AMOR MORTAL

Ele falou o que sentia. O medo real era do interstício; da demora; da ausência. Já cansara de visualizar o reflexo do espelho. A culpa? Bem, a culpa estava sempre no outro. Sua consciência não parava de admoestá-lo, mas ele aprendera a controlar seu alter ego. De que adiantava dar razão à consciência perturbadora? O certo seria continuar sofrendo. Até agora foi fácil readaptar-se ao eco do pensamento solitário. O corredor que levava a cozinha parecia grande; extenso demais para sua persistência. Mas tinha que atravessar; ouvir os passos e continuar acreditando que podia chegar ao outro lado. Mas sempre se debatia com seu cansaço; seu descrédito no homem. Ninguém se interessa pelo que já está anunciado morto. Mesmo que o beijo, o corpo, o sexo os animem, o que importa é o longo; o longevo; o duradouro; o eternamente jovem. Mas o que, de fato, anima o gozo do homem? É o impulso para frente, numa batalha de esforços comuns? Ou é o soprar do vento egoísta ao conduzir a viagem de cabotagem? Poucos ele conhecera que abandonaram o barco para que ele seguisse uma viagem segura. Entenderam sua justificativa e deixaram-se náufragos. E quando encontrou o porto seguro, a estadia é apenas pela aventura, pela história envolvida. Nunca é para habitar a ilha. Ele falou o que sentia. Mas o homem continuava no desejo incontido do perfeito, saudável, duradouro. Não faz parte do jogo a revelação íntima primeira. Abre-se a casca e a derme é comida ainda que o suor exsude. Mas o prazer anônimo; aquele que reconhece a legitimidade no obscuro; no não dito, ratifica-se o comum. Ele não quer mais o desterro, tampouco o casamento infeliz. Ele quer o outro não como complemento, mas como próprio. Ele quer o outro seu; outro corpo; outra permissão. E não queria mais falar sobre o que sentia. Não lhe interessava a sinceridade, nem dos olhos, nem da fala. Calou-se por muito tempo a espera de sua alvíssara cura. Guardou-se. Criou uma planta inteira até seu fruto. Esperou as estações vindouras. Anos após ano resguardou sua saliva e seu suor; seu sal e seu doce; seu mal e seu bem; sua dor e seu silêncio. Ele eclodiu como borboleta que rasgou o casulo. Não quis saber das cores das asas. Sabia-se colorido. Defrontou-se com o corredor desafiador. Calçou os chinelos, andando livremente por entre os cômodos. A voz soava livre, límpida, como uma antes nunca sentira. Esperou a risada final, detendo no reflexo de espelho. Ele sabia que restabeleceria sua altivez e sua felicidade. Regojizou-se com o sorriso espalhado. Sentiu-se curado. lou o que sentia. O medo real era do interstício; da demora; da ausência. Já cansara de visualizar o reflexo do espelho. A culpa? Bem, a culpa estava sempre no outro. Sua consciência não parava de admoestá-lo, mas ele aprendera a controlar seu alter ego. De que adiantava dar razão à consciência perturbadora? O certo seria continuar sofrendo. Até agora foi fácil readaptar-se ao eco do pensamento solitário. O corredor que levava a cozinha parecia grande; extenso demais para sua persistência. Mas tinha que atravessar; ouvir os passos e continuar acreditando que podia chegar ao outro lado. Mas sempre se debatia com seu cansaço; seu descrédito no homem. Ninguém se interessa pelo que já está anunciado morto. Mesmo que o beijo, o corpo, o sexo os animem, o que importa é o longo; o longevo; o duradouro; o eternamente jovem. Mas o que, de fato, anima o gozo do homem? É o impulso para frente, numa batalha de esforços comuns? Ou é o soprar do vento egoísta ao conduzir a viagem de cabotagem? Poucos ele conhecera que abandonaram o barco para que ele seguisse uma viagem segura. Entenderam sua justificativa e deixaram-se náufragos. E quando encontrou o porto seguro, a estadia é apenas pela aventura, pela história envolvida. Nunca é para habitar a ilha. Ele falou o que sentia. Mas o homem continuava no desejo incontido do perfeito, saudável, duradouro. Não faz parte do jogo a revelação íntima primeira. Abre-se a casca e a derme é comida ainda que o suor exsude. Mas o prazer anônimo; aquele que reconhece a legitimidade no obscuro; no não dito, ratifica-se o comum. Ele não quer mais o desterro, tampouco o casamento infeliz. Ele quer o outro não como complemento, mas como próprio. Ele quer o outro seu; outro corpo; outra permissão. E não queria mais falar sobre o que sentia. Não lhe interessava a sinceridade, nem dos olhos, nem da fala. Calou-se por muito tempo a espera de sua alvíssara cura. Guardou-se. Criou uma planta inteira até seu fruto. Esperou as estações vindouras. Anos após ano resguardou sua saliva e seu suor; seu sal e seu doce; seu mal e seu bem; sua dor e seu silêncio. Ele eclodiu como borboleta que rasgou o casulo. Não quis saber das cores das asas. Sabia-se colorido. Defrontou-se com o corredor desafiador. Calçou os chinelos, andando livremente por entre os cômodos. A voz soava livre, límpida, como uma antes nunca sentira. Esperou a risada final, detendo no reflexo de espelho. Ele sabia que restabeleceria sua altivez e sua felicidade. Regojizou-se com o sorriso espalhado. Sentiu-se curado.

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por Roberto Muniz Dias Postado em Sem categoria Com a tag

5 comentários em “AMOR MORTAL

  1. Pingback: Tweets that mention AMOR MORTAL « Sem Festas Póstumas -- Topsy.com

  2. Prezado Edilmar,

    Obrigado pelo comentário.
    Gostei muito de seu texto. Respondi-o com minha opinião. E fique à vontade para comentar aqui neste espaço.

    Atenciosamente,

    Roberto Dias

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