Um novo Pinóquio

O frio não se comparava ao que me reservava dentro de meu carro. Não sei o que é isso agora. Agora é o frio na cara, ao redor do pescoço e nas mãos. O vento é frio aqui fora esperando o ônibus chegar. O carro tá na oficina esperando uma autorização superior. Enquanto isso, revivia novas rotinas já conhecidas.

Então coloquei meu fone de ouvido, ajustei o mp4 para tocar o álbum de Rufus e segui a viagem tentando entender um pouco de tudo que ia acontecendo. Começava a ver as imagens perdidas, construídas em cada personagem que aparecia. A música falava sobre o Pinóquio que queria voltar a ser um brinquedo. E eu não conseguia ver a verdade da poesia. Mas bateram em meu carro. Fiquei engavetado procurando o sentido para a parada momentânea da música. A música não parava, até que acordei do susto e desliguei tudo. Foi rápido, logo estava rindo da experiência e das pessoas envolvidas. Depois disso, a vida continuava; sempre ela continua.

Então continuei em minha pequena viagem ao trabalho em busca de entender a poesia que me cercava. De volta ao meu Pinóquio que queria ser adulto. Eu deixara de ser manipulado pelos desejos dos outros. Logo, logo estava falando minha própria língua, liberto dessas amarras na fala, nos gestos, na alma. O meu sonho era tornar-me adulto não de pau de pinho. Queria ser forte, mas não de madeira oca; queria ter responsabilidades. E a música continuava no refrão, na vontade de Pinóquio tornar-se um brinquedo novamente.

Como queria ser o homem maduro, adquirir o maior atributo de um homem grande: a piscina para adultos. Mergulhar fundo na vida era o que mais queria naquele momento; talvez morar sozinho sem o Gepeto. E a fada madrinha vinha em todas as preces diárias. O desejo de me tornar grande, homem…

O fluxo de pessoas no ônibus era fraco. Pessoas entravam e saíam. As que ficavam, permaneciam paradas observando o ritmo estático dos outros. Ainda a música repetia que Pinóquio, agora homem, queria voltar a ser um brinquedo. E como agora me alcançava aquele pensamento de ficar parado, sozinho, sendo manipulado por uma vontade externa. Estava sem alegria de andar pelas minhas próprias pernas de pau sem firmeza. Preferiria estar sentado sobre a prateleira observando o olhar do criador; esperando minha real utilidade. O Pinóquio queria ser de Gepeto novamente. Voltar à ingenuidade que existia no brinquedo que se divertia em ser manipulado pela boa vontade dos outros.

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Um comentário em “Um novo Pinóquio

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