Uma leitura enriquecedora

            Uma ida despretensiosa ao shopping, bem da verdade, outras intenções havia sido conjecturadas, quiçá uma camisa nova;  um encontro as escuras; talvez um café com “muffin”. Então a livraria Leitura no meio do caminho de algumas possibilidades extras. Aproveitei para por em dia a lista de livros que ainda não lera- a lista inspiradora. Olhos perdidos na multidão de prateleiras cheios de livros, olhos ávidos; ouvidos atentos aos comentários perdidos, às solicitações de alguns clientes, as idas e vindas de pessoas multifacetadas.

            Nesta confusão, dois senhores conversavam acaloradamente acerca de um escritor. Ele abria o livro de forma intensa como se soubesse que ele responderia sua solitação. Esse senhor tinha barba cheia, branca, a voz rouca cheia de vida e propriedade. Falava-se em poesia premonitória que anunciava a morte prematura de um dos mais promissores poetas do Brasil. Jovem crítico e intenso propalador da arte como pedagogia. “Como é o nome da poesia de tom premonitório?”- ele perguntava em tom quase provocativo. Digo provocativo, porque parecia que a pergunta incitava a participação de algum dos freqüentadores. E eu já havia passado duas vezes pelo corredor onde os dois homens conversavam intensamente. Então, não resisti a nova requisição do senhor curioso: “alguma-coisa-assassina…”- ele falava, abria o livro, tentando encontrar a página. Falei que seria a poesia intitulada: O mês presente…

“Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos. “

            E completei que era de um conterrâneo, apontado para o livro de Mário Faustino. E o senhor de barba branca meneou a cabeça, confirmando e afirmando se tratar exatamente desta poesia. Fiz minha última participação saindo com um sorriso que misturava timidez e vontade intromissora. Queria estar no meio da conversa deles. E o senhor de barba histórica continuava a falar com sua voz rouca e mãos antenadas, parecia reverberar todo seu conhecimento acerca dos livros, das poesias.

          Fiquei de longe a observá-los e ainda sem perder de foco minha listinha particular.  Deveria ver Tchecov, Francine o creditava muito da sua inspiração; das suas aulas. E eu recém-nomeado escritor me impunha certa disciplina, certa administração da nova carreira. Dei várias voltas em torno da prateleira Literatura, cerquei os livros sem perder os nobres senhores. Rodei mais uma vez em torno da mesma prateleira. Perdi a audição da voz rouca, a distância de seu convencimento aumentava; perdi-me no conto a dama do cachorrinho. Deixei a revista, Martha Medeiros e Tostói no colo. “Olha… ótima escolha a sua.”- o outro senhor apontara para meus livros escolhidos. Falei que era uma lista antiga, débito que carreguei até hoje, indicação da Francine.

            “Qual sua formação?” – perguntou o outro senhor de traços mais finos. Respondi prontamente que tinha a mesma formação de Clarice; talvez a mesma de Caio. Só não tinha o prestígio dos mesmos. “É um intelectual”- afirmou ele com a voz rouca. E completou, apontando para o amigo: “Você está em ótima companhia. Vou deixá-los conversando.” Saiu se despedindo do amigo.  Tratava-se de um jornalista. Companhia rara pra mim. Coisa que nunca acontecera em tanto tempo neste começo de alguma coisa. Era raro mesmo. Tanto que já não sabia o que dizer diante de uma pessoa com tanto conhecimento. Acho que pressentindo meu nervosismo, ele me convidou para um café. Concordei instantaneamente. Dobrei os pockets envoltos na revista e acompanhei-o até o café mais próximo. Passei com os livros dobrados cabendo numa única mão. Os olhos compenetrados na fala macia e mansa do jornalista. Prestava atenção em cada palavra. Pensava duas vezes em velocidade altamente rápida para responder-lhe sem erros. E sobre o erro, estava eu com os livros na mão. Réu confesso, com os livros na mão. Livros não-pagos, não detectados pelo sistema de anti-furtos. Apenas meu senso de honestidade operou neste momento.

            Mas o café era imediato, o pagamento justo ficaria pra depois. Estava ansioso para conversar, falar de mim talvez, ouvir sobre os outros, os clássicos.

            Eu queria ter um gravador. Senti-me um jornalista, mas sem lista de perguntas. Ele poderia falar do próprio roteiro; das memórias. Suas memórias sobre a passagem pela ditadura, pela redemocratização. Então, saltamos para a literatura que era para quem estava atualmente a serviço. E isto me enchia os olhos. Falar sobre literatura me dava mais paixão. Enquanto isso, o café não parecia ter fim. Adoçava-o tentando pensando nas palavras, o que dizer, o que ratificar. Mas não havia como confirmar certas histórias que apenas ele havia vivido. “Espero o dia em nascerá um novo Balzac.”- ele falou em tom confessório. Falou dos novos apelos para a literatura (com l minísculo)-pop-comercial-capitalista-vampirística e da falta das influências dos clássicos. E disso poderia falar algo, ilustrando a existência da grande estante com os livros de meu pai. Seus livros grossos, volumosos e russos. Os Russos eram a paixão de meu Pai: Tostói, Tchecov, Gogol, Dostoievsky. E eram todos parte da minha lista tributária; minha pequena frustração. E então os brasileiros. Falei de Torquato Neto. Que felicidade em saber que ele conheceu Torquato de perto. Falou com elogios a cultura tão apurada em homem tão novo, mas com tristeza falou da entrega as drogas. Para ele os escritores eram excêntricos; alguns meio loucos. Clarice era louca: “depois de Laços de família Clarice não era mais a mesma.”- ele falou como se a conhecesse dentro das entrelinhas da incompreensão. Ela mesma não se definia.

            E o café terminou com um gosto de tertúlia-pedagógica, com sabor de aula-show, ou como uma grande conversa amistosa.

            Trocamos e-mails e blogs; trocamos idéias e me enchi de esperança querendo reviver ou viver aquelas emoções de pequenos furtos. No entanto, o furto maior foi de ter saído com as mãos não somente cheia de Tostói ou Tchecov, talvez a riqueza maior tenha sido sair daquela conversa com o ânimo cheio de  mil livros e histórias na cabeça.

 

P. S.: Depois do êxtase da conversa, voltei para pagar os livros que havia escolhido.

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