A mordaça gay

A mordaça gay

Imagino como seria bom ver abafado o sorriso dos colegas de trabalho pelo fato de me sentir sempre o objeto de suas piadinhas corriqueiras. Todo santo- ou diabólico- dia, o tema das piadas oscilam entre “ viadinho”  faceiro e o pervertido. Elas não são diretamente direcionadas a minha figura. No entanto, atingem a imagem que eles começam a ratificar todo o dia a respeito de minha sexualidade. Será que teremos esse poder?

Críticos, cristãos fervorosos, a bancada evangélica no Congresso entre outros segmentos da sociedade começam a achar que teremos esse poder nas mãos se o PLC 122. Então começo a imaginar a dimensão pequena que minha rotina pode atingir, elevando o grau das piadas disfarçadas de humor velado de hipocrisia e preconceito, e como meu problema pode não ser isolado, nem menos ofensivo. A todo dia, milhares de pessoas sofrem o preconceito disfarçado por muitas manifestações. Comigo ela se disfarça com a máscara jocosa da piada; para outros podem ser uma palavra ofensiva, mãos pesadas e violentas, ou uma arma de fogo covarde. A égide do PLC 122 parece um grande colete a prova do cartucho infindável dos preconceituosos.

A Lei está causando muita polêmica por conta de punir severemente atitudes tidas como preconceituosas. Segundo o projeto:

 “Art. 5º Impedir. recusar ou proibir o ingresso ou permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público; Pena — reclusão de um a três anos”

“Art. 6º Recusar, negar. impedir, preterir, prejudicar retardar ou excluir em qualquer sistema de seleção educacional, recrutamento ou promoção funcional ou profissional. Pena — reclusão de três a cinco anos”

Alguns segmentos, principalmente os evangélicos, protestam sob o fundamento de que a lei permitirá a prática em público de sexo; de exercer com plenitude seu credo, entre outros absurdos. Isto revela o quanto eles são mestres em interpretar as leis, especialmente das historinhas da Bíblia, ressaltando e elevando sua falta de entendimento, criando nos seus asseclas a ideia deturpada que foi veiculada erroneamente. Assim fizeram com o casamento gay e assim estão propalando a ideia que seremos os algozes da liberdade de expressão. Mas eles não entendem é que as vítimas é que são silenciadas. Às vezes a vida insipiente é ceifada com um taco de baseball, uma granada em meio a multidão da parada gay, a segregação, a ignorância. Muitos são as seqüelas carreadas pela onda preconceituosa. Os danos são irretratáveis e variados.

Ainda não alcanço os efeitos benéficos da lei; senão pelo fato de retirar do conteúdo das piadas a magia do disfarce. Quanto ao meu mundo, vou deixar de ser o mote para os amigos incautos. Mas pensando na abrangência que a lei pode tomar, ela pode proporcionar uma convivência automatizada do respeito. E aí reside meu medo, pois concordaria em conversar a respeito, expondo minha indignação, assim como fizera no meu ambiente de trabalho. Mas por outro lado, o gay da rua que sai de casa e é insultado gratuitamente, geralmente responde com a própria vida. Ele não tem argumento. Sente-se inferiorizado; rejeitado; acuado e se sobrevive a essa ameaça, vai levar para o resto da vida a mácula na sua honra aviltada. E somente quem conhece a dor da mácula na alma sabe o quanto essa lei é importante.

Por enquanto eu resolvo meu problema com a conversa diplomática e amistosa essas dissensões entre meus colegas de trabalho. Mas até quando eles continuarão a fazer piadas? Dizem que os brasileiros são educados sob a máxima de cobrar e punir (por meio de penalizações, ou multas) condutas razoáveis para se viver em sociedade. É assim com a limpeza pública; o álcool e direção; a calúnia e por que não com o preconceito aos gays?

E a igreja? A igreja que mude sua pregação diária, podendo bem incluir em suas ladainhas a passagem bíblica que conta a história de Davi e Jônatas e falar sobre tolerância; amor gay e respeito. Chega desse discurso eivado de vitimismo e falsa violação de direito.

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3 comentários em “A mordaça gay

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  2. Infelizmente os resquícios da colonização cristã européia ainda vão render frutos maléficos por muitos seculos até um dia ser estirpado como um câncer do nosso meio. Não se trata de limitar as pessoas de manifestarem suas crenças, mas de limitar as crenças em manifestar opiniões de ódio e preconceito contra quem um babaca qualquer escreveu que deveria ser penalizado com uma pena capital.

  3. Outro problema é a secularização das intituições legislativas, mormente o Congresso Nacional. Nunca antes na hsitória democrática do país, misturou-se tanto a ideia de religião e política. Ainda mais que nosso país é instictuicional e constitucionalmente laico.
    Infelizmente é o entendimento da política brasileira no cenário atual.
    Sem mais, obrigado pelo comentário.

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