CABEÇA A PRÊMIO ( de Marco Ricca)

 

Marco Ricca saiu dos holofotes e deixou-se filmar por detrás das câmeras. Agora ele assina como diretor de filmes. O primeiro rebento chama-se Cabeça a Prêmio.

Ainda não sei dizer se gostei ou não. É um tipo de produção, na minha opinião, que está pairando no limbo. Ainda o vejo como uma plêiade de imagens já vistas e linguagens já usadas.Mas espera aí, em quase todo filme há isso! De fato existe, mas esperava-se de um primogênito algo original. Talvez a originalidade resida em dar um pano à dimensão cosmopolita das cidades fronteiriças entre Brasil, Paraguai e Bolívia- ângulos que promoviam uma visão menos provinciana, imagens embaçadas do ritmo frenético de carros; de repente a visão do Pantanal; terras esparsas, sois avermelhados. Enfim, via-se uma cidade além de suas impressões mais superficiais. Isso ficou indelével. E, particularmente, gosto de efeitos que tiram a impressão mais comezinha que se tem de um lugar, de uma pessoa.

Mas, falemos do enredo, das personagens, etc.

Falou-se de que ele se serviu dos amigos para compor o elenco. De fato, ele escolheu bem, mas as atuações deixaram a desejar. A certa altura, até que o filme tomasse uma forma de entendimento, senti que revivia as famigeradas pornochanchadas. Muito sexo, muito sexo despropositado para compor o personagem de Edu Moscovis, que parecia em alguns momentos querer rir para manter a sisudez requerida. Tive um certo dejavur ao vê-lo nas cenas de morte, uma mistura de “Onde os fracos não tem vez” e Riobaldo de Guimarães. Senti um pouco da linguagem não verbalizada dos personagens de Vidas Secas onde operava mais a linguagem corporal e o silêncio, e nesse caso a imagem. E esse silêncio se estendia, às vezes, em cenas mudas e desnecessárias. Flúvio parecia uma metalinguagem de si mesmo, atuando como um pai glutão e paradoxalmente carinhoso. Então Alice Braga que não sei porque cargas d’água não foi aproveitada para as cenas de sexo. Também não sei dizer se gostei ou não dela. Talvez, quem sabe, da última parte em que ela se vê na condição de racionalizar sua revolta para com os serviços escusos do pai- e da própria estória do filme-, mirando para a cabeça de seu pai o revólver, deixando a “obra” em aberto.

Em certa parte do filme fica clara a intenção do diretor em deixar em primeiro plano a questão da falta de diálogo entre as pessoas. Lembrou-me de alguma forma Lia Luft em silêncio dos amantes- salvo engano. Mas o filme só se mostra a que veio nesse curto espaço de tempo em que compõe essa falta de fundamento e espontaneidade nas relações humanas, sempre cercadas de um interesse ignóbil latente.

E como esse revólver em punho, em riste, em direção ao desfecho da obra, fica meu grito contido, entalado na garganta na espera de minha definição acerca de qual cabeça estava a prêmio.

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