Entrevista com o Escritor Kiko Riaze

Essa entrevista foi feita, a bem da verdade, há mais de um mês. Virou uma verdadeira dívida de honra; cobrança quase que diária, mas por ser bom pagador ei-la aqui. Kiko pagou-a de forma brilhante e eloquente.

Divido com vocês essa entrevista – assim como Walt Whitman dividia seus livros-  como uma forma de compartilhar um pouco do processo criativo de um escritor; e como repercutem, dentro desse mundo, a força criadora e a arte.

Kiko Riaze é um amigo “encontrado” pelo acaso da literatura; pela matéria na revista Júnior. Desde então, fiquei fascinado pela coragem e o estilo despretensioso e inteligente.

Acerca do livro-Depois de Sábado à Noite-, diversas matérias foram divulgadas. O livro é um relato de um jovem-urbano-gay-carioca e revela todos os matizes do mundo gay, sem máscaras ou eufemismos. É também um livro sobre esperança e rendição no amor.

Kiko por ele mesmo: “Sou escritor, carioca, já fui ator amador de um grupo teatral do Retiro dos Artistas, avesso às convenções, de saco cheio de tanta hipocrisia, amante das artes e da Natureza. “Depois de Sábado à Noite“ (Editora Fábrica de Leitura) é o meu primeiro romance publicado, onde lanço um olhar realista, crítico, sensual e bem humorado sobre o mundo gay contemporâneo” http://kikoriaze.wordpress.com

Confiram a entrevista:

 NPP:Por que escrever um livro?kiko12

Kiko Riaze: Escrever é uma grande dádiva da racionalidade humana. Escrever significa transpor sentimentos e pensamentos, revelar-se nas entrelinhas, mesmo quando se trata de uma obra ficcional. É na arte de escrever que eu busco entender um pouco mais sobre as pessoas, sobre o mundo à minha volta e sobre mim. É um grande exercício e uma paixão, acima de tudo. “Depois de Sábado à Noite” surgiu da necessidade que eu tinha de revelar a cultura gay atual como ela é, sem máscaras e sem os estereótipos que estamos acostumados a ver. Resolvi abandonar todos os clichês, toda a romantização e a necessidade que algumas publicações têm de mostrar uma boa imagem do mundo homossexual e optei por  um choque de realidade que, no mínimo, fará as pessoas refletirem. Principalmente os gays.

 

NPP:Sobre o processo criativo: houve alguma influência literária para compor a estória do livro em si , ou do personagem Cadu? Por que Cadu?

 Kiko Riaze : Não sei dizer ao certo se houve influências. Minha leitura sempre foi eclética. De Jose Saramago a Jorge Amado. De Agatha Christie a Stephen King. Sempre gostei de ler. Leio tudo. Mas confesso ter uma grande inclinação pelos best sellers. Gosto de livros dinâmicos, que prendam minha atenção até o fim. No caso do personagem Cadu, a influência foi real, veio da minha vivência no meio gay, das conversas com amigos, das badalações de sábado à noite. Todo gay que ler “Depois de Sábado…” vai se identificar com Cadu, logicamente, tirando-se as devidas proporções. Existe um Cadu dentro de cada um de nós. Por que Cadu? Bem, seu nome de batismo é Carlos Eduardo, mas talvez nem ele lembre disso.

 

 NPP:Você rabiscou muitas idéias para compor Cadu? Você determinou seu perfil psicológico? Ou você misturou vários perfis num caldeirão?

Kiko Riaze : Rabisquei muitas idéias. Aliás, com as idéias não aproveitadas, talvez desse para escrever um novo livro. Mas no geral, Cadu não sofreu muitas mudanças em seu perfil. Eu já tinha em mente quem seria Cadu, só precisei lapidá-lo. Cadu é um mocinho não convencional. Tem muitos atributos, mas possui muitas falhas, como qualquer ser humano. Tem muitas fraquezas e se rende a muitas tentações, sem deixar de ser uma pessoa do bem. É essa humanidade latente de Cadu que o aproxima do leitor e desperta paixões. Cadu poderia ser eu, poderia ser você, poderia ser qualquer um. É um personagem totalmente verossímil e humano.  

 

NPP: Cadu é um reflexo da cultura regional ou pode ser um gay solteiro com as mesmas aspirações de um cidadão gay qualquer?

 Kiko Riaze: Cadu é um jovem carioca, completamente urbano, da zona sul, que frequenta lugares e tem hábitos bastante particulares de uma tribo. Mas nem por isso Cadu é diferente dos outros gays, pelo contrário, ele tem as mesmas aspirações, os mesmos sonhos, passa pelas mesmas dificuldades de um jovem gay de qualquer lugar, esteja ele no Mardi Gras de Sidney ou na Parada Gay de São Paulo. Ou até mesmo misturado em alguma micareta no Nordeste. Isto, porque o gay, no geral, é muito parecido.  

 

NPP: Você sonha com o Cadu?

 Kiko Riaze: Sonhei muito no período em que estava escrevendo o livro. E era bastante interessante, pois ao acordar eu sempre tinha novas ideías para o texto. Era como se minha mente se organizasse durante o sonho. Hoje já não sonho mais, entretanto, já recebi mensagens de alguns leitores confessando terem sonhado com Cadu. Um deles, inclusive, disse estar apaixonado pelo personagem e sonhando poder encontrar um Cadu na sua vida. É o que muitos querem.

 

NPP: Na possibilidade de transpor para a tela de cinema a personagem Cadu, como você queria que ele fosse enxergado?

 Kiko Riaze: Como um homem sensível, sonhador, porém de decisões firmes e personalidade marcante. Cadu é um jovem que não tem medo de expor seus sentimentos e que sabe reconhecer as suas falhas. Cadu não é uma pessoa inflexível. Ele é capaz de ouvir e mudar se for necessário. É um personagem forte e bastante atraente.

 

NPP :Você falou em outra entrevista que Cadu não é seu alter ego; mas o que você tem de Cadu e o que ele tem de você?

 Kiko Riaze: A autenticidade. Cadu é franco em todos os momentos. Fala o que lhe vem a cabeça e não tem medo de se expor. Eu aprendi a ser assim ao longo da minha vida. Não me escondo mais. Dei a ele também a coragem para ousar, para experimentar coisas novas e ter perseverança. Cadu não pára nunca, assim como eu, e está sempre procurando coisas novas para fazer.

 

 

NPP:  “O Bom Crioulo”, escrito por Adolfo Caminha em 1895, é considerado um dos primeiros romances brasileiros a falar sobre o homossexualismo. Amaro, o bom crioulo, apaixonou-se por Aleixo mas matou-o por ciúmes. Até que ponto a busca de Cadu é tão trágica ou impossível quanto à paixão em o Bom Crioulo?

 Kiko Riaze: Não há impossibilidades na busca de Cadu. Há apenas uma falta de sincronicidade em encontrar a pessoa certa no lugar certo. A parte trágica fica por conta da solidão, dos seus medos e dos conflitos que surgem ao seu redor. Um deles, inclusive, acaba em morte.

 

NPP: Desde sempre, a Literatura vem sendo dividida em Escolas, Séries, ou Segmentos. Caio Fernando era um escritor gay, portanto, escreveu sua Literatura. Você acredita na Literatura Gay?

 

Kiko Riaze: Eu costumo dizer que Literatura é Literatura e ponto. Mas não fico constrangido se for classificado como um autor de Literatura Gay, nem me preocupo com isso. A divisão da Literatura em segmentos é inevitável, mas para mim não passa de uma forma de catálogo. Minha obra ou qualquer outra obra que aborde o tema homossexualismo poderá ser lida por qualquer pessoa, afinal, os textos contemplam sentimentos universais, mesmo quando o assunto é restrito a um grupo. Os sentimentos humanos não podem ser catalogados. Mas de qualquer forma, minha obra sempre terá maior identificação com os gays. Eu falo deles, falo para eles. Se isto é Literatura Gay, então que seja, sem problemas.

 

NPP: Os críticos literários falam que toda obra deve provocar um estranhamento no leitor. Em que medida Depois de Sábado à Noite causa esse estranhamento?

 

Kiko Riaze: Sem dúvida alguma, o estranhamento está no choque de realidade. “Depois de Sábado…” é um livro sem pudores, onde não há lugar para hipocrisias e convenções. É a vida como ela é, tanto em sua forma romântica, como em sua forma crua. O leitor é convidado a viajar por um mundo ainda coberto por uma nuvem obscura de conceitos equivocados, onde há espaço para o hedonismo, para as drogas, para a maldade, mas também para o amor e a amizade. É um livro de linguagem clara e objetiva e que vai causar em um certo incômodo em quem o ler, até mesmo nos próprios gays. 

 

NPP: O mal de Bartleby é a síndrome que faz os escritores desistirem de escrever. Os motivos são variados. É difícil escrever com o mesmo desejo do primeiro livro?

 Kiko Riaze: Não posso dizer pelos escritores que sofreram deste mal. No meu caso, o desejo de escrever é o mesmo. Já comecei, inclusive, a escrever o segundo livro. Já posso quase vislumbrar a obra em sua totalidade em minha mente. O tempo que me sobra para escrever, desta vez, é menor, mas não penso em desistir. Pelo contrário, até me frustro quando não consigo sentar na frente do computador para transpor alguma idéia. Mas eu tenho paciência. Aos poucos, vou chegar lá.

 NPP: O amor gay é ficção?

 Kiko Riaze: De forma alguma. Não posso negar que as dificuldades encontradas pelos gays são inúmeras, muito maiores do que as dos heterossexuais, mas não é algo impossível, absolutamente. Conheço vários casos de amor gay que deram certo. Eu mesmo vivo esta experiência. O problema é que muitos gays esperam encontrar um amor daqueles de contos de fadas, que beira a perfeição, ainda mais em se tratando de um mundo de muitas possibilidades e de um extremista culto à beleza, como é o mundo gay, no geral. No entanto, a perfeição não existe. É preciso ter consciência disso e deixar de lado alguns critérios fúteis, focar na maturidade da relação, no diálogo e no companheirismo. Problemas de relacionamento todos têm, mas isso não é um bicho de sete cabeças. O quadro não é tão feio como costuma ser pintado. Todos têm o direito de amar, idependente de sua orientãção sexual.

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