Papéis Amarelos

Papéis Amarelos

 

Abri a porta. Não queria (queria) relembrar tudo aquilo de novo. Mas tinha de dar um fim a tudo, começar a rearranjar as coisas: novas gavetas, novas prateleiras. Então comecei a arrancar aqueles papéis, que por razões idiotas ou irracionais, colamos em portas que se fecham guardando algum segredo. Arranquei fotos, recortes de revistas, pequenos provérbios, cartas, endereços sem donos, palavras soltas, rostos desconhecidos, cartões-postais, enfim, coisas que perderam sentido pro tempo.  Na minha mão, já se acumulava um monte de papéis amarelos sem vida que teriam outro destino; quem sabe num processo novo- reciclagem- possam recuperar a vida de outrora. No entanto, não mais vivem e, quando dão sinais de vida, aparecem como feridas expostas, recrudescendo sentimentos já guardados e esquecidos. Traz à tona valiosíssimas peças de navios náufragos, enferrujadas pelo tempo, esquecidas e que, por reviravoltas, retornam. E entre tantos destroços achados, encontrei um pequeno cartão, tão simples e singelo quanto suas palavras:

“- Um dia você me perguntou o que eu sentia…É algo acalentador…como uma melodia marcante, que traz orgulho de uma conquista e, também, restaurador como um sono tranqüilo e profundo. Acabei descobrindo isso.”

Eu não queria (queria) abrir aquela porta. Sabia que de alguma forma, outras portas fechadas abrir-se-iam espontaneamente. E foi assim. Aquelas palavras me remetiam anos atrás , quando ainda havia ingenuidade em mim. Anos em que temia encaixar as peças por pensar que seria difícil; e uma vez agregadas, trariam conforto e tranqüilidade. No entanto, se porventura uma fosse desfalcada : caos. Imagens límpidas e quase concretas formavam-se em minha mente, tentando traduzir aquelas palavras. Melodias também, tentavam rebuscar situações que simbolizassem a pureza daquelas mesmas palavras. E parece que conseguiram. Pude reviver cada momento , mensurando o poder de cada palavra dita; recordando a suavidade de cada toque, cada suspiro e todos os beijos

As imagens ganharam vida, pareciam me pegar de surpresa e colocavam-me em plena cena, atuando. E lá estava eu. Recordo-me do bonito cenário. E lá estávamos.

Fazia frio quando lhe pedi um abraço. O frio aumentava enquanto subíamos a colina. Pedi-lhe outro abraço, agora demorado, pois pressentia que não mais o teria. Comecei então a chorar num prenúncio do que suas palavras poderiam causar. Chorei e pedi que me segurasse para que eu não perdesse o equilíbrio. Pedi que falasse, mas que dissesse com as mais sutis palavras existentes. Supliquei que se pudesse , revestisse-as de uma mentira por mais tola que parecesse, mas que escondesse de mim a trágica verdade. Nesse instante, fui trazido à realidade. Não queria passar por aqueles minutos de dor. Ainda que pudesse consertar não queria (queria).

Ainda segurava-o na mão. Um cartão simples, poucas palavras mas cheio de histórias. E apesar de tantas alegrias, tantos presentes, não queria segurá-lo por mais tempo. Apenas palavras escolhidas num dicionário qualquer; copiadas de outras cartas, carregadas de sentimentos forçados.

Papéis, fotos que escondem minha feiúra; cartas…Encontrei uma carta, de um velho amigo. Gavetas: objetos sinistros, sempre guardam memórias diversas: cartas de amor, presentes, objetos de valor, peças íntimas, revistas proibidas. A minha não podia ser diferente, mas havia exarcebação na qualidade de sinistra. Ela realmente, guardava todas as más lembranças, ocultava segredos meus nunca antes revelados, fotos , registros de um passado recheado de tristezas. E nelas, encontrei um poema que havia escrito e que fora devolvido inesperadamente. Quando tentei dizer o que sentia e dava poder as poucas palavras de expressar aquilo que se reservava toda sorte coisas.Tudo havia desmoronado. E os pedaços de meu coração quebrado, juntamente com palavras vãs e inócuas vão preenchendo gavetas. E minhas gavetas vão enchendo , acumulando poeira e poemas sem títulos:

“Estou imerso numa nuvem negra novamente

Onde não vejo rostos precisos

A espera de realizações de sonhos

Embalado por melodias de tom triste

Canções que rimam clamores melancólicos

 

Ainda pensando no passado

Como se, às asas do tempo, pudesse retomar

Reconstruir da parte ruída

Agora, novos alicerces mas as mesmas intempéries

Recomeçar do erro e terminar nele

Fustigando a dor para que fique longe

 

Não mais promessas de olhos pequenos

Histórias que não foram construídas verdadeiramente

Abrindo caminhos às falsas conversas

Brincando de adorar quando se quer ser adorado

Carregando o coração com balas de ódio

Deixando uma grande mágoa…”

 

Palavras assim: imaturas, prematuras, avançando no tempo, reforçando previsões já vividas; déjà vu; sensações comuns. Um iniciante nas desgraças do amor porque não conheci a parte mais tênue deste mesmo amor. À frente de qualquer abertura, possibilidade; havia um obstáculo intransponível que não me queria deixar alcançar o amor.

Sobre papéis, alguns telefones dos quais sempre se esperavam ligações, mas no final das contas, sempre competia a mim a função de relembrar compromissos, reafirmar palavras esquecidas. Números que não indicavam ordem, ou quantidade, ou importância. Apenas números numa seqüência morta.

E o tempo? Um tempo…pedido às pressas a fim de clarear, deixando explicações no ar. A mim, cabiam as atribuições de desvendá-las, pegá-las e ordená-las para que se achasse um significado à súbita ruptura. Assim, os fracos alicerces cederam, ruindo as partes que se haviam sedimentado às duras penas. Agora sim , aqueles números se ordenavam, compunham uma soma e , a cada número acrescido, o peso da angústia total.

Aí, num momento de desespero, comecei a jogar tudo pro ar, deixando que aquelas coisas achassem seu lugar…derrubei estantes para que os livros se abrissem nas páginas certas e, que se a eles fossem dado o poder, gritassem suas palavras. Bíblias enunciassem todos os pecados ; os dicionários dessem os significados corretos e os diários berrassem todos os momentos de dor registrados…Joguei tudo para o alto.

E como se as coisas caíssem numa velocidade languidamente lenta;deixando no ar uma sensação de noção perdida, algo repousa em minhas mãos suplicantes. Um papel amarelo – pequeno como minhas esperanças – , que quase não sensibilizou meus sentidos. Um papel que datava de uma época quando ainda havia em mim ingenuidade e nele estava escrito:

– Eu te amo.

 

Anúncios

Um comentário em “Papéis Amarelos

  1. Ah, as nossas gavetas e as nossas memórias… nunca me esqueço de uma estupenda canção chamada “Thanks for de Memory”, que o Frank sinatra deu a sua versão mais bela e trágica num dos seus últimos discos… Não, eu não esvazio minhas gavetas, dentro delas deixo pedacinhos de Ricardo e pedaços de todas as coisas amadas. Na raiva, já rasquei coisas, na raiva de ter sido abandonado. Mas também nos meus abandonos foi por amor. Que texto , meu amado Roberto, que texto, que texto…
    Beijos,
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s