MAGPIE- a pintura de um homem sozinho

teste1 Capítulo 1

Tímida Luz

            Colocou a cabeça sobre as pernas dele e começou a pensar no peso dos astros pensou na estrelas que cintilavam brancas  se tinham peso menor do que as vermelhas; e os sóis? O sol deveria ter mais peso do que as pequenas estrelas. Pensou nas pequenas estrelas. Como são frágeis longinquamente perdidas no mar daquele céu. E se perdia nas águas turvas daquela noite enquanto se perguntavam o que tinha acontecido com eles. A cabeça pesava muito. – Mas como seria o peso da dúvida em relação ao peso das estrelas-, perguntou ele acomodando a cabeça. “Nossos pesos seriam os mesmos se mantivéssemos a distância correta como as estrelas o fazem?”. Estão lá distantes, pesadas, mas sempre cintilantes. “Elas ainda pesam quando brilham, pois se brilham fazem esforços dentro da estabilidade gravitacional”, indagou taciturno, mais distante. “Estamos sem brilho, mais ainda assim temos nossos pesos; nossa importância. Mas onde está o nosso brilho?”. O silêncio distante continuou imenso; assim como o céu diante deles. O brilho da noite confortava todos eles. Esqueciam que haviam escolhido o momento para esclarecer a vida; as dimensões das distâncias infinitas entre eles e o paralelismo com as estrelas pensantes.

– Onde estavam eles?- ele perguntou ainda fitando as estrelas cheias de cores; pesadas. E eles estavam lá em cima como as estrelas disputando o brilho e o peso das coisas que os arrodevam. E por um momento um deles se perguntou por onde deveriam estar aqueles corpos; qual constelação; a qual galáxia pertenciam.

Ficaram em silêncio observando a terra mexe vagarosamente enquanto seus pensamentos divagam nas estrelas e esperavam delas uma resposta advinda como uma estrela cadente.

– Apontei primeiro! Vou fazer um pedido- disse cerrando lentamente os olhos enquanto acomodava mais uma vez a cabeça na perna imóvel. – O que você pediu?-, perguntou sem tirar a atenção das estrelas. As estrelas estavam lá e apesar de serem anônimas, cada uma tem sua importância. Naquele calor emitido, cada uma dava vida, iluminava , preenchia um espaço vazio entre eles. E foi justamente sobre espaços que ele falou. Disse que havia pedido um espaço temporal quase longinquamente mensurável. Talvez apenas um momento para sentir o peso das estrelas. – Eu pedi esse momento e pedi, também, que a lua aparecesse e que nos brindasse com um peso de brilho maior do que aquelas estrelas perdidas-, disse tranquilamente com os olhos fechados. E assim as estrelas dançavam sua música solitária, por entre aqueles pensamentos dispersos dos dois ainda imaturos quanto ao peso das palavras. Mas mesmo assim, se aventuravam em explicar as comezinhas interpretações de seus sentimentos mútuos. Era apenas distração, enquanto o efeito do álcool amortecia seus prazeres e adormecia o sentimento mais demoníaco que os unira naquele lugar. Mais pareciam feras em cio louco, apertavam-se como se descobrissem os músculos enervados entre as pernas. Cada qual intencionava descobrir onde mais se avolumavam os calores dos sangues que os enchiam.  Suavam pela boca e transpiravam pelas salivas trocadas, num jogo do qual não se saíam vencedores. Duelavam amistosamente por entre os outros. E estavam certos do que cada um poderia oferecer; tão certos quantos os toques sôfregos poderiam mensurar suas libidos em cio quase animal. Não havia um beijo; não era um toque suave, tampouco era desejo. Talvez um encontro excepcional, quase metafórico de conjunções universais de dois deuses furiosos; quem sabe ainda munidos de ira por conta de suas desordens internas. E nesta falta de ordem encontravam o equilíbrio vital para o entendimento de suas ignorâncias completas. – Eu sou médium. Tive um contato de primeiro grau!- o mais afoito declarou no ouvido do mais comedido. Ainda não havia o álcool no sangue e sua mensagem poderia ser entendida como um poder; uma magia. Ele pensou que ele se tratasse de um homem diferente. Estava cansado das investidas; da internet, dos perfis falsos. Aquela falsa magia das pessoas simples sempre o enganara. Escolheu aquele canto para entender as pessoas sem tentar aceitá-las. Admirava-as de longe sem se deixar influenciar por palavras domésticas. Ele precisava de algo surreal, que saísse daquela expectativa vã que seria, invariavelmente, a mais simples: flores, cartões, um jantar dividido. Deveria ser o mais original. Aquele que pudesse lhe retirar daquela tranqulidade no canto escolhido; som e música aprazíveis. Tinha de ser especial.; ou pelo menos diferente.

[…] 

O álcool tinha um poder legalmente elogiável. E conseguia tirar as pessoas dos lugares que elas mais gostavam de estar. Muitos deveriam estar tranqüilos, anônimos, seguro. E então o álcool. E o lugar escolhido ganhava dimensões de um cubo mais elástico. O espaço dos pés poderia ensaiar uma dança; talvez uma saída do encosto do balcão. Era confortável permanecer no estabelecido espaço daquela renúncia. Era fácil trocar um pé, colocar um ou outro, sem necessitar invadir campo alheio. E ele não se aventurava a desafiar a linha divisória de sua felicidade e a felicidade dividida. Campo minado ele sempre pensava assim.

A música era apenas um meio termo entre o que seria desafiar a linha divisória e permanência confortável naquela noite de tentativas mais extensas do que os passos dos pés sensíveis. A linha toda se amoldava aos possíveis passos de danças ou aos pequenos movimentos dos braços sem destino. Ficava ali por horas apreciando o sabor da cerveja encorpada enquanto as linhas aumentavam seus contornos perigosos. De nada valia a batida mais forte, pois a música não tinha o poder de remover sua razão. O álcool sim o tinha. Ele tinha a virtude de transformá-lo e lançá-lo para diante das linhas de forma ousada e impensada ao ponto da desmedida incompreensão de seus valores construídos sobre o cartesianismo de seu olhar para a métrica das coisas desorganizadas. O limite era as duas latinhas de cerveja. Sua ousadia controlada lhe permitia poucos passos, o que correspondia aos pequenos e curtos passos em torno de sua linha mantenedora da ordem. 

[…]  

Pensava nos traços simétricos que o pincel imprimia sobre a tela. Era apenas a medida da cor certa, tinha de ser especial, não podia sair da reta; no outro espaço estava a outra cor e as cores não podiam se misturar: a desarmonia, o desalinho. Restava a dúvida de quanto poderia ultrapassar. A mão suava e não poderia tocar a parte branca. Tinha de ser hábil com as cores. A sintonia delas, os espaços completos e as lacunas deveriam ser implementadas. Mas havia os contornos, aqueles que davam vida às formas e definiam a possibilidades de interpretações. E nada poderia disfarçá-los, pois o toque era grosso, firme, fortemente preciso. Parecia a linha de seus pés atônitos ao redor de espaços cada vez mais exíguos. – E o todo, tenho que pensar no todo. Tenho que pensar no todo? – ele se perguntava na permissão última da derradeira cerveja. O quadro já havia saído, misturando cores diversas sob o controle exato do contorno da linha preta. Então olhou para os rabiscos no chão onde conseguia ver a linha estreita de seu pensamento monocromático.

Estava o quadro pintado como ele queria sem os passos largos de pinceladas autômatas. Era ele quem mandava nos pés- até que o efeito do álcool não ultrapassasse o seu limite de controle- de forma a colocá-los na linha correta do controle de tudo. E a linha grossa do contorno permitia que desenho se formasse claramente; as linhas desenhavam os caminhos de uma trilha. Lá estavam pequenos carros e pequenas estradas, desenhadas pelos traços coloridos como de ruas do interior de sua terra natal. Eram ruas estreitas que permitiam pequenos movimentos como se pudesse se lembrar das ruas de sua infância, quando suas linhas eram bem maiores. Os espaços eram largos, bem maiores dos que agora poderia dar. Lembrava-se do ritmo de suas pisadas contadas quando sumia da casa de seus pais, quando sempre temia que fosse descoberto, mas era quando suas expectativas se tornavam em saltos largos, sem o comedimento de suas linhas controladoras, assim parecia ter  vida. A vida irresponsável de sua juventude lhe dera a liberdade de conhecer outros espaços; outros tamanhos de felicidade maiores do que as havidas até então. Mas, de repente, a vida adulta e responsável de um artista cheio de visões o obrigou a ter um olhar mais agudo das coisas; certo pudor e decoro para tirar as cores certas, o traço perfeito. E sua medida das coisas levava consigo no seu mudo cercado de quadros coloridos e de paredes brancas. Havia apenas o realce das telas, no entanto sua vida era o anteparo branco das paredes sem vida. Eram paredes brancas.

Mas havia linhas brancas por entre os sapatos; era apenas um pequeno quadrado nos quais lhe cabiam os pés. Ainda estavam assustados com sua ousadia de ensaiar uma dança, um ritmo diferente ao compasso da música. Seus braços estavam cruzados. O limite das cervejinhas já havia sido atingido como a pincelada última; não poderiam existir mais reajustes. A pintura estava pronta. Não poderia sair dali senão para o caminho da saída. Mas tinha uma saída nas linhas tortuosas da tela colorida. Sim, havia uma espécie de saída para os passos daquele que estava a percorrer a estrada dos caminhos. A tela parecia fechada e a saída tinha sido um descuido do pincel desatento.

E os pés pareciam ter vida própria e queriam sair daquele claustro. Ansiavam por sair e encontrar não a saída da rua, mas como a saída da tela que existia como possibilidade. Era uma saída.

[…]

– Por que você está calado?-, perguntou o outro ainda sem entender o pedido feito as estrelas. Ele respondeu apontando para outra estrela cadente. Agora foi sua vez de fazer um pedido. Fechou os olhos e pediu inclinando ligeiramente para baixo a cabeça pesada.  – Então o que você pediu? Também quero saber-, disse ele levantando-se tentando olhar em seus olhos. Mas não quis falar sobre isso. Era extremamente tímido. Ele não teria saído dali se o outro não tivesse aumentado os quadrados de seu caminho. – Pedi que meus caminhos pudessem ser alargados como o caminho das telas que pintei, havia uma saída, ou que houvesse sempre alguém que mostrasse o caminho de mais quadrados- falou como se aliviasse de uma tortura. Ele ficara por muito tempo naquele espaço. O tempo passava longinquamente por entre seus pés. Deteve-se por muito tempo como se dependesse de uma muleta para sair andando. E de repente ele enxergou a saída como a deixada por displicência na pintura última. Estava lá fora da interpretação fechada que queria dar. A abertura da rua não tinha o contorno da tinta preta que cerceava a liberdade da obra. Ela era fechada porquanto não havia interpretações. – Eu não queria saídas!- disse como se explicasse a resistência ao galanteio do outro. Na verdade, os traços tinham sido feitos ao léu. Na sua experiência sabia que a obra final apareceria no último traço.

Não havia preparação, apenas as cores primárias. Elas tinham que existir de qualquer forma, mas não gostava de detalhes de humanos nas suas pinturas. Eram, por excelência, abstratas num sentindo mais intimistas e repletas de interpretações instantâneas. Eram simples demais. Naïf. No entanto, fortes. Cores fortes que representavam a alegoria de uma metáfora de um livro escolhido. Poderia ser a última leitura como o último romance da cabeceira escura. E lá estava Wilde a decifrar quase que hermeneuticamente os sonetos de Shakespeare; ou as leituras impossíveis de visualizar de Emille Dickinson; ou poderia ser a mistura, a tentativa de entender as linhas que rimavam e que escondiam um amor longínquo. Estavam na cabeceira como um alento; em último caso, inspiração.

Não existia tampouco um ritual, uma indumentária talvez: um saco plástico por sobre a bermuda já manchada. Ao lado sempre deveria estar a paleta. A sua já estava completamente tomada pelas cores, pelas tentativas de criar algo novo e como se do algo novo surgisse a cor perfeita e, por conseguinte, o traço perfeito. E aí residia sua principal preocupação. Ele sempre pensava no último traço, pois sabia que ao término teria a satisfação final. Até lá, tinha a difícil tarefa de encontrar a inspiração para o depois do primeiro rabisco na tela. Sobre o que seria o final também o deixava sob certa angústia. Às vezes a imagem não parecia ter formas, ou pelo menos uma linha, um desenvolvimento. Era instinto talvez.

Passou o primeiro traço vermelho sobre a tela branca. Pensava no caminho de rosas vermelhas de uma estrada sem fim; para isso reforçou o traço fazendo um desenho em forma de serpentina. Ainda não havia os contornos. –Que imagem dar a este caminho?- pensava intimamente.  Mas deteve seu pensamento e buscou um mistura diferente. Pegou o laranja, misturou com o azul. Passou o pincel. Fez a primeira volta e viu a terra. Assim continuou com o traço, desenvolvendo outra serpentina facejando a outra linha vermelha. Elas percorriam caminhos diferentes apesar de se tocarem em algumas partes, mas não se alinhavam, nem se opunham. Estavam lá exigindo um valor para suas formas e esperando o contorno final para a assunção de suas existências. E ainda não havia sentido para aqueles caminhos. Olhou para a paleta como se fosse inventar outra cor. Apertou o tubo do azul. Não reconheceu vida, nem morte. Então pegou o amarelo; apertou o tubo amarelo e a tinta saiu como se tivesse vida própria, dando brilho à paleta inerte; mero instrumento daquele mister. E o amarelo pareceu recobrar-lhe o interesse. Pensava em misturar e, assim, emprestar ao azul um sentido maior. Pensou bem e molhou o pincel na água encheu-o de vida e transpôs uma linha maior de amarelo por entre os espaços brancos obedecendo ao mesmo princípio das serpentinas.

Distanciou-se como se tentasse vislumbrar e antecipar toda a obra. Virou a cabeça para um lado e para o outro e ainda não havia nada. Virou a tela de ponta cabeça e viu as ondas de um mar de arco-íris, faltavam-lhe outras cores. E então pensou num arco-íris. Colocou-o na vertical e imaginou um dragão chinês. No entanto, nada disso parecia com o que sua vontade de realização final havia endereçado à sua inspiração. Na realidade, ele queria que fosse uma interpretação poética de alguma obra literária; que dissesse algo mais simples e menos prolixo. Nada de aberrações.

[…]

A linha dessa vez era branca. Não mais preta e firme que davam contornos de vida, mas aquelas que separavam os azulejos quadrados. Ensaiou um cheque mate. Sentiu-se ousado e então avançou em movimento do cavalo. Desequilibrou-se. Voltou à posição inicial, procurando o lugar confortável de outrora. Desequilibrou-se. Já não era mais seu lugar.

– Pensei que não fosse me dar a oportunidade de brincar com você!- falou o novo ocupante do lugar escolhido.

Ele não acreditou que pudesse dialogar naquele local. Aventurar-se em sair dos quadrados e jogar esse xadrez solitário tinha sido o mais longe ao longo de tantos anos. Não houve ensaio. Foi tudo de primeira vez, de primeiro impulso direcionado pelo temor de não saber lidar com essa novidade. E então, depois de tentar alguém se aventurar em observar sua insólita dança, ele não entendia o porquê de tomar seu lugar. Pois ele havia chegado de mansinho, observando aquela multidão de corpos suados embalados por uma música quase incompreensível. Escolheu o melhor lugar, o mais discreto e então se dispusera a aproveitar apenas o prazer de duas cervejas, ainda que controladas, evitando que sua timidez virasse algo descontrolado. E virara certa vez.

[…]

A tela era bem maior do que pudera imaginar sua vontade de pintar. Foi um presente, mas não uma exigência de se pintasse para o doador. Era apenas um presente. Grande parede branca como uma página em branco em confronto com os desejos do poeta. Então pela primeira vez tinha a impressão que nem mesmo o primeiro traço poderia dar. Olhou diversas vezes para que pudesse entender o que poderia ser feito. Pensava nas primeiras impressões que poderia dar, iluminando a tela com um fundo claro ou lívido. Talvez as estrelas! Mas desistiu por insistir em cores claras em luz assim como os impressionistas. Sob a luz do dia. Plantados como árvores esguias sem folhagens a espiar o movimento das luzes e sombras sobre o jardim descampado. Ficavam ali, compenetrados nas dimensões certas da sombra e do efeito da luz sobre todas as coisas. E era fácil. Tinham todo um panteão de inspirações para rebuscar o trabalho, dar forma, dar vida e história. Mas ele se sentia uma inquietação nunca antes sentida.

Por alguns instantes pensara numa imitação; uma procura de imagens que pudesse continuar. Imaginou, segurando o pincel e com o polegar na sua parte superior- criou uma régua-, e distanciou-se para auferir a figura. E então vieram porções de amarelo pedidas por entre a imensidão daquela tela. Pensava em flores talvez. Monet e seus nenúfares. Desistiu. Seria uma cópia. – Todos fazem cópias, talvez uma apropriação!- pensara com seus pinceis. E parecia que naquele momento a inspiração não viria. Havia, também, desistido dos livros. Todos estavam sem sentido para eles até mesmo seu preferido. Pegou Cabral e começou a ver imagens; passado, infância. Mas havia crianças a brincar, lagos, o canavial. Na realidade não era seu favorito- estava à mão- e havia as intervenções humanas. Ele queria o abstrato, ainda que pensasse nas flores, nos grandes vestidos das senhoras. E apareceu do lado Mrs. Dallaway cortando as flores e preparando-as para a mesa. Estavam lá povoando a mente de possíveis intervenções. Mas nada lhe dava a medida certa.

Sentou-se ao lado do Bordeaux à mão também. Ali em casa poderia ficar a vontade. Sentado e ainda inquieto com a única preocupação daquele dia. A primeira taça veio de leve. Estava um pouco cheia e um pouco vazia ainda de sua tentativa. Pôs os pés na mesa, cruzando-os na mais perfeita posição no cômodo de sua divagação. O sabor estava a contento do sempre paladar apurado. Ali ele poderia tomar sozinho suas garrafas. Aliás, sozinho era a condição para suas incursões no seu mundo. E então foi um momento para parar e visualizar o tamanho de seu atelier. Olhou para as paredes e começou a contar suas telas. – Um, dois, três…-perdeu-se na sua medição idiota. Havia os vendidos e os que ficavam no andar debaixo.  No entanto, mantivera-se observando os arredores, voltou-se para o lado e observou seu brinco de princesa que ficava pendurado na varanda. Levemente o vento o deslocava de um lado por outro sem se incomodar com o fato de a vida estar nele. Mas estavam lá, dezenas de pequenas flores quem pendiam como brincos, mas poderia ser lanternas. – Podiam ser lanternas, ou câmeras a observar seu trabalho; sua inquietação. Então, parou para observar melhor e começou a contar o número de brincos. –Um, dois, três, quatro…Mais um gole depois de rodopiar o vinho na taça bebeu-o em suaves toques da língua. Ficou ali por horas…

Olhou a grade que sustentava a Azaléia e pensava na beleza das formas que pareciam suplantar a beleza das flores que sustentava. As formas imitavam os traços de mãos delicadas que se enroscam em torno de si, como se quisessem segurar toda a sorte de coisas com suas mãos frágeis. Eram mãos verdes, talvez musgo. Mas era uma obra de arte que tinha mais valor do que sua fortaleza suportava. E elas estavam lá há anos sem que ele soubesse do que se tratavam; do que representavam para ele.

Mais um gole veio. Ele estava na segurança de seu atelier, emoldurado pela sua vida gasta em pincéis e telas. O tempo tinha sido esse momento de razão no qual se pensou como parte de tudo aquilo. Era seu mundo, mas não havia comunicação. Assim como as plantas, as telas haviam passado despercebidas. Uma conversa longinquamente solitária mantinha sua estirpe. No entanto, era apenas um mundo sozinho cujas linhas ele havia traçado nas suas telas e na sua vida.

 

 teste

Capítulo 2

Amizade de Sangue

[…]

– Trouxe um vinho. É o seu favorito-, entregou a ela com o mesmo tipo de laço. Ela era sua única amiga.

– Entre! Quero te mostrar uma coisa- ela disse com olhos cheios de empolgação. Pegou-o pela mão e pediu-lhe que fechasse os olhos. Ele sentiu que seria mais uma tentativa dela de convencer que poderia mudar alguma coisa. No entanto, o status quo não poderia se modificado. Sua predileção era clara: o bronze de Rodin, a tez de São João Batista e o falo das esculturas romanas às gregas. Mas no fundo ele tinha certeza de sua predileção. O fato é que ela insistia para ele tivesse uma postura diferente em relação a sua vida. Os passos deveriam ser mais amplos; mais amplos que o caminho de seu atelier para casa; ou da casa dele para um jantar na vizinha casa da amiga. E por muito tempo essa amizade se manteve nesses contatos quase mudos regados à vinho e a tertúlias domésticas.

– Abra os olhos!- ela pediu sussurrando em seu ouvido. Ele se manteve parado e coçando os olhos com as pontas dos dedos, pôde ver a grande pintura. O quadro tinha quase 5 metros de largura e 2 de altura. Era uma pintura muito rica. Vários detalhes o colocaram em demorado silêncio, analisando, primeiramente a feição da amiga- ansiosa para um comentário inicial-, e depois ainda sem palavras para admirar a obra de arte. Aproximou-se e tentou cheirar o frescor das tintas- para ele cada cor tinha cheiro-, portanto o amarelo tinha cheiro de primavera, de flores. O verde claro, que emoldurava e preenchia a tela cheia de folhas, tinha cheiro de terra molhada, como a terra dos seus jardins que aguava todas as manhãs. Sentiu o cheiro dos lírios que ladeavam o caminho do quintal assim que se aproximou das gigantes begônias brancas. Distanciou-se e abriu os olhos para a dimensão da tela que o enchia de certa familiaridade. E finalmente reaproximou-se tocando suavemente os tijolos da estrada.

A única coisa viva que aparecia naquela tela era apenas um pequeno homem de costas vislumbrando o grande caminho de tijolos sobre o qual se encontrava um pequeno banco. A imagem parecia o solitário magpie de Monet. Aquele homem era o pequeno magpie, propositadamente aquele pequeno ponto preto e branco.

Ela deu dois passos para trás. Esperou que ele saísse daquele transe. Ele afirmava: – Sou eu esse magpie, sou eu aquele magpie… – esse pensamento reverberou por toda a dimensão da grande sala.

– Ainda você insiste nesta história de solidão? – bradou mais alto do que seu tom de voz normal.

– Por você me retrata como se eu fosse um só. E você então?- ele se pôs a discutir com o dedo em riste. Na direção dela, ele bradava como se fosse um maluco. Seus gritos ecoavam dentro do enorme vão. E revidou:

-Ainda não esqueceste o calor de meu sexo, minha boca entre tuas pernas? Não sabes que não pode frutificar essa fornicação? – Ele repetiu sua sentença duas vezes.

Havia sido no primeiro encontro num vernissage de um amigo em comum. Ele ainda não sabia de nada sobre essa libido para com mulheres. Havia nele a convicção de que não saberia nunca o que fazer com um desejo da raça, no entanto, não sobrevivia dentro dele. E por muitos anos ignorou. E ainda mais que se dizia puro, virgem.

Mas nesse dia tinha que provar a si mesmo que nenhuma mulher poderia entender o que fazer com a libido dele. Eles eram apenas admiradores do amigo pintor. Eram todos pintores. E este detalhe mudava sua atenção somente para ela. Ela era inteligente também. E o viço em sua pele administrava uma sensualidade fora do comum. Na verdade, seu interesse residia nos olhos inteligentes. E ela era inteligente. Seus comentários eram perfeitos e sua beleza estranhamente interessante. Tudo isso favoreceu a sua perdição momentânea. Uma recusa a um bom vinho não cairia bem. Ele precisou de um argumento mais contundente. Assim esqueceu-se do que não queria.

Os dois foram pra cama a convite de vinhos caros e impressões substanciais acerca das artes. Somente por isso, depois ele pensou. Mas o fato que daquela troca incômoda eles ganharam certa intimidade de amigos confidentes. E todo aquele novo e rápido mundo- pare ele- demorou apenas o instante do gozo; quanto a ela, isso poderia se desenvolver além de uma simples amizade. E pare ele o interesse permaneceu em sua inteligência e no seu talento; quanto a ela o interesse dava lugar ao amor.

[…]

– Vamos tomar o vinho!?- ela falou com a voz banda cheia ainda de sua inteligência incial. E acrescentou:

– Não quis ofendê-lo; nem tratar na tela uma figura solitária. Apenas pensava em você.

Ela quis desfazer o mal-entendido. Mas agora o entendimento da sua libido continha toda a reclusão de seu celibato em tempo definitivo. Ela quisera talvez convencê-lo de que poderia pintar maior, melhor do que ele; do que suas telas simplórias. Ou talvez ela o estivesse convencendo de outra coisa. E isto, na realidade, era o que preocupava ele. Afinal sua amizade estava fadada a mais uma estatística de que as mulheres são mais inteligentes do que os homens, quando o quesito é levar um homem para cama.

– Onde está minha garrafa de vinho?- Perguntou com os olhos cheios de raiva.

– Aqui está! Ela entregou como se tivesse acalmado a revolta em seu amigo.

Ele pegou a garrafa e num golpe certeiro arremessou em direção ao quadro. A tela se manchou de sangue; de vinho. Sua ira havia se esvaído. E sua amizade havia acabado ali.

                                                                                                                                   Continua…

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por Roberto Muniz Dias Postado em Sem categoria Com a tag

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