As Melhores Coisas do Mundo

A adolescência é sempre uma fase de iniciações e descobertas; não há de novo para retratar nessa fase, certo?

Minha resposta tende para a negativa, depois de ter assistido As melhores Coisas do Mundo, filme de Laís Bodanzky- com roteiro baseado nos livros de Gilberto Dimenstein e Heloísa Priet- o cotidiano dos adolescentes deste filme, capitaneado pelo protagonista Mano, é retratado de forma frugal, mas que contorna a realidade.

Os conflitos não são inventados, são acompanhados de forma quase autoral revelando as insatisfações do jovem Mano e seu irmão- impossível não falar da atuação do Fiuk- agigantadas pela separação dos pais e a revelação da homossexualidade do pai. A partir daí, os conflitos são vivenciados com carga da formação dos parâmetros sociais, dos preconceitos sociais e das idiossincrasias de cada um deles.  Sem muitos retoques a convivência com o grupo de alunos de uma escola de classe média é mostrada pelos diversos nichos que se encontram naquele microcosmo social. As panelinhas formadas são verdadeiros simulacros da realidade dos grupos sociais nos quais vivemos no mundo adulto. Os diálogos são maduros porque existe um argumento de escritores como roteiristas. Adorei as intervenções poéticas dos personagens, especialmente as do personagem Pedro ( Fiuk), publicados em seu blog- que o site do próprio filme disponibiliza (http://girassoisnoescuro.wordpress.com/). Elas são fortes e fecundas porque, pra mim, flertam com essa coisa da morte, do desejo de algo desconhecido. E ele rouba a cena em suas palavras contundentes, nos rasgos do peito dele. No entanto, essa é apenas uma parte do filme que gostei.

Uma outra percepção é a do enfrentamento dos problemas que se apresentam; como eles são trabalhados  pois “ não é impossível ser feliz depois que  a gente cresce, só é mais complicado”, a verdade que subsiste é a da superação. E esta é retratada de forma otimista, revelando que os problemas fazem parte da vida, mas podem ser superados, mesmo que para isso a desistência da vida seja uma parte para alcançar a resposta.

Uma outra parte que me toca é a o trato com a questão da homossexualidade. O assunto é tratado de forma nua, sem rodeios para falar, até mesmo sem ser politicamente correto, reduzindo o papel do homossexual aos estereótipos mais pejorativos existentes. Mas esse trato é humanizado quando o relacionamento entre os atores que protagonizam a relação homossexual é apresentado. Dois homens maduros que desenvolvem uma relação estável e tranqüila, de certa forma, privilegiando um lado às vezes estigmatizado nas relações homo afetivas. Eles vivem bem e representam a única parte estável do núcleo do filme.

Mas os jovens protagonistas se alternam nas suas aventuras pessoais, cada um vivendo e sentindo a convivência apartada dos pais; angústias; as iniciações sexuais; a noção de amizade e a luta pela liberdade. Os conflitos são os mesmos, mas as soluções são diversas. Assistir ao filme é aprofundar nesse mundo que é pré-requisito para a formação de qualquer adulto, mas o contorno inicial do homem é formatado nessas primeiras superações pessoais.

Fico ressabiado com filmes brasileiros, parte de uma aculturação promovida propositadamente, preconceito, mas tenho que dar a mão a palmatória para esse filme que soube retratar esse mundo da adolescência. Outro mérito é descobrir que na vida sempre há inúmeras possibilidades de se escolher a felicidade, sabendo que ela reside entre  As melhores Coisas do Mundo.

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3 comentários em “As Melhores Coisas do Mundo

  1. Não vi ainda. Eu não tenho qualquer problema com filme nacional, temos atores e atrizes que não devem nada a lugar algum do mundo, bons roteiristas e diretores, o que falta é dinheiro para bancar na maioria das vezes e a disputa sempre injusta com os filmes americanos que dominam as salas no Brasil. A gente engole tanto filme americano non sense e costuma ser rigoroso demais com nossa produçao nacional.

  2. Caro Brunno,
    Você está coberto de razão. Assumo minha predileção maldita. Mas, no fundo, no fundo, sou brasileiro até a morte, e me refiro também ao cinema brasileiro.
    Obrigado pelo comentário.
    Abraços,
    Roberto Dias

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