Os sons do nada

Eu gosto do barulho das coisas inanimadas. Tem-se, às vezes, a intervenção humana. No entanto,  parece que são vidas autônomas e autênticas. Aquele barulho do pisca-pisca do caro, alertando uma condição de permissão, de passagem. A volta é feita sob o barulho intermitente, cobrando a atenção e efetuando uma  transição. E, quando ao normal, parece que a viagem não prossegue.

Adoro o barulho da dobradiça. O ranger da porta faz com que, abruptamente, eu pare para escutar, escondo os manuscritos e me deixo levar pela sensação de leve medo. – Quem está aí? – ou – Quem você pensa que vai pegar em flagrante?

Gosto também daquele som da expectativa, aquele som do fósforo que não acende. Isto também excita minha falta de explosão. Esta necessidade de pólvora, pronta para a combustão – nem sempre acontece. Este é o barulho que mais me excita (para acender o cigarro, o fogão,  a cinza da brasa ou o fogo da lamparina.)

Tem também o barulho de uma broca, furadeira, a interromper o pensamento genuíno. Aquele momento em que eu adentro um mundo (escolhido pela leitura atraente) e, de repente, perco o valor da concentração e volto à realidade. Este é o barulho que incomoda, mas desperta para a vida. – Qual vida? – é a pergunta mais adequada.

E o barulho que não quer ser ouvido, como aquele do celular no bolso da calça. Aquele som que antecipa , que entremeia uma comunicaçã. O celular vibra no bolso e o pensamento se fixa numa ideia, numa pessoa ou situação. Este barulho se confunde com frustração, às vezes, nem ludibria nem esclarece. Tudo isso mitigado com a força da voz que atende. Pode parecer um outro alerta de vida, não é de despertar, mas de ligeira perturbação da alma. Lidar com expectativas é demasiado, contraditoriamente, propulsante.

E para terminar, me fascina os sons das páginas que passam uma das outras, na velocidade do pensamento, no entendimento, na aflição do personagem, na solução do crime, ou , pelo menos, na sensação inteira do poema.

Tudo isso me anima e me desperta, quando, às vezes, me pego ouvindo o silêncio da vida.

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