O Encontro diário com o travesseiro

 

Sempre me preocupei com esta imagem que os outros fazem de minha figura. Tento sempre ser a pessoa correta, o amigo atencioso, o amante-bombeiro- denominação encontrada por um amigo para descrever minha capacidade de ajudar os outros, especialmente no campo interpessoal e amoroso-, o filho bondoso, enfim, um ser humano melhor. Mas quando me defronto com as pessoas- e aqui não pretendo ser pretensioso-, sempre as enxergo como se fossem parte do mesmo projeto de vida que almejo. Porém, aqui e acolá, vejo-me perdido quando as elas me encaram como inimigas. E o pior é quando se dizem inimigas mortais. Então começo a repensar o caminho de meus projetos iniciais e inicio uma avaliação dos erros cometidos. Com certa freqüência, assumo os erros como conseqüente assunção de pecados existenciais. A culpa aparece sempre acompanhada dessas reflexões, reforçando o peso dos meus falsos erros e as premissas enganosas a mim atribuídas. Parto , então para a inexorável reparação pedindo desculpas ao vento pela existência de minha natureza permissiva.

Novas experiências, que iniciavam um processo mais altivo de ver a vida, começaram a me ensinar a mudar certos posicionamentos; a refletir mais intensamente sobre a repercussão de minhas atitudes. Aprendi que não importava muito a opinião das outras pessoas em relação a minha certeza e a falta dela nas coisas que eu realizava. Mesmo que estivesse errado, resistiria o registro de minha vontade, opinião, pensamento, atitudes. O único compromisso deveria ser com minha verdade- lógico que as regiões limítrofes do certo e errado sempre seriam levadas em conta-, a mesma que fundamentaria a importância de minhas sustentações. Por essa razão, a questão da culpa não mais pesava o complexo fardo que carregava, em certa proporção, devido à culpa cristã em relação aos erros, elevados à condição de pecado.

Até pouco tempo levava comigo, aonde quer que minha cabeça repousasse, a culpa de um casamento frustrado, ainda que tivesse realizado inúmeras tentativas de conserto na constância da relação. E isso, como não poderia deixar de acontecer, afetava de forma substancial a maneira por que eu me comportava em relação ao meu travesseiro. A cabeça pesava o peso dos mundos, como se fosse uma verdadeira região repositória de todos os erros cometidos e os não-assumidos.E até pouco tempo, isso demonstrava quem eu era- e ainda por cima herdeiro da educação tradicional do não-, extremamente pessimista ao ponto de viver em eterna cobrança de meus atos, revisando, retificando sempre; e sempre avaliando meu desempenho medíocre em tarefas diversas. Isto tudo compunha minha natureza reticente de alguns anos.

Hoje em dia, tento recuperar meu espaço vital no exercício diário da Literatura. Foi toda a razão que me sobrou. Não existe mais tempo para cobranças e avaliações. Tudo é feito na urgência de um capricho mais elaborado; todas as palavras são escritas na sua tonalidade adequada. A palavra não volta mais. Ela se perpetua no eco da inconstância própria do ser humano. Não quero com isso dizer que assumo a irresponsabilidade como fundamento. Apenas me reservo o direito de não me sentir culpado por tudo. As atitudes do passado transformaram-se em aprendizado, de certa maneira, conduzindo as atitudes presentes, recheando-as com um sentimento de altivez adquirida com o mérito da vivência. Isto agora faz parte de uma concepção mais madura do entendimento de mim. E hoje posso dizer que minha cabeça pesa o peso certo da acomodação mais tranquila sobre o meu travesseiro de todos os dias; tanto que ele já não mais afunda com o peso de minha consciência. Esta descansa placidamente sobre o travesseiro.

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2 comentários em “O Encontro diário com o travesseiro

  1. Olá Roberto,

    Por acaso vi informações sobre você no site da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Achei sua história e seus livros muito interessantes. Mesmo porque também desejo me tornar um escritor. Inslusive, escrevi alguns poucos contos, e um deles está concorrendo no concurso contos de teresina 2010. Gostaria de seu e-mail para nos comunicarmos, se possível. Vi seu blog e achei muito interessante. Voce faz basicamente o que eu desejaria estar fazendo: escrevendo a criticando filmes e música. Hehehe. Mas sou estudante de Direito, pela Federal, e tenho pretensões de estudar fora ano que vem. Por isso, o tempo curto para escrever. Espero que me mande um e-mail para nos conhecermos melhor. Tenho uma impressão que você pode me dar excelentes dicas da arte de escrever. Um abraço.
    Henrique Douglas Jr

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