Diário de Bordo da FLIP (parte 1)

05/08/2010 Partida para Paraty-RJ      10:47

Acordei cedo- estava previsto essa constatação. Para quem passou três dias sem dormir por conta da batida em meu carro; a tensão para a FLIP, de uma noite mal dormida apenas, era fixinha.

 

Chegada ao Rio 12:00

A chegada ao Rio trouxe a lembrança da última passagem pela cidade maravilhosa. E fora tudo maravilhoso como a vista nostálgica das paisagens vistas. No entanto, agora estava sozinho e a alegria parecia ser mais autêntica; estou comigo mesmo.

 Próximo parada, rodoviária.

12:40

Ao ligar o celular, a mensagem da operadora sinalizava ligações diversas. Pensei que os amigos tivessem se lembrando de se despedir. Mas foi ainda melhor, minha mãe deixara mensagem de boa viagem. Liguei imediatamente para casa. Papai atendeu. Falou do Rushdie que vai aparecer na FLIP. Falei dele e do livro que quer o autógrafo. Falei que ia tentar pegar um autógrafo dele.

14:00

Depois de quatro horas na viagem do Rio para Paraty; depois de ouvir quase todo o repertório de meu MP4; depois de pensar quarenta e oito vezes qual discurso fazer na hora do lançamento; depois disso tudo, cheguei.

18:10

O que posso dizer de Paraty? Com “i” ou com “y”, não sei. Posso dizer que a cidade tem cheiro de história vivida, coisa constatada pela arquitetura das casas, as ruelas, as ruas de pedras, e uma mistura que relembra coisas de infância por conta das inúmeras amendoeiras espalhadas pela cidade. A esse ar de nostalgia, condensava-se uma atmosfera mansa e agitada, típica desse momento que misturava arte e literatura no centro histórico da cidade.

Mesa de autógrafos

O Escritor e seu livro.

O lançamento 20:30

Cheguei na Casa do Clube de Autores, Rua da Lapa, 375. Dei duas voltas em frente da casa. Não vi movimento. Fiquei desesperado. Por um momento, pensei em abandonar aquilo tudo.  Fui ao orelhão ligar para casa e dar notícias de minha chegada. Acho que mencionei com minha mãe o nervosismo. Voltei então para entrar na casa. Minutos antes, minha mãe havia dito: – você já chegou até aí meu filho, continue-, não tinha o que fazer, senão entrar.

A Casa Clube de Autores: o recinto dos ecritores.

(…)

Entrei sem maiores alardes. Lá de dentro o funcionário logo me cumprimentou. Apresentei-me com certa excitação. Apresentei-me como escritor. Como será isso? Pensava a todo o momento nessa instância de ser, desse agora.

O lançamento foi um momento revelador. Não sabia que a troca era tão intensa, tão fluida. Fiquei feliz. Tirei fotos. Falei abertamente de meu livro, sem medo de ser repreendido. Foi muito insolitamente satisfatório.

As Meninas-Malagueta Hanna e Laura.

Os autógrafos.

(…)

Depois da euforia dos holofotes. Saí com um sorriso largo e, olhando para a multidão nas ruas de Paraty, senti-me novamente um mero anônimo. O escritor iluminado dava forma ao Roberto Dias de sempre.

 

 

 

 

 

Salman Rushdie

Salman Rushdie   22:10

 

Saí do lançamento de meu livro ainda absorto com o que havia acontecido. Muita gente diferente, sem convite- esquisita mesmo- apareceu no lançamento. Valeu a pena.

…Saí da Casa em direção à multidão, ao burburinho de pessoas que se acumulavam nas ruas de pedras. Pensei em ligar para alguém em especial; pensei em dividir aquele momento, mas estava longe demais, até do alcance do celular- sem crédito.

Pensei então na cerveja para dividir minha alegria com o mundo, com os anônimos na rua. Comprei uma Itaipava. Dei um, dois, três, goles; dobrei a rua de pedras, dei com uma rua de chão batido. O passo se aprumou. De repente, vejo um casal se aproximando. O senhor vinha de cabeça baixa, olhando para as pedras e guardando sua atenção para não tropeçar. A moça, mais nova, parecia ser do local, visto sua habilidade no caminhar por sobre as pedras de Paraty. Dei um último gole. Olhei para o rosto barbudo do senhor. Era Salman Rushdie.

Ele passou por mim, então toquei o seu ombro:

– Mr. Rushdie. I brought your book, eh, eh, eh…Cross this line…across this line…

A moça simpática, corrigiu meu inglês prontamente e um sorriso sem graça adornava seu rosto. Ainda nervoso por ter apertado a mão de Salman, tentei corrigir meu inglês nervoso:

– I bought to you to autograph. But I am not with it.

– Oh , Sorry…- ele disse gentilmente e completou me convidando para a noite de autógrafos no dia seguinte.

Despedimos-nos. Fiquei parado, com  a cerveja na mão e o pensamento estático na visão de um homem que se distanciava e que eu admirava seu trabalho.

Por um momento mágico, como num flash momentâneo de uma cena de cinema, percebi que a película de minha vida tinha sido impregnada com um pequeno brilho de um tesouro indelével. E como fã, fiquei extasiado com a energia trocada naquele aperto de mão.

 

Paraty a noite.

22:40

Tenda dos Autores

Ainda pensando na passagem de Rushdie, fiquei simplesmente abobalhado, esperando o tempo passar. Olhava pra trás, acompanhando com o olhar o distanciamento daquele homem que usava como guarda-costas uma simples intérprete. Pensei em tirar uma foto. Segui-o prontamente. Mas ele entrou numa casa rapidamente. Fui barrado. O evento era restrito infelizmente. Tentei subornar os seguranças, mas não consegui. Senti-me imprestável, impotente. Depois soube que a casa era da Cia das Letras e, lá dentro, esperava por Rushdie o senhor Fernando Henrique Cardoso.

 

 Continua…

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