Inocência? ( Texto integral)

Inocência ?

Quando dei meu primeiro beijo- não foi roubado, nem de graça- fechei
os olhos e não sabia como fazê-lo francês; os braços pendiam como
bambus jovens e as mãos, como girassois pesados. Senti como se tivesse
cometido um pequeno crime.
A música soava como tinha que ser para combinar com o ambiente. Um
escuro se apoderava das imagens que se formavam depois de minha grande
excitação. As luzes espaçadas, os desenhos multicolores que se perdiam
aqui na minha mão, no meu rosto, nas paredes da boate, nos móveis, no
teto…Pareciam holofotes procurando revelar minha alegria do primeiro
beijo.
Por alguns instantes me senti um grande adereço, uma imagem
decorativa. Fiquei parado sentindo aquelas sensações promovidas pelo
beijo do rapaz anônimo. Não sabia o que fazer com minha excitação
estampada no meu corpo. Um simples beijo apenas. E minha vontade era
de tornar aquele homem menos anônimo; talvez repetir, pedir que
repetisse o beijo. Mas ele queria mais e se eu repetisse, para ele não
seria tão emocionante. Então guardei comigo aquele beijo como
resquício último de minha inocência que, de alguma forma, tento
resgatar nas relações de hoje.
Quando dei meu milésimo beijo, já não sabia como denominá-lo. Talvez
pudesse chamá-lo de corriqueiro, mas com certeza não me causaria
aquela sensação do primeiro. Esse novo, apesar da constância, era puro
diletantismo. A noite perdia sentido se não conseguisse beijar por
beijar; mas nunca parava pra pensar no resgate do primeiro beijo.
Apenas beijar por beijar. E ele tinha mudado. Quando beijava assim,
meus braços se entranhavam na pessoa do outro, de forma a se
uniformizar naquele consumo das almas; as mãos se perdiam por entre a
roupas, nas partes mais íntimas tentando encontrar o cerne da
superficialidade. Não raro, encontrávamos nossos corpos suados. A
libido bebida na lascívia do suor, dos odores, dos amassos, na dureza
frágil de nossos pênis tresloucados. Meu corpo já não se mostrava
lânguido, perdido na sensação de um beijo ingênuo. Ao contrário, não
tinha mais o escrúpulo de experimentar o gosto da descoberta. Tudo
parecia conhecido. Os beijos se assemelhavam, se comesinhavam, se
acumulavam numa conta sem valor.
Hoje em dia, acostumei-me com o beijo distante, vivido na memória. A
ingenuidade nunca fora tão desejada como agora. Às vezes, nem mesmo
sei mais como beijar. – E como denominar essa ausência de beijo?.
Talvez seja o beijo Santo Agostinho- a espera sem fim. Porque
envelhecemos e ficamos novamente escrupulosos. E o que mais queremos é
um resgate humano de nossa atitudes.Mas não estou tão velho. De fato,
procuro uma nova excitação para um frio na bariga. Aquela que tive no
primeiro beijo, porque hoje tá muito fácil conhecer o outro no fundo
de um beijo mais do que francês. Nos entregamos aos beijos voláteis,
de esquina, de gisele, de um êxtase, de bala, de balada, contratado,
enfim a todos os que podemos esquecer no dia seguinte.
A busca de hoje é pelo sentimento que me invadiu naquela noite. A
lembrança do beijo que nunca se repetira porque desaprendi a beijar
inocentemente, naquela entrega pueril.
Hoje contabilizo 506.346 beijos – enquadrando todos os tipos -, mas a
pretensão de hoje é alcançar o beijo de número 1 (um).

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