Dindinha!

O chão batido; uma poeira leve e deliciosa nos sujava de alegria. Para matar a sede o pote cheio de água decantada – ou seria encantada? Tinha a concha e o copo de alumínio. Eu na rua brincando de ser gente, brincando com meus irmãos, vivendo a melhor das férias: a casa da dindinha!

Nos fundos, para limpar a alma, o chuveiro de lata furadinha. A água caía solta como se quisesse me pegar de todos os lados. Não abria os olhos. Era o melhor chuveiro do mundo. De tão alto percebia que o mundo poderia ser assim, de prazeres simples e de alturas indescritíveis.

Do alto me lembro da sua alteza. Ela a gritar comigo – menino de cabelos loiros –; um mimo, o do meio, o queridinho, o diferente! Eu sentia que podia ser diferente. Tudo era diferente naquele pedaço de casa, de rua e de quintal. Afinal quando se é criança a permissão soa como liberdade.

E a dindinha ficava com as mãos nos quartos – as duas – a observar meu comportamento. Ficava olhando, perdia o olhar às vezes e eu nem me tocava de que aquilo tudo: preocupação e zelo misturavam-se ao amor. Amor de mães duas vezes.

Mamãe se desfazia ligeiramente de ser mãe, Dindinha ficava a fazer às vezes. “Tem que comer o que está na mesa!” E não era braveza, era delicadeza. Não dava para sentir a tristeza, vez que depois de todo protocolo à mesa, fazíamos tudo de novo…

…poeira, rua, as atenções de minha querida Dindinha!

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