O funcionamento das coisas

As palavras ferem e as palavras curam

 (Um pedido formal de desculpas à Giselle Jacques)

 

 

 

 

 A garotinha perguntou onde desligava o gatinho. Depois de horas brincando, diante do cansaço dele, queria saber como dar corda novamente. A mãe não sabia responder. Afinal ela não sabia como controlar a vida e a altivez do gatinho preto de olhos grandes. Ela entendia de livros, de cinema, de coisa de adulto.

Mas a menina não se conformava com a ignorância da mãe. – Onde desliga mãe?  Onde liga de novo, mãe? É uma coisa que se aprende, tentava balbuciar a mãe. Mas o que seria tentar explicar aquilo que não foi dito? Como preencher as lacunas? – Será que preciso saber de tudo para que minha filha se sinta segura? Ela se perdeu nesse pensamento longínquo.

A filha queria entender aquele mecanismo. Como se pudesse controlá-lo como um interruptor de luz, procurava por uma coisa parecida naquele corpinho peludo e preto. Mas o gatinho tinha truques diversos, não se deixava entender. Mesmo que procurasse lógica, ela nunca encontraria o botão do sentar, pular, parar. Ela não queria que parasse naquele momento.

A mãe estava entretida com mais um roteiro. Queria dar um fim à história da conversa. Queria entender a mente nada linear do escritor arrogante. Ela queria saber por que ele se mantinha tão irredutível. Ela queria preencher os buracos que ela mesma não entendia. Olhou para a filha envolvida com o gatinho sem mais questionamentos.

 – O gatinho foi dormir mãe!

Dia seguinte, e a pequena menina de sorriso dourado, não parava de interagir com seu pequeno brinquedinho animado. – Você aprendeu como desligá-lo? A mãe imaginou uma pergunta para iniciar uma conversa com a filha menos curiosa agora. Enquanto isso, a menina colocava a gatinha no colo, segurava-o pelas patas para que andasse com apenas duas, largava o gatinho livre, mas ele voltava para puxar o pelo de seu casaco. A mãe parecia intrigada.

Dia seguinte, e a roteirista ainda não havia decifrado a conversa. Estava muito petrificada por aquela falta de entendimento completo da história. Perdeu a tarde toda lendo um monte de despautérios de um escritor insipiente e incipiente. Ela queria entender. A menina não parava de brincar com seu gatinho preto de olhos luzentes. Pulavam, brincavam, se entendiam plenamente. – Você que saber onde desliga este gatinho serelepe? – A mãe não entendia aquela falta de questionamentos da menina sempre curiosa. – Eu te acho tão inteligente mãe! –   a criança falou sem encará-la. A mãe sem compreender o porquê, perdeu-se num olhar fixo para a filha. Depois de alguns instantes, a mãe ainda  ficara absorta naquela brincadeira sem fim de sua filha, que estava falava sem fôlego porque o gatinho não a deixava em paz. E sorrindo sem parar falava:

 – Ainda bem que a senhora não me mostrou o botão de desligar! Ainda bem!

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2 comentários em “O funcionamento das coisas

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