Sozinho de novo

 

Tá lá o telefone mudo. A unha fica menor a cada minuto. O pensamento longínquo não se aglutina.

Estou mal e não é doença diagnosticada daquelas que têm dor. Tem antídoto, mas não tem alívio eterno. E enquanto dói, a dor se alonga por horas.

O fato é que estou sozinho. O som deste estado do ser reverbera por todos os cantos da sala. Mas não é um som audível, e se o fosse não deveria ser nada benéfico.

Essa dor não para e se estende até que por alguma força você a esqueça: ou quando o sono vem; ou quando o telefonema é errado; ou quando o tempo acaba.

Quando o sono vem parece mais um pesadelo. Quando o telefonema é errado, você quer alongar a conversa. Quando o tempo acaba, a ideia fixa vai embora de uma vez.

Mas não pedimos para que o tempo acabe. Preferimos que as horas passassem, mas que o pensamento se fixasse na pessoa amada – ou naquela que projetamos – e que morrêssemos levemente ao invés de vivermos de uma vez.

Não é suicídio, é uma falta desesperadora. Não se entende a causa estúpida dessa lacuna. É uma tentativa de esperança elevada à categoria de felicidade, mas vinculada a existência do outro, ou pelo menos na sua presença física. Não se admite aquela imagem simbólica, eis que o simbólico se perde na memória de uma ressignificação.

E o que mais queremos é a interpretação conhecida; o toque vivo; a voz ao ouvido; o coração pulsante, ritmado com a paixão; o fluxo do sangue; a paz interna. Pode não ser paz – isto ainda não é ponto pacífico.

E mesmo tentando entender tudo o que se passa nesses momentos de solidão, nem mesmo essas linhas de desabafo podem me salvar. Fico ainda mais pensativo quando tento esquecer para dar razão à loucura leve que me angustia. Não passa a dor doutor.

Não dou razão à ciência ou a minha fraqueza? Dói ou magoa? Espero ou desisto? Existe ou não?

Por alguns instantes esqueço que pode ser ruim. Volto para os momentos que vivi – porque minha saudade tem uma existência –, e o que sinto é mais do que uma falta. Mas é falta porque estou sozinho. Mas o sozinho justifica a falta? Onde está a outra parte minha que me falta para que eu não me sinta parte, metade, sozinho?

O telefone não tocou. A unha sumiu de tanto esperar. O pensamento não para, não para, não para…

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