O Dia Seguinte ( Uma rotina de um casal gay)

 

Deu o beijo no companheiro como se fosse um dia qualquer. Mas era um dia pra ser igual aos outros. E ao mesmo tempo não era. Aquele beijo tinha gosto de vitória dividida. Tudo que tinham agora era deles, inclusive o pequeno Manoel no quarto ao lado.

 

“Quando o Estado nega-se a reconhecer uniões homoafetivas, ele instrumentaliza os homossexuais, sacrificando seus direitos. Ao não reconhecer as uniões homoafetivas, o estado compromete a capacidade do homossexual de viver a plenitude de sua orientação sexual.”

 

Ele saiu de casa logo após dá um beijo no pequeno Manoel. Sabia que agora ele estava seguro. Abriu a porta e sabia que não seria um dia fácil. Mais uma tentativa de aplacar o leão diário. A luta pela sobrevivência como um trabalhador comum. Tinha que escrever mais um capítulo. Deu um passo a frente da soleira. – Como vai o manuelzinho? – a gentil senhora quis saber.

 

– A formação da união homoafetiva é a experimentação de um novo a dois que se alonga tanto que se faz universal. Se as pessoas de preferência heterossexual só podem se realizar ou ser felizes heterossexualmente, as de preferência homossexual seguem na mesma toada.

 

Deu o segundo passo com o pé direito. Respondeu que o companheiro ficaria em casa cuidando dele. E, sim, ele está bem – diria sem precisar explicar nada. Era uma pergunta que deveria ser simples. Eles tinham uma vida comum. Seguiu em direção ao escritório. Alguém da vizinhança no caminho parabenizou com o polegar indicando positivo. Sentiu-se mais forte.

 

“Não é lacuna, é intencional silêncio. Se não estiver juridicamente proibido, está juridicamente permitido. Ausência de lei não é ausência de direito. Se não há lei que proíba, a conduta é lícita.”

 

Ele percebeu o que significava cidadania. Aquele sentimento que alivia a carga de ser diferente. Ele era diferente, mas não menos cidadão do que a vizinha curiosa. Sentiu-se altivo. Como sentia firme o pé sobre o chão que nunca lhe faltara. A terra parecia a mesma, mas o ar, a praça, a estrada , os prédios, a padaria, o supermercado, a igreja, o banco predileto, o restaurante da esquina pareciam mais dele do nunca. Nunca se sentira tão integrado ao que deveria ser ideal.

 

“ Não existe família pela metade, família de segunda classe. Casamento civil e união estável são distintos, mas os dois resultam na mesma coisa: a constituição de uma família.”

 

Sentiu um aperto no peito por deixá-los em casa. Queria ficar junto. Fazer o café da manhã. Saudar todos com um beijo coletivo. Mas a vida continua. Agora tudo depende deles. A família deveria continuar. Mais tarde estaria em casa. Sentaria no carpete as sala. Manoel sentado ao redor de seus brinquedos. A porta abriar-se-ia, Manoel entusiasticamente diria: – Pai João, o papai Pedro chegou! E os três continuariam a reforçar os laços familiares na rotina comum do casal que eram, da família que eram.

“Preconceito é um conceito prévio, engendrado pela mente humana fechada em si mesma e, por isso, carente de argumentos sólidos. Não reconhecer a união homoafetiva é uma brutal intromissão do Estado sobre trocas de afeto e de desejos.”

 

Independente do  final, eles viveram felizes para o enquanto sempre.

 

P.S.Os textos citados foram retirados do voto do Ministro Ayres Britto na sessão histórica sobre a decisão da União Civil de casais gays.

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