Essência

Tantas vezes falei que não me trairia; tantas vezes ouvi Amy se condoendo de sua incapacidade. Somos todos maus às vezes.

Internalizei uma culpa gigantesca de não considerar as possibilidades como realidades. Temos tanto pouco tempo. Eu sou pessoa jurídica agora e que dialoga diariamente com o cara da minha própria foto. Não se trata de reflexos, mas de outras imagens. Tantas vezes falei que não me esconderia.

Acordo de um sonho e tenho a certeza de que não somos eternos. As palavras servem para os outros. De que me adianta esse pergaminho que apenas eu contemplo?

Ouço uma música até a exaustão. Frases como um estranho numa sala; tenho sido negligente com meu amor parecem atestar outras tantas verdades que deixamos de viver por medo. A vida pode continuar por outro meio, mas eu não queria a poesia póstuma como alento.

Caio numa pesquisa. Perco-me tentando entender o que os outros disseram, e tenho que continuar dizendo a mim mesmo que não terminei ainda. Continuo o passo enquanto os carros se aproximam e se distanciam como se fosse a real definição da vida. A música de ontem já não toca com sua intensidade. Descubro o novo – uma invenção da lembrança para não escapar do passado. O passo com o tempo fica firme, mas claudica na tentativa do acerto.

Não querem deixar que eu seja eu, outra pessoa se impõe – o estranho no quarto, que a música fala. Por que tanta preocupação com o tempo? Por que a medida da imortalidade para nos dar o preço das coisas? E continuo me enganando com minhas poesias!

E tanto me aproximo como me alongo na imagem autointitulada eu. Quando erro, quem sou eu? Existe erro pequeno? E se sim, pode ele se equipara à rejeição? Somos tidos como humanos e se errar é prerrogativa do ser, por que continuo me perguntando tanto? E o reflexo do outro lado pergunta outras tantas coisas que parece melhor desistir da perfeição por um instante!

Não foi a culpa que me esculpiu o medo da educação. Descobri que foi a falta de responsabilidade a que me atribuíram por, claro, ter construído um caminho próprio, longe da margem, tortuoso, cheio de provas. A irresponsabilidade se confunde com o tempo perdido sem esmero. Pra tudo. E isso me ocupa as horas não dormidas e as palavras desferidas. Até quando?

Ligo a televisão para não me sentir sozinho. Mas sei que isso também é uma escolha! Falo muito de amor, saudade, medo, ansiedade com um tom quixotesco que beira o abismo. Mas sei bem que essas coisas me são caras e passageiras. O que não falo é que as outras coisas por serem mais raras são mais vividas com intensidade, como felicidade, sorriso, chuva, sabor de saliva, as cores das palavras, o som das almas e o gosto do beijo.

Não me tenham por poeta da dor. É mentira em essência!

 

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