O passado é uma selva de horrores

O passado é uma selva de horrores

Quem nunca se sentiu preso ao passado? Ou a respeito de um feito na juventude do qual sempre nos orgulharemos, avivando as cores de uma bravura que não se repetirá; ou uma aventura com os amigos, resgatando, na memória, quanto este ou aquele amigo foi importante na sua vida- sem mencionar o quanto a distância foi decisiva para o afrouxamento dos laços fraternais-, ou quando nos lembramos dos primeiros amores de verdade, das experiências que chamamos de ricas; sempre, nessas circunstâncias nostálgicas, haverá uma tristeza disfarçada de felicidade.

 Nunca falamos abertamente da felicidade. Ela está sempre embutida em lágrimas de felicidade. Por quê? Talvez a resposta tenha a ver com uma condição de indulgência perene pela qual sempre temos que passar para atingir a famigerada felicidade. Agora, relembro-me quando pela primeira vez senti-me orgulhoso de salvar a vida de minha mãe, quando meu irmão, com seu sinto de utilidades do Batman apertado a sua cintura, inventava coisas com utilidades esdrúxulas. Certa vez, ele “inventou” uma catapulta para lançar objetos para o espaço sideral. E o Robin, eu, não poderia estar de fora; recebendo as instruções para o primeiro lançamento. Na ponta do artefato meu irmão colocou uma garrafa de coca-cola. Este mecanismo se apoiava por entre os troncos da mangueira, que ficava no quintal de casa, e usava um cabo de vassoura entre uma forquilha, e com a força motriz de sua perna ele promoveu o lançamento da garrafa para o espaço. Do lado, a sombra da mangueira estava mamãe a descascar mangas. Logo percebi, com a astúcia de Robin, que a garrafa atingiria a cabeça de minha mãe. E o que fiz? Coloquei minha testa como anteparo para abafar o grande feito do Batman. E quando me lembro dessa aventura, além do sangue derramando em minha testa, recordo-me, com certa tristeza no peito, o quanto gostaria de ter sido Robin pelo resto da vida.

Mas de certa forma, não me sinto preso a esse orgulho de menino. Talvez queira relembrar das amizades. Como elas são importantes nesses momentos de vento frio e solidão. E não poderia ser diferente: a felicidade passando a mão carinhosamente sobre a tez da tristeza. De fato, os amigos ficaram pra trás; pelo menos os bons amigos, porque se eles estivessem aqui, essa nostalgia triste converte-se ia numa sala repleta de risos e refestelamento. A sala sempre estava cheia; cheia de vida, de cervejas, comidas e amizade sincera. E esta nos rodeava sempre saltitante ao som de boa música para pensar e dançar. Os limites não eram programados, mas os mais jovens conseguiam beber, pensar e dançar; os outros acompanhavam na medida de suas felicidades. Era sempre assim, a sala cheia de vida por todos os lados. Cada um com sua contribuição no grande laço de amizade que nos unia, apertava e liberava. Tinha a ver com irresponsabilidade moderada, do tamanho dos copos amarelos, dos copos americanos, ou dos copinhos de pinga. Mas nem por isso nos sentíamos culpados da embriaguez preconcebida. Mas agora…não passamos de história dividida em quebra-cabeças imiscíveis; cada um com sua alegria espalhada por vários cantos.

 Eu não quero falar sobre isso. Isso de felicidade e tempo pretérito. Mas como disse um grande amigo: “o passado é uma selva de horrores.” Tenho sonhado com esses horrores todos os dias, quando eles vêm nesse disfarce de lembrança. Talvez a lembrança que doa mais, a mais contundente; aquela na qual um pedaço seu fica perdido na vida de outrem. Quando, da entrega prometida, cedemos espontaneamente um pedaço vivo; mas quando da separação, recebemos de volta completamente lívido, agonizante. E, novamente, a felicidade é abrandada pela mágica manifestação funesta da tristeza. Por isso, a razão dos horrores nessa selva que nós nos embreamos a procura da trilha certa. Destarte, a nostalgia que me invade agora, não passa de memória volátil, como choro que se desperta quando ouço uma canção que não quer falar sobre isso.

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Um comentário em “O passado é uma selva de horrores

  1. Não é à toa que felicidade nunca inspirou ninguém, a não ser comercial de margarina. Ou nos tempos atuais, de operadora de telefone celular. O passado é recorrente, porque nós estamos fadados a ignorar o presente e ficar concentrado no que se foi ou no porvir. De resto, voce mais uma vez, voce inspiradíssimo pela melancolia. E acredite, o passado é sim uma selva de horrores. Mesmo sabendo disso, estamos lá revisitando esses fantasmas todos.

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