Quem tem medo de ficar sozinho?

Ontem à noite senti certas dores na região que comumente chamamos de pé da barriga. A dor não recrudescia e, a cada minuto, eu perdia o tempo exíguo de minhas horas de sono. Eu estava sozinho. Sozinho com minha dor. Aí, nessas horas, a gente se pergunta se vale a pena estar sozinho.

Mas o que é estar sozinho?

Seria o não-estar-sozinho apenas uma vantagem dos casais compromissados com suas vidas completamente interdependentes? Aquela vantagem de que apenas os casados se vangloriam de dividir suas despesas sem partilhar – não a maioria – as carícias necessárias? Às vezes, encontro esses tipos nos restaurantes, sentam-se um do lado do outro, passam um período juntos, mas sequer trocam olhares mais afetuosos. Cumprem sua tarefa de fazer companhia para ratificar o pleno exercício da atribuição de estar casado, junto, enrolado, amancebado. No entanto, vivem numa harmonia forçada e sempre pensando que a grama do vizinho é mais verde.

Certa vez vi um casal discutindo sobre como eles deveriam trabalhar o carinho que um achava que faltava do outro. Pedia-se atenção, mais tempo juntos, mais presentes, mais sexo. Cobranças, cobranças. Parecia uma verdadeira prestação de contas. E eles a faziam em pleno supermercado, em meio a pessoas e sua prole descontrolada.

Confesso que diante de minhas dores, não fiquei a lucubrar todas essas memórias naquele momento. Mas, certamente, se tivesse um companheiro, ele estaria presente para aplacar a sensação daquela dor; pelo menos, era pareceria menos dolorosa. Será?

Mas o que seria de meu aprimoramento como ser humano, se não soubesse lidar e superar esses problemas domésticos sem contar comigo mesmo? Fico pensando nessa possibilidade como verdadeiro amadurecimento tal qual os samurais se submetem, enfrentando a dor, a ausência, a solidão.

Mas seria temerário dizer que a união de um casal seja sob qual escudo, pretexto ou credo, fosse apenas para aplacar essas dores físicas que nos acometem vez em quando. Talvez subsista algo além de minha compreensão do que realmente une os opostos; nem com isso quero dizer que seja atributo único dos casais normais e falte ou sobeje nos relacionamentos não convencionais. Mas deveria ser algo mais complexo esse encontro alardeado das almas complementares. Também sei que a felicidade não é outro atributo exclusivo. Ela está em toda a parte.

Mas a dor aumentava a ponto de me alertar sobre todos os inconvenientes que passara esses últimos dias; como se fossem aqueles, seres inanimados, verdadeiros personagens reais. A dor parecia como um grande alarme nuclear, num permanente countdown para o anúncio de uma versão nova da história já conhecida. Mas, às vezes, tudo isso tem a ver com o novo: ou por que você desiste de dividir suas coisas, ou por que você tem medo de fazer parte de um conjunto bem mais complexo.

De qualquer forma, eu não quero essa muleta para mim apenas para dizer que tenho um complemento. Em que pese minha dor não recrudescer, pior seria ter que administrar um dor no pé da barriga e outra na boca do coração.

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Um comentário em “Quem tem medo de ficar sozinho?

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