O escuro ou o novo?

Ouço o escuro do silêncio neste quarto fechado comigo. Experimento ouvir o som das teclas do computador como se elas fossem sinfonia geradora de algum ânimo. Ao meu redor, pensamentos disfarçados de fantasmas como se pudessem me assustar. Mas o único medo é o de a luz se apagar em meus olhos. Por um instante repouso a cabeça sobre o lençol macio. Sinto o cheiro, o carinho e o conforto gratuitos. Esqueço da luz, do escuro, do meu medo. O que me vem à cabeça é esquecer-me de tudo. Como se eu fosse um pequeno bebê que não sabe de nada, não tem nada. Eu não tinha nada, como tenho agora esse escuro. Parece nada e este nada me satisfaz. Não sinto necessidade da carne, nem do pensamento. Seria a escorregadia sustentação do prazer todo o meu sofrimento? Seria o desapego à luz, ao contato, ao pensamento uma solução? Estou quieto como se fosse aquela criança sem expectativas. Sinto uma felicidade inominada que ainda não conhecia. O escuro me permitia ver, a mim mesmo, sem impressões erradas de falhas psicológicas; sem os desejos primitivos de existência plena e satisfatória. Sem posses enfim. O que poderia querer? Nada, seria uma solução para essa eterna solidão? Seriam eternos esses desejos de querer e ser? Ser nada redundaria num corolário da felicidade? Continuo a ouvir o silêncio das coisas que me rodeiam e insistem em existir. Estão todos ao meu redor, embora eu não as reconheça. Sei que existem a cômoda, os sapatos, o dinheiro na gaveta, o lustre sobre minha cabeça, o amor lá fora. Mas o que me bastaria agora? Criança medrosa. O que é o medo dentro do nada? Não, não é medo! Ainda estou deitado olhando para a luz. Esta que dá cor as coisas, as desencobrem, as qualifica e dá nome a tudo. Seria culpa da luz a minha ignorância para lidar com o que não sei? Era a única coisa que deixava clara que eu era aquele ser cheio de perguntas. A luz, o conhecimento trouxe uma ligeira insegurança, uma tristeza que até então sabia. Mas seria a mesma tristeza de não ter nada no escuro? Mas não seria tristeza essa ausência das coisas? No escuro nada tem a mesma significância. É novo! Novo, novo… O novo inaugura a incerteza de uma possível felicidade e certeza de uma corriqueira desistência. Coisas se alternam nesse novo entender. O novo instaura a surpresa do alívio para as coisas inominadas ou mesmo as que vemos sob a luz. O novo preza o desapego, refuta as verdades antigas e sepulta nossos medos. Não tenho medo do escuro que me cerca e que me tira o equilíbrio. Com a luz reconheço os obstáculos. Mas é sobre o esteio do novo que recomeço a viver.

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3 comentários em “O escuro ou o novo?

  1. O problema do “cara”, do texto em epígrafe, é que ele nunca teve uma criança pra viver. Para ser justo com a realidade, ele nunca viveu a criança que deveria ser. Viveu-a em tempos distintos, em resgates. E sendo assim, é como se o berço e o gizinho pendurado acima da cabeça fossem as únicas lembranças de aconchego e atenção respectivamente. O novo desse “cara” é reviver as reminscências, dando novos significados.

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