Música no corpo de fuga

Capa do livro MÚSICA NO CORPO DE FUGA de Fabrício Fernandez.

Música no corpo de Fuga é um livro de encontros, mas não são encontros quaisquer. São encontros com o perdido da gente, aquele pedaço que ruiu, fendeu e partiu literalmente em errático destino. A fuga não é escapatória somente, é também um outro encontro, no entanto, já tem algo de pacífico. Mas nem tudo neste livro do escritor e jornalista Fabrício Fernandez é dissonância. Há uma ligeira melancolia que nivela as almas das personagens que estão em busca de uma identidade com o lugar de acolhimento e pertencimento. Lucas é um migrante que sem motivos quer fugir de Vitória, abriga-se por algum tempo em Brasília e é atormentado pela arquitetura egoísta e isoladora. Juli é um nativo que, mesmo acomodado ao plano da cidade, não se encontra no espaço de seu corpo. Ambos estão claramente em fuga.

O livro é repleto de referências literárias e musicais como se a literatura e a música fossem compondo este ser cambiante e andarilho. Aliás, é forte a presença de uma temática Nolliana aqui em seu texto: todos são andarilhos de si e de seus próprios rumos. Mas é impossível viver sempre sobre rastros perdidos:

“Qualquer consistência de permanência física era necessária para estar ou pertencer”, diz o terapeuta de Lucas. E por algumas vezes, Lucas tentou enraizar, porém o concreto ou o barro vermelho de Brasília não promoveram o ideal espaço. Mas ficamos em dúvida se a culpa – estamos sempre procurando um motivo, culpa – era, de fato, da cidade atordoadora. Aliás, a cidade era nova  e novo pode ser desafiador. Então nos perdemos nestes vacilos da existência de Lucas e Juli. “Quem são Lucas e Juli?”, me perguntei algumas vezes durante a leitura. Por incrível que pareça eu me encontrei neles. Somos estrangeiros nesta terra procurando um pedaço perdido e isso angustia quando a busca se mostra mais forte do que este desejo do reencontro.

Música no corpo de Fuga me deixou uma tarde em plena discussão comigo mesmo, sobre estas questões de existência, pertencimento e busca – ou seria fuga? Por alguns momentos, somos levados a concluir que realmente a fuga é o lugar do perdido, é lá que se encontra nosso pedaço outro. Mas em algum momento Lucas afirma: “Quem potencializa o isolamento sou eu…” E não será? Estamos na busca do fendido que nada mais é do que uma espécie de busca pelo amor: o calor, a família, os amigos, um amor vivido no passado… ou pode ser também uma busca pelo o que não-deve-ser-amor.

“Será que na vastidão desconhecida do amor a gente se amplia ou se reduz um pouco?”

Sei que fui me perdendo ao longo da leitura e, ao mesmo tempo, me recompunha na trilha sonora embutida na leitura porque algo do passado refazia o todo. Não era um todo completo porque assim como Lucas, também me perdera na arquitetura dos prédios e das almas dos candangos zumbis.

No fundo Lucas e Juli são pedaços de si mesmos perdidos, e que por alguma falha numa lei física que explicasse o magnetismo dos corpos, eles se excetuaram. É isso, exceção. Ali o conjunto daquelas almas, não parecia ter alguma regra descrita ou que não pudesse ser romanticamente burlada.

Mas em que pese a fuga em Música no corpo de Fuga não me pareceu um adeus.