AMOR

Parece que foi ontem, quando minha mãe me vestiu no primeiro conjunto de short e camiseta. Tudo da mesma cor. Um detalhe no lado esquerdo, na altura do peito, repetia-se na borda esquerda do calcãozinho. Trinta e tantos anos atrás. E como tenho mudado. O fenótipo da vida foi me transformando no que me pareço ter me tornado. Nunca é fácil. E nem vou falar de aceitação de condição sexual. Longe ser minha vida somente esta preocupação. Preocupa-me a vida em si; o que faço dela e, mais importante, o que ela faz por mim.

Tenho certeza das dúvidas que colho num contínuo processo dialético de entendimento pelo exercício da pergunta e resposta. Mas nem sempre sei o quê perguntar a vida; e muitas das vezes, surpreendo-me com sua resposta. Parece-me que sempre estamos construindo e desconstruindo – ou alguém destrói para você – não sei ao certo. Mas estamos sempre criando e reinventando esta vida. Presente? Alguns pensam ser presente, outros advogam apenas pelo seu existir, como um compromisso que assumimos como bater o ponto, por exemplo. Eu aprendi a olhar diferente, mesmo admitindo que um grande designer a tenha elaborado. Mesmo assim quero usufruir o que me é gratuito e não oneroso; as coisas simples mesmo, como o dia, o ar, o adormecer e o amor. Ah! Mas como tem sido difícil entender, além de tudo o que já foi dito, como é difícil entender o amor.

Tenho uma certa tendência a acreditá-lo como algo passageiro, como o próprio passageiro de um trem: nunca se sabe se ele pegará o mesmo trem, ainda que a rotina o empurre a essa exatidão de horários e compromissos. Há um quê de mudança, mesmo que rápida, imperceptível. E o amor parece sempre nos roubar um momento. Seja qual velocidade for. Aí concluo que basta a gente deixar despercebido ou agarrar esse momento sempre que ele nos foge! Ou apenas deixamos de lado e vivemos como quer uma grande maioria.

Antes eu o buscava sempre, agarrando-o com unhas e dentes. Hoje ele me parece menos esquivo, mais trôpego, como um velho mendigo. Está sempre a me estender a mão. Mas não acredito em disfarces e logo o submeto a realidade dos fatos. Coloco-o em posição altiva, mas ele logo se dispersa por entre a multidão. Eu o deixo ir, mas sei que o encontrarei por ai, pedinte de mim. Não me enlouqueço se não o encontrar; nem ficarei em praças segurando cartazes com os dizeres: onde está o amor? E sem ser nunca, nunca, piegas ou usar do lugar comum, o amor está sempre dentro de nós, nas pontas dos dedos ou numa atitude menos maniqueísta da razão. Está sempre onde quisermos tê-lo. Basta apenas esperar a mudança.

Hoje ainda me lembro do amor de minha mamãe, o zelo para com o conjunto das roupas, o eterno olhar afetuoso. Isto nunca me escapou, porque sempre esteve com ela.

3 comentários em “AMOR

  1. Eu, infelizmente, já cheguei nesse ponto, o de andar pelas praças, facebookeanas ou não, virtuais ou reais, perguntando onde está o amor… não encontro. Nem mesmo em grupos que se mascaram de “tolerantes”.
    É a vida…
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

  2. Que lindo viajar pelo amor e suas possibilidades,mesmo aquela que se vai no meio da multidão as vezes fugindo de nós, ou por medo de viver o intenso amor verdadeiro.
    Grato pelas palavras.
    beijos em seu coração.

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