Deitado na sargeta, mas olhando para as estrelas

Deitado na sarjeta, mas olhando para as estrelas

         Pela trigésima oitava vez fazia, com as pontas dos dedos, o mesmo caracolzinho no meu cabelo, olhando fixamente para o céu empoeirado. Não combinava com o chão branco forrado de uma penugem das paineiras. Se estivesse alcoolizado diria que nevava aqui nesta terra seca. Mas parecia que estava sobre um chão de nuvens. E quando sentia um certo frio nos ossos, descobrira que estava sóbrio e sem casaco, debaixo do tempo parado, de uma sombra morna e de uma repetição de sentimentos.

        Estava se sentindo na sarjeta, mas olhando para as estrelas e isso lhe dava certo contentamento de ser humano, apreciando um céu que estava ali para todos. Mas nem todos se sentiam humanos por isso. Talvez ele sentisse essa pureza em meu coração porquanto o que mais necessitava era sentir-se mais humano naquele momento.

        41 anos e o pé ainda estava sujo. Parece que a sujeira estava ali desde a primeira vez. Incrustou como limo. Passou a mão para limpar um pouco a sujeira. Também tinha um quê de resgate de minha humanidade nesta atitude de limpar os pés.

         Então levantou para começar o dia.

        A cabeça parecia pesar o fardo dos erros do mundo. Ele assumia que carregava, como Atlas, o peso do mundo nas costas por conta de uma percepção cristã. Sempre bebeu muito, correu muito, atravessava as margens em poucas braçadas. Na outra margem, observava o trajeto da volta. Mas sem muita preocupação. Pensava que a onda de volta o trouxesse em sua crista. Era pensamento vão, como este que o invadia agora. Mas ele sentia o peso de tudo em suas costas. Para falar a verdade, parecia ser o peso de uma constante ressaca seguida da outra. Enfim, levantou-se.

        Sentia uma vontade de ouvir aquela música. Bem da verdade, ouvia-a todo dia. Mas sentia naquela hora a necessidade de ouvi-la com atenção. Sentou-se em frente ao Café Montserrat. Ficava bem pertinho de onde dormia. Por esta razão, caminhara apenas um bloco curto de prédios. Sentou na beira da calçada mesmo. A música já tocava. Parou apenas para ouvir. Hoje parecia diferente. Ela começou de novo. Parecia que alguém sabia que queria ouvir do começo. Puxou as pernas no abraço de seus braços. Trouxe-as para perto de meu corpo. Sentia-se como um menino que cumpria um castigo, ouvindo vozes internas de culpa e resignação. Então ficou lá sentado, como um menino culpado de uma travessura contra as regras, contra o mundo, contra Deus; cumprindo aquela rotina todos os dias. Mas, enfim, estava ouvindo a música do Montserrat. Assumia que não entendia muito da música. Mas sabia se tratar de uma música clássica por causa da clientela do ambiente, e também por pegar uma conversa de dois distintos senhores que saíam do café rumo ao táxi. Ouvia-os falar que gostavam da música daquele lugar. Como sempre quis entender daquela música, parou para ouvir o diálogo; aproximando-se silenciosamente para não interromper. Logo após ter ouvido que se tratava de Debussy, eles o olharam como se repreendessem a criança que saíra do castigo. O olhar era repreensivo e confirmava a reclusão ao espaço da calçada na posição de castigo.

        Mas hoje eu quisera ouvir Debussy sozinho. Sentou-se naquela posição. E não pediu nada naquele dia. Ficou apenas cumprindo seu castigo silenciosamente. E a música entrava nele como nunca antes; talvez, hoje, por que limpara seus pés, quisera tirar a sujeira despercebida há anos; somente porque hoje sentira que podia levantar de seu sonho nebuloso; da cama de algodão natural. Nessas razões simples do ser, residia a falta de pertencimento àquela situação rotineira. Aquele dia em si parecia diferente. Sentia-se diferente.

        As pessoas passavam como se não fossem mais um monte de insensíveis. Todas elas se pareciam com ele. Ele as olhava agora nos olhos. Via-se no senhor do lado, degustando seu café matinal. Via-se na senhora passeando com o cachorro; no menino que pedia mais bolo pra mãe.

        Olhou para seus pés, os dedos comprimiam até atingir o espaço exato da sandália. Olhou mais uma vez , e viu-se sentado na cadeira do café Montserrat, tomando café, ouvindo música clássica. O jornal se desdobrava em duas folhas abertas diante de si. As notícias falavam de uma guerra que não era sua. E nesse novo estado do seu ser, não se importava com os outros.

       Mais uma vez comprimiu as pernas, abraçou-as de novo, sentiu-se menor, mas estava livre do castigo.  A música continuava. Debussy! Tentava olhar para os pés, mas não conseguia vê-los. No entanto, sentia ainda o frio da manhã sobre a sola do pé. Estava descalço. Sentia a mesma dor anterior na perna. Ficou parado até que a última nota ecoasse no vazio de sua existência.

       Levantou-se. A calça quis descer pelas pernas. Ele a segurou como se segurasse toda sua última gota de moralidade. Olhava em volta com a preocupação de sempre. Mas decidiu caminhar para frente. Ergueu o semblante sujo e triste- com a moldura de pelos grossos-, até a altura do sol que começava a nascer forte e quente. Andou como nunca, esperando encontrar o que tinha perdido, enxergando uma pequena lembrança do que havia perdido.

        – Onde estão minhas sandálias?- ele se perguntava cegamente.

        Eram as sandálias que ele havia perdido. Elas aqueciam seus pés calejados. Ele as havia perdido numa noite de sonho. Acordou na noite sentindo falta de um dos pares da sandália. O pé ficara desprotegido; o frio mais intenso; noite mais curta e mais uma sensação de perda. E nesse dia claudicava como se tivesse perdido a própria perna. Caminhava com a coluna pendente para a esquerda; caminhava como se todos os pudessem ver nua nudez de civilidade; como se pudessem ver sua revolta com o roubo de sua identidade.

        Mas como se pudesse encobrir e resguardar o que ainda possuía, cobriu-se com o cobertor que achara no lixo e assim conseguiu aplacar aquelas dores que sentia na alma. Caminhou mais e mais. Duas ruas, dois blocos, mil pessoas, mil rostos anônimos. Sua busca era incansável. Seu pé descalço e sua única sandália sentiam o peso de sua incompletude. Caminhava repetindo aos berros:

        -Onde estão minhas sandálias?

       Mais um dia se passou e a única riqueza que lhe existia eram os sonhos com tufos de algodão que caíam sobre sua casa ao relento; sobre seu jardim de esteio; sobre suas roupas emprestadas. Tudo parecia como o dia anterior. Seguia uma noite após a outra; e em meio as preocupações fisiológicas e existenciais, rompeu com um grito o silêncio incrédulo da multidão, perguntando sobre sua sandália perdida.

        …Levantou-se para mais um dia. Ainda as paineiras, a sombra morna e a repetição de sentimentos. A sandália faltosa era difícil de se esquecer. O peso de seu corpo aumentava a cada dia; sua cabeça também. Levantou-se. Tentou correr. O cabresto da sandália quebrou. O ritmo de sua corrida parou à medida que a sandália se esfacelava com a violência de sua corrida incauta. Sentia os dois pés agora no chão desprotegido, molhado, seco, liso, limpo, sujo, nobre, ríspido, clássico, pagão, cético, enfim , todos eles.

        Saiu gritando no meio da multidão nua, crua, sem vida. Saiu gritando loucamente, abrindo com as mãos o ar que ia de encontro ao seu peito:

        – Quem roubou minha vida? Quem roubou minha vida?

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