Privações ( um paralelo à tragédia dos mineiros no Chile)

Dia desses, fazendo a limpeza da geladeira, que há dias estava suja, acionei o descongelamento. Sim, a geladeira é simples e não tem a alternativa do descongelamento automático. E quem faz esse tipo de serviço depara-se com a questão do tempo, pois o gelo demora a se descolar das paredes do pequeno freezer. Pois bem, para acelerar esse processo dispus de uma faca para descolar o gelo manualmente. Ou seja, furei a parede delgada do pequeno congelador e o gás- que pensava ser tóxico- esvaiu-se numa velocidade tão assustadora quanto reveladora.

A sensação de culpa e impotência é tamanha que me detive a escutar o barulho do escapamento até seu total silêncio. Em resumo, passei uma tenebrosa semana sem as benesses da água gelada.

Mas a experiência tinha sido ainda mais reveladora do que a descoberta de que o gás não era tóxico. A ausência da água gelada, da conservação da comida do dia anterior, da dúvida filosófica do abrir a porta e demorar-se na escolha, na dúvida do que se quer fazer; tudo isso me faltava. Mas não tê-los abria uma perspectiva até então esquecida, ou desprezada com a evolução da vida moderna. Somos orientados a ser altamente dependentes da automação e de um mundo cada vez disponível na eficiência do botão. E eu pensava que não sobreviveria uma semana sem a geladeira.

No primeiro dia tive que dar todos os alimentos perecíveis que também necessitavam da do frio providencial da geladeira e doei a um amigo para que pudesse consumi-los. A margarina se foi, o peito de frango congelado, a carne moída, o chocolate gelado, o tahine aberto, enfim, todos mudaram de casa. A sensação de vazio era ainda maior. Dias depois, o amigo convida para jantar em sua casa. No cardápio: frango ao molho branco.

(…)

Acompanhava pela televisão a tragédia dos mineiros soterrados a mais de 700 metros abaixo da terra. E num paralelismo inevitável comecei a pensar nas privações que eles começariam a vivenciar, como ficariam desprovidos dos valores adquiridos com a modernidade, as vantagens da energia elétrica, e por força dessa comparação, a água gelada.

Meu sofrimento não poderia ser comparado. A privação dos valores morais que se desmanchavam a cada dia para aqueles mineiros, de longe, relacionava-se com minha perda de uma atribuição do mundo moderno. Lá embaixo, a luta seria pela vida nos parâmetros quase subumanos e que remontariam ao mito da caverna. Não se podia equiparar as perdas. Eu ainda tinha meu senso de existência humana, a expectativa de vida similar a qualquer ser humano, mas com um grande desfalque devido ao friozinho da geladeira. E eles? Eles estavam sob os olhares do mundo. A tecnologia trouxe a um lugar comum aquela ânsia pela vida. A humanidade se apiedou e começou a acompanhar diariamente o sofrimento das famílias e parentes. A comoção era mundial.

As realidades de privação se interagiam em seus pontos de convergência. Minha vontade de voltar a ter a comodidade de antes; os mineiros num resgate de sua vida sobre a terra e o retorno a vida mais simples. As visões se confundiam na sua adversidade. O tempo passava e acompanhava a esperança de vê-los resgatados. A ideia era cavar um túnel paralelo e retirá-los um por um numa espécie de cápsula. O plano era devolver-lhes a vida em sociedade. Enquanto isso, programei a visita de um técnico para o conserto da geladeira. Estava prestes a recuperar a vida anterior e novamente me inserir nos parâmetros da vida normal.

Os mineiros contavam com a ajuda dos outros seres humanos que ansiavam por vê-los ao retorno do convívio social. O técnico era um senhor expansivo. Riu-se ao saber que eu fazia a limpeza da geladeira com uma faca e não uma espátula. A cápsula foi construída. O plano não poderia ter falhas. Todos estávamos envolvidos com o conserto das coisas, o retorna a vida normal, a singularidade de nossas vidas humanas.

O gás foi recolocado, o barulho da geladeira começava a resultar no frio do congelador. A cápsula trazia, das profundezas da mina, o primeiro mineiro sobrevivente. Eu recuperara aquele valor da sociedade moderna, recuperara o frio da geladeira. Lá debaixo, o primeiro ser humano resgatava seus valores humanos de outrora; o abraço do filho revigorou e trouxe a esperança de toda a plateia.

O que seria de nós se não houvesse o outro, a referência preservada? O que seria de mim se não houvesse o amigo e o convite para o jantar? O que seria dos mineiros se não houvesse outros humanos aqui em cima para resgatá-los e trazer, à tona, o senso de humanidade?

Sei que posso viver sem a geladeira de minha casa e que posso contar com a geladeira do vizinho, do amigo.

 

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