Contos

Ele não beijava (Parte Final)

I

             Os dois se aceitavam sem compromisso. Estavam nesse esquema por alguns anos. Um via no outro o anteparo de sua fraqueza, assumindo a fortaleza que nunca tiveram antes. Bem da verdade, eles se viam como sustentáculos para suas reais fraquezas. A altivez só existia para com os outros. Porque, com os outros, eles eram outros. Não podiam ser aqueles que eram quando estavam juntos. Quando estavam juntos, seus segredos escondidos e inominados transformavam-nos em duas deidades dotadas de poderes além dos outros humanos. Mas esse poder se alternava dentro da rede de confiança que entre eles se formara. A instabilidade deles estava nessa alternância de humores e agendas.

            Certo dia, num desses encontros corriqueiros, a voz de um se sobressaía em relação ao outro. Um deles se calava diante das exigências das prerrogativas condicionantes de relação convencional-principal. Aquela altivez da dupla se corrompia com a alternância de incapacidades. Por essa razão, um deles se calava enquanto o outro se revoltava. Mas a revolta tinha uma instância de culpa velada.  O segredo entre os dois se avultava e a dor deveria ser suportada. Não havia lugar para a exasperação da dor da ausência, mas cabia-lhe no peito a espaçosa culpa.

              O segredo de um parecia ser mais sigiloso do que do outro; parecia ser mais ardiloso, mais vergonhoso. Havia um medo grande dentro de um deles. Esse medo ficava guardado. A ordem era não ficar sozinho. Era mais fácil e aceitável, pelo menos em seus mais novos planos, suportar a angústia dos encargos daquela relação do que livrar-se solto de seu crime.

            

 

II

            “Você quer subir para beber água?” Um deles perguntou despretensiosamente. O outro já havia dito que o tempo para aquele momento seria somente para os primeiros contatos. No entanto, o primeiro estava completamente assertivo, desejoso de um beijo e quem sabe sexo despretensioso.

            “- Eu vou aceitar a água”. Disse o outro bem mais tranqüilo e seguro de sua necessidade.

            Quando os dois subiram os corações pulsavam de tanto esforço. Os lances de escadas haviam deixado suas respirações sôfregas e velozes. O sangue pulsava em seus corpos enchendo-os de vida e ânimo. Os passos eram mudos, mas os pensamentos uivavam como lobos no cio. Os dois prosseguiram até o último lance.

            Quando um deles abriu a porta o outro já estava quase dentro. Uma euforia que o deixava desconcertado diante do pudor do outro. Mas o dono do apartamento, estava mais seguro dentro de seu espaço. Estava completamente consciente de onde colocar suas mãos e onde direcionar o beijo. E quando se aproximou, na iminência do beijo que não se podia guardar. O outro virou o rosto, redirecionando a mão que ia ao encontro da cabeça para a direção de seu sexo pulsante. Nesse momento, não havia mais pudores e o dono do apartamento- um deles- já havia se entregado aquele momento completamente.

Foi muito rápido para um deles. Afinal não havia beijo, apenas a libido desenfreada dos dois.

            Mas ele não beijava. E para o outro isso era um entrave para as outras coisas, as outras palavras. O que haveria de existir depois dos toques e dos líquidos expelidos? Ele se perguntava desde que entraram no apartamento.

            O outro permaneceu em êxtase até os breves momentos daquele instante de euforia. Ficara absorto, sem palavras. Pediu água e se despediu sem muita cerimônia.

III

            Embora tivesse de controlar seus desejos, ele não conseguia. Assistia ao telefone como se fosse o último capítulo da novela das oito. Não parava de fitá-lo. Foi assim por horas, até que adormeceu.

            Dia seguinte, a academia estava lotada. Ele se mantinha concentrado em seus exercícios. Apesar de saber que a possibilidade de revê-lo era muito grande, sublimava sua ansiedade na perfeição dos exercícios. E continuou fazendo-os até que sentiu alguém lhe pedir para revezar no equipamento de supino. Quando virou para ver quem fizera o pedido:

– Claro que podemos revezar. Respondeu ele prontamente com um sorriso efusivo em seu rosto.

            Sua felicidade era saber que o dia seguinte não seria como os anteriores. Havia sim a possibilidade do diálogo, mesmo depois de uma noite de sexo animal, mecânico e quase anônimo. A última vez, a primeira vez fora de poucos diálogos antecipatórios, houve apenas o som audível dos gemidos de gozos que aos dois soava como a melhor das melodias.

– Você quer que te ajude com o peso? Quanto você suporta? O outro perguntou com um sorriso saliente. Claramente seu questionamento tinha certa ambigüidade. A noite do primeiro encontro havia sido sem precedentes. Ele havia suportado todo seu peso em posições de um sexo-tântrico em que o seu êxtase esteve na existência de posições novas e prazeres até então não experimentados. O gosto de sexo no ar; o ar úmido dos vapores do corpo; sua fortaleza na condução das performances dos atores. Ele tomara de conta de todas as cenas, de todas as pausas e de todas as seqüências finais.

– O que você vai fazer hoje à noite? Ele perguntou com a inflexão de quem não dava alternativas, como se a única resposta fosse a afirmativa. Para ele, aquele dialogo já tinha sido suficiente, satisfatório, porque antes havia somente o momento particular do gozo egoísta, do prazer solitário. Mas aquele tinha sido diferente: houve o sexo e houve o diálogo. Isso nunca antes acontecera. E o convite ficara no ar; a pergunta que fazia seu coração palpitar permanecia sem reposta. Enquanto o outro terminava a série de exercícios seu coração não se agüentava de ansiedade. A reposta veio logo com o último esforço, o último suspiro:

– Tenho compromisso hoje, mas quando puder te ligo. Me dá teu telefone!

A decepção foi instantânea, apesar de não poder disfarçar, sua voz ficou embargada e emendou seu nervosismo com um exercício não programado. Sentou-se no banco e começou a realizar a série, deixando o outro a esperar por sua reposta. O convite ficara no ar.

Sem disfarçar sua decepção, mas ainda esperançoso, foi até a recepção para anotar-lhe o número. Entregou-o em sua mão e foi embora. Mas antes que pudesse sair da academia deu o último olhar em direção ao outro.

IV

O telefone tocou. O nome dele piscava como se fosse um grande anúncio, uma propaganda de um novo circo na cidade. Ficara minutos a olhar o visor do celular, hipnotizado pelas letras, cores e o som melódico quase embriagante do toque do celular. A música foi escolhida ao léu, especialmente escolhida para aquelas ligações de estranhos, de pessoas desconhecidas.

           O telefone tocou por mais alguns minutos e ele ficou sem ação. “- Só podia ser ele”, pensou alto.

            A música parou. Ficou desesperado. “- Será que era ele?” Pegou o celular como quem quisesse que ele falasse o número. Apertou os botões procurando resgatar as ligações. Mas acabara descobrindo que a ligação tinha sido feita de forma oculta, não revelando de qual número de celular ela havia partido. Enlouqueceu. Quis quebrar seu celular. Pôs a roupa para a malhação e resolveu ir à academia de ginástica.

            Entrou como louco, indo em direção ao  local do último encontro. Repetiu o exercício várias vezes até que a hora azada coincidisse com seu relógio. Nada aconteceu. Cansou-se daquela espera. Voltou pra casa.

            Era quarta-feira, como de costume, abriu seu vinho e o sorveu até a última gota. Deitou-se em seu canto preferido. Pensou na morte, Emile Dinckson, Macário e adormeceu.

            Estava na casa de seus pais. Estava no quintal amontoando um monte de papéis amarelos. Ele estava com o semblante fixo em suas mãos, o olhar não se desviava do vidro de álcool e os fósforos. Então, lentamente jogou, em quantidades espaçadas, o álcool em cima do monte de papéis. Cada gota do líquido manchava as inúmeras frases escritas quando ainda jovem. Cada palavra significava uma dor, uma sensação perdida, um desejo velado. Cada gota manchava e embebia de morte cada letra, cada frase, cada espaço vazio. Então jogou o fósforo aceso. A mancha se transforma numa grande bola de fogo. Tudo se ilumina e seu rosto se perde entre as labaredas e a fumaça. Sua mãe grita:

“- O que é isso meu filho?”. “ Não se pode brincar com fogo”, bradou nervosamente.

            A dor na cabeça parecia-lhe roubar a razão. Acordara como se tivesse bebido trezentas doses de marguerita a base de Jose Cuervo. Sua mente não dedilhava as impressões da noite anterior. Ficava sempre assim quando perdia o controle das coisas. Nunca soubera lidar com a ansiedade. Todas a suas unhas podiam cobrar-lhe a dor incomensurável de suas pontas perdidas e preocupantes noites sem sono.

             A espera por qualquer coisa sempre fora o pior dos seus defeitos. E a vida sozinho havia o tornado alheio a esse defeito porque suas manias, sua falta de senso para as coisas o deixara fechado para a percepção do outro. Seus livros eram o único esmero. Limpava-lhos todas as poeiras e deles permitia-se esperar por mais um, até que a prateleira se completasse. Somente assim sabia lidar com a espera.

            Ele tentava entender o sonho anterior. Na verdade, ele lembrava parcamente do que havia acontecido no sonho, mas podia se lembrar claramente de seus papéis amarelos. Eles tinham sido banidos de sua vida. Não representavam mais nada. Eram pura influência de Álvares de Azevedo, de Byron, de Oscar Wilde em De profundis. Era uma lembrança da morte; da morte em seus planos mais significativos de renascimento, de ressurreição, de novas perspectivas. A morte naquele incêndio era o reflexo de um suicídio de uma vida repleta de dor e ódio. Naqueles papéis amarelos sobreviveu um outro homem que não é o de hoje. O sonho tinha a ver com renascimento, com procura pelo novo, pela vida.

            “- Mas o que aquele sonho tinha a ver com minha ansiedade?”, perguntou-se sem reposta. Lavou o rosto. Foi trabalhar.

 

V

 

            Desde o primeiro flerte na academia, os dois se encontraram esporadicamente. O que era ansiedade tornou-se mera antecipação das coisas. Toda aquela insegurança havia passado. Agora os encontros se repetiam com a freqüência de um casal normal. Mas não havia cinema, tampouco jantares. Cada um dormia em sua casa. Mas não porque isso era determinação dos dois, e sim porque o outro quisera assim.

            O outro não beijava. Dizia sempre que o beijo era muito importante. Mas como o passar dos anos começou a ceder e já conseguiam trocar um leve beijo de língua. Essa fraca constância de beijos intensos deixava um deles raivoso ao ponto de se insurgir conta o outro.

            “- Por que você não me beija?” “ Por que me evitas?”.

            Os ânimos começavam a se acirrar em todos os encontros. Um deles se envolveu de tal forma que espalhava aos amigos que tinha um namorado. Mas apenas ele não sabia disso. A relação ficava mais íntima, apesar da falta dos beijos. As cobranças por horários, por mais horas, mais tempo junto. No entanto, o outro sempre fugia. Não dava explicações. Sumia. Voltava na mesma data em que a saudade do sexo batia nos dois de forma intensa. E a única vontade que unia os dois sem discussão era o sexo. Essa era a linguagem do outro. Às vezes não havia muita conversa. E nisso ele era habilidoso.

            Certo dia um deles ligou e em poucas palavras trocadas desejava sexo imediato. Estava na porta do apartamento e queria que o outro abrisse a porta pronto para consumarem uma relação à beira da escada, mesmo sabendo dos riscos de serem pegos em flagrante. Quis uma vez, duas e, na terceira, ouviram passos no corredor de baixo. Ainda sob êxtase dos fluídos trocados, recompuseram-se rapidamente. Um deles subiu e o outro desceu. E assim resolveu-se a questão do beijo. Pois não houvera beijo. E nessas situações esquecia-se do beijo. Contentava-se com o alimento do gozo e da euforia.

            Mas depois da euforia e do vazio do gozo, um deles ficava sempre triste. Entrava num mundo em que as dúvidas se avolumavam de tal forma que começavam a ganhar contornos de monstros. E esses monstros começavam a habitar seus sonhos de forma constante e quase diária. E esses monstros ganhavam asas e chifres; olhos vivos, bocas de sangue. Olhava-o de perto e enxergava algo familiar. Perguntava-lhe o porquê da inexistência dos beijos. Olhava-o mais de perto, sentia seu cheiro e percebia a feição do outro dentro da retina dos olhos do mostro. Esse pacientemente balançava a cabeça simulando uma negativa, esboçando um sorriso cínico. Chegou mais perto ainda e tentou arrancar-lhes os olhos. Acordou.

[…]

             Ele tinha certeza de que nesses anos havia apenas beijado uma única boca além da dele. Foi apenas uma fraqueza diante de tantas desventuras por qual passava sua relação. Às vezes se perguntava se realmente deveria ser somente dele. Mas no íntimo acreditava que tudo redundaria em compromisso sério.

Mas hoje parecia que seu mundo havia desabado. Não podia acreditar que em suas mãos estava a confirmação de sua sentença antecipada de morte. “-Não, não…” disse reiteradas e inaudíveis vezes. Apenas para si. Guardou aquele momento. Silenciou em si uma verdade mortal.

“-Como pude ter sido atingido pela foice mortal, se ao menos não me expusera a nenhum risco?” Sua mente se perguntava sem respostas. Um flashback de momentos diversos passou pela sua cabeça. Em minutos toda sua vida tinha sido passada a limpo.

Pensou, pensou e não havia uma pessoa sequer que poderia ter sido tão cruel e insensível. Olhou novamente para o exame e não quis acreditar. Pensou em ligar para o melhor amigo. Mas tinha receio da rejeição, da conseqüente pena e de uma revolução em sua vida.

Pensou, pensou…

Havia uma possibilidade sim. Uma loucura de pensamento. Ficou a contemplar a foto do outro. O outro. Aquele único objeto de sua atenção e devoção. O outro que tinha em si a definição de castidade e ingenuidade. Isso, o outro era ingênuo. Não podia ser ele o algoz. Mas por dentro pressentia a dor de uma punhalada iminente; um corte vivo, sangrando quase que real. Via na foto os olhos dele em tom de vermelho. Lágrimas pareciam cair e caíam com a violência de um rio. Ficou parado fitado os olhos do outro. Vi-o de joelhos implorando perdão. E o rio inundava sua vida de ódio, de medo, de morte.

Pensou mais uma vez na possibilidade como um erro imperdoável. Não podia ser ele.

(…)

Aquele dia tinha demorado anos. O tempo parecia ter parado, mortificado. O sangue tomava de conta de todo o apartamento e quase poderia ter-lhe sufocado. Então, o outro chega. O encontro havia sido marcado sem nenhuma pretensão. Ele havia controlado a emoção, enquanto o outro viria ao encontro com a alma cheia de sua constante ingenuidade.

“-O que significa isso?”, perguntou sem deixá-lo entrar. E sem saber do que se tratava, pegou os papéis e leu atentamente. Uma espécie de brisa gelada percorreu todo seu corpo e deixou-o imóvel, sem palavras. Por alguns instantes olhou fixamente o papel sem saber o que fazer.

“Vamos, o que você tem a dizer?”

“Eu, eu… vou te ajudar…” Falou sem pensar.

“Como vai me ajudar? Não te preocupa o fato de eu ser o que não posso ser mais; de não ter mais o tempo de amanhã? É assim que deve ser?” Perguntou ele quase chorando.

O outro ainda não conseguia se desvencilhar do frio que o petrificava. O papel ficou refletindo uma luz de culpa, focando em sua face o nome do pior dos assassinos. Aquele algoz que poderia ter se furtado do encargo e ter-lhe perdoado de seus próprios erros. “Poderia ter evitado“, pensou como se fosse seu último pensamento. De repente, num impulso inconseqüente, correu de encontro a janela aberta como se quisesse voar para longe dos problemas. Quis saltar, para do alto, se sentir leve; mais livre; menos perigoso. Tentou correr desesperadamente e, no impulso para a morte, seu braço o impedira.

Ele segurou forte o braço do outro. Ele não deixaria que seu grande amor fosse perdido de uma forma trágica. Não imaginava que seu plano para a confissão terminasse em mais dor. Queria apenas a assunção da culpa e um compromisso mais sério. Queria ele por completo, sem mais segredos e sem distâncias. Queria-o assim, bem perto; sem mentiras, sem desculpas, sem mistério. Queria-o assim bem perto de sua pele, bem próximo de seu rosto e demoradamente perdido em sua boca.

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