Vidas passadas, vidas futuras

Acho que vou me isolar um pouco da agitação de mim mesmo. Já tentei esquecer-me como humano e fui buscar lá dentro a parte animal mais racional de mim. Escolhi a de um passarinho preso. Eu não podia ansiar voos maiores porque a gaiola não permitiria. E não poderia reclamar da comida grega que nunca comera porque só me restaria o alpiste regrado.

O que poderia me exigir se de minhas asas eu não sentiria o peso de meu corpo flutuar sobre o ar? A expectativa frustrada é coisa humana. Eu poderia me resignar nessa libertação. Não haveria por que me sentir triste além de minha condição de bichinho de estimação. Então ficaria de um lado pro outro como se felicidade fosse apenas a dialética da alteridade dos cantos. Cantaria o refrão da música: “Never had a point of view because my mind was always someone else’s mind.” O dia passa e nem preciso lutar pela meu panis et circenses. Os homens se divertem com minhas penas coloridas, meu cantar único e meu desespero para encontrar a saída. E se não posso mais voltar a natureza. Minha alegria é a alegria deles.

Então resolveria por definitivo essa luta pelo sucesso; essa necessidade de mostrar que sou melhor, que posso dar conta; que posso ser imortal.Tudo porque agora me invade essa solidão de passarinho ventríloquo. Não pareço um projeto definido nas bases capitalistas, do estatus de um clã convencional. Já não tenho mais forças para o pertencer; sinto-me alheio a esta convenção.

Mas sentei a beira do lago e vi pássaro livre. Ouvi o cantar dele como se estivesse sorrindo para o meu dia choroso. Fiquei observando como ele usava sua felicidade. A condição da existência era a própria incerteza de sua felicidade. Vivia de galho em galho. A alegria dele era minha alegria. Tinha a disposição uma dieta de alimentação rica em todas as proteínas. Enquanto sua fortaleza era a incerteza de sua missão. Mas de vez em quando polinizava as flores do jardim vizinho. Voava e logo saía de meu campo de visão.

E como aqueles dois seres se cabiam em mim; na proporção da liberdade e do aprisionamento. Mas nunca vou saber de qual deles eu suportaria viver uma vida integralmente assim.

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5 comentários em “Vidas passadas, vidas futuras

  1. Pingback: Tweets that mention Vidas passadas, vidas futuras « Sem Festas Póstumas -- Topsy.com

  2. Me lembrou o verso de Zeca Baleiro em À flor da pele:
    “Bicho solto, cão sem dono, menino bandido
    Às vezes me preservo, noutras suicido”

  3. Muito legal o texto. Parabéns. Acho que vou pensar um pouco nisso… Sempre achei que a nossa necessidade de ser grande, parecer maior do que somos tem a ver com nossa não imortalidade.

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