XIII CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS. VITÓRIA/ES, OUTUBRO 2011

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Texto apresentado na conferência: A VOZ DO SEREIO

A voz do Sereio- a voz do Sereio - A autoria Homotextualizada.
Autor: Roberto Muniz Dias, mestrando em Literatura pela Universidade de Brasília. robertomunizdias@gmail.com

Neste trabalho, pretendo discutir a empreendida desestabilização do cânone pela crítica literária feminista e as possibilidades abertas; dessa maneira, para os estudos gays e lésbicos. No entanto, a teoria e crítica feminista constituíram ao redor de seu objeto de estudos, a escrita de mulheres. Quando se trata de abordar a escrita de autores gays e autoras lésbicas, os estudos de gênero, embora constituam um ponto de partida, não são suficientes como aporte teórico. A Teoria Queer provê um referencial teórico mais adequado para esse fim, pois permite sondar uma voz identitária outra, encontrável em conjunto de textos que se agrupam em sua linguagem, e por uma temática sexual peculiar, configurando o que podemos denominar de homotextualidade. Um desses textos é a escrita de Caio Fernando Abreu, corpus deste trabalho.
Camerado! This is no book; Who touches this, touches a man; (Is it night? Are we here alone?) It is I you hold, and who holds you; I spring from the pages into your arms-decease calls me forth. So Long (Walt Whitman) 
            Toda vez que releio Morangos Mofados de Caio Fernando Abreu, sinto uma espécie de identificação imediata tal qual aquele homem sob a chuva, o corpo embebido de conhaque e a alma ansiosa, cheia de saudade. Sinto aquela mesma vontade de perceber que alguém me espera e que apresso o passo na correspondência certa dos desejos. A falta de pontuação proposital e o parágrafo extenso me dão uma sensação de ritmo de urgência, o amor não pode se calar. A voz muda do personagem se propaga por entre o som da chuva. Sim, uma voz. Voz rouca, voz inaudível, melancólica; outras vezes, vívida por reafirmar uma condição, um estado, um afeto ou uma identidade.
            As vozes que se dignam a falar, nesse discurso ficcionado, revelam sentimentos guardados, abafados – nem sempre tão resistentes –, imbricados com temas tão apropriados para a hodierna discussão da Literatura Contemporânea. Podem essas vozes maduras de homens gays seguros de sua sexualidade – cônscias de seus papéis como seres performativos dentro da representação que lhes são atributos intrínsecos, registrar um sentimento de genuína autoidentidade?
            E tanta subjetividade pode ser apreendida pelo cientificismo reinante, de uma autoridade positivista, heteronormativa, detentora do cânone estabelecido? A voz gay pode ser objeto para o estudo da Literatura como viés epistemológico? Os estudos e contribuições do feminismo, como produtor de um conhecimento crítico, muito contribuíram para o reconhecimento e inclusão do sujeito-objeto para o entendimento do fazer crítico literário. Para Rita Terezinha Schmidt:
“O que a crítica feminista propõe, no território dos estudos literários, é uma epstemiologia, reumanizada. Alicerçando-se nessa tríade inegociável – interesse + conhecimento+ agenciamento – a crítica feminista promete uma nova tradição de pesquisa. Nova porque os pressupostos e sua prática possibilitam uma interseção de estratégias – política, pessoal, teórica, textual e filosófica – que fazem convergir, no ato e na cena da enunciação, vozes que não têm presença no discurso científico tradicional.” (SCHMIDIT,1994. P.23-32)
            A tríade proposta pela crítica feminista conjuga os elementos cognitivos de uma nova postura pós-modernista, pós-colonialista, dando espaço para estudos baseados na historiografia valorativa de conteúdos de raça, condição social, sexo, minorias. Então, a inclusão do sujeito como partícipe do processo de crítica e construção do saber torna-se o seu diferencial em relação às antigas e ensimesmadas teorias.
          Com propriedade, Terry Eagleton observa que “a vida futura de um fenômeno é parte integrante de seu significado, mas este é um significado do impenetrável aos seus contemporâneos.” (EAGLETON, 2006. P.329). Seria o homem do conto de Caio F. Abreu, sob a chuva, implorando atenção, batendo, batendo, na porta do companheiro. Um marginal ou um ser com identidade própria, amor definido e pleito justo? A quem ele direcionava aquela preocupação e manter-se limpo? Talvez nem o autor soubesse de suas repercussões ficcionais, mas, sim, ele sabia que falava de pessoas e anseios inexprimíveis. Mas é um devir. Somente agora temos a amplitude de sua significação. Parece um deja vú esse passar de páginas de Morangos Mofados.
            Por muito tempo, vivemos imiscuídos num discurso monocromático, essencialmente heteronormativo, patriarcalista, judaico-cristão. Eu entendia tudo isso numa simples frase enunciada pelo meu pai: “futebol é coisa de menino, deixa de lado esses desenhos!” Estava tudo ali embutido. E resgatando Eagleton, vim entender melhor essas normatizações somente agora. A tal questão do gênero-sexualidade nunca foi tão discutida como depois dos movimentos femininstas pós-estruturalistas, dos movimentos lésbicos e gays. E a intedisciplinariedade entre Literatura e os estudos sobre homossexualidade nunca foram tão presentes como no contexto atual. Tanto que a Literatura se tornou um viés para a articulação dessas vozes marginais e desarticulação dos discursos majoritariamente heteronormatizantes de uma escritura que se pretende universal.
            No entanto, como afirma Anselmo Peres Alós, em Narrativas da Sexualidade: Pressupostos para uma poética Queer, os fundamentos dessa poética “não estão apenas a serviço de uma descrição das narrativas, eles também possibilitam uma acurada análise de como o texto reflete, subverte e questiona a realidade no mundo social no qual está inserido.” (ALÓS,2010. P.843) Mas o que uma poética Queer, senão um monte de vozes misturadas numa tentativa de clamar por uma plataforma política homogênea? É possível assegurar as essas vozes tratamento equânime?
            Longe de discutir a legitimidade e hierarquização de anseios, visualizo novamente o homem debaixo da chuva, molhado, com cheiro de conhaque, e de como, talvez o autor nunca tenha se apercebido do que realmente escrevera. Aí reside minha real fascinação pelo texto, naquilo que cabe a mim: a forma como o recebo. Eagleton, ainda em sua Teoria da Literatura, uma introdução, pontua:
 “a teoria da recepção examina o papel do leitor na literatura, e como tal, é algo bastante novo...poderíamos periodizar a história da moderna teoria literária em três fases: uma preocupação com o autor (romantismo sec. XIX); uma preocupação com o texto (Nova Crítica) e uma acentuada transferência de atenção para o leitor... para que uma literatura aconteça, o leitor é tão vital quanto o autor.” (EAGLETON, 2006. Pag.113)
            É aqui onde me localizo, nessa identificação clara com o outro que sou eu mesmo em outro tempo, debaixo da chuva. Mas em tudo o sentimento e o desejo se equivalem. Partindo do ponto de que eu me identifico com a leitura, a apropriação estilística que faço eleva minha categoria identitária a um nível ontológico. A compreensão e reconhecimento do meu status asseguram uma existência mais concreta e sadia. A questão da identidade gay no literário – como meio de expressão dessa voz mencionada – não se trata apenas de reconhecer características de uma poética aristotélica. Alguns querem reconhecer apenas marcas identitárias de uma sexualidade fora do padrão; outros advogam a existência de uma compilação alusiva ao tema. No entanto, segundo MacGee, nos últimos trinta anos no campo da crítica e da teoria literária, os estudos do sujeito “serviram para perceber que o sujeito é, antes de tudo, uma categoria da qual não se pode abrir mão.” (MACGEE, 1992. Pag. 13).
            A Homotextualidade, acertadamente falando como categoria estratégica para a implementação de uma crítica literária, inaugura uma estética experimental de contextualização, uma espécie de temática específica. Tal texto se alinha com outros de temática homoafetiva, reiterando temas e situações na elaboração de uma espécie de sintagma operacional dessas leituras. Por outro lado, a Teoria Queer amalgamou diversos discursos e individualidades, vinculando novos coros de vozes como se a sensação de pertencimento fosse alijada. Como afirma Kristeva, em Estrangeiros para nós mesmos, “todo nativo sente-se mais ou menos estrangeiro em seu próprio lugar.” (KRISTEVA,1994,p.27) A experiência do ser e estar gay promoveu a desconstrução do paradigma heterossexual estabelecido e conferiu  voz e vez àquele que se sentia marginalizado. Pareceu-me que alguém abriu a porta respondendo ao personagem de Caio Fernando Abreu no conto Além do Ponto.
            Que acontece se me declaro gay? Um adulto consciente dos constructos sociais submetidos, aceitos e rejeitados; introjetados e repelidos; refutados e assimilados; como lidar com certo abandono do que se tem experimentado e vivido?
            A questão do gênero, como debatida pelas feministas, abriga certa diversidade. A mulher pode recusar o biológico, refutar a maternidade, então que papéis sociais podem ser desempenhados por ela? Igualmente, ela pode, apesar de lutar por seus direitos, aceitar a maternidade mulher que recusa o biológico, que refuta a maternidade. Essa plêiade de possibilidades parece se desvanecer num discurso radical. Há uma liberdade teleológica sim, uma conformação feliz ou uma identidade decantada. Como disse Focault: “a vontade de ser um sujeito moral e a procura de uma ética da existência era principalmente, na Antiguidade, um esforço para afirmar a própria liberdade e dar a sua própria vida uma certa forma na qual podia se reconhecer e ser reconhecido por outros e onde a posteridade mesma poderia encontrar como exemplo.” (http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/estetica.pdf)
            Entendo que exista uma hodierna descentralização do discurso, ainda citando Focault: “as relações que devemos ter conosco não são de identidade: devem ser relações de diferença de criação, de invocação. É muito difícil ser sempre o mesmo!” (Foucault, 1994, p.739). Mas mesmo com a defasagem do tempo ainda me sinto e me vejo nas linhas de Caio Fernando Abreu, com o sentimento, com a dor, a alegria. Sou parte de um devir estabilizado. Tornei-me um gay pronto. No entanto, dentro desta poética Queer, não há unanimidade em ser este sujeito cambiante focaultiano. A crítica a este postulado é feita pelo movimento Lésbico que procura, também, uma identidade própria neste conjunto. Segundo Jagose, “o ceticismo Queer acerca do evidente estatus de identidade de categorias tornou-se suspeito para aqueles que simplesmente pensam que isto é apenas apolítico ou mesmo uma forma reacionária de intelectualizar.” De certa forma esta desestabilização das identidades é uma clara estratégia de homofobia:
“Nós não podemos permitir que o discurso privilegiado patriarcal (do qual o pós-estruturalismo não é senão uma nova variante) para apagar a identidade coletiva que as lésbicas tem recentemente começado a estabelece...Pois o que realmente  resultou da incorporação  da desconstrução do discurso,  no acadêmico discurso feminista, pelo menos, é que a palavra Lésbica tem sido colocada em aspas, se usada ou mencionada, e a existência de Lésbicas reais tem sido negado, mais uma vez.” (WOLF e  PENELOE, 1993,p 11).
            Parece existir uma luta sectária dentro do movimento Queer para a identificação dessas categorias que antes se unificaram para a luta por direitos e quebra dos estereótipos normativos. Uma espécie de resgate de autoria vislumbra-se nesse momento em que a Teoria Queer tende a perder sua carga política e de representatividade.
            Superadas as questões seminais dos textos edificantes do marxismo-engelismo, do edipiando de Freud e do simbólico de Lacan, tenho a dizer como homem gay maduro, que as práticas realizadas no campo performativo de minha sexualidade, atingiram uma estabilidade que me autoriza distinguir: desconforto de prazer; aceitação de rejeição; sedentarismo de nomadismo. Matei meu Pai, o totem; matei minha mãe: pari-me. Faço parte de uma comunidade unívoca com voz ativa. Sou parte de um coro estabelecido. Podemos falar no Brasil, do marco histórico da aprovação da união civil gay, e isto abaliza uma identificação, uma identidade. Esta respaldo jurídico libertário reforça os pressupostos de Focault quanto à estética da existência, mencionada alhures.
            No entanto, Tânia Swain, no seu Identidade nômade : heterotopias de mim, faz-nos divagar eternamente sobre o que somos, como se pudéssemos desempenhar um papel social inexoravelmente imiscível. Não sou partidário do essencialismo. Tampouco corroboro com os construcionistas que alegam ser a sexualidade algo fluido, o efeito de acondicionamento social. Eu sou o que sou. Porém, o que se quer debater aqui é a ontologia da identidade assumida por um gay adulto, para o qual não mais importa definir conceitos ou desestruturá-los, parte-se deles para um campo de desejos decantados onde se luta por uma existência harmônica, sem uma ideia fixa centrada na constante contestação, nem alicerçando uma passividade de uma verdade não-socrática.
            Os movimentos feministas e de liberação gay trouxeram à baila os problemas de ordem do gênero-sexo-sexualidade. Como afirmou Guacira Lopes Louro: “por certo vivemos num tempo em que os binarismos de gênero e de sexualidade são insuficientes para dizer dos sujeitos e das práticas contemporâneas.” (LOURO, 2008, p.145) Mas dentro do discurso feministas, as alas radicais e as mais brandas, se acotovelavam pela sua verdade. E mais adiante, Guacira se questiona: “Haverá efetivamente, uma única verdade? Ou as verdades serão múltiplas? É possível conviver com a pluralidade das verdades?” (LOURO,2008, p.147). Deixo que o filósofo Sócrates em seu debate com Protágoras estatize que a verdade é relativa.
            Lutamos tanto para o reconhecimento de uma identidade, de uma voz que fora esquecida, ocultada, suprimida, disfarçada, mascarada. Clamamos por igualdade  genuína entre os diversos entes ex-cêntricos, performativos da sociedade. A bandeira da Teoria Queer, ainda sob as matizes do arco-íris, batizada por Teresa de Lauretis ainda flamula com a mesma intensidade? Numa conferência sobre sexualidades gays e lésbicas, ela pronunciou:
“o projeto da conferência foi baseado na premissa especulativa de que homossexualidade não é mais para ser considerada marginal com o fundamento contrário forma estável de sexualidade (heterossexualidade) contra a qual seria definida tanto pela oposição quanto por homologia.” (de Lauretis, 1991: iii).
            Ela advoga – agora reconsidero Eagleton e sua revisão do passado –, por uma nova reconceitualização: “como formas sociais e culturais em seus próprios direitos, embora alguns emergentes e desta forma ainda mal-definidos, descodificados ou dependes discursivamente em formas mais estáveis.” (de LAURETIS, 1991, p.iii-xviii)
            Lauretis se contrapõe à Teoria Queer, termo por ela própria alcunhado, uma vez que  a sistematização desse corpo teórico implicou o silenciamento de alguns grupos. Se há uma discrepância entre interesses, há vozes neste discurso justaposto Queer que pleiteiam características próprias. As reivindicações modernas dos movimentos lésbicos e gays, apartados da miscelânea Queer, constituem autêntica necessidade, não apenas de contestação, e sim de existência. Obviamente que existe uma classe gay norte-americana com expectativas e necessidades diferentes de alguns gays que vivem no mundo árabe, por exemplo, enquanto aqueles lutam por uma maior garantia de direitos, os últimos ainda resistem para poder existir como seres humanos.
            Quando troquei as alianças em meu casamento, as indumentárias que eu e meu companheiro usávamos eram dois fraques, um preto e um branco. Eu usava o branco. Depois de alguns anos, já separado, alguém me alertou para o fato do fraque branco significar: a noiva. Mas em nenhum momento àquela época, deixei-me influenciar por os estereótipos, os símbolos da representação dos papéis. O feminino não me cabia naquela existência. O casamento, a união, a representação de meu papel junto ao meu companheiro era o que mais importava.
           Vivemos num mundo lingüístico e simbólico onde as denominações implicam em atitudes. Portanto, a discussão ente os usos de Queer Theory ou estudos lésbicos e gays se entrelaçam metaforicamente neste exemplo. A teoria Queer seria uma forma de englobar todos os temas ligados à sexualidade diferente, mas dentro da intersecção epistemológica subsiste a tentativa de uma política que não reclama por todos e cada um. As críticas direcionadas à teoria em tela variam entre a perda do foco, um devir constante de sedimentações de interesses diversos e a visibilidade das comunidades sem oportunidades.
         Segundo Jagose, o termo Queer “tem o potencial para trabalhar contra as especificidades lésbica e gay, e desvalorizar todas as análises sobre homofobia e heterocentrismo desenvolvidos largamente pelos críticos gays e lésbicos.” (JAGOSE, 1996, p. 58) E mais a adiante, ela é categórica em afirmar que: “ele (o termo Queer) neutralizará a eficácia das lésbicas e gays como categoria, e esta flexibilidade iria conectá-los com outros cujo comprometimento com políticas anti-homofóbicas é disputado.” (Jagose, 1996, p. 63) Longe de este texto promover uma discussão resolutória, no entanto, fica clara a necessidade de identificação das vozes de forma menos teórica e mais persuasiva. Neste sentido, a conclusão de Jagose sobre o destino deste embate é que:
“Queer não é uma conspiração para desacreditar lésbicas e gays; tampouco desvaloriza os inquestionáveis ganhos feitos pela causa. Seu principal feito é chamar a atenção para as compreensões que – internacionalmente ou de outra forma- são inerentes à mobilização de qualquer categoria indenitária, incluindo ela mesma. (JAGOSE, 1996, p.102)
            Volto a minha releitura de Morangos Mofados e sinto que a voz de Caio Fernando ainda tem uma força peculiar. Mesmo que ele não defendesse uma Literatura Homoafetiva, ele escrevia sobre a perspectiva de um homem gay, com suas problemáticas e suas inquietações. Não sobreviveu a esta contemporaneidade para visualizar o quanto seu trabalho pôde viabilizar a identidade do amor gay, da dor gay, da existência gay. Segundo Anselmo Peres Alós (In Estudos Feministas VOl. 18 N.3/2010, pág. 843), reproduzindo as ideias de Judith Butler:
“...muito mais do que a voz singular de um artista, o artefato literário é a expressão de uma determinada perspectiva, de um determinado conjunto de interesses. As  tensões geradas pelas premissas das teorizações gays, lésbicas e feministas são extremamente produtivas para o desenvolvimento de novas estratégias textuais e intertextuais." (BUTLER, 1999, p.11-20).
            Caio Fernando Abreu não só parte de um ponto de vista particular, ele constrói em sua emblemática narrativa de um fôlego só, contornos de uma subjetividade além da linha; promove a inclusão, a visibilidade.
           Mais uma vez os Morangos Mofados em minhas mãos. E quando releio Aqueles dois volto, o pensamento a toda teoria feminista da qual se retira especialmente que não há um paradigma para o corpo, quando se fala de sexo. No entanto, segundo Butler:
“‘sexo’ é, desta forma, não somente o que alguém tem, ou uma descrição estática do que alguém é: dependerá de uma das normas pelas quais o sujeito torna-se viável, a qual qualifica um corpo para a vida dentro do domínio de inteligibilidade cultural.” (BUTLER, 1993, pag.2).
            E Aqueles dois de Caio Fernando: “...não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais, ou mesmo um pouco burros.” Ainda que não lhes houvesse a compreensão maior de suas sexualidades, a experiência homossexual tornou-se inteligível em suas vidas. E embora os outros da repartição, onde eles trabalhavam, não tinham entendimento do que aconteceria àqueles dois, os outros: “quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.”
                Butler afirma que deve haver um repensar, vez que as relações entre natureza e cultura são decisivas para construção do gênero: “esse repensar chama a atenção para a questão do modelo de construção por onde o social unilateralmente atua sobre o natural e o investe com seus parâmetros e seus significados.” (BUTLER,1993, pag.2) Por isso, repensar a natureza como uma mediação humana, é repensar os novos moldes e estruturas históricas que dão lugar a novos comportamentos sociais. “Aqueles dois” já eram cônscios de seus papéis quando ainda não entendiam sua complexidade. A inteligibilidade de Butler reafirma a condição da identidade como produto.
            Voltando ao viés literário, como forma de propagação da identidade Queer – agora o termo pode ser usado em sua amplitude -, diversas são as vozes que se unem ao coro da identificação como modelo contemporâneo de manifestação de identidade. O amor que não pode dizer seu nome, agora tem uma constituição mais sólida do que antes pudera imaginar. Desde o naturalista/determinista O Bom Crioulo até Berkelley em Bellagio de João Gilberto Noll; ou de Proust com O caminho de Swan a poemas de Gregory Woods, temos reconhecidamente nesse coral de vozes uma característica aglutinadora, o que se chama de Homotextualidade, ou como eu quis alcunhar: a voz do Sereio. Esse ser inventado numa condição de porta-voz, que com seu encanto imaginário, consegue agrupar um conjunto, cada dia mais amplo e afiado, em sua cantiga nada inebriante, nada hipnótica, mas de tom realista e humano. No entanto, orquestra tal como as mulheres, a metáfora de uma música conceitual, falando de homens que se amam, de mulheres que se amam. Ele dá voz ao corpo ou o corpo dá a voz, ou ainda citando Miller: “no corpo de sua escrita e não na escrita de seu corpo.” (MILLER, 1980, p.271). É uma voz que não se pode mais calar.
            Se as feministas sustentaram seu discurso num revisionismo dos conceitos de         Freud e Marx, deve-se contemporizar a fala daqueles escritores que por algum motivo se calaram diante da mesma, ou ainda mais contundente, situação opressora do patriarcalismo, do heterocentrismo, do cristianismo. Este último ainda carrega em suas estruturas a mordaça que ainda proíbe que muitas vozes sejam ouvidas. Mas mesmo assim, o desconstrutivismo de Derrida pode ser emprestado para ruir com todos estes dogmas regulatórios. Afinal tudo foi escrito por este mesmo homem branco-ocidental-freudiano. Porém, hoje, tudo se pulveriza com as desconstruções sobre a ideia do que é ser homem, do que é ser gay à luz da Bíblia, o que é família. Tudo se relativiza quando tentamos polarizar as razões do ser. Tudo se opera no lingüístico, no simbólico e segundo Walter Wink:.
      “A Bíblia vê a homossexualidade negativamente sempre que a menciona. E a repugnância sentida não era apenas por considerá-la contrária a natureza, mas por ser antijudaica, representando a incursão pagã na vida dos judeus. Pura perseguição, sem uma complexa inteligibilidade da condição homossexual.” (WINK, 2008, P,12).
            Isto posto, a Bíblia funcionaria, numa comparação mais que azada, como um Codex obrigatório, um código de condutas sociais, onde as práticas que redundariam das condutas vinculavam gênero ao sexo, enunciando o certo e o errado. E assim vincula estas manifestações proibidas ao pecado. Afortunadamente hoje, este espaço que antes era segregador, rende-se ao postulado maior das leis divinas e acolhe a diferença, com o devido sentido hermenêutico e teleológico da palavra cristão. Há m devido esquecimento de que, às vezes, a própria Bíblia celebrou o amor e amizade entre iguais. Citando o trabalho de Alexandre Feitosa em Bíblia e Sexualidade, ele faz uma análise da história de David e Jonatas – esquecida propositadamente, comparando diversas traduções que citam o versículo bíblico: E sucedeu que, acabando ele de falar com Saul, a alma de Jonatas se ligou com a alma de Davi; e Jonatas o amou como a sua própria alma.(1 Samuel 18.1 ARC) Para Feitosa: “ o autor bíblico utilizou a forma mais profunda de se descrever um amor intenso por alguém: amar com a própria alma.” (FEITOSA,2010,p.105)
            Não há de se contestar que uma identidade formada sobre a superação de alguns pressupostos antes intransponíveis, alicerça toda e qualquer afirmação identitária. Todas essas lutas predecessoras que aconteceram logo após os movimentos feministas e os estudos gays e lésbicos, mais do que apenas uma revolução, eles se estabilizaram no posto, ainda não pacífico, mas numa posição que atesta ao ex-cêntrico alinhar-se ao seu verdadeiro sexo-gênero, ao ponto de lhe conferir uma voz desarticulada do ideal e do imaginário; do padrão e do desalinho. Nem a flauta do Fauno, nem o encantamento da Musa ou da Sereia, apenas a voz do Sereio. 

Bibliografia:
ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. Rio de Janeiro: AGIR,2005.

ALÓS, Anselmo. Estudos Feministas/Universidade Federal de Santa Catarina.Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Centro de Comunicaçõa e Expressão.- v.18, n.3, (2010)-.- Florianópolis: UFSC, 1999.

BUTLER, Judith. Bodies that Matter: on the discursive limits of sex. Routledge.1993,New York.

De Lauretis, Teresa. "Queer Theory: Lesbian and Gay Sexualities." differences: A Journal of Feminist Cultural Studies 3, no. 3 (1991).

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução/ Terry Ealgeton; tradução de Walteensin Dutra; 6ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

FEITOSA, Alexandre. Bíblia e Homossexualidade: verdades e mitos. Rio de janeiro: Metanóia, 2010.

FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits 1954-1988, IV. Paris, Gallimard, 1994.   

JAGOSE,Annamarie. Queer Theory – An introduction. New York University Press, 1996                          

KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos.Trad. Maria Carlota Carvalho Gomes. Rio de janeiro, Rocco, 1994)

(MACGEE, PAtrik. Telling the Other: The Question of Value in Modern and Pos-Colonial Writing. Ithaca. Cornell University Press, 1992.

MILER, Nancy. Women’s autobiography in France: for a dialetic of identification. In: Women and Language in Literature and society, Ed. Sally MacConnel-Ginet, Ruth Borker & Nelly Furmam, Nova York, 1980, p.271

SCHMIDIT, Rita Terezinha, Da Ginolatria à Genologia: sobre a função teórica e prática feminista.IN: FUNCK, Susana Borneo(org). Trocando ideias sobre a mulher e a literatura. Florianóplis, SC. Universidade Federal de Santa Catarina, 1994.
SWAIN, Tania Navarro.
http://tanianavarroswain.com.br/chapitres/bresil/heterotopias%20de%20mim.htm

WINK, Walter. Homossexualidade: perspectivas cristãs. Tradução de Jaci Maraschin. São Paulo. Fonte Editorial, 2008. 

WOLF, Susan J. and Julia Penelope (Eds) (1993) Sexual Practice, Textual Theory: Lesbian Cultural Criticism, Cambridge, Mass.: Blackwell).
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