Revisitando Morrissey

            Muitas vezes cantava – sim eu gosto de cantar – e cantarolava; isso devia ser meado dos anos 90, músicas em inglês. Mas era um inglês forçado, sem a devida precisão das letras. Era apenas por conta da melodia ou por conta da moda.

            Bem, inexoravelmente, eu cantava quase de tudo pop, mesmo que fosse rock. Mas um alerta , quando digo cantava, não significa profissionalmente. Era uma coisa caseira e despretensiosa. Mas de volta ao que cantava, por ser em inglês, misturava som com fonemas que me adequavam. E assim, passava a tarde a afrescalhar o calor de minha entediante vida em minha cidade natal. Foram anos nessa imprecisão gostosa de minhas impressões melódicas da vida.

            Hoje, posso dizer que domino certo entendimento sobre o Inglês. Depois de muitos anos lendo tudo que vinha a mão; depois de intensa correspondência com amigos do mundo inteiro, consegui segurança para entendê-lo. E agora, estou fazendo releituras – não obrigatórias, mas voluntárias e espontâneas de algumas músicas deste repertório imagético de minha adolescência.

            Nesse contexto, às vezes fico a ouvir – sim, agora, mais ouço do que canto; embora ainda cante – as músicas que antes embalavam minha momentânea distração.

            Então,  estou revisando ou revisitando The Smiths e toda a sua simbologia; toda a afetação de Morrissey e a eloqüente verborragia teatral; bem como a magistral interferência do John Mars  Passo horas a ouvir e entender a mensagem daquele tempo, daquela época e como ela invade ainda minha própria vivência, reinterpretando ou clareando problemas universais que enfrentamos. Mas não era somente a palavra, porquanto a palavra pode ser solta, mas a melodia. O tom melancólico da voz de Morrissey era o que, contraditoriamente, dava vida aquelas mensagens. Estou ouvindo “Heaven knows I’m miserable now”. Pedaços de poesia que se coadunam claramente com minha presente de condição.

            Engraçado que um amigo Inglês explicara – eu usara “condition” em algumas poesias –  que condition (condição) encerra uma existência transitória de enfermidade emocional. Achei muito profunda a explicação e que estava sendo deveras contundente com minha real condição. Achei por bem elimina-la. Portanto, a música citada tem a ver com essa fase melancólica de absorver felicidade nos outros e não enxergar como possibilidade em nós mesmo. Aí vem:

“In my life

Oh, why do I give valuable time?

To people who don’t care if I live or die?”

         

           É interessante observar que quando nos encontramos nesses estágios passageiros de dor momentânea, pessoas que se dizem experientes – e que aqui, acolá se veem em situações sazonais de oscilação emocional – tendem a se revelar verdadeiros conselheiros. E acusam essas minhas linhas- todas elas- de triste demais. Mas de fato, as impressões da vida são de momentos de superação da dor em detrimento de certo conforto na felicidade. E isto; esses estágios são transitórios. E o que Morrissey quer dizer é muito além do momento presente. A frustração de se doar e permitir-se abrir é muito grande diante da indiferença humana. Viver e morrer é condição de existência, especialmente nos complexos ajustes diários. Mas a indiferença humana é pior.

            Que eu trate da dor e da infelicidade, porque noutro post eu estarei falando de minha felicidade de encontrá-la na próxima esquina. É pequena, e passageira, mas tem seu espaço garantido em minhas linhas. Amanhã poderei falar de música cantada debaixo do chuveiro, ou cantada num dia frio; ou aquela de um ligeiro momento de felicidade. Mas mesmo assim será felicidade.

            No entanto, pergunto-me quantos pedaços de mim tenho ainda que perder para perceber que gasto meu tempo valioso com pessoas dispensáveis. Eu canto com Morrissey minha preocupação diária de insatisfação: quem se importa se vivo ou morro; se vivo na infelicidade das minhas indagações; ou se morro na felicidade que não me consome como nos outros. Ainda cantarolo, mesmo que fale da indiferença. Eu canto, eu canto:

“I was happy in the haze of a drunken hour

But heaven knows i’m miserable now

 

In my life

Why do I smile

At people who I’d much rather kick in the eye?”

 

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por Roberto Muniz Dias Postado em Sem categoria Com a tag

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