Uma estória de um escritor num lugar que não existe livro ( mais uma estória começada e não finalizada)

– Não existe escritor aqui nessas áreas- disse o transeunte abordado pelo escritor anônimo. Assim, ele seguiu andando ainda atônito com a informação obtida. Continuou sua caminhada em direção a qualquer lugar; qualquer lugar que lhe disse a segurança que estava procurando. Mas não se sentia sozinho ali. A rua se alargava em duas pistas largas, os carros se deslocavam num ritmo alucinado, buzinas, luzes. Em tudo a cidade se parecia com uma cidade normal. Pessoas havia que se deslocavam normalmente por entre as calçadas; por entre elas mesmas. Nada parecia de diferente, senão o fato da inquietante descoberta. Os passos se apressavam numa velocidade não-espontânea. Caminhava como se soubesse de sua jornada final.

Sentia-se estranho de alguma forma. No entanto, não era um desejo seu andar por aquelas ruas. Sentia a necessidade de um café. A andança parecia não ter fim. No entanto o passo se afrouxava, o ritmo de seu fôlego recrudescia. Viu-se parado na frente do café Soul. Entrou. O burburinho enchia o espaço de uma decente animosidade, parecia que o lugar se enchia da civilidade que procurava. Sentou-se e acomodou seu olhar nos passos firmes da garçonete que se aproximava. – Pronto para pedir senhor-, ela perguntou com um sorriso igualmente firme. Ele respondeu incontinenti: – Você sabe onde posso encontrar uma livraria aqui na cidade?- ele perguntou olhando para o cardápio, procurando por seu tipo de café favorito. Enquanto isso, o rosto da garçonete mudava de um tom doce de quem estava pronta para bem atender e de repente, se insurge com o olhar cheio de incerteza. – o senhor poderia repetir a pergunta- ela perguntou tocando levemente com seu dedo o ombro dele. Este, trazido novamente para sua realidade desconhecida, retrucou repetindo claramente sua pergunta anterior. A garçonete não sabia responder, sentia-se impossibilitada em entender o pedido de seu cliente. O silêncio perdurava entre os olhares por alguns instantes, Então novamente, a garçonete repetiu com o mesmo tom em sua voz: – Pronto para pedir senhor? – e o mesmo sorriso singular rondava seu rosto na certeza de que desta vez estaria pronta para bem atender. Ele a observava, tentando encontrar qualquer sinal de excentricidade; uma tatuagem, um piercing, uma cicatriz, qualquer coisa que confirmasse a extraterritorialidade daquela mulher. Estranhamente tudo parecia normal, não fosse sua insistência em não entender a pergunta. E isso lhe causava mais inquietude. E ainda paralisado por tanta estranheza, permitiu-se uma nova pergunta: – Existem bibliotecas por aqui?- sua pergunta pareceu constranger novamente a moça, deixando no ar a mesma falta de trato para seu ofício. Ela se sentiu incomodada.  – Não existe isso aqui! O que é uma bi-bli-o-te-ca…senhor?

Ele se levantou, mesmo que intimamente já havia decidido tomar seu cappuccino que sempre acompanhava suas leituras; seus livros. Levantou-se quando se revolta com a má qualidade no atendimento. Revoltou-se com o cinismo com que a garçonete o tratara. Não quis reclamar ao gerente. Não quis outro atendimento. Saiu como que revoltado com a ignorância daquela moça, levantando dentro de si a voz que avolumava sua raiva. Um rosto bonito não poderia ter outro motivo para aquela garota ter sido selecionada, e não a última leitura que fizera seria parte da sabatina para o desempenho daquele trabalho. E novamente aquele ritmo se imprimia as suas pernas, aos seus passos. As ruas ainda estavam cheias. As pessoas continuavam em suas jornadas particulares. As luzes vacilantes iluminavam as ruas timidamente. Pareciam que se aninhavam para uma doce reclusão dentro de suas lamparinas.  E como um moderno dimmer, elas se diminuíam e podia perceber o cheiro de gás. Nunca imaginou, nem se deu conta de que não havia eletricidade na cidade. Tudo estava à meia luz; velas ou lamparinas iluminavam a mesa do café de outrora. As vitrines pareciam pinturas não-impressionistas. –Onde estão as sombras do sol?-perguntava-se como se a plasticidade das coisas fossem inanimadas. Como se o vulto das pessoas fossem sombras mal trabalhadas numa paisagem expressionista. A visão turva e as passadas mais largas. Mãos nos bolsos do sobretudo.  O frio salientava-se por entre as falhas das suas vestimentas. Sentia a necessidade real do café estimulador. O ar saía-lhe com dificuldades. Uma espécie de acomodação compulsória se fazia espontaneamente em seu corpo. Uma pele se descamava de sua subpele; uma necessidade de readaptação ao clima, àquela cidade. Os cheiros ainda novos, mas nada que não houvesse sido registrado em sua memória sensitiva. E tudo parecia absurdamente familiar. Repentinamente o estado de estranheza dava lugar a uma ligeira acomodação dos sentimentos. Ainda as passadas firmes e apressadas. Na garganta e por todo o corpo uma vontade de tomar seu cappuccino era quase incontrolável, como se encontrasse numa verdadeira fase de abstinência provocada pela ausência de uma droga. Seus passos o conduziriam novamente ao ambiente de um novo café. Novamente as passadas reduziram o ritmo avançado e logo estaria diante de outro café. Desta vez, entrou sem nenhuma hesitação. As pessoas também se amontoavam no pequeno salão do estabelecimento. Sentou-se e aguardou atendimento. Diante do garçon, antecipou-se. – Cappuccino pó favor- pediu olhando firmemente para o rosto fino e pálido do garçon. O pedido foi prontamente atendido. A xícara de porcelana tinha bordas douradas. Uma fina listra de porcelana branca se sobrepunha sobre a fina listra dourada. O requinte da delicada arte combinava com o círculo que emoldurava o centro do pequeno pires que apoiava a xícara de café. Observou esses detalhes como se quisesse localizar aquele objeto no tempo.  – A que época aquilo pertenceria? Lembrou-se, resgatando de sua memória sensitiva, de que as linhas distinguiam traços de nobreza de dinastias chinesas. As linhas eram confeccionadas com ouro e tinham as mesmas intenções da distinção que Luis XIV fazia com os saltos de seus sapatos, pintando-os de vermelho. As tintas faziam a diferença dos hábitos da nobreza; tiravam da mesmice os costumes que se espalhavam por entre os plebeus. Lembrou-se disso tudo por conta da última leitura que fizera.  Alías, o livro fazia parte daquele momento no qual seu cappuccino acompanhava sua mão esquerda e segurando o livro a altura dos olhos, a outra mão sustentava a leitura do momento. E o primeiro gole do café achocolatado, causava-lhe uma obrigatoriedade para com a mão vazia. Levava à boca a xícara milenar, mas sentia que aquela necessidade ainda estava incompleta. Então levou a mão insatisfeita ao bolso interno do sobretudo, do lado esquerdo, logo acima do peito. Tirou a mão que se enchia do livro de bolso de Thecov. Naturalmente ergueu o pequeno livro a altura dos olhos e manejando habilmente abriu com a ajuda dos dedos abriu na página marcada. A dama do cachorrinho tinha viajado ao encontro do amante. Aguardava-o com a mesma expectativa. E ele continuou a leitura enquanto durasse o calor que a outra mão proporcionava ao levar o saboroso cappuccino a sua boca. Os movimentos pareciam compassados como se orquestrassem na medida em que paladar e visão se alternavam harmoniosamente. Os movimentos se alternavam num momento quase hipnótico, o que acabou causando certa curiosidade. O garçom intrometeu-se, deslocando momentaneamente o leitor de sua apreciação. – O que o senhor tem na mão?- perguntou-lhe sutilmente recolhendo lenços usados sobre a mesa. Sem dar muita atenção o leitor atento respondeu: – É Téchov! – respondeu sentindo certo respeito às convenções a que estava acostumado. Deteve-se na leitura. – Perdão, mas o que é isso em sua mão, senhor?- o garçom olhava-o de soslaio timidamente limpando a mesa com o pano dobrado em sua mão. A pergunta pareceu reviver um desconforto. A princípio quis ignorar aquela interpelação, afinal já se sentia mais a vontade com o café e o livro. Aquela insatisfação e urgência para alguma coisa aplacavam os seus sentidos. No entanto, preferiu ignorar como quem se satisfaz com a nobre ignorância dos outros, aquela sensação se superioridade apelativa; plana-se diante da visão achatada que o outro tem sobre a existência de um outro mundo além. A soberba surge como uma alavanca que abre as comportas do mundo: só se salvam aqueles equipados com a bóia do conhecimento, com o letramento flutuante.  O olhar ainda permanecia fixo naquelas linhas que tentavam entender a necessidade da traição da mulher; o cachorrinho como artifício, um anteparo para que os outros não enxergassem o verdadeiro motivo.  Pessoas livres e felizes, ele lia. Ele pensava nessa afirmação como se libertasse de sua ligeira corrente presa a seu pescoço como se fosse apenas um ardil recurso para o plano final. Imaginou que a ignorância e desconhecimento daqueles garçons fosse algo proposital, próprio da categoria. Mas não poderia ser uma coincidência institucional. Era pura ignorância. Aquilo que lhe dava o brilho no olhar quando das aulas para seus sequiosos aluno no curso de Literatura. Seu olho brilhava no momento da dúvida. Momento em que seu prazer se diluía na imensidão da sala, ao explicar o porquê das entrelinhas. Lembrou-se que daquilo, desde o início. Era seu refúgio, sua recarga diária; a recompensa por ter escolhido aquele mister. Então, mudou o olhar como se quisesse se imaginar de novo naquele ambiente acadêmico. Voltou o olhar para a página seguinte; repentinamente, olhou para o garçom ainda a limpar os últimos resquícios de polvilho sobre a mesa. Tentou capturar aquela angústia que via em seus alunos; aquela vontade de saciar a fome de conhecimento; de juntar-se a bóia salva-vidas. _ Quero outro cappuccino-, solicitou ao rapaz que não parava de olhar para seu Téchov ainda a limpar a mesa. A solicitação parecia mais uma estratégia do que um pedido. Ainda que pudesse reconhecer as ruas como parte de sua vida, ainda assim, a arquitetura e as pessoas daquela cidade não pareciam catalogadas. Era apenas um estilo qualquer emoldurado por um mistério fragmentado no ar, no frio que cercava o pescoço, naquela dúvida recorrente; nos olhos do rapaz. Pensava consigo que talvez a exposição do livro tenha revelado meu gosto incomum; talvez o livro fizesse parte de um Index proibitivo; uma calunia inaudível; talvez fosse um mau gosto dele. Ele pensou inúmeras possibilidades até que o café pudesse novamente repousar sobre sua mesa como um alívio para seu leve desespero. Mas enquanto esse momento, não se aproximava, ele percebia uma espécie de desconforto, como se uma energia tomasse de conta de sua aflição inicial. Sentia-se como presa, encurralado. Talvez fosse esgotamento mental. Mas sentiu ao seu redor olhares, como se realmente existisse algo de errado com seu braço em riste, as mãos a segurar algum manifesto declaratório de guerra. A paz nunca seria uma possibilidade na vida da dama do cachorrinho e de seu amante. Ainda que o tempo fosse eterno o problema do adultério continuaria o crime deles. Ele refletiu sobre essas linhas. Pensou no julgamento dos olhares diante da sua aceitação, de sua predileção por aquela leitura. Por alguns instantes, ainda que o café não lhe desse novamente a segurança do seu ritual para a leitura; mesmo que o café e o livro contivessem sua desconfiança- antes mesmo que o garçom lhe direcionasse aquele olhar duvidoso-, ele se sentiu ameaçado pela a guerra declarada. Antes que todos voassem sem sua direção, antes que o julgamento da platéia condenasse o casal adúltero; e antes que o garçom colocasse a xícara sobre a mesa. Recolheu seu livro, levantou-se abruptamente e correu em direção à saída. Empurrou a mesa a sua frente, tropeçou na escada e rolou em direção a rua. Não teve tempo para racionalizar sua atitude. Agora, suas pernas imprimiam os passos mais rápidos de uma corrida. A necessidade do café fora saciada. O livro ficara para trás.  – O que tenho que fazer agora? Perguntava-se ao mesmo tempo em que apressava as passadas fugindo do garçom atordoado.

(…)

Falava internamente de seu medo. Como era estranho sentir-se monitorado a todo tempo. O medo se travestia de coragem externa. Todos diziam que conseguiria. Mas sentia que sua verdadeira vontade era sair em disparada carreira diante do nada- ou pelo menos em direção da saída. A porta estava aberta. Seria mais fácil agir assim do que ter que sentir-se desafiado. Correr do medo não parecia sua única experiência. Sempre utilizara essa estratégia para fugir das repreensões da vida, não como um rebate covarde de quem fustiga a onça presa na jaula, mas o processo curioso da formação da identidade. E fora assim correndo dessas armadilhas que se viu na primeira barreira às suas disparadas.

 (…) grandes e finitas reticências.

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Um comentário em “Uma estória de um escritor num lugar que não existe livro ( mais uma estória começada e não finalizada)

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