Vidas provisórias, vidas possíveis

 

Vidas Provisórias

Vidas provisórias, vidas ilusórias

 

As vidas enredadas no novo livro de Edney Silvestre, Vidas Provisórias, encontram-se entrecortadas; no entre-lugar, no entre-tempo. Elas vão, em suas distâncias e proximidades, dialogando entre si. E nós, leitores modelos ou leitores empíricos, vamos cortando uma película de 8mm e com seus furinhos encaixamos as histórias, tentando recontar por meio do desespero alheio nossa linearidade dentro do passado de um Brasil não tão remoto.

Há uma diáspora de esperanças, perdidas na reconstrução da vida por outros espaços, outras identidades. Aí, aquele filme que cortamos, vamos colando num anteparo chamado de memória – ou seria tempo? – os pedaços da vida.

Edney Silvestre vai, verdadeiramente, costurando as memórias e os medos; as vicissitudes e as peripécias de Paulo e Bárbara entrecortados pelos traumas e pelo futuro. Novas identidades inauguram a esperança, mas ainda o passado revisita-os contundentemente.

Temos então duas vidas, duas histórias, duas épocas da história do Brasil em que os anos de chumbo da ditadura militar são reconstruídos milimetricamente por ações, períodos curtos, e uma perfeita descrição dos ambientes, pessoas e lembranças. Ao expatriado só resta as memórias dos sabores, da família e da lembrança.

É possível viver uma nova identidade sem a memória afetiva e perturbadora do passado? Viver longe de nossos referenciais telúricos nos tornam mais preparados para o novo?

Minha recepção do texto de Edney Silvestre levou as minhas leituras internas; intertextualidade com outros livros que lera e que trabalham de forma estilística os mesmos temas em Vidas Provisórias. Foi inevitável não relembrar de Stella Manhathan de Silviano Santiago que relata essa e diáspora de si e da terra como refúgio para uma nova vida. Paulo depois de tortura pela ditadura é asilado em outro país para não ser morto; Bárbara quer encontrar em sua viagem para os EUA a experiência de viver um sonho:“the american way of life”; e os livros de Paulo e Bárbara, que Edney separa propositadamente em cores diferentes, recortados, vão revezando as histórias dos personagens. Tal estilo fez simbolicamente Assis Brasil em Como os que bebem como cães, no qual a experiência da prisão é também recortada entre o pátio e a cela; experiências que nos torna alheios a nós mesmos e tudo o que resta são os poucos vestígios de uma vida anterior – igualmente torturante para quem dela já viveu. Tanto temas como o estilo de contar suas ficcionalidades são revisitados – pelo menos em minha memória de leitor – em Vidas Provisórias. Isto mostra que uma obra sempre nos conecta com nossas experiências como leitores.

E como se inaugura este novo ser, este devir fugindo do seu próprio passado?

Paulo foge, com ajuda do irmão coronel do Exército, para o Chile depois Estocolmo para que não perdesse sua própria vida, mas antes disto sofrera as torturas pelos aparelhos repressores da ditadura militar no Brasil. Já Bárbara foge de uma família sem carinho, de uma recessão econômica, desemprego historicamente avassaladores de um período de incerteza econômica, inflação no Brasil. Brasil é o ponto irradiador destes personagens que vivem entre a saudades e os monstros que o passado alimenta – e por que não um mistério da própria vida?

O livro de Paulo é mais robusto, mais consistente em histórias. Todo seu passado fora apagado, entre registros de nascimento, registros escolares, fichas de emprego, tudo havia sido apagado de sua vida. Assim, vivia a reconstruir sua vida em outra línguas, outro país, outras texturas femininas. Anna seria esta nova textura existencial, essa tessitura de uma nova roupagem a lhe dar um novo significado. Já o livro de Bárbara revela uma mulher saindo da adolescência – ainda a reconhecer o sentido da dor – e descobrindo a vida pelos braços dos outros; pelos olhos dos outros. A família de outrora deixada no Brasil é substituída pela histórias de seus clientes de faxina: putas; Silvio, um cadeirante velho e gay. Enfim, o novo se refazia nessas vidas por diversas formas, repletas de experiências desconhecidas, que na precariedade inventavam suas vidas novas.

Se eu fechar os olhos agora cai como uma luva, não apenas como um recurso do autor para resgatar o sucesso de seus personagens do seu livro anterior – recolhendo da memória de Paulo a amigo de infância Eduardo – mas, como se fosse um recurso fílmico esse abrir e fechar dos olhos, transportando-nos para a próxima cena. É assim que vamos adentrando a narrativa de Edney; levados por um viés específico no qual os fatos históricos vão compondo também as novas rotinas dos personagens Paulo, Anna, os filhos Edward e Joseph; e Bárbara que nada tem dela senão seu futuro. Paralelamente, o autor vai misturando acontecimentos entre os anos de 1970 até 2001 dentro da teia de seu próprio enredo. O pano de fundo fortalece o sentimento de pertença e de degredo; de lembrança e de recomeço. O término da USSR, as crises econômicas, a guerra do Golfo, o ataque do 11 de setembro, as instituições internacionais, enfim, estes acontecimentos vão se misturando à narrativa de forma inteligente como num thriller psicológico.

Os livros de Paulo e Bárbara vão se adensando, enquanto a história é reclamada nas incertezas da nova ordem mundial tal qual a vida dos próprios personagens, enredadas pela contínua força do passado e a urgência para com o novo. A língua, os espaços, a multidão de estanhos costumes vão fortalecendo a necessidade pela vida, apenas pela vida. Os vínculos são fortalecidos pela insistência do amor, da continuidade – e por que não na busca da felicidade roubada. Edney nos transporta por entre as dores de duas almas perdidas pela falta de terra nativa, dos cheiros e lugares de um Brasil deixado para trás. Cada um de nós tem a vida provisória que precisa ter, enquanto tal podemos dela nos aproveitar para rearranjar nossas histórias. O passado é uma esteira movente que nos carrega para além da dor e da existência. Somos precariamente, provisoriamente, num jogo que a vida possa parecer, levados a acertar os passos que uma nova vida nos impele a continuar.

 

 

 

 

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