O Cisne Negro

“the only person standing in your way is you!”

No meu livro, (veja aqui) têm algumas passagens em que o narrador, que não deixa de ser um espectro tautológico do escritor, vê-se assombrado pelas erínias- as bruxas vingativas. Elas o perseguem por ter cometido crimes de sangue; assim como em Cisne Negro, a bailarina vê-se perseguida pelos seus próprios medos. Uma sequência paranóica que coincide com o cometimento de um verdadeiro crime de sangue; a cena final do último ato.

Natalie Portman interpreta uma bailarina que sonha em ser a princesa transformada em cisne que precisa quebrar a maldição por meio de beijo de amor, um príncipe redentor de seu destino. Os cisnes, tal qual na opera do lago dos cisnes, em que os atos se alternam na cadência da música, alternam-se em atos nos quais a dramaticidade do papel da bailarina  se intensifica em cada pirueta. Nina está bem, confortável no seu desempenho do Cisne Branco; não seduz nem emociona nessa performance. O problema é encenar e dar vida à maldade dentro de si e encarnar o seu lado mais soturno. O cisne negro surge, dentro dela, a partir de sua mordida intempestiva, dada em resposta ao beijo do diretor da companhia (Vincent Cassel).  Este marco, apenas temporal, dá início ao tormento da bailarina na busca da perfeição da interpretação do papel. Ainda assim, com todos os esforços ela não consegue despertar o grande cisne negro. Mas o papel da princesa enfeitiçada é garantido à Nina como recompensa ao beijo sanguinolento. O diretor da companhia sente-se seduzido, mas ainda Nina teria de enfrentar suas inseguranças nesse meio tempo.

Ao lado desses desafios na interpretação dos dois cisnes, Nina vivia um drama domiciliar. Sua mãe não deixava de tratá-la como se fosse uma adolescente de 12 anos, ainda a ninava- não é mera coincidência lingüística a correlação- com os toques clássicos de uma caixinha de música em que uma bailarina dançava despercebida. Fica subentendida uma relação de dominação e ligeiramente, angustiosamente, incestuosa. Fracassos passados e cobranças camufladas de carinho em excesso são os ingredientes dessa relação caseira. Fato que provoca o estrangulamento da relação.

A trama começa a se desenrolar quando Nina começa a desafiar a rotina de sua vida, permitindo sair da bolha de segurança que criara na dedicação abnegada de uma bailarina quase perfeita, não fosse sua insegurança. Esta se materializa na bailarina substituta que parece lhe roubar os tempos preciosos entre uma pirueta e outra. Nina enxerga nos rostos dos bailarinos o desejo pela recém chegada bailarina; até mesmo os olhos do diretor ofuscam co tanta leveza e libido espontâneas. Assim, Nina adentra num verdadeiro jogo de verdades e mentiras, desejos ocultos e superficiais.

A automutilação é um jogo representativo daqueles que não se permitem ao desejo da carne, da vida. É uma forma de procurar o prazer de forma inversa, culpando-se por não poder chegar ao topo da liberalidade. Mas é assim que Nina enfrenta seus medos, num eterno jogo do real e fictício, ainda assim não despertara seu cisne negro. Seduzir. Esta seria a chave para o enfrentamento.

E como num thriller psicológico, o diretor do filme encapsula, num derradeiro delírio, a vingança das erínias sedentas de sangue. E no ato final, na cena final, ele promove o encontro entre as antíteses da grande opera. Nem o feiticeiro, nem o príncipe são os destinatários de seu amor. E o grande desfecho dessa opera cinematográfica são as últimas palavras de Nina, ao despertar o equilíbrio da dualidade.

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