Pai é quem cria!

Ele só pensava no filho. Não se preocupava mais com seu corpo. Os músculos que lhe davam a fortaleza se amoleceram com suas novas responsabilidades.A barba surgia espessa da noite pro dia.Trocara os hábitos notívagos. Não podia viver a vida de antes. O filho era mais frágil; a mãe dele morrera e agora o resto da educação competia a ele, o pai acidental.

A criança não entenderia as referências a Tom de Finlândia, os quadros de torsos nus, as revistas, senão na cabeça do adulto perturbado com a nova função. A atenção não podia mais ser do namorado ciumento. As roupinhas, acordar cedo, levar para a creche, levar ao médico e as pequenas concessões que se fazem quando não se tem mais a si como um só, começavam a fazer parte de sua rotina. Ele logo perdera a companhia do namorado. Não havia meio termo entre eles. Então, deixou-se levar pela responsabilidade maior. Esqueceu-se de si. Temia a educação de seu filho. Os amigos apareciam de vez em quando em situações sociais compartilhadas: num shopping, na casa de parentes, na vizinhança. Escondeu de todos seu crime anterior. Sua vida pregressa não poderia ser revelada. A vida, agora, pertencia ao pequeno Kalvin.

Mas a justiça sabia de sua vida anterior. A assistente social era a presença feminina mais marcante naquele novo ambiente familiar. A presença dela servia para confirmar a salubridade, a higiene, a leveza da novo lar do pequeno Kalvin. Tinha de assegurar que a vida levada pelo pai não afetaria o comportamento e a educação do filho.

Ele a recepcionou como de hábito. As unhas estavam mal pintadas. O cabelo se arrumava num rabo de cavalo desajeitado. Os olhos cansados de uma noite mal dormida. Abriu a porta com o mais singelo e amistoso sorriso. Num dos braços, junto a sua cintura estava o pequeno Kalvin, que segurava em suas mãozinhas a chupeta azul. A assistente se deteve na cena, olhando para a camiseta transparente dele, na saliência evidente dos seus seios postiços. Enquanto se detinha na visão do pai nervoso, a criança, sentindo o calor do contato com os fartos seios do pai, insiste em pedir pela chupeta que cai no chão. E olhando para o pai e apontando para o chão, fala:

– Mãe, mãe…

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