MELANChOLIA de Lars Von Trier

Melancholia é um grande planeta que se aproxima da terra. Aparentemente não oferece riscos aos humanos, mas a melancolia na terra sim, esta traz a devastação interna de uma alma.

Fiquei tentando entender Justine. A sua leve e ingenuidade iniciais me pôs em cheque com minha capacidade de entender um início de filme. Queria ver beleza e lucidez numa mulher que estava na cerimônia de seu casamento. Queria ver alegria ao invés de melancholia – ops melancolia.

De pronto sabemos que nosso solitário planeta de vida vai ser atingido por Melancholia. Somos adestrados a entender ao som de uma intensa música em tons claramente clássicos, que ora nos emerge numa sombria predestinação convicta e nos submerge com a possibilidade de um erro de cálculo. Ficamos antes da grande colisão, entre as imagens de dor, desespero– e por que não melancolia – e o inescapável nefasto destino a que a melancolia nos submeteu.

A cena do casamento; a festa  nos coloca em contradição pensando na pompa e circunstância da cerimônia em si e na pobreza de valores nos personagens que são apresentados.

Memorável a fala da mãe de Justine – verdadeira personificação da tristeza e frustração daquela vaidade contingente – quando, em seu discurso, fere com palavras a alegria que o momento envolvia e declarava como repugnava a idéia do casamento. Uma reação clara ao ex-marido que se encontrava a mesa rodeados de mulheres – todas para ele eram Betty(s). Todas as mulheres dele pareceriam comuns em vista da ex-mulher frustrada e de discurso seco. Surpresa para quem acompanhava o desenrolar desse imprevisível casamento.

Justine começa a se mostrar uma mulher instável. Em sua própria cerimônia de casamento se isola, toma um banho de banheira clariciano, que me remeteu a Joana de Lispector , e que invariavelmente demonstra que podemos quebrar os nossos protocolos internos. Afinal Melancholia se aproxima e parece como uma grande lua a mexer nos sentidos, nas paixões, na lucidez, na algazarra de nossa aparente racionalidade.

Parei de entender Justine e comecei a entender que o destino da terra não está mais em nossas mãos. Estamos vulneráveis – apesar de Justine pensar que somos o único miserável planeta inteligente. E se estamos sozinhos quem se importará com mais uma grande explosão explicativa de tudo?

A grande lua se voltou contra nós. É grande a melancholia que se aproxima. Lars Von Trier tenta nos mostrar quão grande é nossa melancolia. Ela está presente mesmo em nossos mais insignificantes momentos. Ela é breve, tal qual a conjunção carnal de Justine com o provável colega de trabalho. Tão breve quanto à felicidade do seu futuro marido, Michael, estampada numa foto de macieiras que poderão dar frutos e sombra – preterido em sua primeira noite conjugal.

Mas não temos apenas Justine, temos a sóbria e aparentemente “normal” irmã, mas que se desespera com a possibilidade da grande colisão. De  que vale a pena um bom marido, um castelo como casa, uma família estável, se todo o trabalho vai se desintegrar em minutos?

O embate familiar entre as duas – assim como dos pais-  parece repetir o eterno diálogo maniqueísta; a dualidade das coisas em que nos opomos e nos ajustamos. Estamos sempre alegando o mau e o bem; a felicidade e a melancolia…Mas nem sempre sabemos a medida certa dessas dualidades; o que devemos realmente utilizar para as nossas vidas. Às vezes somos maus e às vezes somos ruins. E ruim vem de ruína. Sempre estamos nos implodindo para nos construir de novo.

Lá vem o grande Melancholia nos atingir sem receios, sem pedidos ou concessões. Atinge direto aos personagens: a plácida Justine e a desesperada irmã. Kirsten Dunst se desnuda em nossa frente para mostrar que nem sempre a lucidez é a resposta certa para a compreensão das coisas. Talvez resida, na loucura dela e nossa, a certeza – como quis Camus colocar no suicídio a resolução para o absurdo – de que estamos sempre errados quando apontamos a lucidez como salvaguarda de nossos sonhos.

Talvez haja uma beleza nesse poético filme sobre o fim do mundo.

Hoje sabemos que, de certa forma, a Melancholia nos atingiu não tão longinquamente.

Anúncios

2 comentários em “MELANChOLIA de Lars Von Trier

  1. Permissão para deixar um link muito especial para mim sobre o tema-http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Wlooals8eL0

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s