escrita não estanque, mas que isso também não o mate.”

Carlos Eduardo Bezerra
Doutor em Literatura/Professor Visitante na empresa Unilab