O Ânimo dos corpos

Para Giselle Jacques

 

Confidências em um único ato

Ele meteu como se pudesse me desvendar num único momento toda minha necessidade. Tentou safar-se de minha perspicácia em entender que aquilo era apenas brincadeira. Mas eu me entregara como se entrega no jogo, o rei em cheque. Sem escapatória coloquei-me numa servidão sem mensuras. A espera era silenciosa, enquanto ele tentava me descobrir; tirar vantagem. São assim mesmo esses jogos de sedução. O poder deve ser controlado. Qual o mal em dividir as entradas e saídas? – lembrei-me de um amigo! E por essas entradas e saídas é que descobrimos um ao outro; na permissividade do olhar sobre o ombro esquerdo (pode ser o direito), nessa lambida nas costas. Tudo deveria ser permitido. Mas esquecemos dos ombros, das lambidas, dos tapinhas, da palavra suja…do beijo. Não me interessa onde estou e sim como posso dividir o que sinto de forma ampla e não-egoísta. Mas será que só eu penso assim? E tudo isso vinha no mesmo instante em que o desejo diminuía e recrudescia, tudo de antagônico ao mesmo tempo; mas só servia os antagonismos salutares: dentro /fora; dor/prazer; líquido/secura; acelerada/parada; em cima/ em baixo. Enfim, os binarismos que movem a vida e por que não a vida na cama? Não me interessava quem chegasse primeiro. Tudo é questão de tempo e intimidade. Se houvesse muito tempo, acho que duraria aquele momento uma eternidade; se houvesse intimidade o tempo não seria bastante para a medição do que quer que fosse; qualquer medida pareceria atemporal. E ele continuava dentro de mim também como memória. A memória que embalava o gozo solitário, que não é mais descoberta e alívio para a falta. Somos sempre faltantes nesse vagar pela mente vazia. Somos (eu sou, acho) levados a sempre desistir quando se inicia, mas quando lá dentro de nós ( ou de mim) a coisa se enche de vida, revelando uma predileção íntima pelo quente, pelo carinho. Todos nós (agora é genérico) precisamos de dar e receber contínuos.

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Um comentário em “O Ânimo dos corpos

  1. Todos nos precisamos de dar e de reber continuos… minha nossa, alem de ler a alma voce escuta à sua necessidade. a alma quando é lida por voce, lhe pede socorro, socorro pra ser lida, socorro pra ser ouvida. que maravilha esse ânimo! que maravilha!!!

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