Momentos de paz adquirida

Momentos de paz adquirida

Só sei escrever sobre isso, esse sentimento que invade e toma de conta, deixa-me assim mudo, ouvindo meu silêncio e o latido longínquo dos cães de rua. E nada tenho a dizer, senão dessa saudade que aparece como companhia para essa mensagem solitária de agora. Aqui, acolá, ouço uma voz perdida que atravessa as paredes, mas não se comunica comigo. Parece até que alguém quer falar comigo, mas é pura invenção de meu ócio.

Coloco uma música para que não pareça suicídio esse pensamento de agora; a música dá vida à estagnação dos pensamentos e ficamos presos no quarto, enquanto o sono se avizinha tímido. Continuo a ouvir os sons da noite, a música para; tenho que escolher qual música vou ouvir antes que outra venha e perca o sentido da anterior. Nada muito alegre nem muito triste, mas alegre não pode ser, se não, como vou escrever sobre o estado imutável dessa mansidão das coisas; esse período de busca interna? As ideias vão se assentando, mas não por causa da música. O pensamento está num ritmo alucinante porque a máquina trabalha para sarar a dor e fazer esquecer o que está sempre se repetindo. Não, não é o refrão da música triste mais a repetição das atitudes que se atritam dentro do cérebro triste.

De novo eu derramo esse pote de lágrimas que havia secado noite passada. Pensei que não teria mais do que tirar. Mas houve. Estou aqui, de novo, derramando sobre as linhas, sobre a dor de antes repetida como refrão de música melancólica. A repetição tem a ver com as mesmas rimas do –ão; aquelas que nunca vão: paixão, solidão, sofreguidão, retidão…Nada adianta so refúgio da ignorância; não saber do que elas tratam. Não basta ficar repetindo como se nada fossem, como se não pesassem nesse ritmo que canto. Canto. Mas a dor dessa dor nominada continua como se tudo fosse um grande hino silencioso. Eu canto, mas não entendo meu encanto com essas notas nada claras.

Olho pros lados e tudo está estático. Os livros, o cabide, a mochila pronta para a viagem, a meia enrolada, as fotos silenciosas, os livros cheios de idade tudo parece tão morto. Onde estão as cores de tudo? E não é fácil dar vida a tudo de novo, quando antes os dois faziam isso de forma deliciosa. Agora, nada tem o sabor das cores de antes. É Tudo muito solitário. E acho mesmo que estou realmente ouvindo vozes daqui de dentro de mim. Elas ressoam como um passado alegre. Mas eu disse que não podia haver música alegre. Eu tinha que disfarçar esse pensamento de suicídio, no entanto, ele persegue como erínia maldita. Mudo a música. Então encontro o som dos grilos mágicos, encontrando assim a placidez que aplaca essa dor. Fico silencioso, ouvindo o som das coisas novamente.

Encontro outros sons para minha rima; os símbolos do –ida: vida, partida,iludida. A música continua nesse ritmo sofrido, mas alvissaro. Misturo as palavras de antes e de agora, e encontro certa harmonia no refrão novo. Combino o som distante dos cães da rua, os grilos sinfônicos e o barulho de minha alma. Fico calmo. Ouço uma batida de jazz leve, um saxofone alegre e consigo novas possibilidades. Deixo de lado o arroubo das paixões e fico contemplando a imensidão da estrelas magnéticas. Meu olhar se perde na amplidão dos pequenos olhos espalhados no céu da noite e o sentimento de solidão se vai com o frio que me acolhe por entre suas mãos.

E assim desisto do plano inicial.

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3 comentários em “Momentos de paz adquirida

  1. Pois é. Ela se foi e ficou nada. De vez em quando ela volta, fica pouco, senta esparramada na cadeira e quando olho, ela vai sorrateira pela fresta da janela cúmplice. A alegria fica, a felicidade vai.

  2. Tua sensibilidade e talento me fere… me fere e me preocupa, mas aí eu estou sendo banal e egoísta, quero tê-lo por perto, é muito bom ficar perto dos grandes escritores e humanos. então, fique com a alegria, fique com a tristeza, fique com a felicidade ou fique com a dor, mas fique. Por que, por mais absurdo que seja, por mais paradoxal, Proust disse; “” O ruim da dor, é que ela também acaba””
    Beijos emocionados,
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

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