O peso da realidade

Incrível como a imaginação pode ser tão traiçoeira. Aqui sentado olhando para os desenhos no azulejo da parede, vejo figuras humanas, monstros, rostos de amantes antigos, a morte disforme, uma pêra madura, meu arremedo de caricatura. E fiquei horas a observar as histórias que podia interpretar; as pequenas histórias que podia contar para mim mesmo, acreditando que conseguiria fugir daquele instante. O gato saía de fininho até encontrar um pequeno pedaço de queiro meio borrado. Aí a labareda de fogo se avolumava e queimava apenas o ar que era da mesma cor do azulejo rajado. Parecia um céu deflorado cheio de pontos que poderiam ser estrelas, se fosse uma noite. E o rosto do ditador ficava parado. As condecorações eram claramente perceptíveis, e ele tinha uma arma que apontava novamente para aquele céu amarelado. Num único quadradinho podia ver uma história completa: os homens conversavam sobre a mulher do lado. A mulher do lado tem olhos manchados e rosto esquálido. Um avião passa rapidamente por sobre as cabeças de um monte de pequenos seres. Parecia que tudo existia lá naqueles desenhos instantâneos. Podia até ver pessoas antigas que já passaram pela minha vida; decerto com outros finais para elas: faces jovens, esquecidas. Tantos outros monstros: o bicho papão, a mula sem cabeça, meus piores pesadelos. Ainda que quisesse ver os sonhos eu não podia visualizá-los naqueles pequenos quadradinhos. Ficava horas a fio, tentando encontrar meu rosto. Mas meu rosto não se mostrava. A imaginação que tinha sobre essas imagens fazia parte de um mundo de memórias, mas eu não conseguia ver minha própria realidade.

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