O Livro Peregrino!

O Livro Peregrino

O livro foi esquecido propositalmente. Ele o deixou como se quisesse se desgarrar daquilo. Talvez ela tenha pensado em dispersar uma semente. –Mas qual seria o fruto? Por diversas vezes desgostar do que escrevera. Fazia as recomendações dos mestres: observar as vozes, a história em detrimento da personagem, ou o contrário; as revisões. Sim, estas últimas talvez o impulsionassem ao senso da inutilidade da obra final. Não visualizava o todo como algo prestável, útil. E as revisões foram muitas…

Primeira tentativa: “Deixei o livro sobre a banca. Coloquei o encarte qualquer em cima dele. Não queria ficasse tão visível o desleixe. Ainda pudemos conversar um pouco sobre o que eu intencionava fazer.

Subimos as escadas para, da plataforma superior, ficarmos observando o movimento de pessoas. A primeira a sentar foi uma criança. Mas porque estava entretida com o carinho dos pais, não deu muita atenção ao livro esquecido.

Confesso que fiquei ansioso com aquilo. Fiquei em pé por alguns minutos. Disfarçamos, rimos e conversamos sobre a falta de atenção das pessoas perante algo tão próximo a elas e o descaso para com as coisas.

Eis que três senhoras sentaram no banco. Desta vez a atenção estava no sorvete que tomavam. Uma delas chegou a sentar em cima do livro, mesmo assim este passou despercebido.”

            As revisões eram a parte mais enfadonha de seu trabalho. Mas faziam parte, também, de sua programação. Não propriamente dele, mas do livro sobre “como escrever”. Ele não acreditava que podia aprender uma coisa que deveria nascer consigo. Mas alguns outros amigos falavam da divisão de conhecimento; das aprimorações; da visão dos outros sobre seus erros; da assimilação das idéias; da voz da personagem. Enfim era necessário ler tudo novamente. A leitura parecia inútil. O pensamento, enquanto da leitura, perdia-se naquela vontade de alterar tudo; novas linhas acrescentar; mudar o cenário. Ler novamente, causava-lhe uma insatisfação. Por isso a ideia de livrar-se do livro, do trabalho final.

Primeiro resultado: “Por ocasião de um convite, tive a oportunidade de ir novamente ao shopping, o mesmo no qual deixei o primeiro livro. Então tive a impressão de que o livro não tinha saído dali. Imaginei que talvez algum funcionário do shopping havia guardado o livro esquecido no setor de achados e perdidos. Dito e feito. Abordei umas das seguranças do shopping; esta, entrando em contato com a administração, conseguiu localizar o livro. Estava intacto. Parecia o mesmo de antes.”

        Mas essa vontade de livrar-se de um fardo, estranhamente funcionava como uma provocação a todos os outros. Não parecia somente que ele deveria se livrar, por livrar. Reconditamente, existia algum sentimento mais puro, condigno com sua real intenção. O fato de esquecer o livro poderia funcionar como uma ferramenta de comunicação; seria uma espécie de contato com um mundo diferente. Geralmente, as pessoas procuram por suas predileções em prateleiras; conversam sobre suas leituras favoritas. Mas ele se ressentia daquele trabalho sem repercussão, sem audiência. – Seria o conteúdo do livro? Seria a voz onisciente da personagem sem vida? Ou seria uma questão de tempo? – ele se interrogava várias vezes. Talvez a questão do tempo fosse uma resposta plausível.

            O primeiro livro- diz-se que todo escritor começa poeta – foi uma compilação de desabafos guardados na gaveta. Mas um amigo preconizava que poesias não se faziam de desabafos. O processo criativo parte de uma necessidade maior do que um simples desejo abafado. A poesia funcionaria como um segredo desvendado; como uma súplica por atenção; uma revolta íntima; mas nunca um desabafo. No entanto, poesia podia surgir de uma bula, nas pequenas coisas sem atenção. Bem disse Bandeira, que sua poesia estava em qualquer lugar; e se qualquer lugar poderia ser tema de poesia, decerto um desabafo se encaixaria perfeitamente.

            Então o primeiro livro se encheu de poesias-desabafo. Aquelas que iniciam um movimento de desajuste, geralmente relacionados a algum silêncio da alma que ecoa dentro de uma espécie de grande galpão.  O silêncio se transforma em alarde audível apenas a sua pessoa. Esse começo despercebido, ganha contorno de aparente grito de medo e que continua ecoando. Mas agora o silêncio transmita-se para um som mais complexo, recheado de vozes. Vozes que se comungam num único som. O galpão já não suporta mais tanto eco. Amplia-se em sua dimensão mais apropriada. O som se propala; as paredes se estendem. O silêncio de outrora parece uma grande explosão. O desajuste começa a se alinhar com um sentimento mais estável, como se as palavras procurassem um armistício, uma paz declarada. Então o desabafo se resolve por si só. Ele se transforme numa resposta a uma inquietação inicial.

            Às vezes era apenas um desabafo infantil. Como se quisesse esclarecer as coisas mínimas menos relevantes. Mas se o sol aparecesse por entre nuvens a impressão que tinha era que tudo parecia perfeito. Fazia as pazes com um dia simples sem se angustiar com as outras coisas mais importantes.

            Ele conseguiu encher quarenta e seis páginas nesse processo cíclico, alternando períodos de guerra e períodos de paz. E não havia uma vontade de esquecer tudo o que escrevera. A poesia era um registro fiel de sua história das vontades, dos medos, dos segredos e por estas razões conservava cada anotação como partes de um órgão vital. Essas partes não poderiam ser extirpadas. Todas elas ficavam debaixo da cama. Lá não saíam. A manifestação artística não passava de simples desabafo. Fazia parte de um chamado mais complexo. A esta altura o exercício da poesia era um onanismo literário. A audiência era muito íntima. Era o esteio de todo e qualquer escritor iniciante. Mas como sentia que havia respondido a um chamado – apesar de intimamente sentir apenas como prazer solitário–, tentava se aventurar em platéias maiores.

            O segundo livro surgiria de uma outra compilação de poesias. Agora não mais desabafo; mas as denominava poesias – experiência. E não foi difícil colocar certa ordem as suas poesias novas. O salto das poesias desabafo para as experiência demonstrou um grande amadurecimento. Mas tal evolução não condizia ainda como uma resposta clara ao seu chamamento interno. E ainda assim o chamado parecia uma manifestação prolixa: ainda soava um prazer solitário ou uma necessidade involuntária.

Primeiro desabafo: “Confesso que internamente, mais uma vez senti-me frustrado. Tocar novamente em meu livro indesejado. Era como se reconhecesse faltas lacunas dentro de mim. Aquele não era o percurso que gostaria de dar ao filho enjeitado. Sentia-me culpado também por tanto ódio que nutrira por aquele livro. Era o primeiro romance; a primeira tentativa de colocar ordem as coisas que sentia, retirando as rimas e acrescentando personagens.”

        Um ritmo alucinante tinha empreendido para a confecção de linhas coesas. Uma história completa havia inventado, colocando-se nas partes mais dramáticas otimizando seu eu, transformando-se num monstro que não refletia minha parte mais recôndita.

            Ainda a poesia representava uma fuga, e ainda a audiência limitava-se ao seu próprio ego. Lia e relia seus textos na tentativa de encontrar e reencontrar antigos medos, sensações vividas; ou quiçá, de entender passagens imprecisas. Os registros funcionaram sempre como uma forma de reinterpretar-se, encaixar-se na comodidade das estruturas que conhecia. Dar uma volta no passado tornava-o uma espécie de controlador do tempo, do seu tempo imaginário. Ele estacionava naqueles pensamentos vividos e revivia-os com a intensidade de outrora.

            Lembrou-se da sensação primeira de todas as coisas que vivera até então. Todas as lembranças eram compartimentalizados em passagens levemente clareadas, que se alternavam numa memória vivida, resgatando separadamente reações e atuações; alternado, ordem e desordem, amor e ódio, esperança e um leve sabor de desespero. Não raro, essas sessões com palavras íntimas causavam-lhe certo arrependimento. Desejava queimá-la; mas então ficaria sem sustento. As colunas de seu fundamento ruiriam com as histórias fragmentadas, perdidas, eventualmente queimadas. Ele pensou então em esquecer estes arquivos; não deletá-los, mas extirpá-los por completo e transformar estas colunas em verdadeiras colunas de cimento. Deixou-as a partir de então, com vida de concreto, com o silêncio de fortaleza.

Segunda tentativa: “Tarde – Tive a idéia de esquecer o livro em outra cidade. Talvez um outro leitor, não tão próximo, pudesse aceitar a idéia de ler um livro esquecido, um autor anônimo, uma leitura incerta.

Ainda a idéia de livrar-se do livro. Ainda o crime me motivava continuar. Agora começava a pensar onde poderia colocá-lo: num velório, num clube, na rua, na casa de um amigo na praça, no hospício, na lanchonete, do bairro, na prateleira de uma estante, na multidão dispersa, na janela do edifício, num quarto escuro ou debaixo de minha vista?

Educava meu sentimento para racionalizar o que Oscar Wilde dissera no intróito de seu livro o retrato de Dorian Gray: “a única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada. Toda arte é completamente inútil.” E não sabia como ver esta imensidão de palavras que dei vida: inútil ou útil; feio ou belo; prestável ou imprestável. Até hoje, nunca soube, mas escondo os originais com receio de que a versão final envelheça minha alma. Meu crime não intencionava verter sangue.”

        Partiu então para idéias simples. A poesia retirava-lhe bons pedaços de vida difíceis de reestruturar. Partiu então para idéias menores. Começou a se reinventar em histórias que misturavam invenções do seu próprio eu. No entanto, ele não desejava se passar por um eu maior; um gigante construindo sua própria casa. Decerto ele precisava começar pelos sonhos dos outros. Também poderia começar com a observação das coisas ao redor como os carros, as crianças, as pessoas em geral. Porém, começou olhando pra si mesmo. Agora seria mais fácil colocar as poesias sem rima numa sequencia lógica, obedecendo o ritmo da dor, da inquietude, das fantasias, das visões, de seu mundo caricatural, da observação.

        A vespa construía sua pequena casa na grade da janela do quarto. A janela sempre estava aberta pela manhã para que a luz do dia esquentasse as coisas do quarto. A vespinha fazia seu percurso intermitentemente, enquanto ele observava seu trabalho. Ele não acreditava que a vespinha teria paciência de terminar a construção. E nada parecia demover sua intenção final.       Não havia uma falta de atenção sequer que a tirasse de seu objetivo. Depois de horas observando, ele pensou em atrapalhar a pequena vespa. Começou a soprar impedindo que ela continuasse sua construção. Mas ela não parava de trabalhar, mesmo sabendo que um monstro ameaçava; um grande monstro humano soprava de encontro ao seu movimento. Ela não tinha medo; nada parecia interrompê-la.

        Continuou a escrever sem parar, observando o ritmo de suas próprias palavras. Ele procurava o mesmo sentido para sua empreitada. Pensava que os objetivos humanos poderiam ser exercitados com toda a paciência vespiana. Nem mesmo os grandes monstros deveriam ser preocupações para a realização dos sonhos. Estes seriam seu combustível mais usado em suas histórias. Poderiam ser solitários, ou divididos quando os personagens apareciam dentro do mesmo enredo.

Primeira crítica: “O e-mail que recebi falava de uma leitura enfadonha. Segundo o leitor, o monólogo empreendido pelo narrador. Tornava a história sem o Ânimo de uma antecipação feliz. A história se centra numa aventura quase solitária de um homem sem interação com as estruturas conhecidas da vida em sociedade. Parece estar conversando consigo o tempo todo. O leitor não sabe como está o tempo lá fora, como estão as condições do relacionamento das outras pessoas. – Mas quais pessoas?- o e-mail questionava sobre a não existência de pessoas.

Eu já havia lido sobre isso. Alguns professores de criação literária orientavam na caracterização de seus nossos egos transformados. A caricatura ampliada de suas histórias não podia enveredar na viagem íntima e solitária do personagem (re) criado. E eu sabia dessas coisas todas. Mas deveria mudar meu jeito de escrever. Tudo que escrevia parecia um grande desabafo contra as paredes surdas. Sempre me achei um pouco vazio; sempre admirei a espiritualidade das outras pessoas. Aquela vontade de rever as coisas e acontecimentos com cores mais coloridas; a impaciência extirpada das suas rotinas; ver uma clichosa luz no fim do túnel. E a coincidência? Não gosto de acreditar nessas coisas, pois elas aconteciam na precisão de suas imprevisibilidades.”

[…]

        Então a história. Não podia mais mudar o curso daquelas histórias. As personagens todas já estavam confeccionadas; o enredo e o sentido das coisas lá dentro. Ele não conseguia se sentir a vontade com a obra completa.

        Não podia mais alterar nada das coisas que foram feitas. Era como filho feito, criatura que começava a engatinhar. Observava a criança crescer. Queria lhe tirar o leite, deixar definhar, mas a criança nascera forte com pernas taludas. A criatura não tinha mais que ser controlada. Já havia conseguido se manifestar com voz mais altiva do que a do criador. E ele se tornava cada vez mais desgostoso; mais desinteressado nesse processo todo. O livro tinha adquirido vida própria. Essa tentativa de livrar-se havia se transformado em bumerangue suicida. De nada valia sufocar com cordas fracas o fôlego de sua própria cria.

        Olhava sobre a mesa como se fosse um retalho de plasma retirado de suas mais íntimas vísceras. Como se repousasse o Frankstein de suas ideias sobre a mesa de criações. Lá estava quase morto, quase vívido. O livro de sua história estava lançado como garrafa ao mar. Incrusta. Vira limo de história espessa. O tempo é o único a retirar-lhe o substrato.

Segunda crítica: “O e-mail que recebi falava de uma terceira pessoa. Era a filha de uma auxiliar de serviço que recolhera meu livro no shopping; naquela primeira tentativa que tive de me livrar do livro. Ela falava em beleza, em reencontro de alguma coisa.

        Tinha dito que o livro parecia com o irmão dela, que parecia indecifrável como as palavras do meu livro. Ela desabafava que existia, na leitura do livro, uma vontade- como no personagem que criei- de falar alto para que todos o ouvissem. Mas não era fácil entender a leitura por conta de um rebuscamento; palavras novas que ela procurou os significados,etc.

        No entanto, o que me deixou mais tocado foi o fato de ela ter percebido o que eu nunca havia sentido. A leitura- ela continuava- me fez parar para olhá-lo como ele era. Ela nunca entendera o silêncio do irmão. Ela apenas o via como um incapaz. Sentia pena dele pelo fato de ele não ver a luz. Mas ele sorria por detrás de palavras as quais ela não entendia. Assim como no livro- ela continuava- que pôde entender a alegria por detrás do sofrimento. Ela falava que pela primeira vez que parou para ouvir as palavras do irmão, chorou copiosamente. Ela falou em pena. Pena de si mesma. Ela se sentiu como meu livro. Talvez ela não soubesse do meu plano, mas meu livro era ela. Deslocado; tentando se entender sozinho. Mas na verdade o livro era parte de uma complexa manifestação do movimento cíclico das paixões engavetadas; não-faladas; mudas; verdadeiramente cegas. Apenas uma tentativa de compreensão da leitura que somos deveria clarear toda a espécie de entrelinha que deixamos largada como moeda sem valor, filho enjeitado, ou irmão cego.”

        Ele pegou o livro novamente para realizar a última revisão em si mesmo: um chamado epifânico. Algo lhe pressionava à última revisão. No entanto, começou a fazer algo diferente do que havia aprendido até ali com seus mentores. Olhou mais uma vez para o livro. Este já não era mais dele. Havia crescido aquele filho rejeitado! Não convinha a ele pensar no que o livro tinha a dizer.

        Continuou com sua semeadura. Começou a plantar os livros como fossem sementes. Jogou-os por todo tipo de campo; terreno; terra fértil, seca; vida alegre ou triste.  O filho órfão voltou para casa. E deixou que ele crescesse e ganhasse vida; em suas mãos…na vida dos outros.

Anúncios

Um comentário em “O Livro Peregrino!

  1. Roberto, adorei O Livro Peregrino! Nossa, esse final: “Continuou com sua semeadura. Começou a plantar os livros como fossem sementes. Jogou-os por todo tipo de campo; terreno; terra fértil, seca; vida alegre ou triste. O filho órfão voltou para casa. E deixou que ele crescesse e ganhasse vida; em suas mãos…na vida dos outros. ” Achei fantástico! Parabéns, viu! E seja sempre bem vindo no Lá Vai o Livro. Grande abraço,

    Simone Ramalho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s