Luz nas Trevas – A volta do Bandido da Luz Vermelha

Ainda não sei dar uma descrição que, realmente, quero fazer sobre o filme de “Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. O filme é dirigido por Helena Ignez e Ícaro Martins, é a continuação do “Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla, e narra a trajetória do filho do bandido, o criminoso Tudo-ou-nada, na cidade de São Paulo.

Ney Matogrosso, enclausurado em uma cela, realiza um pequeno show teatral em sua performance no filme. Do que me recordo dos registros do Bandido da Luz Vermelha, a voz doce de Ney parece ser adequada ao papel; a figura física talvez não. Em seus últimos dias de reclusão, o Bandido da Luz Vermelha atingiu um ar de intelectualidade que é permitido somente para aqueles que entendem a amargura da prisão.

Um ar de decadência elevada à categoria de um mito, torna o Bandido um certo arauto de uma classe abandonada pelo seu próprio destino. Repleto de citações filosóficas, o filme beira um libelo contra a corrupção da alma e os valores humanos. Isolado do mundo, criando o seu próprio – com a intervenção da poesia propositada em todo o filme – Ney vai construindo uma imagem quase sólida de um Rimbaud aprisionado; ou de um Kafka alado. Ainda, a esta altura não sei dizer se estava ou não gostando do filme.

A reconstrução dos passos do filho do bandido da Luz Vermelha, Tudo ou Nada, nos confronta com questões deterministas, de uma herança maldita, que parece mais um romance naturalista repaginado pela tensão dos diálogos quase surreais entre os personagens; as cenas a meia luz de uma notívaga São Paulo irrefreável. Parece que, ao longo do filme, tudo é criado com tom caricato, tragicômico, mas com uma aguda crítica as figuras sociais. O Bandido da Luz Vermelha é vitimizado, enquanto a Sociedade, lá fora da prisão, parece mais corrompida e estragada do que os degredados dela mesma.

Há um resgate, não sei se proposital, da pornochanchada. A mulher é usada no seu mais vil mister, sendo sempre objeto nas mãos do homem, seja ele liberto ou prisioneiro de si. A única que parece se desvencilhar desse final é a namorada de Tudo-ou-Nada.  A prostituição não a torna fraca, ao contrário, catapulta sua imagem a uma figura quase helênica. De resto, as outras mulheres parecem fracas e sexualmente diabólicas. Pode ser, como disse, tudo uma construção eivada de uma crítica social subliminar ou descarada. Até agora, tudo parece uma invenção exasperada da vida urbana. A falta de retidão nas pessoas parece ser o fio condutor de cada vida humana.

Voltemos ao Ney, pois parece que o filme foi feito para ele.

Tento gostar da sua atuação tanto quanto gosto dele num palco. Fico em desconforto na poltrona do cinema, idealizo seu desempenho na tentativa de o cineasta sugar de Ney aquela entrega que ele faz em seus shows. Mas parece que Ney se assusta algumas vezes. Ou o grande Ney assusta a intervenção do cineasta. A atuação parece um desabafo, uma leitura dramática da vida do Bandido elevado a uma espécie de intelectual/marginal criado pela opressão. Todos nós temos frases fortes para declamar. Todos nós nos sentimos presos por alguma dor, uma solidão, um destino incerto…Ney fuma, mas parece também que aquilo, aquela terceira pessoa esfumaçada é-lhe estranha e contrário a sua entrega ao papel. Ele se perde, encontra-se, mas, no final, não parece se convencer de que atua.

No final Ney Matogrosso – como me encantei e aprendi a vê-lo, ainda acho que ele seja um diamante a ser lapidado como ator –  aparece cantando.

 

Vou fugir, resistir, amar e escrever

Vou fugir

Para bem longe de mim mesmo

Mas não quero me despedir

Olho para o vulto que se distancia no fundo distante do espelho

 

Vou resistir

A este olhar teu, cansado de não entender

Mas não quero lutar, bater… apanhar.

Parado fico esperando o primeiro movimento.

 

Vou chorar! De novo?

Apiedo-me de minha  condição solitária

Mas não quero caminhar sozinho pela estrada de tijolos sei-lá-do-quê

Olho para frente, um impulso natural.

 

Vou amar

À maneira mais simples e mais comesinha

Mas não vou deixar de exacerbar e dormir de conchinha

Deito-me sempre a mesma hora; essência vermelhas impregnam meu sonho

 

Vou escrever

Essas últimas linhas sobre amores antigos

Mas não vou deixar tudo em branco

Restam pétalas secas de uma rosa vermelha

Por vários abraços

Texto inspirado despropositadamente e magicamente inspirado em Giselle Jacques:

http://mentecatartica.blogspot.com.br/2012/03/por-um-abraco.html

Às vezes o medo vem como forma de carinho. Aproxima-se, afaga, diz-se amigo. Enquanto isso, vou caindo no seu jogo de sedução, embora saiba que é puro interesse. Medo não pode combinar como algo benfeitor. Ou pode?

Sigo acreditando no amor, sobretudo naquele que eu inventei. Mas ainda claudico nessas assunções que faço sobre o meu gostar. Hesito muitas vezes entre o que é fiel e o que errado. Destaco minha insegurança para com o tempo. Os amigos estão indo. E o que resta é a salvação ainda naquilo que me sustenta.

Preciso de um tempo para mim mesmo, como se brincasse de brincar comigo mesmo. Parar para pensar no futuro, não como meta, mas como certeza. Ainda tenho a Literatura como foco. Resta-me poucos dias porque o mestrado termina este ano. E este ano termina os prazos estabelecidos no início do ano.

Tem muita coisa ainda, especialmente aquelas que não sei. E que quando surgem, aparecem nas mais diversas e insólitas formas. Talvez aqui resida um certo sentido para uma normalidade que sempre queremos cumprir.

De novo preciso explicitar que não é tristeza, é fase. E como tal passa como no vídeo-game. Mas minhas vidas são gastas a cada adeus, a cada beijo e a cada palavra que escrevo. Espero ter muitas vidas e superar essas fases com bônus, para poder gastar pelo resto de tempo que me resta.

Desnecessário dizer que este espaço aqui é meu sustentáculo para essas manifestações. Sempre que escrevo ganho 10 pontos no jogo da vida. E continuo a escrever como se pudesse viver várias vidas. Até que um dia encontrarei a minha definitiva.

Um pouco do que sou – ou o que quero ser.

Estou com medo das explosões do sol; das explosões do mundo e ainda mais das explosões minhas, intestinas, silentes. Fico pensando que ainda “há uma luz que nunca se acaba, (…) nunca se acaba.” Mas ainda tenho medo desse bicho porvir. Parece que vai me comer, ou vai me tragar sem ao menos eu dizer que fiz tudo. E esse tudo que me comprime a fazer mais, melhor; e me coloca sempre em dúvida se posso ainda fazer o melhor, fazer mais…

E venho olhando o por do sol como verdadeira despedida, como se ele se afastasse calado e longinquamente proposital. Como se quisesse dizer impropérios, mas se ativesse a apenas ir embora mais cedo. As explosões seriam suas incontidas angústias, nunca divididas, acumuladas ao longo de séculos. “Ninguém me nota”, posso ouvi-lo sussurrar nestes últimos encontros.

Parece que a cada por do sol, ele se desgarra de minha mão. Vai chorar sozinho por detrás de outras terras, ou quem sabe seduzir. Ele me confunde. Às vezes penso que as explosões são apenas ciúmes, por que deixei de me esquentar com seus calores. Ando morno, soturno demais, meio lua!

E ando, contraditoriamente, por demais em êxtase. É algo comigo que me deixa longe dessas preocupações maiores, astronômicas. Deixo de lado esse abraço diário do sol, do mar, do vento e parto para as lucubrações mais íntimas, meus projetos mais ousados de uma escrita egoísta, que me liberta dessas tensões telúricas.

Às vezes quero agarrar o mundo pelo simples fato de querer dividir o que sinto; o que mais gosto. Sair por aí dizendo o que faço; como faço; como cada coisa surge nesse momento criativo. Quando do sorriso compartilhado pela minha ideia, pela minha poesia, pelo alcance, mesmo que restrito ao sol. É quando te dizem: – Que lindo! Embora eu sempre não me vejo um artista. Eu me vejo escritor de minha dor e alegria, que às vezes se misturam numa tentativa maluca e criativa. Desdobra-se em algo fora de uma lógica escritural; de uma coesão pedagógica; sai voando como pipa desgarrada de sua linha condutora.

E ser pego no afã da busca e da conquista, e ser elevado ao mais alto de quem me possuir; e ser tomado como troféu temporário, mas vívido. Guardar-se como tal; como livro em prateleira, sempre a mão, sempre na lembrança. Poderia ser assim tão simples, tão fugaz, mas grandiosamente eterna. Ou pode ser uma pedrinha jogada contra um lago e me ver perpetuado ligeiramente em ondas que se distanciam do pensamento.

(…)

Ou ainda ser aquele grande cometa que vai se juntar ao sol; na última conversa. Atraído, seduzido. Uma conversa violenta, franca, derradeira. Mas que não deixassem dúvidas sobre nossas intenções e objetivos aqui…nessa vida.

Adeus

Nem sempre amor é uma coisa de proximidade. Aliás, parece ser sempre o  amor `a distância o mais duradouro. Exemplifico com o amor de minha mãe: intacto, intenso, longevo, eterno, mesmo que à distância de nossos corações.

Misturar razão e distância para curar as feridas do amor é o pior dos bálsamos químicos que se possa produzir. Deveríamos andar sem precedentes, como que sem referência à catástrofe do amor. Talvez pudéssemos apenas nos cobrir de certos preceitos e deixar que nos despíssemos das outras convenções que vinculam amor a tempo.

Deveríamos saltitar sempre como crianças, na concepção que se tem de amor como algo comparável a um brinquedo. Usa-se, usa-se, quebra-se, mas não se perde a razão daquele momento. Logo, logo mamãe vai dizer que pode ser substituído; o choro vem em seguida, mas outro dia se segue também. Mas não tem nada de confortante esses brinquedos substituídos, apenas a sensação de que eles vão sempre suprir uma necessidade eternamente lacunosa.

E não tem nada não de infantil essa visão do amor. Porque o brinquedo quebrado pode vir a ser uma lembrança, e nesses momentos de dor, a lembrança é o pior dos remédios.

O que se pode fazer então?

Amor quer dizer adeus às vezes – sempre vou me lembrar das palavras do escritor, que de fato dizia “que dizer adeus é morrer um pouco” – e já escrevi sobre isso várias vezes. Mas me digam quando é que separação tem a ver com algo reparador? Talvez só com o tempo essas coisas se reconstroem, mas ainda despedida rima com perder-se um pouco.

Tal qual navio naufrago, visão perdida, estrela do norte longínqua.

Que constância é essa, mesmo que com vagar, das coisas que teimam em se repetir com a dor como pano de fundo? Alegria e felicidade são mesmo passageiras? Como capturar felicidade num vido transparente para sempre, e sempre dele se embriagar numa simples abertura da tampa? Como nos viciar nisto sem tem que ver o frasco secar ou se quebrar – e ver tudo se escapar como demorada partida?

Longa espera por lembranças boas. Como pode ser isso sem ter que invadir o outro, viver o outro e às vezes perceber que tudo isso não passa de um brinquedo de novo? Como recuperar a habilidade de consertar tudo?

O tempo vem e te ensina a se afastar das lembranças para que novamente dor não rime com felicidade. Desilusão sempre acompanha um momento que não volta mais, especialmente se esse momento relembrado não for de genuína felicidade. Porque, quando é felicidade resgatada, somos inundados de um mortífero sentimento de saudade, e mais uma vez o adeus vai lembrar um pouco que morremos.

Diário de Bordo: Encontro com gente de verdade!

Foi cansativo. Foi mágico. Como podem estas sensações se encontrarem tão proximamente?

Mas é assim que me sinto, ao mesmo tempo que me encontro cansado fisicamente,  a alma se preenche de uma energia quase alucinógena; insólita; nunca vivida antes.

Antes era aperto no peito, nervosismo. Encarar pessoas como elas são é sempre um exercício de aprendizagem, como se desse a mão a palmatória ou se levantássemos para aplaudir. Eu ficava sempre confuso. Mas sempre atento a cada palavra, a cada discurso. O ser humano é mesmo um mundo a parte. Cada um com seu universo e panteão de intrinsicalidades. É sempre novo, revigorador como água límpida; como chuva vivificadora. Queria o brilho de todos os olhos que encarei esses dias; toda a luz do sol da cidade maravilhosa e extirpar  dolorosamente toda essa saudade que me toma agora.

Como esquecer-me desses encontros?

Como me desvencilhar( não amar) desse pequeno grande gênio?

A experiência dessa vez se revestiu de uma transcendência que copia o destino do espelho. Estou na frente, estou nos bastidores. Sou ator, autor, sou o que está por detrás que se vislumbra com o protagonista. Que experiência rica! Estar perto de mentes que falam com entusiasmo – aquele raro brilho no olhar – isto tudo me fez repensar minha condição de tudo ser ainda pequeno diante da magnitude dessas pessoas.

Mas me regozijo quando encontro alguém que entende meu discurso, que minha militância tem algo de escopo, de alcance. As almas se entendem nesse vagar, nessa colheita que deve ser de frutos maduros. As sementes são espalhadas. Nos entendemos quando dizemos que sim, sim, existe uma veia literária nossa; existem vozes de um coro sinfônico. Mas mesmo que não haja concordância, temos a certeza de que estamos ainda juntos. Um corte transversal apenas nos distancia não nos torna díspares.

Apenas começamos. É um começo tudo isso. O brinde é antecipatório e de sucesso. Estamos seguros. Sou cineasta de minha filosofia, carregando um tripé nas costas e a ideia de que estamos construindo algo novo, algo nosso, algo pro mundo. Estamos devolvendo letras nosso amor pelo que acreditamos.

Falo em primeira pessoa dos meus dramas e repito os dramas alheios. É um sempre continuar. Sempre sonhando com o próximo passo e acreditando que o projeto do ser-humano ainda pode dar certo.

A magia continua nos meus olhos, na lembrança do passado, nas coincidências e nos percalços. Tudo me enche de energia que impulsiona pra frente.

E com foi bom viver mais esses dias rodeados de seres humanos; de colossos angelicais.

E o sonho sempre nos reaviva a alma.

Autoanálise

            Estou aqui fiel ao computador; ou melhor, ao reflexo do visor do computador. Nele vou começar a implicar comigo mesmo, começando a me perguntar se sou normal. Dizem que sim; e por mais que saiba que essas coisas mexem conosco, relembrei-me uma passagem de minha vida na qual aprendi algumas mensagens sobre autoestima. Algumas delas retratam que a personalidade deve ser demonstrada naturalmente, infligida mesmo quando da necessidade da mentira.

            Bem, personalidade tem a ver com caráter; algo próprio da pessoa. Decerto há as personalidades de caráter conturbado, de conflituoso embate pessoal, de depressão, de instinto criminal. Há aquelas, também, conturbadas com experiências traumáticas e experiências infelizes. Mas no fundo, permanece no criminoso, no maníaco depressivo, no frustrado emocional algum resquício de sanidade mental que o liga ao mundo atual, mesmo num último momento. Esse laço psico-temporal mantém implicações com as manifestações correntes. Esse liame com a natureza humana obriga-o a dirimir atitudes violentas, atos mais danosos; bem como o faz desistir de um crime, por exemplo, tentando o desfazer. O arrependimento surge como uma força maior; um arrebatamento da personalidade intrínseca do ser humano no reconhecimento da sua personalidade pretérita, incorporando sua verdadeira persona. Então fica em nossa memória o registro do exagero, do bizarro e do possível conserto. É assim que funciona a cabeça quando o travesseiro é esse elo psico-temporal. Aí, me pergunto: quem nunca teve sua personalidade extrapolada por não se deixar senhor do momento? Muitos vão marcar sim nesse quadrado: 

            Meu reflexo na tela espelhada do micro insiste em perguntar enquanto escrevo: “– Você é ciumento?” Dia desses, outro consorte, num outro momento passado de minha vida, deu-me como presente um pequeno livro sobre ciúmes. O presente me pegou de arroubo; um sentimento interno de descontrole invadiu-me, causando certo rubor em minha face.

             No entanto, às vezes, temos que agir como se fôssemos normais e reagir como se tudo fosse uma brincadeira. Encarei o desafio – agora me lembro de outro ensinamento sobre autoestima: sempre ouvir acerca de nossos defeitos –; pus-me a ler o pequeno manual. Lá, em pequenas e breves palavras o livro resumia seu pensamento em se fazer tudo com moderação, o famigerado meio-termo.

          Então, pus-me a perguntar como amar em conta-gotas…? Ela, a autora, não falava. A partir de então, deixei meu amor desacorrentado, livre de minhas intolerâncias, meus medos… Enfim tudo que de ruim havia em minha forma de amar. Segui a cartilha do amor sem ciúmes do pequeno livro que ganhei. No final de uma longa relação sem preocupações e usando do amor que liberta – segundo o livreto de como viver que ganhei – acabei despertando em meu consorte o desejo de conhecer outras pessoas, a aventura do amor libertário. O amor libertário no qual o compromisso se encontra na clandestinidade; na discrição das paredes do quarto; no comedimento das palavras sutis; no simples fato da existência, entre outras cousas menos relevantes. Ainda assim a primeira pergunta subsiste – insiste o reflexo.

            Respondo ao meu inoportuno amigo com um exemplo rasteiro como forma de garantir uma percepção clara de minha objetividade. Você não empresta uma peça intima de seu vestuário não simplesmente por causa de higiene, sim por causa de um cuidado extremo das coisas que são suas. Walt Whitman dava seus melhores livros para seus amigos, mas aí subsista um senso de compartilhar conhecimento. Existem pessoas que emprestam as coisas (livros, discos, calcinhas, cuecas, cd’s… namorados) com muitas reservas, por quê? Onde fica o amor libertário da fulana psicóloga?Apenas para não dizer que sou muito louco, admito meu pouco desconhecimento sobre meu lado mediúnico, que me leva ao ponto máximo da projeção astral e quem me conduz ao estado alfa das coisas para confessar que não sou ciumento. Quem não for Buda tampouco seguidor ferrenho de sua filosofia que marque com um “X” nesse quadrado:   

             Prossigo na minha autoanálise. Sei de meus defeitos d’alma, mas quem não os tem. Todos nós somos diferentes. Hoje em dia, proclama-se tanto a favor do respeito às diferenças. José Ângelo Gaiarsa já mencionara em seus estudos – quando escrevia sobre amor – esse aspecto de querermos as coisas como queremos e não admitimos a natureza explicita de cada ser humano. De fato queremos sempre ser Proclusto; com nossa mesa medidora de nossos anseios personificados na pessoa amada.

               Aprendi – digo isto olhando para o reflexo desafiador – que se aprende com a Vida. Quando se é velho e se admite a experiência da vida, há dois tipos de pessoas: a primeira coleciona rugas de tanto arrependimento por viver de forma adestrada; a segunda, em que pese às rugas, vive sempre contando causos da vida, de sua vida. Esta vivida com todos os sabores e dissabores que ela promovia, tentando apenas viver. Quem quiser ser a segunda pessoa, por favor, marque.

            Curtas palavras de autoestima enchem suas gavetas e você não sabe o que fazer com todas elas. À vezes bota no bolso; outras tantas guardam nos bolsos dos outros. Esquece-se de por em prática um arsenal de impropérios que te dizem o que é certo e errado. Mas internamente sua conduta assumida é certa e guia se tornando dono de seus próprios erros e acertos. A vida continua e os méritos de algumas conquistas são celebrados de forma pomposa. Mas as quedas são inevitáveis; essas barreiras que nos tornam mais seres humanos; pensam ser necessária, mas são apenas provas medíocres.

            A vida não deveria ter caminhos, mas possibilidades de ver sempre novos caminhos.

Último solilóquio

Sim, há uma linha tênue entre o amor e ódio. Estou me equilibrando nela. Mas ainda não caí. Segurei até que pudesse atravessar para o outro lado. Sim, “estamos na sarjeta, mas olhamos para as estrelas”, de certa forma estamos lá, mas o que interessa é a felicidade. Não, não vou ficar sozinho como posso ter sido convencido. Vivi uma experiência rica. Rica de erros e acertos que me puseram a pensar no valor da Liberdade – não confundam, incautos, com libertinagem – fato que me torna mais reticente a alguns conceitos. Sim, tudo pode mudar até mesmo pelo valor que damos às convenções. Não há nada mais fixo. Nem mesmo o amor. O amor precisa ser renovado, não se comporta nesse modelo de assunção de verdades. Sim, olho com mais calma agora para o passado. Sei o que é fazer e deixar de fazer, coisas que estão ligadas a um processo deliberativo de responsabilidade. Nada mais.

Sim, respeito e confiança merecem tempo. Não, não sou uma pessoa confiável de começo. Preciso saber onde estou e para onde vou no barco dos outros. E sim, tem luz no final do túnel, sempre. Basta passar o limpa vidros da desconfiança, usando o escudo da não-imersão-total; basta segurar com firmeza o freio-de-mão do carro. E sim, deixe-se soltar com o tempo. O tempo. Sim, ates meu inimigo. Mas hoje sei lidar com ele, como se fosse a pedra de Sísifo. Encaro o desafio todo dia.

Sim, parece que me tomo por um ar diferente que me envolve. Sim, isso! Mais dono de mim, mais senhor de decisões próximas. Não, não estou amargurado, como querem muitos. Estou apenas um pouco mais malicioso, mais experiente!

Inútil

Se eu apago e refaço pareço bobo ao brincar de mudar as coisas. A vida sempre se repetirá em pequenas coisas. Não adianta tentar transformá-las em grandes brinquedos. Os encaixes devem ser serenos; nada forçado pela natureza infantil ou humana.

Não queira mudar o mundo! As coisas por si mesmas se desdobram em coisas mais simples; rosas, pétalas; tempestades, ventos pacíficos…

Não adianta desestruturar as partículas, pois elas são apenas manifestações prováveis de um absurdo aparente. Tudo é um grande absurdo. Quando procuramos a verdade, encontramo-la fragmentada.

            (…)

Eu respiro duas vezes para tentar entender esse sentimento de dependência das coisas. Por que elas foram feitas para não durar? O que fazer quando você reencontra o que era ruim e agora se transforma; algo inútil para algo prestável! Algo antes que se acreditava falido e agora se torna alado. Estou pronto para dissipar e me transformar em algo para cima, como a luz!

O que posso fazer com as vozes velhas; aquelas que não se podem mudar? Os discursos prontos como quem sabe o curso das coisas. Onde reside a força de uma fraqueza solitária? Tantas são as vezes que sabemos dialogar, nos é pedido calma, mas a vontade que você tem é de esmurrar as paredes e imaginá-las verdadeiras coisas podres! Falíveis como as pessoas. Mas não se pode esmurrar hipócritas por aí – sem ao menos eles pudessem entender! – podem?

Calma! Vem para encerrar um conjunto de coisas boas, mas no fundo revela um certo controle para com a instabilidade das coisas! Estamos sempre à procura do equilíbrio, mas somente o mundo se equilibra nesse porte universal. Por que as coisas não são mais claras, sem um certo artificialismo divino criativo; eis que a ciência tenta explicar de forma mais simples as coisas complexas. É um tanto quanto provável que tudo seja simples, mas nós complicamos até o ponto da imaginação.

Pedem-me para ser inútil diante de uma perplexidade de articulações possíveis, mas quando se fala em forças, não se pode falar de razão, de liberdade. O que é liberdade, senão uma versão mais frouxa de uma ideia determinante? Apenas quando se afrouxam os sentimentos é que temos o controle inevitável do subjetivo. Repito, pede-se calma, quando o que se quer é a declaração de guerra – a provável solução para um conflito. Pede-se tudo quanto possível. Só não se pede para exprimir seu sentimento. Guarde-o. Ande na linha. Obedeça a maioria. Qual o discurso disso tudo?

Dizem que não quero a paz. É verdade. Tudo que me é tranquilo é pesado como força de toneladas que arremessassem para o alto. Finjo obedecer cada grupo de palavras entoadas, especialmente por aqueles que amo – ou que me dizem amar. Parece tudo meio impreciso como cordas de equilibrista. A única retidão está no desafio de não cair. Cair é perigoso, assim como desistir é fraqueza. Tudo parece meio fraco diante de uma necessidade absurda de deslumbramento; seja consigo, seja com os outros.

Caminho sempre às cegas em que pese esteja segurando fortes mãos. Sempre há um grupo de mãos fortes. Sempre há uma voz, mesmo que escondida por um grupo que direciona o bando ou a dupla, o que seja, para um acordo nada bilateral. E tudo se resolve numa simples indiferença coletiva. E eu é que quero guerra? Se guerra é o diálogo do fraco, essa é a minha guerra!

Papéis Amarelos

Papéis Amarelos

 

Abri a porta. Não queria (queria) relembrar tudo aquilo de novo. Mas tinha de dar um fim a tudo, começar a rearranjar as coisas: novas gavetas, novas prateleiras. Então comecei a arrancar aqueles papéis, que por razões idiotas ou irracionais, colamos em portas que se fecham guardando algum segredo. Arranquei fotos, recortes de revistas, pequenos provérbios, cartas, endereços sem donos, palavras soltas, rostos desconhecidos, cartões-postais, enfim, coisas que perderam sentido pro tempo.  Na minha mão, já se acumulava um monte de papéis amarelos sem vida que teriam outro destino; quem sabe num processo novo- reciclagem- possam recuperar a vida de outrora. No entanto, não mais vivem e, quando dão sinais de vida, aparecem como feridas expostas, recrudescendo sentimentos já guardados e esquecidos. Traz à tona valiosíssimas peças de navios náufragos, enferrujadas pelo tempo, esquecidas e que, por reviravoltas, retornam. E entre tantos destroços achados, encontrei um pequeno cartão, tão simples e singelo quanto suas palavras:

“- Um dia você me perguntou o que eu sentia…É algo acalentador…como uma melodia marcante, que traz orgulho de uma conquista e, também, restaurador como um sono tranqüilo e profundo. Acabei descobrindo isso.”

Eu não queria (queria) abrir aquela porta. Sabia que de alguma forma, outras portas fechadas abrir-se-iam espontaneamente. E foi assim. Aquelas palavras me remetiam anos atrás , quando ainda havia ingenuidade em mim. Anos em que temia encaixar as peças por pensar que seria difícil; e uma vez agregadas, trariam conforto e tranqüilidade. No entanto, se porventura uma fosse desfalcada : caos. Imagens límpidas e quase concretas formavam-se em minha mente, tentando traduzir aquelas palavras. Melodias também, tentavam rebuscar situações que simbolizassem a pureza daquelas mesmas palavras. E parece que conseguiram. Pude reviver cada momento , mensurando o poder de cada palavra dita; recordando a suavidade de cada toque, cada suspiro e todos os beijos

As imagens ganharam vida, pareciam me pegar de surpresa e colocavam-me em plena cena, atuando. E lá estava eu. Recordo-me do bonito cenário. E lá estávamos.

Fazia frio quando lhe pedi um abraço. O frio aumentava enquanto subíamos a colina. Pedi-lhe outro abraço, agora demorado, pois pressentia que não mais o teria. Comecei então a chorar num prenúncio do que suas palavras poderiam causar. Chorei e pedi que me segurasse para que eu não perdesse o equilíbrio. Pedi que falasse, mas que dissesse com as mais sutis palavras existentes. Supliquei que se pudesse , revestisse-as de uma mentira por mais tola que parecesse, mas que escondesse de mim a trágica verdade. Nesse instante, fui trazido à realidade. Não queria passar por aqueles minutos de dor. Ainda que pudesse consertar não queria (queria).

Ainda segurava-o na mão. Um cartão simples, poucas palavras mas cheio de histórias. E apesar de tantas alegrias, tantos presentes, não queria segurá-lo por mais tempo. Apenas palavras escolhidas num dicionário qualquer; copiadas de outras cartas, carregadas de sentimentos forçados.

Papéis, fotos que escondem minha feiúra; cartas…Encontrei uma carta, de um velho amigo. Gavetas: objetos sinistros, sempre guardam memórias diversas: cartas de amor, presentes, objetos de valor, peças íntimas, revistas proibidas. A minha não podia ser diferente, mas havia exarcebação na qualidade de sinistra. Ela realmente, guardava todas as más lembranças, ocultava segredos meus nunca antes revelados, fotos , registros de um passado recheado de tristezas. E nelas, encontrei um poema que havia escrito e que fora devolvido inesperadamente. Quando tentei dizer o que sentia e dava poder as poucas palavras de expressar aquilo que se reservava toda sorte coisas.Tudo havia desmoronado. E os pedaços de meu coração quebrado, juntamente com palavras vãs e inócuas vão preenchendo gavetas. E minhas gavetas vão enchendo , acumulando poeira e poemas sem títulos:

“Estou imerso numa nuvem negra novamente

Onde não vejo rostos precisos

A espera de realizações de sonhos

Embalado por melodias de tom triste

Canções que rimam clamores melancólicos

 

Ainda pensando no passado

Como se, às asas do tempo, pudesse retomar

Reconstruir da parte ruída

Agora, novos alicerces mas as mesmas intempéries

Recomeçar do erro e terminar nele

Fustigando a dor para que fique longe

 

Não mais promessas de olhos pequenos

Histórias que não foram construídas verdadeiramente

Abrindo caminhos às falsas conversas

Brincando de adorar quando se quer ser adorado

Carregando o coração com balas de ódio

Deixando uma grande mágoa…”

 

Palavras assim: imaturas, prematuras, avançando no tempo, reforçando previsões já vividas; déjà vu; sensações comuns. Um iniciante nas desgraças do amor porque não conheci a parte mais tênue deste mesmo amor. À frente de qualquer abertura, possibilidade; havia um obstáculo intransponível que não me queria deixar alcançar o amor.

Sobre papéis, alguns telefones dos quais sempre se esperavam ligações, mas no final das contas, sempre competia a mim a função de relembrar compromissos, reafirmar palavras esquecidas. Números que não indicavam ordem, ou quantidade, ou importância. Apenas números numa seqüência morta.

E o tempo? Um tempo…pedido às pressas a fim de clarear, deixando explicações no ar. A mim, cabiam as atribuições de desvendá-las, pegá-las e ordená-las para que se achasse um significado à súbita ruptura. Assim, os fracos alicerces cederam, ruindo as partes que se haviam sedimentado às duras penas. Agora sim , aqueles números se ordenavam, compunham uma soma e , a cada número acrescido, o peso da angústia total.

Aí, num momento de desespero, comecei a jogar tudo pro ar, deixando que aquelas coisas achassem seu lugar…derrubei estantes para que os livros se abrissem nas páginas certas e, que se a eles fossem dado o poder, gritassem suas palavras. Bíblias enunciassem todos os pecados ; os dicionários dessem os significados corretos e os diários berrassem todos os momentos de dor registrados…Joguei tudo para o alto.

E como se as coisas caíssem numa velocidade languidamente lenta;deixando no ar uma sensação de noção perdida, algo repousa em minhas mãos suplicantes. Um papel amarelo – pequeno como minhas esperanças – , que quase não sensibilizou meus sentidos. Um papel que datava de uma época quando ainda havia em mim ingenuidade e nele estava escrito:

- Eu te amo.

 

Como falar de livros que não lemos x Para ler como um escritor

Eu vou ler o mais recente livro do Peter Bayard : Como falar dos livros que não lemos; mas sinto um evento de antecipação angustiante.

Estou lendo o guia da Francine Prose e , no final do livro, ela faz uma listagem de diversas bibliografias obrigatórias na estante de um bom LEITOR e de um bom ESCRITOR.

Então pergunto-me - uma vez que já estou lendo Francine e vou comprar Bayard- , como farei  jus aos ensinamentos de Prose se  terei que passar pelas fases da Palava-Frase-Parágrafo- Narração-Personagem-Diálogo-DETALHES e Gesto e terei de aprofundar- me (Ler na íntegra) as obras citadas? Para ela seria o ideal.  Mas para Bayard,  que ainda não li,  seria um despautério.

E se eu fosse um escritor – mas isso também ocorrerá como leitor- , como poderia aprender sobre as tais premissas acima, sem conhecer as particularidades de uma personagem por exemplo; ou de uma exemplar narração, constituição de uma ótima personagem?

São questões quase existencialistas que me induzem a não seguir a lista da Prose e contentar-me com as impressões alheias sobre algo que devo construir com minhas próprias idiossincrasias. Mas ainda me falta a leitura de Bayard. E justamente por essa razão subjaz uma dúvida terrível:

-Devo comprar e ler livro de Bayard?

Ou posso deixar passar despercebido e contenar-me com qualquer resumo ou catálogo que venha falar de: Como falar de livros que não lemos ?

O compromisso diário: duas páginas por dia.

O ponta-pé inicial foi dado. O que, no início, era apenas um sonho- e de fato foi tudo com base num sonho; sem falar do outro projeto -, agora é pura excitação de etapa superada.  

Tem a ver com infância; com religião; sexualidade e concepções maniqueístas: o confronto entre Lúcifer e o Anjo do Bem.

É um projeto que está sendo preparado como um feto em gestação: demandará tempo, carinho e paciência.

Espero, em futuros comentários deste blog, anunciar a tão desejada publicação.

Perda ( permissão para intromissão da poesia neste blog)

As plantas ainda crescem em detrimento de minha água

Florescem sem meu alento e carinho.

É difícil manter a paz e a crença em mim mesmo

Sou poeta fingidor; sou poeta fingidor do amor?

 

Não soube lidar com a perda da consciência,

Quando me cobraram eterna vigilância pela florescência no jardim

Fui tolo, bobo, sem o menor denodo para com o mágico sentimento.

 

Não adianta meu choro seco, minha dor velada.

Ainda sou um monstro para os outros.

Porque sou o que sou sem ter planos de equilíbrio

 

Sou um homem na imanência e na transcendência do tempo afetivo

Não penso no mundo como ação e reação

Embora saiba que sou um pecador contumaz.

P.S.: Também publicada no site http://meuprimeiromoleskine.wordpress.com

A Análise Psicológica dos “Nick Names” em Sites de Bate-Papo.

 

Comentário realizado em 24 de abril de 2009 ao post: Nick de Pegação determina caráter de alguém? disponibilizado no site do escritor Kiko Riaze ( http://kikoriaze.wordpress.com) em 23 de abril do mesmo ano.

Dias desses, quando a solteirice lhe chama pelo nome de solidão. Lá estava o computador a me chamar de idiota, pois eu estava me sentindo sozinho. Então, cedo aos clamores da internet sedenta de meus sôfregos toques. E quando me imagino de novo em frente ao monitor-reflexo-anteparo-de-minha-dor, debruço-me na questão quase filosófica-existencial: `que nick vou colocar no bate-papo?`. O que era apenas uma diversão tornou-se um dilema dialético. Fiquei a lucubrar qual personalidade me tomava naquele momento de clamor. Seria eu a passiva descontrolada, pela alcunha de rabão-guloso? Ou me tomava um sentimento de pura libertação das minhas próprias amarras e então aparecia: o versátil-passivo? Ou havia em mim a necessidade de contemplar o novo, o insólito: ativo-mete-devagar? Fiquei pensando, por muito e muito tempo, em que pese o clamor das lacunas piscando para que eu decidisse de pronto que nome adotar. Pensei, pensei… Aí vieram as letras da música do Pet Shop Boys: Too many People. E era aquilo que sentia, “as vezes me sentia muitas pessoas, muitas pessoas ao mesmo tempo…um intelectual , um bon-vivant… Mas não haveria interesse se eu usasse, por exemplo, o nick de passivo-com- frizante-e-a-prosa-de-Wilde. Ninguém sequer comentaria (comeria). E se por acaso, ocorresse-me colocar: todas-as-possibilidades-se-houver-amor. Apenas aqueles em pleno conflito existencial trocariam algumas palavras comigo e logo após cometeriam o suicídio. Mas tudo dependia de meu personagem naquele momento; e dependia também de minha voracidade sexual; de minha índole sobre a cama e de meu empenho em mudar alguma coisa. Pois bem, todas essas alternativas cabiam em mim. E todas elas se afastavam, porque o desejo de busca primeiro sacia a libido, depois vem a troca de telefones e o viés contrário dessas experiências- o que , de fato é uma raridade. Eis que uma mensagem pisca no meu monitor: uma mensagem acabara de chegar. A pessoa do outro lado do monitor perguntava: `seu Nick faz uma referência a data do calendário francês da revolução francesa?`Fiquei sem resposta, depois de tanto tempo a usar um nick diferente, alguma alma, que há de se salvar, acertou com detalhes minha alcunha esdrúxula. Então, dei-lhe meu endereço eletrônico e fomos papear privativamente no hotmail. A caixa de diálogo logo piscou e pulou da tela: `oi cara seu nick do hotmail tem a ver com Oscar Wilde?`Nossa! Fiquei sem palavras. O rapaz tinha de ser especial. A lacuna que gritava dentro de mim e na tela do computador se enchia de certa felicidade e o diálogo se prolongou por muitas horas. Depois de tantas descobertas, a pergunta que não queria calar já não podia mais ser sufocada. Os dois haviam falado de diversas coisas: artes, música, vinhos, predileção por filmes, etc. Entao, eis que a magia do clima é quebrada com a revelação pelas duas partes de suas preferências sexuais. Foi quando o cara especial respondeu: `Eu uso gasolina e álcool`. Mas restava uma dúvida a respeito da `atividade` e da `passividade` desses dois elementos altamente inflamáveis. Cogitei em associações pertinentes para não ter que revelar que ele havia subestimado meus conhecimentos sobre biocombusteis e assuntos correlatos. Mas, mesmo assim, despi-me de qualquer pudor e comecei a redigir a clássica pergunta: `Você é at…`Antes que terminasse, ele se antecipou dizendo : ` sou passivo`

 

P.S.: Continue acompanhando o conto “Ele nao beijava” nos próximos posts.

Tem medo de escrever?

           Uma colega perguntou se meu ex tinha acesso às minhas poesias e devaneios escritos. De pronto, respondi-lhe que não havia problemas. Ele fora o maior estimulador de minhas mentiras e criatividade. Talvez, por essa razão, eu houvera de ser tão libertino, tão livre para sonhar que tenha perdido o sentido das coisas divididas, do senso da comunhão. E por isso, tenha caído na dimensão egoísta do autor em gozo onírico. Aquele gozo próprio, sem audiência; a descoberta íntima de algum legado. Talvez por essas razoes e outras tenhamos separado. Mea culpa”, talvez tenha sido eu o causador de tudo. Mas me restou minha herança: meus livros que somam prazeres únicos, somente meus.

            E por isso e muitas outras coisas, eu pressenti que minha felicidade e meu gozo não deveriam ser somente meus. Eu deveria dividir e, sendo assim, não existiam dois, mas eu apenas.

            Dizem que o poeta e o escritor confessam de certo mister niilista e egoísta , ao ponto de não sobreviverem a si mesmos. Como então poderia eu- escritor descoberto- satisfazer minhas necessidades e prioridades e obrigar a outrem assumi-las?

            Acerca do que escrevo, é apenas pura verve poética de criatividade, de divagação e permissão de invadir mundos. Quando falo em sexo ou em mãos dadas; quando escrevo um conto apimentado, isso não quer dizer que seja o que escrevo. Por mais que acredite que tudo que escreva tem algo de mim, esse algo é o exercício da forma imaginativa, como corpo elevado, tirado de si, observando tudo curiosamente. Sou eu, mas em estranhamento com tudo que é certinho.

            Quando escrevo com propósito de ser eu, meus títulos e temas se traduzem em mim, em gritos, em falas de solidão e esperança. Quando fujo desses parâmetros sou o poeta sonhador que espera por tudo, por todos e pela cura das doenças.

O calendário dos missionários mórmons

            De fato a religião se rendeu aos apelos da diversidade cultural. Outrora, dia desses para ser mais preciso, o Vaticano divulgou seus padres em fotos pra lá de fashion. A produção de moda investiu em  cabelos na moda, vestimentas alinhadas, fotos de olhares insinuantes.

            Bem, não bastasse essa ousadia, a onda parece ter atingido as outras religiões, que parecem não ficarem para trás nesse quesito. Agora, os mórmons, ou os missionários da Igreja dos Últimos Dias, deram sua contribuição para o mundo. E como eles mesmos dizem no anúncio acima:

12 Razões para você acreditar em Deus.

Junte-se a nós e celebre a humanidade…

E o que é mais curioso: Nós nos engajamos na diversidade cultural e religiosa.

…E acabar com as amarras de esteriótipos…

E assustem:  … e espalhar o evangelho da TOLERÂNCIA

Enquanto remodelamos as percepções com senso de humor…

Poxa. Confesso que os apelos e palavras deste anúncio me convencem de que Deus realmente é tolerante.

O que você acha?

Quero a morte

Quero a morte.

Mas não como o fim, um fim.

Quero-a como o nascimento de algo vivo depois dela

Como folha decídua que vira húmus, que vira flor.

Eu quero a morte de minha parte podre

E que umedeça; que cresça e fortaleça em mim a flor.

Na suporto mais essa pedra

Essa dor tão grande quanto a rocha da montanha

A intransponível dor de ser essa pedra

Que de nada vira flor. Vira pó, mas não flor

Por isso quero a morte!

Não quero mais dizer sim pra muitas pedras

Tudo que em mim rui e morre sempre.

Às vezes, tudo morre mas nasce

Quero nascer, renascer, quiçá voltar atrás.

Perdão? Quem sabe!

Errar e apagar; riscar e borrar e apagar.

As palavras soltas no ar; a verborragia jogada ao ar.

E apagar, apagar…

Fazer tudo morrer, morrer.

E a dor de cabeça que não para

Não volta minha consciência

E penso em apagar; desdizer… pedir perdão.

Quero morrer antes de a raiva vir

Quero a morte dentro de um vidro

E enxergar como fazer para matá-la

Sem ar, sem vida, sem ódio, com o perdão.

Apagar toda essa sorte de pedras no caminho e flores de caixão.

O que eu quero ser

            Não se tem a medida das coisas. Fala de quem algum dia já sofreu. E fala assim descaradamente daquilo que não entende, mas sente. Pois parece com o que acontece agora em minha cabeça-bomba. Numa eterna convulsão meteórica de pensamentos doentios, minha cabeça quase explode. E penso no estar das coisas agora. Tudo indefinido pelo chão.

            Mas deve haver algum controle sobre o sentimento?

            A cabeça pergunta ao detonador impaciente: – Quanto tempo ainda disponho antes que o pensamento mortal desencadeie a explosão maior? Pior, seria se tivesse que apostar em outras repostas senão a que tenho quando seguro o estopim. Seguro forte, como o engodo para meu prazer. E o que fazer?

            O detonador pergunta: – Que faço com minha impaciência de momento? Quero o estouro, a dor, o sofrimento. O que fazer?

A Felicidade: a pedidos!

Felicidade, a pedidos.

Por que não sou enfermo

E fiz as pazes com os medos desmedidos

Todos eles em boa hora, a ermo.

Me enrosco, aninho-me no carinho de meu cachorrinho

Me deito, me enrolo nos braços de meu paizinho.

Ainda em redemoinho, com os pesos em minhas mãos.

Tento o equilíbrio

Caminho na esperança dos meus sonhos

Mas ainda tropeço no que chamo de felicidade

Falo mal, mas com a boca cheia de trombones.

Sou o arauto de minha alegria anunciada

Se ainda há medos, destruo-os.

Se ainda houver tristeza, pulo como gazela.

Percepções momentâneas

            O metrô me deixou com a parede no rosto. Enquanto meu pensamento queria se fixar na paisagem. A parede, a parede. Claro que posso ver qualquer pessoa. Todos os semblantes são de certa expectativa. Hoje é sexta-feira. E quando o metrô anda, o pensamento não para de querer uma reflexão.

            O elevador, pela manhã, sempre sobe. E eu com meu copo na mão cheio de bom dia. “Bom dia, bom dia!” Mas o que realmente tudo isso representa? Ainda no contexto das passagens fotográficas reside o pensamento fixo no nada. Mas sempre a pensar de certo modo, se formos inquiridos, a resposta sempre retrata: “Estou pensando na vida”.

            O suco é bebido junto com  o alimento. Vem mais um bom dia. E paro pra pensar em mim dentro do metrô. Cheio de pessoas. E eu posso olhar para qualquer pessoa.

            Qualquer pessoa lá dentro se vê alinhada ou com a paisagem ou com a parede. Que deve pensar enquanto paisagem? O que deve pensar enquanto parede? Eu mesmo, enquanto defronte a parede, começo a delinear o pensamento. Vem algo parecido com o futuro de minhas palavras; de meus tormentos. Aí vem a parede que se fixa diante de mim. Então começo a pensar em nada. O metrô se move lentamente. A paisagem se volta contra a retina e começo a pensar na vida, mas com a velocidade das paisagens, começo a pensar em nada.

             O livro que tenho em mãos parece ser bom, mas inicio uma viagem até o íntimo da personagem e clareio certas idiotices em mim. Por que pensar em tronco seco se não há água? Será que sou tronco seco que não dá frutos? Na imagem que faço da personagem perdida em dúvidas vejo o reflexo torto dela em minha frente; em frente ao vidro da janela veloz do metrô. O pensamento, a imagem e a personagem se confundem na velocidade pensada do reflexo. Penso em nada. Penso na parede alinhada com meu rosto. Penso na vida.

Revisitando Morrissey

            Muitas vezes cantava – sim eu gosto de cantar – e cantarolava; isso devia ser meado dos anos 90, músicas em inglês. Mas era um inglês forçado, sem a devida precisão das letras. Era apenas por conta da melodia ou por conta da moda.

            Bem, inexoravelmente, eu cantava quase de tudo pop, mesmo que fosse rock. Mas um alerta , quando digo cantava, não significa profissionalmente. Era uma coisa caseira e despretensiosa. Mas de volta ao que cantava, por ser em inglês, misturava som com fonemas que me adequavam. E assim, passava a tarde a afrescalhar o calor de minha entediante vida em minha cidade natal. Foram anos nessa imprecisão gostosa de minhas impressões melódicas da vida.

            Hoje, posso dizer que domino certo entendimento sobre o Inglês. Depois de muitos anos lendo tudo que vinha a mão; depois de intensa correspondência com amigos do mundo inteiro, consegui segurança para entendê-lo. E agora, estou fazendo releituras – não obrigatórias, mas voluntárias e espontâneas de algumas músicas deste repertório imagético de minha adolescência.

            Nesse contexto, às vezes fico a ouvir – sim, agora, mais ouço do que canto; embora ainda cante – as músicas que antes embalavam minha momentânea distração.

            Então,  estou revisando ou revisitando The Smiths e toda a sua simbologia; toda a afetação de Morrissey e a eloqüente verborragia teatral; bem como a magistral interferência do John Mars  Passo horas a ouvir e entender a mensagem daquele tempo, daquela época e como ela invade ainda minha própria vivência, reinterpretando ou clareando problemas universais que enfrentamos. Mas não era somente a palavra, porquanto a palavra pode ser solta, mas a melodia. O tom melancólico da voz de Morrissey era o que, contraditoriamente, dava vida aquelas mensagens. Estou ouvindo “Heaven knows I’m miserable now”. Pedaços de poesia que se coadunam claramente com minha presente de condição.

            Engraçado que um amigo Inglês explicara – eu usara “condition” em algumas poesias -  que condition (condição) encerra uma existência transitória de enfermidade emocional. Achei muito profunda a explicação e que estava sendo deveras contundente com minha real condição. Achei por bem elimina-la. Portanto, a música citada tem a ver com essa fase melancólica de absorver felicidade nos outros e não enxergar como possibilidade em nós mesmo. Aí vem:

“In my life

Oh, why do I give valuable time?

To people who don’t care if I live or die?”

         

           É interessante observar que quando nos encontramos nesses estágios passageiros de dor momentânea, pessoas que se dizem experientes – e que aqui, acolá se veem em situações sazonais de oscilação emocional – tendem a se revelar verdadeiros conselheiros. E acusam essas minhas linhas- todas elas- de triste demais. Mas de fato, as impressões da vida são de momentos de superação da dor em detrimento de certo conforto na felicidade. E isto; esses estágios são transitórios. E o que Morrissey quer dizer é muito além do momento presente. A frustração de se doar e permitir-se abrir é muito grande diante da indiferença humana. Viver e morrer é condição de existência, especialmente nos complexos ajustes diários. Mas a indiferença humana é pior.

            Que eu trate da dor e da infelicidade, porque noutro post eu estarei falando de minha felicidade de encontrá-la na próxima esquina. É pequena, e passageira, mas tem seu espaço garantido em minhas linhas. Amanhã poderei falar de música cantada debaixo do chuveiro, ou cantada num dia frio; ou aquela de um ligeiro momento de felicidade. Mas mesmo assim será felicidade.

            No entanto, pergunto-me quantos pedaços de mim tenho ainda que perder para perceber que gasto meu tempo valioso com pessoas dispensáveis. Eu canto com Morrissey minha preocupação diária de insatisfação: quem se importa se vivo ou morro; se vivo na infelicidade das minhas indagações; ou se morro na felicidade que não me consome como nos outros. Ainda cantarolo, mesmo que fale da indiferença. Eu canto, eu canto:

“I was happy in the haze of a drunken hour

But heaven knows i’m miserable now

 

In my life

Why do I smile

At people who I’d much rather kick in the eye?”

 

Por Roberto Muniz Dias Postado em Sem categoria Tagged

A Loucura do Não

No fim, todos são malucos.

Não entendem a impossibilidade da amizade.

Querem mandar e por isso são os sóbrios.

Eu estive fraco, mas agora sou altivo- a  partir de hoje 24.05.09.

Mas não quer dizer vingativo.

É apenas a real codição presente

… o telefone toca, mas eu digo não aos novatos.

Ainda não.

Mas não quero ser esnobe, é apenas o final.

E pra que acompanha: basta!

Não poderia ser comigo!

            It couldn’t happen here (dos Pet Shop Boys) é mais uma das músicas melódicas que sempre cantarolava. Vinha sempre acompanhada, melhor dizendo; eu sempre a usava para estimular meu choro proposital. Aquele que comprime toda sorte de eventos ruins, e invariavelmente, acaba em explosão. Então era só ouvir a parte instrumental da música, com seus acordes em gradual ascendência e logo vinham as lágrimas…  

 

Yesterday, remember how clear it seemed

In six inch heels, quoting magazines

Go all the way, you knew you could

So far, so good

 

           E parecia que tudo poderia, impossivelmente, se acabar num último impulso melódico. Toda vez que o refrão vinha, outro arrebentamento de choro explosivo furava o peito.

            Mas quem poderia dizer que hoje aquele evento seria de pura premonição; algo sem um intuito proposital, mas com profundo sentimento de verossimilhança. Que é isso de ouvi-la agora? Como fico com a citação das revistas? E o déjà vu de se ver in six inch heels falando asneiras e dando muita pinta. Como pode ser tudo tão familiar?

            Hoje, arrepio-me com It coludn’t happen here, mas também choro em reconhecer em mim a força da vitória diária. Poderia ser tudo apenas divagações de jovens superpoderosos ao enfrentar tudo com o peito cheio de orgulho e sem medo de sublimações impostas. – Eu nunca quis esconder minha libido – dizia sempre ao meu Pai.

            A canção vem, mais uma vez, em gradual violência. A cadência de acordes animam apesar da triste constatação:

 

Now it almost seems incredible

We’ve laughed too loud, and woke up everyone

I may be wrong, but I thought we said

It couldn’t happen here.

 

 Nessa hora é que mais me emociono e revivo as letras como se fossem comigo.

ROSAS SELVAGENS

Rosas Selvagens é o primeiro Livro de poesias de Roberto Muniz Dias.

 

 

Rosas Selvagens

    

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Poesias Gay- Racionalistas
Por: ROBERTO MUNIZ DIAS

            A experiência da existência no mundo racional inspira o autor na busca pela compreensão de sua libido e de seu comportamtento. Os padrões são quebrados para garantir a existência. Mas os valores morais são mantidos como mantenedores da ordem interna. No entanto, a vontade é do grito, da música, da celebração. Os poemas de Rosas Selvagens são espinhentos, melódicos tristemente felizes. São reflexões de um homem gay aventurando a experiência do adulto, do casamento, das crises, do amor e da vida.

MARIPOSAS AO ENCONTRO DO CALOR DAS LAMPARINAS

 

MARIPOSAS AO ENCONTRO DO CALOR DAS LAMPARINAS 

é o mais novo livro de

 ROBERTO MUNIZ DIAS

 

 

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As reflexões são apenas motivos para reafirmar a condição humana. Pensar-se humano é muito mais do que apenas observar a natureza irracional das coisas. Muitas vezes, a ficção está além ou aquém da realidade e, por isso, nos esvaziamos de metáforas e fantasias. Mas a vida está na rua, está na crônica diária dos acontecimentos os quais se encadeiam no vagar das horas e dias. Cada imagem de dor, de desespero ou de alegria nos invade como realidade pura. Mariposas ao encontro do calor das Lamparinas é uma colcha de crochê alinhavada com histórias de miçangas crueis e fuxicos de cores reais. Aqui, acolá, a agulha fura o dedal e a história tem gosto de sangue, mas é apenas delírio das personagens. As mariposas se enfeitam e percorrem a órbita da alegria: quente e luminosa. Elas se esforçam em seus ensaios diários. Elas estão vestidas para a festa. Prontas para celebrar, em conjunto, o verdadeiro sentido da ciranda da vida.

DA IDENTIDADE

 

DA IDENTIDADE é o mais novo Livro de Poesias de Roberto Muniz DiasLivro de poesias Da Identidade

Livro de poesias: Da Identidade

 

A palavra dá poder aos pensamentos.

Acordo rei ou rainha, depende de meu humor.

 Quando ainda no casulo implemento a construção das asas.

Ainda não aberto aos desejos do Deus das armas e do fogo.

 Plebeu, talvez Hércules.

O momento acaba; sou apenas um poeta menor.

 A esperança do Colosso; do menino pequeno.

Palavras me dão poder.

Hoje sou um pouco fraco.

Daqui a um minuto sou uma identidade fragmentada.

Por Roberto Muniz Dias Postado em Sem categoria Tagged

Saiu no Correio Braziliense

EditorEditoras virtuais que publicam livros sob encomenda começam a surgir no país Publicação: 26/08/2009 09:25 Atualização: 26/08/2009

Editora: Ana Paula Macedo

Para escritores desconhecidos no mercado editorial, publicar um livro com o apoio de uma editora tradicional é tarefa difícil. Em muitos casos, uma boa rede de contatos tem mais importância do que um bom material para que alguma editora se interesse pelo trabalho do autor. Porém, alguns sites na internet, inspirados em iniciativas já consolidadas no mercado norte-americano, trazem uma nova proposta: publicar obras literárias sob demanda, com tiragens sem limite mínimo de cópias e com o benefício de não haver restrição temática. Quando o empresário C. André, 45 anos, descobriu um site que oferece esse tipo de serviço, constatou: “Era isso que eu precisava”. O carioca, que mora em Brasília, mandou o livro que escreveu para editoras fora da cidade há três meses, mas ainda não obteve resposta. “Com esses sites, há a vantagem da agilidade e da democratização”, destaca. Ele exemplifica com os variados tipos de gêneros literários encontrados nessas páginas da internet. “Você encontra dissertações, poesia, autoajuda, romances.”

O professor de inglês Roberto Muniz  Dias, 33 anos, viu na internet a possibilidade de lançar seu material “sem limitações”. Roberto tem quatro títulos publicados em um site, que, juntos, venderam cerca de 200 cópias. “Não dá pra precisar a quantidade, mas eu sei que pessoas de várias partes do Brasil tiveram contato com o meu trabalho. Isso é muito gratificante”, destaca. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) registrou, no ano passado, o lançamento de, aproximadamente, 19 mil títulos inéditos. Ricardo Almeida, diretor-geral do site Clube de Autores, no ar desde fevereiro deste ano, tem 1,6 mil livros em seu acervo – o que representa 8,5% das obras conhecidas como primeira edição publicadas em um ano no Brasil. “Esses números são surpreendentes e significativos”, afirma. A técnica O processo técnico dessas edições sob encomenda é simples: o autor se cadastra no site e envia sua obra em padrão A5, com o arquivo no formato PDF. Na página do Clube há um guia para explicar como se faz essa configuração. O site, então, calcula os custos para imprimir e distribuir a obra – de acordo com a quantidade de páginas – e, em seguida, o autor informa quanto quer ganhar, por cópia, com direitos autorais. O livro, cuja capa pode ser feita pelo próprio autor, não tem orelha, nem texto na lombada . Outro site brasileiro com trabalho semelhante é o Armazém Digital. Felipe Rangrab, da editora de Porto Alegre, sustenta que projetos do tipo “são uma alternativa fácil, barata, e rápida para que os autores possam publicar suas obras.” De livros didáticos a publicações em multimídia (CDs e DVDs), o site abriga material de cerca de 100 autores. A Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) é um site cujo serviço que oferece é um pouco diferente das duas páginas de internet citadas acima. Ela publica pequenas tiragens, a partir de 30 exemplares. Isso também é vantajoso para o escritor, já que editoras comuns não trabalham com tiragens menores que mil exemplares. “Com muita negociação, você consegue fazer o mínimo de 500, mas o custo é alto, pode chegar a R$ 10 mil”, revela Luis Satie, 46 anos, que também usou a internet para lançar os 10 livros que já escreveu. O autor tem a opção de enviar o texto do livro em Word, por e-mail ou pelo correio. Todo o trabalho de arte é feito pela editora, como a diagramação do miolo e a criação da capa. Além do bloqueio O caso de Satie, auditor federal de controle, é curioso. Ele chegou a ter um livro aprovado por uma editora mineira que, de última hora, desistiu da ideia. Por isso, decidiu divulgar o próprio trabalho por outros meios. “A gente que produz fica angustiado, com o texto na mão, e a internet permite que a gente consiga superar esse bloqueio imposto pelas editoras, esse muro de Berlim”, assegura. “Tem muita gente boa escrevendo e esses sites são bons aliados para divulgar”, ressalta. No entanto, apesar dos pontos positivos, os três escritores de Brasília veem algumas desvantagens nesses projetos. C. André e Luis Satie concordam que o custo de produção dos livros publicados é alto, o que dificulta uma margem de lucro significativa. “O problema da impressão por demanda é que o custo unitário acaba ficando alto, pois concentra vários componentes da logística de edição e impressão em poucos exemplares. Do valor do meu livro, por exemplo, eu só fico com R$ 6″, lamenta André, cujo livro custa R$ 43,65. Outro problema levantado por Roberto Dias é a pouca visibilidade que esse meio de publicação traz. “Um site não tem o poder de exposição que uma editora conhecida tem.” Mas André não considera isso relevante para quem só deseja ver a obra concretizada e não se preocupa tanto com a divulgação. E cita o escritor Jorge Luiz Borges para justificar essa opinião: “O autor publica um livro para se ver livre dele, senão fica reescrevendo, reescrevendo%u2026″ SITES PARA PUBLICAR LIVROS No Brasil: http://clubedeautores.com.br/ http://www.armazemdigital.com.br/ http://www.camarabrasileira.com/ No exterior: http://www.lulu.com/ http://magcloud.com/ http://www.blurb.com/ http://www.bubok.com/ TEMA DAS OBRAS DOS PERSONAGENS DA MATÉRIA » C. André: fala sobre atitudes individuais que podem mudar um ambiente social. » Luis Satie: relação entre direito e estética » Roberto Dias: poesias, contos e livros com temas de monografia

O MAIS NOVO LIVRO DE ROBERTO MUNIZ DIAS É:

O mais novo Livro de Roberto Dias é :

Adeus a aleto

SEXO COM AMOR:

        “ … Continuou dentro de mim como se pudesse me levar para outro mundo. Não conseguia olhar em outra direção seu corpo forçava contra o meu na medição de forças mais pacífica que podia existir. E não havia interstícios, pois sua vontade era a minha. Sentia-o cada vez mais forte e maior, como se seu sangue avolumasse a cada minuto seu sexo dentro de mim. Começou a parar e sentir-me provocá-lo; apertava-o como se chamasse a atenção para que não parasse. Por seu turno, fazia isso para sentir um pouco mais de minha vontade; se era de sim ou de não. Mas não havia dor naquele instante.  Pegava-me como se eu tivesse intenção de desistir; puxava-me contra seu corpo para que eu sentisse senão a verdade. Ele não parava e não parava de me olhar… “

SEXO SEM AMOR:

“             Ato I Cena II

            O Sodomizador entra em cena. Completamente nu, um corpulento homenzarrão negro adentra vestido com peças de couro por sobre o peito e uma argola em volta de seu pênis ereto.

            Sodomizador- “Vamos brincar meus gatinhos”. Retira um líquido preso as ligas na cintura e começa a lambuzar seu dedo médio. Começou a enfiar o dedo nos anus do sodomita da esquerda.

            Domintarix- “Mais, quero mais. Coloque sua mão”. Então o obediente servo colocou mais gel em torno de sua mão e braço e outra parte colocou sobre seu imenso falo duro.”

INGENUIDADE:

“ Corríamos, descíamos as escadas como qualquer criança feliz poderia descer: aos saltos; pulos, escorregando pelo corrimão. Não sabia mensurar quão velho estava para pensar que fazíamos uma traquinagem; tampouco desconhecia o quão jovens éramos para poder aventurar a se permitir. Descer assim tinha a ver com certa renúncia; aceitar uma condição de agora, nova e deixar pra trás algumas marcas que o tempo queria mostrar indeléveis. Mas naquele momento apenas havia a felicidade de qualquer coisa menos do que nossa constatação de o tempo ser algum empecilho. Éramos apenas duas pessoas saindo de seus mundos, deixando a irresponsabilidade como maior legado para a geração dos homens que ficaram para trás. “

LOUCURA:

“ 

Tentei esmurrá-lo. Esmurrei o ar. Esmurrei o espelho. O sangue espesso e escuro começou a verter de meu pulso. Espalhava-se por entre os espaços brancos da camisa, pingando sobre a pia. Me veio uma dor forte como revelando um profundo corte em meu pulso. A dor me causou um torpor mortal.

          Apertei meu braço e o sangue parou rapidamente. Amarrei a tolha em torno do braço. Quis fazer um curativo, mas uma letargia tomou meu corpo de conta. Adormeci. “

Por Roberto Muniz Dias Postado em Sem categoria Tagged

To be continued

Parei também com o processo criativo. Estou deixando de lado a ideia de ter que, de alguma forma, vincular os dois próximos trabalhos, imbricando as histórias separadamente. Pra falar a verdade, talvez seja apenas uma intenção incial, sem que de fato eles estejam definitivamente interligados.

É uma tarefa difícl esta de emendar estórias de forma que elas se comuniquem. Talvez seja locura minha, mas a mágica da criatividade tem a ver com essa  forma de não saber ainda lidar, sem saber de fato manejar as reais implicâncias.

Existe também a vontade de desistência, mas talvez esta seja, diariamente, rechaçada e -mesmo que uma linha seja produzida- assim é confeccionado o trabalho final.

Mas como é difícil continuar.

Saiu no DOLADO (www.dolado.com.br)

 

Adeus a Aleto

Adeus a Aleto

Conheça o novo livro do escritor Roberto Dias.

// Related Posts with ThumbnailsO escritor Roberto Muniz Dias volta a embarcar no universo homossexual em sua nova obra Adeus a Aleto.

Em uma história onde o escritor é o narrador, o livro retrata o surgimento de um romance com um jovem russo enquanto ele faz uma passagem pela Europa para falar de seu trabalho sobre o dramaturgo grego Ésquilo.

Roberto Muniz Dias embarca em uma aventura psicológica ao se descobrir dividido entre a realidade de seus personagens e a descoberta do amor, alternando entre ficção e realidade, amor e sexo, resgates da infância e da fase adulta em uma leitura misteriosa.

Adeus a Aleto recebeu a menção honrosa no Concurso Literário Novos Autores de 2009, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, em Teresina (PI).

Conheça outros trabalhos de Roberto Muniz Dias divulgados no Dolado.

Para adquirir e obter mais detalhes sobre a nova obra, acesse o site Clube de Autores

http://www.dolado.com.br/diversao-arte/livro/adeus-a-aleto.html

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

 

Devo confessar que não gostei do Alice no país das Maravilhas de Tim Burton, em que pese toda a tecnologia 3D envolvida nessa produção. Não vi nada demais, senão os comentários das crianças que sentaram atrás de mim e que se deliciaram com as coisas que saiam da tela, chegavam mais perto e que podiam ser tocadas com a mão. Mas nada de real, apenas a imaginação do 3D. E por falar em imaginação, o filme de Tim Burton acrescenta apenas poucos apelos à obra de Lewis Carroll já repleta de significações e fantasias das fábulas e contos de fada. E Alice não passa de um conto de fadas recheado de conotações psicológicas – ou quiçá de devaneios próprios do autor-, mas que se enquadra perfeitamente nos moldes das histórias que ouvimos quando crianças.

O mundo é recriado em situações esdrúxulas, mas que reportam à realidade de forma fantástica. Tanto é que desejos bastante mundanos, como raiva, medo, o contexto maniqueísta revelam a imaginação como forma de superar problemas que deixamos na realidade (o não submundo). E uma coisa leva a outra; neste diapasão está calcada toda a obra de Bruno Bettelheim o qual explicita sobejamente essa questão da psicanálise dos contos de fadas. No entanto, não sei por que motivo ele não retratou Alice em seu mencionado livro. No entanto alguns paradigmas de seu pensamento estão claramente definido nos complexos de imaturidade, a puberdade e a entrada no mundo adulto; as resposabiliades- Alice é prometida em casamento forçoso-; a falta do pai, etc.

Segundo Bettelheim a obtenção de conhecimento divide nossa personalidade em dois, e isso fica bem claro nas divisões do filme A Rainha de Copas ( Vermelho ) e a Rainha Branca ( A Pureza); ou seja “ o caos vermelho do emoções desenfreadas, o id; e a pureza branca de nossa consciência, o superego…A condição adulta só pode ser alcançada quando essas contradições internas são resolvidas e realiza-se um novo despertar do ego maduro, em que vermelho e branco coexistem harmonicamente.” E esses conflitos são resolvidos com maestria por Alice e ela realiza de forma contundente, resolvendo problemas em uma só ação. Quando ela desfere o golpe no dragão da Rainha Vermelha, ela dá fim a o julgo da rainha má e com a degolação do dragão, soluciona o problema do quesito edipiano, ao revés, livrando -se futuramente do sacrifício do casamento arranjado. O filme é cheio de belezas estranhas, animais falantes- próprios do animismo infantil- e a surrealidade dos diálogos. A Alice tem sonhos recorrentes e retorna a Wonderland para superar e atingir a maioridade, tudo realizado dentro do mundo maluco e mágico que o Autor e Diretor nos transportam. Porém, não me convenceu de nada, senão pela possibilidade de ver o chapéu do chapeleiro maluco voar perto de mim, ao alcance da mão; assim me juntando às crianças atrás de mim. Elas ainda a acreditar que a vida é cheia de coelhos malucos a lhes indicar buracos e caminhos alternativos em suas vidas; elas ainda acreditam que uma espada vai desferir golpes mortais aos monstros que aparecem em suas vidas.

No entanto, o mundo real é muito mais cheio de monstros palpáveis. Mas vale a pena assistir para mais uma vez observar a versatilidade de Johnny Depp.

Na Natureza nada se perde,nada se cria, tudo se parodia.

O novo clipe de Christina Aguilera trouxe à tona uma questão que é recorrente, pelo menos no cenário literário. Lembro bem das aulas de literatura comparada nas quais o professor falava das releituras, paródias e apropriações cuja função é aprimorar,repaginar, incrementar o texto base. E me lembro dos exemplos das poesias de Gonçalves Dias, sendo re-utilizados. A sua célebre Canção de Exílio foi transformada por vários artistas como Casimiro de Abreu; Canto de Regresso à PátriaOswald de Andrade; Europa, França e BahiaCarlos Drummond de Andrade; Nova Canção do ExílioCarlos Drummond de Andrade; Canção do ExílioMurilo Mendes; Canção do ExpedicionárioGuilherme de Almeida; Uma CançãoMário Quintana; Jogos Florais I e II – Antônio Carlos de Brito (Cacaso); Canção de Exílio FacilitadaJosé Paulo Pais; Lisboa: AventurasJosé Paulo Pais; Sabiá – Letra de Chico Buarque de Holanda e música de Antônio Carlos Jobim; Terra das PalmeirasTaiguara.E em nenhuma dessas intervenções houve depreciação ou empobrecimento do trabalho;e outra, nem por isso a  a figura de Carlos Drumond restou desgastada ou abalada por conta de ter parodiado a original. Mas deixando de lado a questão catedrática e nivelando para o campo de atuação dos meros mortais, e ainda lembrando que do princípio de Antoine Lavoisier “Na Natureza nada se perde,nada se cria, tudo se transforma.”

Lady Gaga, não inventou a roda, talvez tenha somente utilizado suas formas para compor suas produções cubistas, ou como querem os especialistas de plantão atribuir-lhe um gagaísmo artísitico. De fato, ela veio para movimentar e dar novos ares ao cenário pop que já não era mais reinado de Madonna, perdida em seus afazeres de mãe, ativista pró-adoção de crianças carentes e se refazendo de sua separação, assumindo amores de verão com modelos. Enfim, estava a mesmice; então a Lady Gaga apareceu como, em poucos tempo de carreira, um ícone da cena pop atual. Mas como ser ícone de uma geração que bebe de tudo que já foi feito? Se não estou mal informado sobre as tirinhas do cenário pop, Grace Jones apareceu dizendo à imprensa que Lady Gaga havia imitado seu estilo. E como não poderia ser difirente, Lady Gaga não inventou a roda de fato. Ela se apropriou, parodiou estilos já existentes não criando nada de novo, e sim reinventando Madonna, Marilym Manson, e não assumidamente a Grace Jones. Pois bem, hoje estava lendo uma reportagem do colunista James Cimino na Folha Online na qual ele comentava a estratégia de Xtina Aguilera ter mencionado, tanto na letra da música, como nas imagens, cenas de videos clips de Madonna, Lady Gaga e de George Michael.  E novamente, batemos na tecla da paródia, apropriação e de nada vale essa menção de que o trabalho de uma ou de outra ser , ou deixar de ter o mérito nas releituras que fazem. Na minha opinião nada tem-se feito de tão novo e original. A história tem criado algumas Divas e elas funcionam como verdadeiros bebedouros donde toda essa descendência de artistas são verdadeiros tributários de algum modo.

Falar em mérito é matéria para os precursores; apenas a eles devemos a honra da criação, da matéria-prima. Cada um desses novos ícones é a vitalidade e a potencilaidade de representar uma geração e uma conjuntura, nada além. Mas mesmo sendo todos(as) tributários de alguém, de alguma leitura, de algum artista, podemos falar em talento. Aí sim, podemos bombardear os meios de comunicação com nossos achismos sobre quem tem ou não tem talento,  vocação, voz, ânimo e originalidade. E nessa cadeia de alimentação artística, podemos elencar numa escala hierárquica aqueles dos quais toda essa gama de novos artistas são tributários. Madonna- sem ser defensor da artista- é a verdadeira fonte para essas novas Divas de uma forma ou de outra; na escala vem outras que não precisam ser citadas por conta de cada uma delas ter seu histórico profissional e sua carreira artística consolidados.

Na minha opinião, Chritina Aguilera veio preencher esse vácuo que  estava cada vez maior e profundo, do qual só se ouvia o eco de gritos e gemidos de artistas a quem se atribuem o valor de verdadeiros deuses da música pop. Estava farto da exposição desgastante de Beyoncé, as extravagâncias nonsene de Gaga- e nem mencionei o rostinho lindo de Britney-  sendo que cada uma tem sua importância no atual cenário do mundo pop. Mas, sinceramente, a potencialidade vocal e a maturidade de Xtina Aguilera vieram dar novo gás a esta mesmice previsível de super clipes e ocas originalidades.

Eu gosto das cantoras.

As Melhores Coisas do Mundo

A adolescência é sempre uma fase de iniciações e descobertas; não há de novo para retratar nessa fase, certo?

Minha resposta tende para a negativa, depois de ter assistido As melhores Coisas do Mundo, filme de Laís Bodanzky- com roteiro baseado nos livros de Gilberto Dimenstein e Heloísa Priet- o cotidiano dos adolescentes deste filme, capitaneado pelo protagonista Mano, é retratado de forma frugal, mas que contorna a realidade.

Os conflitos não são inventados, são acompanhados de forma quase autoral revelando as insatisfações do jovem Mano e seu irmão- impossível não falar da atuação do Fiuk- agigantadas pela separação dos pais e a revelação da homossexualidade do pai. A partir daí, os conflitos são vivenciados com carga da formação dos parâmetros sociais, dos preconceitos sociais e das idiossincrasias de cada um deles.  Sem muitos retoques a convivência com o grupo de alunos de uma escola de classe média é mostrada pelos diversos nichos que se encontram naquele microcosmo social. As panelinhas formadas são verdadeiros simulacros da realidade dos grupos sociais nos quais vivemos no mundo adulto. Os diálogos são maduros porque existe um argumento de escritores como roteiristas. Adorei as intervenções poéticas dos personagens, especialmente as do personagem Pedro ( Fiuk), publicados em seu blog- que o site do próprio filme disponibiliza (http://girassoisnoescuro.wordpress.com/). Elas são fortes e fecundas porque, pra mim, flertam com essa coisa da morte, do desejo de algo desconhecido. E ele rouba a cena em suas palavras contundentes, nos rasgos do peito dele. No entanto, essa é apenas uma parte do filme que gostei.

Uma outra percepção é a do enfrentamento dos problemas que se apresentam; como eles são trabalhados  pois “ não é impossível ser feliz depois que  a gente cresce, só é mais complicado”, a verdade que subsiste é a da superação. E esta é retratada de forma otimista, revelando que os problemas fazem parte da vida, mas podem ser superados, mesmo que para isso a desistência da vida seja uma parte para alcançar a resposta.

Uma outra parte que me toca é a o trato com a questão da homossexualidade. O assunto é tratado de forma nua, sem rodeios para falar, até mesmo sem ser politicamente correto, reduzindo o papel do homossexual aos estereótipos mais pejorativos existentes. Mas esse trato é humanizado quando o relacionamento entre os atores que protagonizam a relação homossexual é apresentado. Dois homens maduros que desenvolvem uma relação estável e tranqüila, de certa forma, privilegiando um lado às vezes estigmatizado nas relações homo afetivas. Eles vivem bem e representam a única parte estável do núcleo do filme.

Mas os jovens protagonistas se alternam nas suas aventuras pessoais, cada um vivendo e sentindo a convivência apartada dos pais; angústias; as iniciações sexuais; a noção de amizade e a luta pela liberdade. Os conflitos são os mesmos, mas as soluções são diversas. Assistir ao filme é aprofundar nesse mundo que é pré-requisito para a formação de qualquer adulto, mas o contorno inicial do homem é formatado nessas primeiras superações pessoais.

Fico ressabiado com filmes brasileiros, parte de uma aculturação promovida propositadamente, preconceito, mas tenho que dar a mão a palmatória para esse filme que soube retratar esse mundo da adolescência. Outro mérito é descobrir que na vida sempre há inúmeras possibilidades de se escolher a felicidade, sabendo que ela reside entre  As melhores Coisas do Mundo.

1º Conto Gay Coletivo do Twitter

Vamos fazer o primeiro Conto Gay Coletivo no Twitter.

 A frase incial é:

João não queria dor e Pedro queria sentir os dois lados. Então eles esperaram até o pôr do sol em silêncio;até a dor virar alegria mútua.

 Como participar?

 Acompanhe meu twitter: www.twitter.com\robertomundias para tuitar a sua frase para a confecção do conto. Mande sua contribuição -relembrando que no twitter a mensagem deve ter até 140 caracteres. Ela será analisada e publicada no site http://noposthumousparty.wordpress.com

Entrevista no Correio Braziliense sobre Literatura Gay

Livros com temática gay ganham espaço no mercado editorial

Yale Gontijo

Publicação: 12/05/2010 07:00 Atualização: 12/05/2010 08:09

Um novo tipo de protagonista é construído na literatura brasileira contemporânea. Saem os mocinhos salvadores de donzelas e entra um outro tipo de personagem: os que sentem atração por pessoas do mesmo sexo. O mercado editorial brasileiro responde a uma mudança pautada numa reivindicação social e mercadológica e publica romances que exaltam o amor homossexual. Braço do Grupo Editorial Summus, a Edições GLS é responsável pelo lançamento do título mais vendido da América Latina dedicado ao gênero, O terceiro travesseiro, de Nelson Luiz de Carvalho — 15 mil exemplares vendidos. “Quando me perguntam se sou escritor respondo que não me sinto à vontade com esse rótulo. Eu trabalhava numa editora quando, durante um almoço de fim de ano, ouvi a história de um filho de um colaborador nosso”, relembra Carvalho, sobre a origem de seu best-seller.

   
Laura Bacellar e Hannah Korich: gostinho de água com açúcar e um certo caráter folhetinesco nas publicações  

Reunindo relatos do rapaz identificado no livro como Marcus Dória, Nelson construiu um romance baseado em fatos reais, narrando a relação de dois adolescentes que se tornam amantes. Adaptada para o teatro por Estevam Lekist em 2005, a peça lotou sessões nas cidades de São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro. “Foi o quarto espetáculo mais visto em São Paulo naquele ano. Muitos casais assistiam e depois levavam os avós. Com isso, foi um recorde de público da terceira idade. Um recorde também entre os nipônicos. Mas isso ninguém soube explicar”, comenta o autor.

Carvalho faz uso de pincéis realistas. Sem pudor, descreve com riqueza de detalhes as inúmeras cenas de sexo protagonizadas pelos dois rapazes. “Tive medo do erótico, sim. Passei os originais para duas pessoas examinarem, o Inácio Loyola Brandão e Pedro Paulo Sena Madureira. Os dois gostaram muito do livro. Em momento algum, acharam que estava pornográfico. A editora também não censurou” explica Carvalho. O sucesso de O terceiro travesseiro rendeu mais uma história verídica sobre homossexualidade. Um e-mail de um leitor foi o ponto de partida de Apartamento 41. Nele, Carvalho narra a história de um homem de 35 anos, casado com uma mulher, que escolhe viver sua homossexualidade livremente.

Mas nem só de histórias de meninos se constrói o mercado editorial gay brasileiro. Criada há dois anos pelo casal Laura Bacellar e Hannah Korich, a Editora Malagueta já lançou cinco livros de escritoras lésbicas assumidas. Além deste predicado, a única regra imposta pelo casal Malagueta à suas autoras é que todos os finais dos livros sejam felizes. A imaginação do time de escritoras da editora paulistana passeia desde uma história de amor proibido entre uma cigana e uma gerente de marketing em Os caminhos de Lumia, de Lara Orlow, até o primeiro romance rural lésbico da literatura brasileira Shangrilá, de Marina Porteclis.

Porém, é mesmo o romance com contornos policiais entre uma garota de programa e uma estudante de educação física de Aquele dia junto ao mar, escrito pela carioca Karina Dias, o campeão de vendas da editora especializada no amor entre mulheres. “A nossa intenção é divulgar a cultura lésbica. As publicações são reflexo do que as meninas sentem necessidade, não temos o crivo de não publicar isso ou aquilo. Só não queremos publicar conteúdo preconceituoso. As mulheres têm necessidade de histórias de amor. É o que elas estão escrevendo”, explica Laura sobre o gostinho de água com açúcar e um certo caráter folhetinesco das publicações. Vem dela a garantia de não existir iniciativa igual em toda a América Latina. Laura ainda não entrega os números de desempenho de mercado da editora. “Ainda está muito no começo. Não dá para dizer”, resume a editora.

Roberto Muniz Dias: Livro Adeus a Aleto foi premiado em Concurso Literário
Muitos dos novos escritores GLS iniciam as carreiras publicando textos no universo virtual.Sites especializados afloram aos montes na internet. Escritor piauiense radicado em Brasília, Roberto Muniz Dias, 34anos, transita entre as duas mídias. As obras dele são encontradas no site Clube de Autores (www.clubedeautores.com.br). Lá o internauta encomenda os títulos que serão impressos e enviados para os compradores. Formado em Direito e Letras, Muniz empreendeu vasta pesquisa antes de começara a publicar livros. Com esse percurso, o autor enxerga uma tradição estética homoafetiva.

“ Todo mundo entende que existe uma linha característica unindo escritores de cordel nordestino. Existe uma linha de tradição literária também para os autores gays”, responde o autor e pesquisador Sem preconceito, Muniz exercita o tema em posia Rosas Selvagens- Poesias Gay-racionalistas, em Contos Mariposas ao encontro do calor das lamparinas e prosa Adeus a Aleto.Em o Príncipe, o mocinho ou o herói podem ser gays, Roberto tece análise de discurso de títulos lançados no exterior.

“Acho cafona dizer que sou escritor gay. Esse regionalismo sexual nunca me convenceu. Eu quero escrever sobre a experiência humana, que inclui a diversidade sobre que conheço. E a homoafetividade é um tema que conheço, entendo e que me comove”, define-se o ator, diretor e dramaturgo da Cia. Plágio de Teatro, Alexandre Ribondi, 57 anos, dois livros publicados, protagonizados por personagens homossexuais.

“Não considero o Da vida dos pássaros, um livro sobre homossexualidade. É uma história de aventura de um jovem em busca da América do Sul, que acaba encontrando o amor tanto em mulheres quanto em homens”, explica o escritor sobre a obra carregada de contracultura. Ribondi também publicou o livro de contos Na companhia de homem, em 1999.

ESTANTE

Os livros: Rosas Selvagens- Poesias gay-racionalistas, Mariposas ao encontro do calor das lamparinas, Da identidade, O príncipe, o mocinho ou o herói podem ser gays e Adeus a Aleto, de autoria de Roberto Muniz Dias, podem ser encontrados no site http://clubedeautores.com.br

Acompanhe aqui o 1º Conto Gay Coletivo ( Tuítem )

Acompanhe o andar do conto. Já temos a primeira participação!

 

João não queria dor e Pedro queria sentir os dois lados. Então eles esperaram até o pôr do sol em silêncio;até a dor virar alegria mútua.

@Gilscofield Mas o por do sol não escondia o oceano de ansiedade daquele encontro. “O que você quer?”, indagou João a Pedro, que sorria de jeito estranho

 Como participar?

 Acompanhe meu twitter: www.twitter.com\robertomundias para tuitar a sua frase para a confecção do conto. Mande sua contribuição -relembrando que no twitter a mensagem deve ter até 140 caracteres. Ela será analisada e publicada no site http://noposthumousparty.wordpress.com

Vídeos Homofóbicos?

Tropas no Afeganistão parodiam ó video clip de Lady Gaga na música Telephone.

Andei pensando sobre esses vídeos de soldados americanos parodiando de forma artística- embora essa qualidade possa ser questionada- algumas cantoras americanas que de alguma forma estão relacionadas ao público gay. Pois, bem, fora o lado lúdico das paródias que satirizam essas cantoras e seus clips, uma dúvida surge timidamente entre as afetações e os trejeitos dos soldados: uma crítica despretensiosa ou uma prática manifestadamente homofóbica?

Por que esses jovens soldados “heterossexuais” desperdiçam o tempo, que seria de folga, para produzir, coreografar e editar esses vídeos que satirizam situações do Gay way of living? Por que subsiste a ideia de que soldados assumidamente heterossexuais, como no vídeo abaixo, preocupam-se com a possibilidade de o governo aceitar os homossexuais? Será uma manifestação política que defende um ponto de vista vago para supor que, hipoteticamente, o campo de batalhas tornar-se-ia uma boate gay em pleno Iraque ou Afeganistão? Ou há uma intenção além da imagem, para trazer a discussão a outros níveis, como a possibilidade real de um gay assumido ser aceito pelo exército americano? Neste vídeo abaixo, o idealizador divulgou que não há conotação homofóbica; que o vídeo foi produzido durante a folga deles apenas com intuito de distração. No final, ele afirma que não há necessidade de se sentir ofendido, “apenas seja honesto consigo mesmo. Você adorou o vídeo.”

Soldados imaginam como seria se os gays invadissem o Exército Americano, parodiando a música da cantora Kesha em Blah, Blah, Blah

E você? O que acha?

Livros Gays de Literatura Infantil

 

Os livros sobre Literatura Infantil ainda geram controvérsias. Em julho de 2009, terminei minha graduação em Letras Português-Inglês e, para coroar o término de Curso, enveredei no campo da Literatura Infantil. Mas com uma peculiaridade: os livros tematizavam a homossexualidade. Para tanto, peguei, como fonte de pesquisa, livros que ainda não havia sido traduzidos no Brasil, tampouco veiculados nas escolas brasileiras. A bem da verdade, fiz pequisa em algumas escolas de Brasília e de São Paulo e, naquela época, nenhuma escola tinha adotado livros com temática sobre sexualidade; desnecessário dizer, que não havia nada sobre homossexualidade- em que pese as normas reguladoras dos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Então empreendi estudo em bibliografia especializada, especialemente nos trabalhos de Luis Paulo da Moita Lopes. O estudo final pode ser verificado no livro que publiquei pelo Clube de Autores no endereço:

 http://www.clubedeautores.com.br/book/2802–O_PRINCIPE_O_MOCINHO_OU_O_HEROI_PODEM_SER_GAYS

Segundo a matéria abaixo o Livro And Tango makes Three conseguiu por, alguns anos, manter-se no topo da Lista de  Livros Frequentemente Desafiadores, revelando o quanto o assunto da homossexualidade é um tema polêmico. Mas, apesar dessa, resistência, verifiquei nas minhas pesquisas, que algumas escolas dos EUA adotaram o Livro como parte do currículo disciplinar. Teve um caso de uma escola que brigou na justiça contra o pleito de uma família que acusou o livro de permissivo e impróprio. No entanto, o Juiz da cidade deu causa ganha a Escola, sob a égide dos preceitos da própria Constituição Americana.

Mas será que nossas escolas estariam preparadas para aceitar este tipo de Literatura? Pelo visto ainda caminharemos um deserto de opinões distoantes até encontrar o oásis da compreensão.

Gay Penguin Book Knocked From Most-Challenged List By Chick Lit Written In Teen Code

“ Sad news UGUYS! And Tango Makes Three, the 2005 book about gay papa penguins raising a chick, by Justin Richardson and Peter Parnell, has been booted from its top spot on the American Library Association’s Most Frequently Challenged Books for 2009. After claiming the title for three years straight, it’s been pushed to the No. 2 spot by ttyl, the teen girl book written by Lauren Myracle (and written in teenage shorthand), whose other tome Luv Ya Bunches was temporarily yanked from Scholastic because one character has two gay moms. ttyl received complaints about nudity, sexually explicit and offensive language, and drugs. Score! But fret not: Gay books are still among the most complained about. Stephen Chbosky’s The Perks of Being a Wallflower, at No. 3, features a main character with two gay friends. And Jodi Picoult’s My Sister’s Keeper: A Novel, at No. 7, dares have a character with a lesbian sister.”

 

See it at:

 http://www.queerty.com/gay-penguin-book-knocked-from-most-challenged-list-by-chick-lit-written-in-teen-code-20100419/

O passado é uma selva de horrores

O passado é uma selva de horrores

Quem nunca se sentiu preso ao passado? Ou a respeito de um feito na juventude do qual sempre nos orgulharemos, avivando as cores de uma bravura que não se repetirá; ou uma aventura com os amigos, resgatando, na memória, quanto este ou aquele amigo foi importante na sua vida- sem mencionar o quanto a distância foi decisiva para o afrouxamento dos laços fraternais-, ou quando nos lembramos dos primeiros amores de verdade, das experiências que chamamos de ricas; sempre, nessas circunstâncias nostálgicas, haverá uma tristeza disfarçada de felicidade.

 Nunca falamos abertamente da felicidade. Ela está sempre embutida em lágrimas de felicidade. Por quê? Talvez a resposta tenha a ver com uma condição de indulgência perene pela qual sempre temos que passar para atingir a famigerada felicidade. Agora, relembro-me quando pela primeira vez senti-me orgulhoso de salvar a vida de minha mãe, quando meu irmão, com seu sinto de utilidades do Batman apertado a sua cintura, inventava coisas com utilidades esdrúxulas. Certa vez, ele “inventou” uma catapulta para lançar objetos para o espaço sideral. E o Robin, eu, não poderia estar de fora; recebendo as instruções para o primeiro lançamento. Na ponta do artefato meu irmão colocou uma garrafa de coca-cola. Este mecanismo se apoiava por entre os troncos da mangueira, que ficava no quintal de casa, e usava um cabo de vassoura entre uma forquilha, e com a força motriz de sua perna ele promoveu o lançamento da garrafa para o espaço. Do lado, a sombra da mangueira estava mamãe a descascar mangas. Logo percebi, com a astúcia de Robin, que a garrafa atingiria a cabeça de minha mãe. E o que fiz? Coloquei minha testa como anteparo para abafar o grande feito do Batman. E quando me lembro dessa aventura, além do sangue derramando em minha testa, recordo-me, com certa tristeza no peito, o quanto gostaria de ter sido Robin pelo resto da vida.

Mas de certa forma, não me sinto preso a esse orgulho de menino. Talvez queira relembrar das amizades. Como elas são importantes nesses momentos de vento frio e solidão. E não poderia ser diferente: a felicidade passando a mão carinhosamente sobre a tez da tristeza. De fato, os amigos ficaram pra trás; pelo menos os bons amigos, porque se eles estivessem aqui, essa nostalgia triste converte-se ia numa sala repleta de risos e refestelamento. A sala sempre estava cheia; cheia de vida, de cervejas, comidas e amizade sincera. E esta nos rodeava sempre saltitante ao som de boa música para pensar e dançar. Os limites não eram programados, mas os mais jovens conseguiam beber, pensar e dançar; os outros acompanhavam na medida de suas felicidades. Era sempre assim, a sala cheia de vida por todos os lados. Cada um com sua contribuição no grande laço de amizade que nos unia, apertava e liberava. Tinha a ver com irresponsabilidade moderada, do tamanho dos copos amarelos, dos copos americanos, ou dos copinhos de pinga. Mas nem por isso nos sentíamos culpados da embriaguez preconcebida. Mas agora…não passamos de história dividida em quebra-cabeças imiscíveis; cada um com sua alegria espalhada por vários cantos.

 Eu não quero falar sobre isso. Isso de felicidade e tempo pretérito. Mas como disse um grande amigo: “o passado é uma selva de horrores.” Tenho sonhado com esses horrores todos os dias, quando eles vêm nesse disfarce de lembrança. Talvez a lembrança que doa mais, a mais contundente; aquela na qual um pedaço seu fica perdido na vida de outrem. Quando, da entrega prometida, cedemos espontaneamente um pedaço vivo; mas quando da separação, recebemos de volta completamente lívido, agonizante. E, novamente, a felicidade é abrandada pela mágica manifestação funesta da tristeza. Por isso, a razão dos horrores nessa selva que nós nos embreamos a procura da trilha certa. Destarte, a nostalgia que me invade agora, não passa de memória volátil, como choro que se desperta quando ouço uma canção que não quer falar sobre isso.

Registo do momento

Esse nada que vem e enche tudo como se fosse água de chuva, mas é água de mar; essa vontade de tudo que se esvai com o segundo da hora feliz; tudo isso me comove ao ponto do registro vazio.

Vez em quando me sinto assim como a grande criação de tudo aquilo que já foi feito, lendo o livro do autor favorito, mesmo aquele que detesto.

Vem o livro em mim, mas sai o conto pequeno a vontade de dizer tudo logo. Isso acontece o tempo todo, a desistência do projeto incial.

Quero ouvir enjoy the silence e sentar naquela cadeira de rei, como se pudesse rule the world. Apenas mudaria aquela coisa da little girl. Nas linhas finais, o refrão se repetiriam ad infinitum.

E minha dose cavalar de própolis com álcool está pronta; 1,5L todos os dias. Só pra não perder o gostinho etílico do líquido.

Daqui vejo a cama desarrumada, ou seria desalinhada. A música tá acabando. Repeat, repeat. As ideias ainda perfazem um caminho tortuoso.

Pequenos pedaços de bolacha vou catando aqui e ali; sobras da minha sofreguidão com o todo. Mas elas vão embora cada uma a seu tempo.

O desejo de continuar escrevendo e dar um valor maior a tudo que penso.

1º Prêmio Clubde de Autores de Literatura Contemporânea

Amigos,

O livro abaixo concorre a um prêmio promovido pela editora Clube de Autores. O livro tem temática homoafetiva. Favor cliquem no link abaixo e votem: http://premio.clubedeautores.com.br/web/site_premio/votar.php?id=20868

 AMOR DEPOIS DE TUDO

 O mais novo livro do escritor Roberto Dias

 J. é apenas uma memória do passado. Ele é resultado de um milagre, sobrevivente de acidente que lhe trouxera uma nova vida. Mas a condição para a nova existência era a perpétua busca pela sua identidade e pela memória perdida. E as únicas lembranças vinham com os sonhos, os pesadelos e as anotações em dezenas de agendas e cadernos. Mas a descoberta de seu famigerado passado, veio com a reconciliação póstuma com o pai atormentado pelo presente opressor. Para mais detalhes: http://www.clubedeautores.com.br/book/20868–AMOR_DEPOIS_DE_TUDO

O Preço da Traição (Chloe)

 

Chloe é uma prostituta que nivela seus sentimentos aos de qualquer mulher comum. A vida “fácil”, não é um atributo para essa jovem que intenciona encontrar, em cada homem com que se deita, pedaços que a faça completa. Numa outra ponta, está Catherine, uma médica bem sucedida com o casamento perfeito. No entanto, a crise de meia idade a coloca em conflito com sua autoestima, desencadeando uma frigidez suicida. Nessa paranóia, ela começa a desconfiar que a ausência de seu marido tem a ver com uma possível e palpável traição. Então, começa a procurar  os pedaços do marido que deixou escapar.

 Nesse ponto, as duas histórias dessas mulheres fracas se encontram. Uma ocasião permite a ingênua aproximação de Chloe a ginecologista Catherine. Um contrato entre as duas é celebrado, mediante o combustível da desconfiança de Catherine- Julianne Moore- em relação ao marido, o charmosíssimo professor David, vivido por Liam Neeson, sempre cercado de alunas sedentas de conhecimento e atenção.

Sou suspeito para falar de Julianne Moore, vez que sou fã, e adoro sua entrega aos personagens; sendo que para isso, salvo engano, ela não repete sua atuação em personagens diferentes. Ela compõe a personagem na brilhante manifestação do ciúmes em detrimento da razão. E se entrega numa das cenas mais fortes que já vi entre duas mulheres. Perguntada sobre o que é ter orgasmo, a ginecologista friamente responde que não passa de contrações musculares. E este, atribuo ser o verdadeiro ponto que amarrou muito bem a trama desse originalíssimo enredo. Talvez isto tenha sido de fato a condição que justificasse a louca entrega de Catherine ao ingênuo plano de Chloe. Esta deveria, segundo o acordo, seduzir David para que sua esposa tivesse provas de infidelidade do marido. Para isso, Catherine pagava a prostituta para que mantivesse encontros com ele- a princípio Catherine não se animou com a ideia-, mas começou a se envolver estranhamente com as aventuras sexuais narradas pela prostituta. Tanto que num de seus últimos encontros, Catherine e Chloe encontraram-se para que essa narrasse a última aventura adúltera do marido. Tudo muito sutil, mas as palavras cheias de lascívia deixava a ginecologista por demais excitada. Mais tarde, para surpresa da platéia, Catherine se encontra com a prostituta e pede que esta mostrasse a ela como seu marido a tocava. A cena é por demais forte e mostra como realmentea entrega ao personagem pode dar uma atriz a confecção perfeita de uma personagem.

 Entrementes a “família” vive um conflito com o filho adolescente, o que abala ainda mais a relação do casal. No entanto, as investidas de Catherine nesse mundo do adultério e da culpa, levam a desconfiança do próprio marido. E numa discussão, não fica clarão que traiu quem. Mas no final, resta a surpresa quase-bem-guardada pelo diretor: Chloe estava apaixonda, desde o primeiro encontro, pela Dra. Chaterine. De fato, a sua procura não era de um homem feito de pedaços alheios, e sim de uma descoberta que ainda estava longe de seu conhecimento, mas próximo de uma verdade retraída, talvez.

Chloe é tomada por uma atração alucinante, e logo após a reconciliação do casal, aproxima-se do filho deles para chegar até sua amada. A cena é agunstiante e revela ao filho o segredo escuso da mãe desesperada para  remendar o casamento. Chloe suicida-se? Não se sabe. Mas a vida, após este trágico evento, é retomada. Os olhares ainda parecem artificiais, como a foto que ilustra a família perfeita pendurada no hall de seu consultório. E numa última cena, o diretor revela, no prendedor de cabelos, dado por Chloe a Catherine, que ainda existe algum desejo imutável dentro dessa nova mulher.

Portanto, em que pese a atuação fraca da atriz Amanda Seyfried, Chloe,  o filme de Atom Egoyan é uma verdadeira prova de que nossos medos são monstros que criamos e alimentamos com nossas inseguranças; e o que o amor pode superar algumas barreiras. Ainda defendo questões bastante antiquadas a respeito do casamento, ideias como respeito e sinceridade. Além dessas alternativas, apenas existem as armadilhas da incerteza e da aventura.

O Gene Gay-1 e Manipulação Genética

Lá pelos idos de 96 a Revista Sui Generis , num artigo escrito pelo jornalista Gilberto Scofield Júnior, trouxe a baila,uma especulação que se concretizaria com o passar de longos 20 anos. Este ano ainda não chegou, de lá pra cá, foram apenas 15 anos. O artigo em tela, falava sobre a manipulação genética do famigerado gene gay-1.

E uma antecipação desta especulação causa um ligeiro desconforto na comunidade LGBT. Mas por que o medo antecipatório? Antes de entrar na ameaça em si, outra novidade na área da medicina fora anunciada: a possibilidade de um estudo sistemático dos genes humanos, o Projeto Genoma, identificando uma gama de genes formadores de algumas características humanas, talvez de alguns comportamentos também. Acresce-se a isso, os avanços na engenharia genética que permitem incursões diversas na manipulação genética, especialmente usados na gravidez assistida, nas células-tronco, entre outras. Mas o que isso tem a ver com a comunidade LGBT? Recentemente, cientistas americanos conseguiram criar vida- pelo menos é o que se tem propalado- permitindo, pelo menos, que a vida seja recriada com a utilização de uma sequência de genes da qual parte é usada para criação de outra forma de vida assemelhada, mas com outro material genético. Em linhas gerais, para nós leigos, é assim que funciona. E onde reside o medo?

Essas novidades do campo da genética, permitem uma real antecipação sugerida pelo escritor e jornalista Chandler Burr,em seu Livro A Separate Creation, que afirmou que em 20 anos talvez fosse possível dar vida a seres humanos sexualmente orientados. Assim como a ameaça do urânio enriquecido, se posto em mão erradas, pode permitir que seu uso seja empregado com fins escusos e beligerantes; a possibilidade de manipulação permitiria que um antigo sonho de Hitler se tornasse realidade: a criação de uma raça pura. Mas o que seria puro? 

Essa ideia não está longe de ser reavivada, não por tiranos- apesar de eles ainda existirem, vide o exemplo do presidente do Irã-, mas por pessoas preconceituosas que não permitiriam que uma raça desvirtuante fosse concebida a partir dessa possibilidade de manipulação em massa. E se essa realidade atingisse as mãos e as mentes de cientistas malucos? Maluco é um eufemismo para todo tipo de concepção preconceituosa a respeito da identidade homossexual, bissexual, etc.

 O medo sugerido pelo escritor havia sido aplacado pela possibilidade de em 20 anos ainda não se avançar nesse campo, mas o que se tem visto é uma verdadeira revolução nesse campo. E a possibilidade que era remota, torna-se cada vez mais palpável e real. A ameaça surge como uma tentativa de rechaçar todo o avanço no campo dos Direitos Humanos; quiçá, de sabotar todo o esforço da comunidade LGBT em torno da aceitação e respeito das minorias e seus direitos suprimidos. Olho por sobre os ombros e enxergo uma nuvem densa se avizinhando, como verdadeira antecipação de tempestade, de catástrofe que abalaria toda uma estrutura construída sob o lastro da valorização de cada ser humano na sua qualidade mais intrínseca, mais sui generis. A diversidade é que dar cor à vida. A probabilidade na natureza não é apenas uma matemática despropositada. Ela é uma mágica da manipulação espontânea, independente de nossas vontades mundanas.

 Espero que toda essa antecipação não se confirme num pesadelo que tive, ontem à noite, quando sonhei que o presidente do Irã segurava na mão esquerda uma caixa com urânio enriquecido e, na outra, segurava uma caixa com a técnica de manipulação de genes. Opa! Era apenas um sonho; melhor, um pesadelo.

keep writing

A escrita solta sem vírgulas mesmo após sessões de revisão, e ela continua linear. O ponto aparece apenas para um fôlego- mesma fluidez observada em Arenas-, sem muita preocupação com as ponderações da norma escrita culta. Mas é bom saber que após uma aliviada e a sensação de frio, que aconselha e obriga ao aconchego dos lençóis da cama, em conjunto com o cheiro higiênico do desinfetante, fico mais calmo e, assim, apaziguo meu outro lado cheio de lascívia.

É bom o isolamento que sofro. Sinto-me um pouco órfão de meus livros e começo a me cercar deles procurando a definição- não a noção de pátrio poder-, e sinto-me pai de muitos deles.

Depois de meia hora ouvindo pessoas a procura da melhor escolha, vejo-me sem perspectivas, isolado das melhores castas. Não posso me esquecer de que tenho pouca sorte nesses encontros as escuras. Outra, refreio há horas, o convite das cervejas- somente duas- que estacionam mudas na geladeira. E mesmo ouvindo PSB, ainda não conseguir ceder. Daqui a pouco estarei de mãos dadas, a gargalhar, com os intensos suspiros do álcool e perder custar-me-ia poucos instantes de ociosidade. Mas voltando ao assunto principal, não consigo muitas coisas entender. Apenas essa triste melodia que ouço a misturar culpa e continuidade; no intróito, uma sinfonia conjugada com palavras ininteligíveis e de repente a surpresa. Acontece com todos; todos nos sentimos sós por diversos motivos, e o mesmo motivo que mata é o mesmo que ressuscita. No entanto, eu perdi o olhar perdido na esperança de que alguém me encontrasse e demovesse meu espírito de morte.

Hoje perdi tudo isso. Por mais estúpido que seja viver sem os clamores da multidão, vejo minhas palavras reconhecidas e aplaudidas em trabalho compilatório póstumo- mas tudo bem, ainda viverei para beber muitos vinhos e passear por alamedas com essências desconhecidas.

Essa fluência dos ritmos da ausência das vírgulas me dá certo um sossego d’alma. O escritor em mim chama e grita ao mesmo tempo. Agora entendo a falta de linearidade em Arenas e Caio.

Momentos de paz adquirida

Momentos de paz adquirida

Só sei escrever sobre isso, esse sentimento que invade e toma de conta, deixa-me assim mudo, ouvindo meu silêncio e o latido longínquo dos cães de rua. E nada tenho a dizer, senão dessa saudade que aparece como companhia para essa mensagem solitária de agora. Aqui, acolá, ouço uma voz perdida que atravessa as paredes, mas não se comunica comigo. Parece até que alguém quer falar comigo, mas é pura invenção de meu ócio.

Coloco uma música para que não pareça suicídio esse pensamento de agora; a música dá vida à estagnação dos pensamentos e ficamos presos no quarto, enquanto o sono se avizinha tímido. Continuo a ouvir os sons da noite, a música para; tenho que escolher qual música vou ouvir antes que outra venha e perca o sentido da anterior. Nada muito alegre nem muito triste, mas alegre não pode ser, se não, como vou escrever sobre o estado imutável dessa mansidão das coisas; esse período de busca interna? As ideias vão se assentando, mas não por causa da música. O pensamento está num ritmo alucinante porque a máquina trabalha para sarar a dor e fazer esquecer o que está sempre se repetindo. Não, não é o refrão da música triste mais a repetição das atitudes que se atritam dentro do cérebro triste.

De novo eu derramo esse pote de lágrimas que havia secado noite passada. Pensei que não teria mais do que tirar. Mas houve. Estou aqui, de novo, derramando sobre as linhas, sobre a dor de antes repetida como refrão de música melancólica. A repetição tem a ver com as mesmas rimas do –ão; aquelas que nunca vão: paixão, solidão, sofreguidão, retidão…Nada adianta so refúgio da ignorância; não saber do que elas tratam. Não basta ficar repetindo como se nada fossem, como se não pesassem nesse ritmo que canto. Canto. Mas a dor dessa dor nominada continua como se tudo fosse um grande hino silencioso. Eu canto, mas não entendo meu encanto com essas notas nada claras.

Olho pros lados e tudo está estático. Os livros, o cabide, a mochila pronta para a viagem, a meia enrolada, as fotos silenciosas, os livros cheios de idade tudo parece tão morto. Onde estão as cores de tudo? E não é fácil dar vida a tudo de novo, quando antes os dois faziam isso de forma deliciosa. Agora, nada tem o sabor das cores de antes. É Tudo muito solitário. E acho mesmo que estou realmente ouvindo vozes daqui de dentro de mim. Elas ressoam como um passado alegre. Mas eu disse que não podia haver música alegre. Eu tinha que disfarçar esse pensamento de suicídio, no entanto, ele persegue como erínia maldita. Mudo a música. Então encontro o som dos grilos mágicos, encontrando assim a placidez que aplaca essa dor. Fico silencioso, ouvindo o som das coisas novamente.

Encontro outros sons para minha rima; os símbolos do –ida: vida, partida,iludida. A música continua nesse ritmo sofrido, mas alvissaro. Misturo as palavras de antes e de agora, e encontro certa harmonia no refrão novo. Combino o som distante dos cães da rua, os grilos sinfônicos e o barulho de minha alma. Fico calmo. Ouço uma batida de jazz leve, um saxofone alegre e consigo novas possibilidades. Deixo de lado o arroubo das paixões e fico contemplando a imensidão da estrelas magnéticas. Meu olhar se perde na amplidão dos pequenos olhos espalhados no céu da noite e o sentimento de solidão se vai com o frio que me acolhe por entre suas mãos.

E assim desisto do plano inicial.

AMOR DEPOIS DE TUDO

AMOR DEPOIS DE TUDO

Este livro está participando do 1º Prêmio Clube de Autores de Literatura Contemporânea

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http://premio.clubedeautores.com.br/web/site_premio/votar.php?id=20868

  Por: Roberto Muniz Dias

J. é apenas uma memória do passado. Ele é resultado de um milagre, sobrevivente de acidente que lhe trouxera uma nova vida. Mas a condição para a nova existência era a perpétua busca pela sua identidade e pela memória perdida. E as únicas lembranças vinham com os sonhos, os pesadelos e as anotações em dezenas de agendas e cadernos. Mas a descoberta de seu famigerado passado, veio com a reconciliação póstuma com o pai atormentado pelo presente opressor.

Sobre o amar de Carpinejar

Por duas vezes, tenho me deparado com os livros de Carpinejar.

Sinto-me, às vezes, um pouco resistente as essas leituras muito centradas numa ideologia do amor heterossexualizado, voltado às infinitas declarações do amor de um homem a uma mulher- até mesmo a Florbela Spanca, tenho me afastado por conta de um princípio sob o mesmo viés, falemos assim. Mas foi muita coincidência o fato de defrontar com os livros dele. O primeiro foi Mulher Perdigueira. A capa não me interessou; não por conta da silueta feminina- nada de aversão, de medo, de algo reprimido-, não gostei por causa do cachorro tatuado nas costas da mulher. Pensei na mulher como raça, como um pedigre; uma pureza digna das vontades do escritor. Deixei de lado os contos que já premiaram o escritor com o Jabuti em 2009.

No entanto, foi difícil não se emocionar com o Amor Esquece de Começar e já no primeiro conto, sobre dar um tempo nas relações, ele faz ponderações sobre o fato de se dar um tempo a alguém; como isto é mortífero, como é maléfico. Ele ainda suplanta a idéia de que dar um tempo é uma medida racional para um relacionamento em crise.

No entanto, o que mais me distanciava de Fabrício foi o que mais deixou-me próximo, a poesia na prosa de seus contos; a sinestesia certa das palavras combináveis que revelam a sutileza com ele se presta a falar do amor, da falta dele, da ausência dele. Gostei dessa forma simples e poética de falar sobre sentimentos tão sólidos que se pulverizam na atmosfera cândida de uma mensagem leve.

Ele consegue aliviar a dor de uma partida com as lembranças doces e amargas sempre as comparando as coisas mais simples de nossa vida, da rotina das coisas despercebidas. Desnecessário falar de suas impressões sobre o universo feminino. Mas de longe isso o torna chato, pelo contrário, ele se enche de uma melodia onírica nesse eterno conjugar de prosa e poesia. Fiquei maravilhado com essa doce maneira heterossexual de ver um mundo menos masculino, ou seja, uma visão mais romântica do que há de carnal e de compulsivo, mostrando um sentimento alheio a essas coisas terrenas e bicromáticas.

Acho que vou parar mais para lê-lo.

Algumas palavras sobre ADEUS A ALETO

Recebi o e-mail do amigo escritor kiko Riaze acerca do meu livro Adeus a Aleto e divido, com vocês, a felcidade de ter recebido a sua análise sobre o livro. Segue abaixo, na íntegra, seu comentário:

A boa arte nunca dá adeus

Conheci Roberto por acaso, logo depois de ele ter lido uma matéria que uma revista brasileira do seguimento GLS fez comigo na ocasião do lançamento do meu primeiro livro. Enviou-me um e-mail com elogios e, a partir daí, construímos uma amizade bem bacana, de trocas de experiências pessoais e literárias às vezes adormecida pela nossa constante falta de tempo, mas nunca esquecida. Na época, Roberto falou-me de seus rascunhos e de suas pretensões de se tornar um escritor. Apresentou-me algumas de suas poesias e contos até o dia em que me surpreendeu com um romance completo, que já nasceu premiado com menção honrosa no Concurso Literário Novos Autores de 2009, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, em Teresina (PI).

O título do livro, Adeus a Aleto, nos remete prontamente à idéia de despedida. É o adeus do inspirado narrador às erínias que atormentam sua vida, simbolismos de seus medos, seus anseios e suas angústias do passado – expurgados numa narrativa alucinante, quase onírica, que se descortina a partir do momento em que ele encontra Nikov, um misterioso jovem russo com quem se envolve sentimental e psicologicamente. 
Na mitologia grega, as eríneas eram a personificação da vingança que puniam os mortais, sendo Aleto a deusa implacável que perseguia os criminosos em seus sonhos e atormentava-os até levá-los à loucura. Eram criaturas horrendas do submundo que emergiam do Inferno para castigar os crimes dos homens, especialmente, os crimes de sangue. Temidas pelos mortais, seus nomes não eram pronunciados jamais, e em seu lugar pronunciava-se algo como “bondosas” ou “benevolentes” – eufemismos que passam distante da narrativa ousada, corajosa e transparente desta obra. Nela não há sangue derramado, mas há o poder divino dado ao escritor que ceifa as vidas de seus personagens ao seu bel prazer e se vê perseguido por estas almas errantes em busca de explicações ou, quem sabe, de uma segunda chance.
São os personagens, reais ou fictícios, que dão o ritmo da narrativa e levam o autor a trilhar uma aventura em torno de si próprio e do mundo. Todas as figuras desta obra parecem palpáveis tamanhas são a densidade e a sinceridade sobre as quais o autor deposita. Sem medo, o autor se desnuda e se entrega de corpo e alma à criação de cada perfil. É notória a presença das próprias angústias pessoais do autor em cada linha do texto, de suas buscas, de suas crenças, de sua bondade ou perversidade, o que dá à obra uma sensação intimista e verossímil. 
É em torno da figura do jovem russo Nikov, personagem emblemático da obra, que o autor-narrador se faz mais humano. O escritor não se prende a pudores ou melindres e devassa a sexualidade humana em seus aspectos mais latentes. É libidinoso ao falar de sexo e absolutamente apaixonante ao revelar o seu amor, sem recursos literários sofisticados que tentariam ludibriar as vistas mais castas. É tão transparente que chega a incomodar, mas é justamente nesta transparência exacerbada que a obra tem o seu maior valor, pois a vida real, assim como a dos personagens da obra, não é feita apenas de modelos de boa conduta e, vez ou outra, estamos às voltas com as eríneas que vêm nos atormentar. É a magnífica arte literária desmistificando o sexo e o amor que, juntos ou separados, acabam encerrando a nossa própria existência. 
O próprio autor, num pensamento brilhante deixado em entrevista concedida ao meu blog, afirma que “talvez a necessidade do amor seja apenas uma questão de tempo, ou talvez de escolha. No entanto, não devemos nos demorar muito nessa decisão porque, às vezes, a realidade é um grande sonho; e quando é um sonho, um dia acordamos.”
E foi a partir de um sonho do escritor que esta bela obra se tornou realidade. Um presente incrível para os apreciadores de boa literatura.
Kiko Riaze
Rio de Janeiro, 05/06/2010

Terapia de grupo entre escritores

 

“The first task of the man who wants to be a poet is to study his own awareness of himself.” ( Arthur Rimbaud)

Parecia uma sessão de terapia grupal na qual cada um dividia suas experiências. Todos tinham o mesmo começo, e depois e certo reconhecimento, tornam-se verdadeiros homicidas. Todos mataram seus blogues. Assim disseram os escritores João Paulo Cuenca e Daniel Galera. Todos réus confessos.

Mas a culpa é do livro e da falta de tempo para pensamentos picados. Todos eles decidiram desenvolver sua prosa nos livros; não mais os blogues. Talvez seja uma evolução geral. Eu mesmo estou prestes a matar o meu. Mas ainda ele tem fôlego para as idéias subsistentes. Capenga, claudica, mas ainda existe.

E quantas experiências temos divido. Parece até que participávamos das mesmas reuniões via web, compartilhando impressões e medos inicias.

Foi um bate-papo interessante, conhecer esses autores jovens que, como eu, tiveram a nascente na internet e seus afluentes tornam um rio caudaloso de experiências diversas. Dois autores e dois estilos. Mas o que parecia uma divergência de valores, mais se parecia como uma comunhão de idéias. Foi bom saber que eles trocavam matérias entre si- idéia que quero partilhar com meus amigos escritores mais próximos-, que um lê o outro, que opina, que se enchem de um altruísmo literário, fugindo dos estereótipos comuns de egos inflados pela bajulação dos círculos das castas literários. Tudo se amenizava nas posturas centradas; as os dedos entrelaçados e uma atmosfera quase minimalista entre os escritores; um bate-papo despretensioso quase entre amigos, não fossem as intervenções dos internautas e da platéia. Eu mesmo fui ao microfone falar de minha experiência. – Hey, também sou escritor e me sinto um de vocês! E assim me senti durante todo o debate, sempre meneando a cabeça num constate confirmar de minha empatia com os jovens escritores.

Deles, apenas conhecia Cuenca por conta de um blog coletivo promovido pela Revista BRAVO. Confesso que mandei duas intervenções para compor a estória, mas nada de ter meu twitter divulgado. Talvez seja porque mandei um twitter para ele informando que existia um erro no emprego do porque.Mesmo assim, nada recebi. No entanto, isso não fez que eu deixasse de segui-lo. E ontem ficou mais claro o porquê de não fazê-lo

Confesso que ainda não havia lido nada desses escritores. Só agora estou tendo vistas dos livros de Galera, Dentes Guardados, que estou começando a ler.

Agora relembro dos ensinamentos da professora Francine Prose sobre os grandes escritores. Todos têm seus caderninhos de anotações. Somos todos crianças pequenas a anotar tudo que se aprende, que nos cerca; mesmo que seja um pensamento perdido. Mas ele existe mesmo. O meu é igual ao do Galera, um Moleskine, o mesmo de Ernest Hemingway;  a mesma vigilância para com a frugalidade da vida. E na mais me acho um louco quando paro para anotar uma idéia dentro do carro, depois de um sonho, depois de uma trepada, de um vinho , de uma noitada ou mesmo de estranha sensação de vazio. Tudo vai para a anotação da memória.

O debate girava em torno da Vanguarda na Internet. E o que parecia uma ameaça para a literatura com todas as implicaturas da tecnologia da rapidez do pensamento, ainda exista- e segundo os autores, existirá- espaço para o pensamento demorado; da linha extensa, mais extensa do que 140 caracteres; do cheiro do livro; do prazer de folhear as páginas numa contumácia prazerosa. Ainda haverá tempo para tertúlias- como dizia Cuenca achando-se ainda antiquado- e para as manifestações da prosa, da poesia impressa na página de um livro físico ou metafísico.

NOTA DE FALECIMENTO

Ele tem a sensatez do bom companheiro, aquela parte em mim que o outro não encontrou com o esforço e o término da relação. Mas subsistia uma espécie de macumba ainda desfeita: o quadro. Este era a reminiscência de uma tranquila saudade, parada, pendurada…um suicida e um alçapão. E ele me prometeu desfazer essa lembrança. Vou ter de volta a minha arte do desespero. As telas eram o refratário do que o psicólogo falou sobre morte. A morte das coisas boas. Então deve ser devolvido o trabalho porque, para eles, prefiro a felicidade- minha inclinação cristã assim manifestada-, e a felicidade deles é minha paz dependurada naquele quadro. Então que se extirpe essa lembrança boa, das coisas boas, da pincelada última; o último carinho com a tinta e o derradeiro elogio rodeado de carinho.

Ele parece ter a placidez que não há no artista louco. A palavra azada no momento em que existia o desespero da perda; ou da posse. Se as bandas se encontram, eu era apenas a faca que as fendeu e a cola que refez a remenda certa. Sou isso. É tudo que posso ser agora.

Devo seguir continuando no “go go ahead” do Rufus, agradecendo pelo aprendizado amargo dessa experiência; especialmente desses últimos desdobramentos em que me sobeja a loucura da falta; ou a sensatez do iludido. Nada de racional vale como modelo agora. Sé me falta a própria herança que me dei; o prazer de minhas pinceladas egoístas que ainda enfeitam a tua parede- agora- desolada que é não devido a sua felicidade atual, mas advinda de minha desgraça mágica. Esta que impulsiona para frente, para a assunção de erros e não da repetição. Antes era o amor, a paixão dos corpos. Hoje tudo isso se reinicia de alguma forma. Em mim findou-se. No novo companheiro ela se renova nos princípios do amor-tampão, aquele que cura a ferida momentânea, aberta na ilusão de que qualquer ilusão dignifica a segunda tentativa. Eu ainda vou no go go ahead do Rufus, pedindo que você “olhe nos olhos de medusa, olhe nos olhos de medusa e esqueça aqueles que estão chorado.”

Estou então chorando pela nota de falecimento que registra o lamento último, o fato de existir a perda, o resgate impossível.

Arte e conhecimento de si

Eu havia conversado com ele semana passada. Estava triste hoje por conta de minha sofreguidão com as coisas. O tempo passa tão rápido e novamente terei de conversar com ele. Desisti do último livro agora a pouco, ele não apareceu por aqui. Sinto-o por perto, quase ao alcance da mão. Mas eu não queria e era por pura falta de interesse na história na cabeça. Tudo parecia completo. Não como as outras que vinham de pronto, prontas com começo, meio e fim. A história parecia bacana, uma escritora, um amor platônico e a ditadura militar- estava tudo tão plenamente adequado. Mas ainda me faltava muitas páginas. Alguém me cobrava o término- seria eu mesmo?-, o final de mais um livro. E ele, às vezes, aparecia como estímulo, aclareando as coisas que pareciam ainda implícitas; como se pudesse desvendar depois de tantas coisas sobrepostas algum valor real. Perdia o interesse por essa história de artista e o interesse pelo o novo livro que estava engatilhado. Eu tinha todos os trejeitos de escritor: as mãos entrelaçadas, o olhar perdido e um mundo de referências. A ordem das palavras sempre vinham numa imperiosa mensagem de um chamado. Sempre atento para alguma coisa mais sutil ou uma impressão menos reconhecida. Parecia que deveria ser diferente apenas pelo exercício fictício de um dom. Vieram alguns prêmios; reconhecimento externo. Mas não deveria ser esse chamado interno? As feridas cicatrizaram, mas ainda faltava a ferida exposta; o sangue derramado que não parasse e a vontade de expressar o gozo do mundo. Mas eu continha apenas um grito de dor, de medo. Ainda não expressava a dor do mundo nem a contribuição para um conjunto maravilhoso. Onde estava meu cavaleiro maluco? Não existia. Às vezes ele vinha quando estava nas pinceladas, ou antes delas. Eu não podia evitá-lo, senão não poderia chamar aquilo de arte. Mas ele estava lá, novamente aclareando a arte existente em mim. Ele me chama agora. Agora em que escrevo, em que relembro essas falta, essas ausências em mim. Devo parar agora que ele não está aqui? Mas é simples clamar por sua presença, apesar de deixar um gosto de vazio na alma e na boca. Ele vem, mas nem sempre. Por exemplo, ele me chama agora num momento em que mais não precisaria dele. Logo agora que estou com a história completa e a memória mais fresca. Ele está aqui com os olhos cheios de alguma coisa. Estamos junto: eu e o vinho e dele vem tudo. Mas não posso assumir esta verve falsa. Devo a ele as pinceladas malucas e as poesias mais sinceras. Ele vem e vai. E fica comigo essa vontade de fugir de mim, deixá-lo sozinho. Quem sou eu? In vino veritas das quais nunca vou escapar. Agora que ele me chama e agora que quero mais se distanciar de mim; dele. Agora é muito forte como momento essa essência que me preenche, talvez seja arte latente esse chamado que não reconheço. Ouço, mas não me permito abraçá-lo. Enquanto estou sozinho as coisas não parecem tão reais. Acho que ele anda por perto de mim como muleta, não como um abismo, porque sei que da queda vai surgir as asas. Mas não são de Ícaro, são de anjos, de demônios ou de espanto. A queda é absurda, o chamado vem de todos os lados. Não quero que ele- aquele que me vem de vez em quando- esteja dentro de mim. Que a desistência seja da verdade que vem da mentira do copo. Necessito de minha arte, não como parte, mas como todo; não como hobby, mas como verdadeira profissão de fé. O tempo passa tão rápido e aquele chamado do vinho não é tão imperioso, mas consigo conviver com a arte que ainda late feito cãozinho desprotegido.

Estou vivo

Recebi vários e-mails perguntando por que estava ausente deste blog. Gostaria de dizer que faço (estou fazendo) um retiro compulsório para comclusão de um livro mais longo, talvez o limite mínimo de 200 páginas. Mas, confesso pela primeira vez, que trabalhando uma história na qual exorciso todos os monstros com os quais estou vivendo- ou vivia- durante esse momento de luto que faço de forma serena e resignada. Mas reafirmo que estou vivo. Estou mais vivo do que nunca.

Aproveito ainda para agradecer a todos que votaram no meu livro AMOR DEPOIS DE TUDO na votação promovida pela minha “Editora” Clube dos Autores. Foram votações expressivas e que não esperava. Realmente fiquei muito feliz com o resultado, mesmo não tendo logrado o êxito esperado.

Então, ainda estou aqui, mas um pouco mais dedicado ao outro livro.  Porém continuo seguindo todos no twitter e acompaho todos os blogs dos amigos.

Um grande abraço.

Encontro com Martha Medeiros

Sabia que o encontro com os escritores promovido pelo CCBB seria no dia 07 de julho. Estava ainda em dúvida, mas acabei me dirigindo para o setor de clubes sul. Sorte minha. Cheguei a tempo. Peguei minha senha e fiquei a esperar a liberação para a entrada. Olhando por sobre a fileira de pessoas, observei que a maioria delas eram mulheres. Todas leitoras assíduas de Martha; todas falando das crônicas, dos livros, de Doidas e Santas. Ali tava cheio dessas últimas.

Então, entrei e me posicionei o mais perto do microfone. Eu ia fazer muitas perguntas. Não é todo dia que você encontra um escritor famoso falando como se estivesse na sala de sua casa. E lá estavam elas. Kássia Kiss roubou a cena- devo confessar- lendo crônicas da escritora que ficou com aquele olhar perdido no som das palavras que escrevera. Era mágico vê-la pensando no que tinha escrito e como tudo era cheio de comicidade.  E as duas interagiam nessa perfeita sintonia de escritor e ator, apesar de Kássia ter dito que não ia interpretar- fato que ela não se apercebeu. Sorte nossa, sorte minha.

Apesar de sua falta de preparo como palestrante confessa, Martha – pelo menos pra mim- causou grande interesse por revelar como se deu todo o processo de formação de escritora. Fiquei feliz de saber que temos as mesmas origens. A poesia foi passo incial. lembrei-me de quando ela falou de enviar seus manuscritos para um editor e recebeu um sonoro e sincero não; e isso me fez lembrar quando enviei a primeira carta para João Silvério Trevisan, que não me respondeu, nem com um não. Mas ela continuou fazendo novas poesias e sempre insistindo no segundo, terceiro, quarto, contatos. Até que teve seu livro publicado.

Foi tão bacana reconhcer nela aquele protótipo insipiente de escritor em mim. Falta-me apenas a oportunidade e é isso que me deixou mais feliz, saber que se pode conseguir as coisas por insistência da alma; assim como fez Martha. E o que me deixou ainda mais feliz, foi o fato de ela viver do mister de escritora. Que fascinante. Que vontade de abraçá-la e sentir um pouco dessa maneira de viver a vida.

Foi como se fosse um grande papo com uma grande amiga. A intenção do curador das reuniões foi muito feliz. E estou agendando para o próximo mês um novo encontro com um escritor e sentir bem perto essa vibração que emana desses homens e mulheres que vivem da imaginação. Não posso perder os próximos encontros e ver, também, nos olhos dos ecritores e dos atores a grande magia da literatura.

Enfim, esse primeiro contato com Martha Medeiros foi quase epifânico. Vi-me sentado ali, conversando sobre literatura; minhas crônicas pessoais e meus livros internos espalhados e discutidos por uma legião de pessoas com propósitos semelhantes. Assim, como se todos estivessem na sala de minha casa, numa grande tertúlia.

A Argentina fez gol!

A Argentina ganhou!

Dessa vez a Argentina saiu na frente em relação ao Brasil. Diria até que fez gol olímpico; deu uma goleada no Brasil, sem direito a qualquer tipo de defesa. Agora…será que o Brasil vai se manter na defensiva sempre? Todo time foi posto em campo, mas a vanguarda argentina surpreendeu a todos os zagueiros de plantão. Plantão mesmo. Parados,vendo a banda passar. A locomotiva do progresso ainda anda com combustível secular.

A Argentina ganhou por levar ao ponto máximo a consagração de princípios que nós adotamos e eles puseram em prática. A nossa Carta Magna prolixa deu lugar a letra morta. Onde está a igualdade de direitos? Está lá nos pampas argentinos. Lá em Buenos Aires, na terra do famigerado Maradona- que pode não ser gay-, mas que se orgulha de sua pátria igualitária.

Então parabéns a nação Argentina pela aprovação do casamento gay.

Bíblia e Homossexualidade

 

Ontem fui ao lançamento de um livro no Café com Letras aqui em Brasília. Foi um pedido de um grande amigo da Igreja Inclusiva. E o livro tem a ver com isso: inclusão, pelo menos é uma visão mais abrangente e menos estagnada da Bíblia. De importância inefável o lançamento deste livro. Como bem disse Léia, diretora da Editora Metanoia, “ o livro é outra maneira de ver as coisas” e como a Bíblia é uma manipulação cultural. Esse novo olhar, especialmente sobre a homoafetividade, desmistificando toda a carga monstruosa com que o assunto tem sido tratado.

Havia folheado os originais do autor e verifiquei quão importante esta questão da hermenêutica para tratar da exegese contida na Bíblia; como na transliteração dos evangelhos, muito do valor etimológico original foi deturpado. E isso implica em inventar o sentido das coisas, o que pode ser altamente deletério essa alteração proposital. Assim são feitos os novos evangelhos, especialmente aqueles que procedem  do Alcorão, do qual passagens célebres são alteradas com novos conceitos e ideias. Bem, mas isso é outra conversa.

Sugiro a leitura como mais um elemento libertador não somente para aqueles que se encontram de certa forma aprisionados por causa da falta de acolhimento que há nas Igrejas convencionais. É uma visão, possível e plausível, do evangelho libertador.

Mais um gay é morto

 

Mal a miscelânea de novelas, a nova ti-ti-ti, começou e a tragédia já foi anunciada. O núcleo de protagonistas foi revelado no primeiro capítulo. O que não ficou despercebido, obviamente, foi a presença do casal gay vivido pelos atores André Archete e Gustavo Leão ( salvo enganos). Mal o desenho de uma relação estável e verdadeira foi delineado, mostrando como a rotina de um casal gay é mais comum do que se imagina, e, de repente, a tragédia dá fim ao casal gay- mais uma vez-, em mais uma novela brasileira- enquanto isso nos EUA o primeiro beijo gay já saiu; a Argentina aprovou o casamento gay. Então me pergunto, por que esse artifício? Seria covardia? Seria medo de adentrar nesse mundo normal da convivência onde reside o amor em sua essência- assim como em qualquer outra relação de afeto e respeito- e definição? Trazendo um pouco para a seara da roteirização de telenovelas, será falta de criatividade para desenrolar essa trama sem cair no lugar comum caricato? Pois este nicho tem sido descrito por uma gama de personagens caricatos que apelam para o humorismo preconceituoso em cima do gay afetado. Apenas o tipo caricato, afetado tem sobrevivido. Por quê? Antes, de mais nada, não tenho objeções contra essa exposição, até porque faz parte de nosso mundo as nuances dos sexos. No entanto, não vejo a representação do gay que trabalha em escritório, que é chefe de empresas, que é funcionário público, que tem família, enfim aquele que sai desse estereótipo comum a que o público esta acostumado a asisitir. Matar um personagem rico é a maneira mais clara de se revelar a falta de criatividade para um autor. Eu já fiz isso com alguns de meus personagens. A falta de criatividade opera nesse mister quando o autor já não consegue dar voz a seu personagem, preferindo calá-lo diante de um capricho ignóbil. A grande novela é aquela que apela para os tipos mais comuns, aqueles que existem sem camuflagem. Poderia eu passar horas a falar de exemplos tantos na teledramaturgia. Morrer é conseqüência do futuro de uma personagem, mas apenas quando a novela acaba. A história continua em nossas mentes. Talvez o autor argumente que a morte de um dos personagens do casal gay vai trazer o drama adequado para intensificar o papel do cônjuge supérstite. Mas histórias de amor solitário já existem a torto a direito nessa arte. Personagens densos se constroem num monólogo da dor da perda de um grande amor. Mas há amor também na constância do casamento. E como é lindo o amor vívido, ratificado todo o dia. E o fato de esta novela em epígrafe estrear com tais tipos, deveria reforçá-los da forma mais natural, apenas deixando-os existir. Sei que a trama vai desenrolar diversos aspectos: solidão, amor incondicional, fidelidade, respeito… tudo pos mortem. Que pena. Esperamos, pelo menos, que essa história seja bem escrita e que esse personagem sobrevivente dê conta do papel.

Enfim o lançamento

Ao longo da semana que vem, uma série de autores  do Clube lançarão as suas obras em Paraty, na casa do Clube de Autores.

Os lançamentos serão parte da programação e acontecerão em meio aos debates e palestras que realizaremos ao longo do período.

É com enorme satisfação que apresentamos, abaixo, a relação dos lançamentos e – claro – todos estão convidados para prestigiar os autores e comparecer a cada um dos eventos, que acontecerão praticamente todos os dias.

A programação segue abaixo:

Para fazer o download da relação completa, incluindo sinopses de cada obra, clique aqui ou acesse diretamente o link http://www.igroup.com.br/arquivos_clientes/clubedeautores/lancamentos_flip.pdf

Um novo Pinóquio

O frio não se comparava ao que me reservava dentro de meu carro. Não sei o que é isso agora. Agora é o frio na cara, ao redor do pescoço e nas mãos. O vento é frio aqui fora esperando o ônibus chegar. O carro tá na oficina esperando uma autorização superior. Enquanto isso, revivia novas rotinas já conhecidas.

Então coloquei meu fone de ouvido, ajustei o mp4 para tocar o álbum de Rufus e segui a viagem tentando entender um pouco de tudo que ia acontecendo. Começava a ver as imagens perdidas, construídas em cada personagem que aparecia. A música falava sobre o Pinóquio que queria voltar a ser um brinquedo. E eu não conseguia ver a verdade da poesia. Mas bateram em meu carro. Fiquei engavetado procurando o sentido para a parada momentânea da música. A música não parava, até que acordei do susto e desliguei tudo. Foi rápido, logo estava rindo da experiência e das pessoas envolvidas. Depois disso, a vida continuava; sempre ela continua.

Então continuei em minha pequena viagem ao trabalho em busca de entender a poesia que me cercava. De volta ao meu Pinóquio que queria ser adulto. Eu deixara de ser manipulado pelos desejos dos outros. Logo, logo estava falando minha própria língua, liberto dessas amarras na fala, nos gestos, na alma. O meu sonho era tornar-me adulto não de pau de pinho. Queria ser forte, mas não de madeira oca; queria ter responsabilidades. E a música continuava no refrão, na vontade de Pinóquio tornar-se um brinquedo novamente.

Como queria ser o homem maduro, adquirir o maior atributo de um homem grande: a piscina para adultos. Mergulhar fundo na vida era o que mais queria naquele momento; talvez morar sozinho sem o Gepeto. E a fada madrinha vinha em todas as preces diárias. O desejo de me tornar grande, homem…

O fluxo de pessoas no ônibus era fraco. Pessoas entravam e saíam. As que ficavam, permaneciam paradas observando o ritmo estático dos outros. Ainda a música repetia que Pinóquio, agora homem, queria voltar a ser um brinquedo. E como agora me alcançava aquele pensamento de ficar parado, sozinho, sendo manipulado por uma vontade externa. Estava sem alegria de andar pelas minhas próprias pernas de pau sem firmeza. Preferiria estar sentado sobre a prateleira observando o olhar do criador; esperando minha real utilidade. O Pinóquio queria ser de Gepeto novamente. Voltar à ingenuidade que existia no brinquedo que se divertia em ser manipulado pela boa vontade dos outros.

Crítica Literária

O livro ADEUS A ALETO recebeu recente crítica assinada pela  Doutora em Letras (Literatura Comparada), Mestra em Letras (Literatura Brasileira), Pesquisadora na área da Simbologia, Professora de Língua Portuguesa e de Literatura Brasileira e Produtora Cultural  Sônia Moura.

 

EROS E TANATOS – haverá um vencedor?

 (por SÔNIA MOURA)

 

O romance Adeus a Aleto de Roberto Muniz Dias nos traz a leitura polissêmica das sensações, suscita o reexame da força dos sentidos, do que é erótico (e não pornográfico), do que é desejo (e não vulgaridade), e ativa a circulação de EROS e TANATOS,  através de todos os sentidos.

O diálogo entre o EU e o OUTRO sugere novas possibilidades de compreensão do desejo, regido pelos sentidos, provocando as sensações, por intermédio das quais os elementos constitutivos do mundo mostrado projetam-se nas figuras de EROS e TANATOS, insuflando o leitor cuidadoso a voltar-se para as imagens com o olhar revelador do jogo da representação erótica.

EROS e TANATOS são elementos transitivos nesta narrativa e, na existência dos contrários, tecem o mistério do desejo pleno, no qual convivem no mesmo espaço: vida e morte, realidade e fantasia, dor e prazer.

Neste jogo da representação erótica, o sujeito, na busca das mais profundas sensações, se coloca primeiramente diante do seu outro para (re)nascer, instalando-se no outro, pela conjunção de elementos provocadores do intercâmbio: amor e desejo.

O poder da sedução surge pela transformação mágica do prazer, colocando em embates constantes a loucura e a razão, o medo e a coragem, deixando desabrochar o prazer em flor e o desejo sem culpa, sem barreiras ou fronteiras com a clareza da liberdade animal. Deste modo, a fábula amorosa envolve os amantes e mostra uma natureza erótica não parasitária.

Construindo um mundo às avessas do que é “permitido”, os sentidos explodirão em cores, sabores, peles e sons instigando os protagonistas e aos leitores a se embrenharem por labirintos saborosos, excitantes e estimulantes.

Símbolo de fecundação, germe da criação, a palavra é fertilizadora e é por meio dela que o protagonista se “engravida” de fantasias e também a seus leitores e são estas fantasias, transmutadas em palavras, que irão ocupar o lugar da desarticulação, para que EROS e TANATOS se encontrem.

Dotadas de poderes mágicos, as palavras vão-se instalando, conquistando e se deixando conquistar, e, medindo-se num corpo-a-corpo incansável, travam um duelo permanente com EROS e TANATOS.

A fantasia abandona-se ao prazer da digressão sexual, quando entram em cena o toque, o tato, o contato e a pele. A partir deste momento, amor e aventura emolduram um mundo onde tudo cabe, e nesta mistura de pontos: tato, contato, pele e toque, o fantasma atraente de EROS é o herói sem disfarce que ajuda os amantes a vencerem qualquer obstáculo e se tornarem os herdeiros do sonho.

Em Adeus a Aleto, do início ao fim do romance, a presença de TANATOS no território de EROS é sistematicamente reafirmada para, ao final, ambos se apresentem como identificadores da MORTE e da VIDA, no momento em que o círculo se fecha e TANATOS substitui EROS para assegurar a vitória do prazer.

http://www.soniamoura.com.br/

Diário de Bordo da FLIP (parte 1)

05/08/2010 Partida para Paraty-RJ      10:47

Acordei cedo- estava previsto essa constatação. Para quem passou três dias sem dormir por conta da batida em meu carro; a tensão para a FLIP, de uma noite mal dormida apenas, era fixinha.

 

Chegada ao Rio 12:00

A chegada ao Rio trouxe a lembrança da última passagem pela cidade maravilhosa. E fora tudo maravilhoso como a vista nostálgica das paisagens vistas. No entanto, agora estava sozinho e a alegria parecia ser mais autêntica; estou comigo mesmo.

 Próximo parada, rodoviária.

12:40

Ao ligar o celular, a mensagem da operadora sinalizava ligações diversas. Pensei que os amigos tivessem se lembrando de se despedir. Mas foi ainda melhor, minha mãe deixara mensagem de boa viagem. Liguei imediatamente para casa. Papai atendeu. Falou do Rushdie que vai aparecer na FLIP. Falei dele e do livro que quer o autógrafo. Falei que ia tentar pegar um autógrafo dele.

14:00

Depois de quatro horas na viagem do Rio para Paraty; depois de ouvir quase todo o repertório de meu MP4; depois de pensar quarenta e oito vezes qual discurso fazer na hora do lançamento; depois disso tudo, cheguei.

18:10

O que posso dizer de Paraty? Com “i” ou com “y”, não sei. Posso dizer que a cidade tem cheiro de história vivida, coisa constatada pela arquitetura das casas, as ruelas, as ruas de pedras, e uma mistura que relembra coisas de infância por conta das inúmeras amendoeiras espalhadas pela cidade. A esse ar de nostalgia, condensava-se uma atmosfera mansa e agitada, típica desse momento que misturava arte e literatura no centro histórico da cidade.

Mesa de autógrafos

O Escritor e seu livro.

O lançamento 20:30

Cheguei na Casa do Clube de Autores, Rua da Lapa, 375. Dei duas voltas em frente da casa. Não vi movimento. Fiquei desesperado. Por um momento, pensei em abandonar aquilo tudo.  Fui ao orelhão ligar para casa e dar notícias de minha chegada. Acho que mencionei com minha mãe o nervosismo. Voltei então para entrar na casa. Minutos antes, minha mãe havia dito: – você já chegou até aí meu filho, continue-, não tinha o que fazer, senão entrar.

A Casa Clube de Autores: o recinto dos ecritores.

(…)

Entrei sem maiores alardes. Lá de dentro o funcionário logo me cumprimentou. Apresentei-me com certa excitação. Apresentei-me como escritor. Como será isso? Pensava a todo o momento nessa instância de ser, desse agora.

O lançamento foi um momento revelador. Não sabia que a troca era tão intensa, tão fluida. Fiquei feliz. Tirei fotos. Falei abertamente de meu livro, sem medo de ser repreendido. Foi muito insolitamente satisfatório.

As Meninas-Malagueta Hanna e Laura.

Os autógrafos.

(…)

Depois da euforia dos holofotes. Saí com um sorriso largo e, olhando para a multidão nas ruas de Paraty, senti-me novamente um mero anônimo. O escritor iluminado dava forma ao Roberto Dias de sempre.

 

 

 

 

 

Salman Rushdie

Salman Rushdie   22:10

 

Saí do lançamento de meu livro ainda absorto com o que havia acontecido. Muita gente diferente, sem convite- esquisita mesmo- apareceu no lançamento. Valeu a pena.

…Saí da Casa em direção à multidão, ao burburinho de pessoas que se acumulavam nas ruas de pedras. Pensei em ligar para alguém em especial; pensei em dividir aquele momento, mas estava longe demais, até do alcance do celular- sem crédito.

Pensei então na cerveja para dividir minha alegria com o mundo, com os anônimos na rua. Comprei uma Itaipava. Dei um, dois, três, goles; dobrei a rua de pedras, dei com uma rua de chão batido. O passo se aprumou. De repente, vejo um casal se aproximando. O senhor vinha de cabeça baixa, olhando para as pedras e guardando sua atenção para não tropeçar. A moça, mais nova, parecia ser do local, visto sua habilidade no caminhar por sobre as pedras de Paraty. Dei um último gole. Olhei para o rosto barbudo do senhor. Era Salman Rushdie.

Ele passou por mim, então toquei o seu ombro:

- Mr. Rushdie. I brought your book, eh, eh, eh…Cross this line…across this line…

A moça simpática, corrigiu meu inglês prontamente e um sorriso sem graça adornava seu rosto. Ainda nervoso por ter apertado a mão de Salman, tentei corrigir meu inglês nervoso:

- I bought to you to autograph. But I am not with it.

- Oh , Sorry…- ele disse gentilmente e completou me convidando para a noite de autógrafos no dia seguinte.

Despedimos-nos. Fiquei parado, com  a cerveja na mão e o pensamento estático na visão de um homem que se distanciava e que eu admirava seu trabalho.

Por um momento mágico, como num flash momentâneo de uma cena de cinema, percebi que a película de minha vida tinha sido impregnada com um pequeno brilho de um tesouro indelével. E como fã, fiquei extasiado com a energia trocada naquele aperto de mão.

 

Paraty a noite.

22:40

Tenda dos Autores

Ainda pensando na passagem de Rushdie, fiquei simplesmente abobalhado, esperando o tempo passar. Olhava pra trás, acompanhando com o olhar o distanciamento daquele homem que usava como guarda-costas uma simples intérprete. Pensei em tirar uma foto. Segui-o prontamente. Mas ele entrou numa casa rapidamente. Fui barrado. O evento era restrito infelizmente. Tentei subornar os seguranças, mas não consegui. Senti-me imprestável, impotente. Depois soube que a casa era da Cia das Letras e, lá dentro, esperava por Rushdie o senhor Fernando Henrique Cardoso.

 

 Continua…

LUKA e o FOGO DA VIDA (Salman Rushdie)

 

Quando estive na FLIP deste ano, Salman Rushdie fez o lançamento mundial de seu livro Luka e o fogo da vida diante da platéia. Pegou suas anotações e escolheu um trecho da história para ler. O trecho escolhido é uma verdadeira homenagem, revelando sua alegria com o nascimento de seu filho mais novo que também se chama Luka. Depois de ler esse trecho, pediu que seu filho subisse ao palco e o apresentou a plateia. Salvo engano, lembro de Salman ter dito que pela primeira vez seu filho havia lido um livro seu e completou que Luka e o fogo da vida era um livro feito para Luka, pois o irmão mais velho já tinha sido presenteado com um livro. Então, ele concluiu que este livro era o resultado de sua cobrança. O livro era para Luka.

“Soraya pegou o bebê de volta e acalmou o pai. ‘ O nome dele é Luka’, ela disse, ‘e esta maravilha significa que parece que nós trouxemos ao mundo um sujeito capaz de fazer o próprio tempo voltar atrás, de fazer o tempo correr para o lado errado e nos deixar moços de novo.”

Talvez fosse esse o desejo de Salman, voltar o tempo e reverter o curso de todo o processo inimaginável que ele tem suportado até então, vivendo refém de sua própria Literatura, inventando um mundo mágico onde seu filho pudesse lutar por uma sua causa, libertando o pai do sono profundo, do silêncio profundo. Indo além, talvez ele necessitasse desse menino para que o mundo descobrisse que não se pode calar uma Torrente de Palavras, nem fazer parar o curso do Mar das Histórias, tampouco retirar o verde dos pastos ao redor da Montanha do Conhecimento.

Salman coloca nas mãos de seu filho o recorrente desejo de extensão das vontades internas, instigando a aventura como meio de superação de medos, inseguranças e imaturidade. Nessa história fantástica cheia de deuses e semideuses, monstros e seres mitológicos, a imaginação flui no curso da imprevisibilidade da vida; enfrentando as fases do vídeo game como se fossem todas as vicissitudes da vida real. E nessa aventura criada pelo escritor, a meta é alcançar o fogo da vida para que o Pai, contador de histórias, não perca a razão para continuar vivendo que é contar suas fábulas; suas verdades.

Definitivamente, Luka e o fogo da vida não mente quando diz que esse livro se destina a todo público jovem. Público este, que ainda necessita do viés da fantasia para reconhecer algumas características do mundo adulto. Responsabilidades; o novo; a liberdade- e a liberdade de expressão está embutida-, tudo isso faz parte de um conjunto maior que constrói o verdadeiro sustentáculo para a vida.

Vamos deixar a Terra e seguir rumo ao espaço?

Quando quis direcionar meu dirigível para a órbita de mercúrio pareceu ideia de maluco. Lá era muito quente, alguns diziam. Parecia-me remota mesmo essa possibilidade. Mas a terra em que vivemos parece estar ruindo; o tempo parece venenoso e onde estão os beija-flores? Não os vejo mais. Estamos morrendo mais rápido apesar da maior expectativa de vida. Estamos mais preocupados com a vida do vizinho do que com o nosso lixo que não separamos da forma mais adequada. E será que terei que me preocupar com o lixo dos outros lá em mercúrio? Sim; porque eles devem ser mais civilizados do que a gente que elabora leis e contratos. Há uma ordem natural das coisas, eu soube. Tudo agindo de forma estabilizada como se a preservação da utilidade das coisas fosse mais importante que o ser humano, mas sem esquecer que a humanidade deles está no respeito das grandes leis naturais. É apenas especulação que li na internet. Viver em mercúrio é possível, dizia a capa. E não estou maluco. A bem da verdade, nunca estive tão certo como agora. Não é mais apenas uma divagação da minha escrita maluca. Sempre tive medo dos astros; do tamanho, das forças de atração. Eu entendia as leis da física, mas sempre soube que seria apenas uma tentativa de um pensador de explicar, com nossa lógica, a empregabilidade das coisas que escolhemos para viver ao nosso redor. Seria apenas uma questão de acomodação do pensamento. Parece que o homem tem inventado todas essas coisas de agora, aperfeiçoadas pela tecnologia, com o intuito de utilizarmos para esta viagem presente. Tudo foi feito para o planeta incerto. Mas é o espaço nossa nova tentativa de vida. Os novos colonizadores estão vindo. Mas não quero pensar nisso. A antecipação de uma maluquice é a melhor forma de enfrentamento.

Por aqui, vejo o movimento de pessoas, de grandes massas de pessoas atrás de terra boa; de ar mais úmido, de civilidade, de paz. As grandes massas se movimentam como os grandes dinossauros. Grandes pisadas, grandes perdas. Os corpos sobre a terra para alimentar nada. Nada vai sobrar dessa falta de altruísmo. De que adiantará minha plástica de correção de imperfeição que somente eu enxergo em meu semblante triste? Nada valerá a pena, a não ser que seja para suprir necessidades básicas. – Vamos partir?

O alarme foi disparado. Estou ajustando as coordenadas de meu dirigível. A vida na terra está ficando insustentável. Cadê o ar?  Onde estão as pessoas humanas? Talvez elas residam em algum lugar distante; como se fossem um anteparo da luz que emitimos aqui neste mundo de luz própria. Então, será isso? Teremos nosso reflexo melhorado em alguma atmosfera desconhecida; uma vida paralela e melhor desenvolvida?

Estamos eu e Hawking na mesma espaçonave, mas ele insiste para que eu não deva me comunicar com os outros lá fora. No entanto, como poderei lidar com essa nova jornada sem o auxílio da troca? Podemos ir até lá sem falar o que queremos; vida nova, abrigo. Hawking e eu conjugamos do mesmo pensamento de qualquer forma. Temos que sair para o espaço. Por enquanto ele me segue rumo a mercúrio. Se os mercurianos não forem amistosos, seguiremos rumo a qualquer estrela do espaço. E se por ventura encontrarmos lugar novo, vou chamá-lo de Nova Terra.

Diário de Bordo de Paraty-Parte final.

O poeta Osvaldo Junior (O.J.P.W) e seu livro A luz do Sul

 A viagem a Paraty me colocou em contato com diversos tipos de artistas: poetas, declamadores, escritores e artistas de rua. Por lá, encontrei, na Casa do Clube de Autores,  outros novos escritores. Entre eles, conheci Oswaldo Júnior, ou simplesmente, O.J.P.W, que foi denominado pelos colegas do Bar do Escritor de “  o mais louco dos poetas”, pois o jovem abnegado poeta deixara o curso de Medicina para viver de poesia.  E essa é a vontade de todos nós, alimentar-mos dessa nossa lira; desse nosso mister. A foto ilustra o enriquecimento da troca de experiências que a FLIP promoveu.

Sucesso amigo poeta!

 

 

O pessoal do Bar do Escritor: Giovani Femini, Cesar Veneziani e Wilson R

O Bar do Escritor partiu da ideia de uma comunidade no Orkut. A intenção era comentar despretensiosamente textos anônimos, avulsos, ou de escriotres famosos. Cabia todo mundo. Mas o crivo deles é profissional. A filosofia da comunidade é promover o debate crítico sobre literatura em suas diversas formas. Fiquei impressionado com o conhecimento que o grupo tem sobre Literatura.

 A mensagem deixada por esse grupo de jovens-senhores-poetas-boêmios é a promoção do debate, da troca de experiências. Ratifiquei que ainda tenho muito a aprender e a interação com outros escritores e críticos é essencial.

- Vai uma poesia aí?

 

Giselle Biaanconi

Conheci Giselle sob a forma de Clark Kent. Ela estava apenas de Giselle. Tímida, óculos de grau e o senso de humor apurado.

Ela é artista de rua, ou da rua, como Paraty, para o Mundo. Em conversa curta já descobrimos que sua identidade secreta não é nada secreta. À noite, ela se transforma na Princesa poetisa. A vestimenta remonta os vestidos medievais, apenas um pretexto para compor a personagem para emoldurar a declamação de suas poesias.

 Para conhecer mais o trabalho dela, acessem: gisellepoetisa.blogspot.com 

 

 Ainda em Paraty pude conhcer professores, escritores de diversas matizes, promotores de concursos literários, como é o caso de Jean Carllo, poeta e colunista, que organiza eventos para promover seus concursos de poesia. Um trabalho primoroso desde a divulgação; a lisura do edital; os julgadores e a premiação. Devoção e amor à Literatura são a marca registrada de seu trabalho.

 Assim finalizo meu diário que ainda tem muito mais fotos da cidade que soube muito bem receber este evento maravilhoso. Outras imagens impagáveis guardarei em minha memória particular. Até a próxima.  

As ruas de pedras de Paraty

Pai nosso de cada dia

Há quanto tempo eu não encontrava as palavras do Senhor. No sábado, o que me restava era uma grande ressaca, ao domingo sobrava as dores de cabeça. Mas a vida de boêmia parece acabar até mesmo para Rimbaud que pensava ser eterno, senão pelas suas poesias.  No entanto, acordei com a palavra de Jesus na TV. Sentei-me para ouvir o pai nosso,  mas antes veio o sermão, que não foi daqueles mais inspiradores. Porém a mensagem era de respeito ao estrangeiro, a boa convivência, a paz em forma mais genérica. Falou-se dos israelitas como eram fechados e depois do exílio, transformaram-se em pessoas receptivas. Enfim, a ladainha que sempre deve ser ouvida nessas cerimônias.

Mas foi bom entrar um pouco dentro de mim ao ouvir os cânticos, aqueles sinos celestiais que de certa forma me transportam para o além de um segundo que não é este do mundo solitário que vivo. Pensei logo em minha mãe e as missas de domingo. As mãos dadas, a preocupação eterna com o se portar dentro da igreja. A sua atenção receptiva de sempre bem tratar os outros.

Mas o transe sempre vem quando rezamos o pai nosso. Aquela sensação de que sempre teremos alguém para nos proteger de momentos ruins. Peço a ele em oração íntima que me ajude,  pois independente ou não de ser bem recebido- mesmo que o sermão seja de acolhimento dos estrangeiros, e nisso entra toda sorte de pessoas- na casa de Deus. Eu me msinto um pouco aliviado em entrar em contato com o grande Pai. Sim, porque sempre necessitamos de um pai, para o abraço, para um carinho, uma direção. E eu me ressinto disso tudo. Faço minha reavaliação nesse curto espaço de tempo com Jesus, pedindo perdão por tudo e suplicando por uma graça.

 A minha cultura fora por muito tempo assim, na indulgência das pessoas. De sempre estar atolado em desgraça para ter pretexto para ir a missa e pedir perdão. Sair de lá leve como o vento em pradaria distante. E era sempre assim que saía, como se Jesus ficasse lá distante, sempre em casa. Ele parecia criança rebelde que não podia sair por conta do castigo ou das grades que o prendiam. Mas eu o queria todo dia do meu lado.  Queria Deus como se fosse o grande pai da missa; que tentasse resolver meus problemas por antecipação. Porque ninguém quer sofrer.

Mas ainda em minhas lembranças de domingo; todo domingo era assim; essa saudade dele, de estar presente como se fosse um amigo e não mais um pai. Queria que toda essa forma de castigo a mim dada fosse transformada em história de papel. Queria a missa todos os dias, mas que o menino Jesus pudesse passear comigo quando o padre dissesse: ide em paz e que o senhor vos acompanhe. Mas ele nunca está aqui comigo. Queria que esse grande pai saísse para tomar um sorvete comigo. Queria que ele saísse de nossos sonhos e dissesse: “quer viajar comigo? Estou tão carente de companhia.’

CABEÇA A PRÊMIO ( de Marco Ricca)

 

Marco Ricca saiu dos holofotes e deixou-se filmar por detrás das câmeras. Agora ele assina como diretor de filmes. O primeiro rebento chama-se Cabeça a Prêmio.

Ainda não sei dizer se gostei ou não. É um tipo de produção, na minha opinião, que está pairando no limbo. Ainda o vejo como uma plêiade de imagens já vistas e linguagens já usadas.Mas espera aí, em quase todo filme há isso! De fato existe, mas esperava-se de um primogênito algo original. Talvez a originalidade resida em dar um pano à dimensão cosmopolita das cidades fronteiriças entre Brasil, Paraguai e Bolívia- ângulos que promoviam uma visão menos provinciana, imagens embaçadas do ritmo frenético de carros; de repente a visão do Pantanal; terras esparsas, sois avermelhados. Enfim, via-se uma cidade além de suas impressões mais superficiais. Isso ficou indelével. E, particularmente, gosto de efeitos que tiram a impressão mais comezinha que se tem de um lugar, de uma pessoa.

Mas, falemos do enredo, das personagens, etc.

Falou-se de que ele se serviu dos amigos para compor o elenco. De fato, ele escolheu bem, mas as atuações deixaram a desejar. A certa altura, até que o filme tomasse uma forma de entendimento, senti que revivia as famigeradas pornochanchadas. Muito sexo, muito sexo despropositado para compor o personagem de Edu Moscovis, que parecia em alguns momentos querer rir para manter a sisudez requerida. Tive um certo dejavur ao vê-lo nas cenas de morte, uma mistura de “Onde os fracos não tem vez” e Riobaldo de Guimarães. Senti um pouco da linguagem não verbalizada dos personagens de Vidas Secas onde operava mais a linguagem corporal e o silêncio, e nesse caso a imagem. E esse silêncio se estendia, às vezes, em cenas mudas e desnecessárias. Flúvio parecia uma metalinguagem de si mesmo, atuando como um pai glutão e paradoxalmente carinhoso. Então Alice Braga que não sei porque cargas d’água não foi aproveitada para as cenas de sexo. Também não sei dizer se gostei ou não dela. Talvez, quem sabe, da última parte em que ela se vê na condição de racionalizar sua revolta para com os serviços escusos do pai- e da própria estória do filme-, mirando para a cabeça de seu pai o revólver, deixando a “obra” em aberto.

Em certa parte do filme fica clara a intenção do diretor em deixar em primeiro plano a questão da falta de diálogo entre as pessoas. Lembrou-me de alguma forma Lia Luft em silêncio dos amantes- salvo engano. Mas o filme só se mostra a que veio nesse curto espaço de tempo em que compõe essa falta de fundamento e espontaneidade nas relações humanas, sempre cercadas de um interesse ignóbil latente.

E como esse revólver em punho, em riste, em direção ao desfecho da obra, fica meu grito contido, entalado na garganta na espera de minha definição acerca de qual cabeça estava a prêmio.

What-a-shame

 

Well there’s three version of this story, mine, and yours and then the truth.
And we can put it down to circumstance our childhood then our youth.
Out of sentimental gain I wanted you to feel my pain,
But it came back return to sender.

I read your mind and tried to call,
My tears could fill the Albert hall.
Is this the sound of sweet surrender?

What a shame we never listened.
I told you through the television.
And all that went away was the price we paid.
People spend a life time this way.
Oh what a shame.

So I got busy throwing everybody underneath the bus.
Oh, and with your poster 30 foot high at the back of Toy-R-Us.
I wrote a letter in my mind but the words were so unkind about a man I can’t remember.

I don’t recall the reasons why.
I must have meant them at the time.
Is this the sound of sweet surrender?
Robbie Williams Shame lyrics found on http://www.directlyrics.com/robbie-williams-shame-lyrics.html
What a shame we never listened.

I told you through the television.
And all that went away was the price we paid.
People spend a life time this way and that’s how they stay.

Words come easy when they’re true.
Words come easy when they’re true.

So I got busy throwing everybody underneath the bus.
Oh, and with your poster 30 foot high at the back of Toy-R-Us.
Now we can put it down to circumstance our childhood then our youth.

What a shame we never listened
I told you through the television
And all that went away was the price we paid
People spend a lifetime this way
And that’s how they stay
Oh what a shame.
People spend a lifetime this way
Oh what a shame
Such a shame, what a shame

Os pés unidos pelo sol

Ele começou a se perguntar como as coisas poderiam ter sido se tivesse feito de outra forma. Pensava ainda com o sorriso recuperado; questionava-se como poderia ser tudo diferente, ainda que se enchesse de alegria desmesurada.
E se o sol se escondesse, como ele pareceu se esconder deles naquela tarde idílica. Por um momento eles se sentiram sós. O sol estava encoberto; tímido; receoso. E se ele tivesse aparecido. O sol então apareceu redondo, como se houvesse desenhado numa tela de aquarela multicolorida. O Céu ao redor pareceu-lhe a moldura correta. E se o sol desaparecesse…talvez o outro perdesse o presente que guardou para o outro. O sol não poderia ter sido mais maléfico, ele pensava com a câmera a postos.
De repente, o céu se descortina ainda mais. O dois se encheram de vida com o calor quente do brilho intenso. Os dois se esticavam para que o calor os atingisse por completo. Ele não quis saber da foto. Deixou-se tomar por aquele calor e esticar a pernas para que ao fundo enxergasse seus pés. O outro em solidariedade espontânea, daquela que só se encontra entre os amantes verdadeiros, posicionou-se na mesma disposição do namorado. Os pés se encontravam no infinito com sol os unindo por seus inúmeros braços, selando ali uma união de duas vontades antes dispersas pelo mundo.
E se o sol não tivesse aparecido? Seu pensamento se perdeu por entre o colorido do céu que envolvia os dois sonhadores.
O dia começara a recepcionar a noite, num abraço que trazia o vento morno e acolhedor da brisa marinha. Ainda os dois se lembravam do pôr-do-sol que os presenteou. O gosto doce da vida permanecia nas bocas que estavam sedentas do beijo.
E se ele não tivesse a ideia de…e se…Ele começava de novo suas ponderações do acaso. Hoje estava só relembrando apenas das lembranças boas. Mas mesmo assim diante da sua compreensão do grande erro, da discussão do último dia, da perda das coisas boas, ficou perdido na ponderação filosófica infrutífera: e se…
As coisas poderiam ter sido diferente. O outro, no afã de sua raiva, revelara o plano final. Estava preparado como tudo antes houvera sido programado. O amor, a vontade de ver, o carinho primeiro, tudo relembrava como resgate da primeira noite. E se ele tivesse sido mais paciente? Começava a se perguntar naqueles pensamentos que não param de se multiplicar. E se ele tivesse evitado uma brincadeira sem sentido? O outro havia preparado acompanhá-lo até o aeroporto para a partida inevitável, inexorável, indesejada. Preparou como tudo houvera sido preparado. E ele pensava nisso como se fosse verdadeira manifestação de carinho. Só podia ser carinho, ele pensava nisso enquanto seu pensamento se alternava nas lembranças anteriores. E se não tivessem discutido na praia, antes da partida prematura das coisas infindáveis? Essa questão lhe invadiu como um sonho.
E se o outro tivesse deixado a música rolar? Que música seria? Ele não saberia responder se não fosse o sonho que tivera. Então, a mão esquerda descansava na perna do outro. Repousava como um grande urso hibernado, nada poderia tirar aquela mão do lugar tranqüilo. Mas os rostos se perfilavam na estrada conhecida do caminho de volta. As mentes dos dois começavam a reinventar um começo. Mas estacionavam na lembrança contundente das palavras arremessadas. O som do silêncio penetrava como faca de fio venenoso. Então, a música começa a entoar uma melodia de paz. A mão pesada aliviava o fardo para se transformar naquela sensação de carinho restaurador. A música falava de triste partida; de amor de início e de paixão desmedida. Misturavam-se tudo naquelas cabecinhas de meninos-homem, mas nada poderia mudar aquelas duas vidas. A música, de qualquer forma, falava de uma história conhecida. A letra aprofundava um sentimento imaturo que perfurava os dois com a mesma violência de lança mortífera. E parecia que ela cobrava uma ação de qualquer um dos dois. E se ele retirasse a mão pesada, ou se movesse levemente para que o outro entendesse do que tudo se tratava? A música repetia o refrão sobre paz, armistício. A mão movia-se levemente tentando alcançar a atenção do outro, levemente ela se movia como se quisesse falar alguma coisa. Mas parecia inaudível.
E se tirasse a mão? Ele pensava como um plano maior do que o silêncio mortal. A música reiniciava a segunda parte, falando de perdão absoluto sem remoer as palavras ditas; sem a ladainha dos motivos; sem a nobre menção de quem errou. E se ele falasse primeiro, ele pensava intimamente olhando para os bambus cinzas, outrora verdes, que anunciavam o caminho da partida. Mas eles permaneciam silenciosos enquanto as velocidades dos bambus aumentavam pela visão periférica e o tempo para os dois se calava.
E se os dois se beijassem, acabando assim com a disputa inglória, a vantagem desmerecida, a famigerada consciência egoísta da razão das coisas.
E os dois se beijaram no impulso mais nobre que o amor pode revelar. As mãos perdidas em seus corpos quentes sedentes de explicação nenhuma. Apertaram-se como se fosse despedida mesmo.
E se ele perdesse o avião daquela noite, os bambus ficariam verdes como da primeira vez? A lua teria aparecido em sua imensidão de mar prateado-luzente? A música teria terminado em: Eu te amo? A mão teria ficado estacionada para sempre?
E se houvesse tempo para que os pés se encontrassem antes do pôr-do-sol? Ou depois? Onde descansariam na conjuntura daquele sentimento revelado? Eles teriam outra chance?
E se os dois partissem juntos daquele ponto em diante para uma praia longínqua onde pudessem viver de outra forma todo o sentimento de vontade mútua?
Mas um truque da vida quisera que eles ficassem separados. Antes de toda e qualquer ponderação da filosofia questionadora; antes de qualquer afirmação dos desígnios do destino- ou da coincidência-, antes que o pensamento voltasse para os flashbacks inevitáveis; antes que pudesse perder a imaginação, e por fim, antes que pudesse perder o poder do sonho, ele pegou na mão dele. Aceitou o convite para ir a praia. Os dois se perderam no verde-azul do mar, retornando a terra com a renovação do perdão mútuo; com votos renovados de amor insipiente.
Deixaram de lado as conjecturas sonhadoras e afirmaram entre si o pacto silencioso, daqueles que os amantes verdadeiros selam , quando eles se entreolharam no fundo dos seus olhos, deixando para o futuro o poder de decidir se verdadeiramente se destinavam um ao outro.
E se eles foram felizes? …o caminho para a felicidade é incerto, mas eles começaram acertando no primeiro erro.

3096 dias de sequestro

Natasha Kampusch

Natasha Kampusch- 3096 dias de sequestro

 

Queria a grande tragédia de uma história para que todos sentassem ao meu redor com olhos de espanto para a veracidade de minha literatura. Mas onde está a Literatura dessas linhas? Talvez eu não tivesse de pensar na história em si, na procura de adequação deste mote ao cânone literário. Mas ainda assim me pergunto por que insisto nessa temática.

Mas agora, por algum motivo, eu entendo como usar a Literatura como uma válvula de escape. E pensando bem, Clarice já o fez. Ela falava que escrevia para não enlouquecer- ou algo do tipo. E agora entendo o porquê de, às vezes, a Literatura servir como um desabafo tranquilizador.

Talvez seja isso que empolgou aquela menina que ficou muitos anos presa num cativeiro na Áustria, Natasha, que lançou livro recentemente. Nele, a jovem relata as condição e aos maus tratos a que era submetida. Disse que não queria ganhar dinheiro com isso- inexorável-, mas fica claro o propósito real de sua literatura: livrar-se do trauma. E afirmando seu real propósito com seu livro disse que não nutria ódio pelo seu algoz, e completou, que se o fizesse, aumentaria ainda mais sua sensação de morte

A ORIGEM ( Inception)

 

A ORIGEM

Dicaprio em A Origem

 

Que inveja do roteirista ou do próprio diretor do filme a Origem ( Inception). Como queria enveredar pelos caminhos do sonho e ser completamente dono deles. Queria invadir como Cobb faz ao ponto de reconstruir-se dentro de seus próprios sonhos. Seria uma espécie de nova droga ou um novo gadget ao qual ficamos refém, ou a desistência de tudo, como uma alternativa para os problemas que criamos. Enfim, pareceu-me uma grande viagem alucinógena, reflexo de uma injeção calibrosa de um sedativo superpoderoso. E consequente estado de torpor que pode demorar segundos no mundo real, e um quinquênio dentro do sonho controlado.

E se nesse sonho pudéssemos criar situações onde as lembranças poderiam ser sempre recuperadas, revividas ao toque do controle remoto situacional? Como seria deixar em stand-by as pessoas que amamos ou odiamos? E depois voltar para reviver aquela sensação inúmeras vezes até que por uma razão ignóbil resolver-se-ia terminar a magia do controle eterno.

Os níveis do subconsciente já foram destrinchados por Freud, mas não com a intensidade do desvendamento e do controle no plano real das emoções mais recônditas. No entanto, no mundo de Christopher Nolan a mente é uma ambiente vulnerável para o ladrão que pode se apoderar de seus mais indescritíveis sonhos. Mas não é um sonho sonhado- ou roubado- sozinho, para completar sua tarefa de espião, Leonardo de Caprio deve entrar nos sonhos dos outros com um verdadeiro time de Extracters que perpetram o plano em conjunto. Há no filme, uma garota especializada em arquitetura de mundos. Ela construiu um labirinto para uma aventura que intencionava penetrar na mente de um rico executivo e para isso deveriam entrar em três níveis diferentes e simultâneos de seu sonho. A aventura insólita se torna mais perigosa por conta do treinamento preventidvo que o executivo havia se submetido- já ciente da possibilidade de ladrões de sonhos e informações- a treinamentos para dificultar a ação dos engenhosos meliantes. Então, entrar no sonho de certas pessoas exige preparo, dinheiro e reforço bélico.

Mas fiquei fascinado pela inventividade do diretor ao adentrar esses campos da mente de forma brilhante. Tratar dos sonhos é fácil para Hollywood, ainda mais se nesse caso dos mundos paralelos e dos mundos imaginários que se alternam com o plano real. Mas, em A Origem, percebemos a invasão da mente como uma verdadeira arma. Mas os elementos típicos dos filmes de ação: muito tiro e morte são necessários para compor a ambientação correta para os filmes de ação. Desnecessário comentar as atuações, principalmente de Caprio que atua de forma muito semelhante aos últimos filmes, principlamente Diamante de sangue, mas talvez seja impressão minha por conta das imagens que pareciam muito com as locações de Serra Leoa. É…pode ser minha impressão.

No entanto, o filme funciona e traz de volta aquela sensação de resgate dos bons roteiros e boas direções do tempo áureo dos filmes de Hollywood.

Vale a pena assistir.

 

 

 

O Encontro diário com o travesseiro

 

Sempre me preocupei com esta imagem que os outros fazem de minha figura. Tento sempre ser a pessoa correta, o amigo atencioso, o amante-bombeiro- denominação encontrada por um amigo para descrever minha capacidade de ajudar os outros, especialmente no campo interpessoal e amoroso-, o filho bondoso, enfim, um ser humano melhor. Mas quando me defronto com as pessoas- e aqui não pretendo ser pretensioso-, sempre as enxergo como se fossem parte do mesmo projeto de vida que almejo. Porém, aqui e acolá, vejo-me perdido quando as elas me encaram como inimigas. E o pior é quando se dizem inimigas mortais. Então começo a repensar o caminho de meus projetos iniciais e inicio uma avaliação dos erros cometidos. Com certa freqüência, assumo os erros como conseqüente assunção de pecados existenciais. A culpa aparece sempre acompanhada dessas reflexões, reforçando o peso dos meus falsos erros e as premissas enganosas a mim atribuídas. Parto , então para a inexorável reparação pedindo desculpas ao vento pela existência de minha natureza permissiva.

Novas experiências, que iniciavam um processo mais altivo de ver a vida, começaram a me ensinar a mudar certos posicionamentos; a refletir mais intensamente sobre a repercussão de minhas atitudes. Aprendi que não importava muito a opinião das outras pessoas em relação a minha certeza e a falta dela nas coisas que eu realizava. Mesmo que estivesse errado, resistiria o registro de minha vontade, opinião, pensamento, atitudes. O único compromisso deveria ser com minha verdade- lógico que as regiões limítrofes do certo e errado sempre seriam levadas em conta-, a mesma que fundamentaria a importância de minhas sustentações. Por essa razão, a questão da culpa não mais pesava o complexo fardo que carregava, em certa proporção, devido à culpa cristã em relação aos erros, elevados à condição de pecado.

Até pouco tempo levava comigo, aonde quer que minha cabeça repousasse, a culpa de um casamento frustrado, ainda que tivesse realizado inúmeras tentativas de conserto na constância da relação. E isso, como não poderia deixar de acontecer, afetava de forma substancial a maneira por que eu me comportava em relação ao meu travesseiro. A cabeça pesava o peso dos mundos, como se fosse uma verdadeira região repositória de todos os erros cometidos e os não-assumidos.E até pouco tempo, isso demonstrava quem eu era- e ainda por cima herdeiro da educação tradicional do não-, extremamente pessimista ao ponto de viver em eterna cobrança de meus atos, revisando, retificando sempre; e sempre avaliando meu desempenho medíocre em tarefas diversas. Isto tudo compunha minha natureza reticente de alguns anos.

Hoje em dia, tento recuperar meu espaço vital no exercício diário da Literatura. Foi toda a razão que me sobrou. Não existe mais tempo para cobranças e avaliações. Tudo é feito na urgência de um capricho mais elaborado; todas as palavras são escritas na sua tonalidade adequada. A palavra não volta mais. Ela se perpetua no eco da inconstância própria do ser humano. Não quero com isso dizer que assumo a irresponsabilidade como fundamento. Apenas me reservo o direito de não me sentir culpado por tudo. As atitudes do passado transformaram-se em aprendizado, de certa maneira, conduzindo as atitudes presentes, recheando-as com um sentimento de altivez adquirida com o mérito da vivência. Isto agora faz parte de uma concepção mais madura do entendimento de mim. E hoje posso dizer que minha cabeça pesa o peso certo da acomodação mais tranquila sobre o meu travesseiro de todos os dias; tanto que ele já não mais afunda com o peso de minha consciência. Esta descansa placidamente sobre o travesseiro.

REVISTA JUNIOR de setembro de 2010

REVISTA JUNIOR

A Revista JUNIOR de setembro publicou um texto meu escrito em abril de 2009 e que foi publicado aqui e no Blog do Kiko: http://kikoriaze.com/2009/04/23/nick_de_pegacao

INFELIZMENTE, por um problema da edição da Revista, o nome foi trocado.

De antemão, gostaria de agradecer a JUNIOR, em nome do André Fischer,  por ter escolhido meu texto.

Peço a todos que COMPREM a Revista que está a nossa cara. A cara do leitor.

Segue abaixo o texto divulgado na secção PENSATA da referida Revista:

  Qual o melhor Nick name para bate-papo?

  
Dias desses, quando a solteirice lhe chama pelo nome de solidão. Lá
estava o computador a me chamar de idiota, pois eu estava me sentindo
sozinho. Então, cedo aos clamores da internet sedenta de meus sôfregos
toques. E quando me imagino de novo em frente ao
monitor-reflexo-anteparo-de-minha-dor, debruço-me na questão quase
filosófica-existencial: `que nick vou colocar no bate-papo?`. O que
era apenas uma diversão tornou-se um dilema dialético. Fiquei a
lucubrar qual personalidade me tomava naquele momento de clamor. Seria
eu a passiva descontrolada, pela alcunha de rabão-guloso? Ou me tomava
um sentimento de pura libertação das minhas próprias amarras e então
aparecia: o versátil-passivo? Ou havia em mim a necessidade de
contemplar o novo, o insólito: ativo-mete-devagar? (…)

O RESTANTE , CONFIRAM NA REVISTA!

Quem tem medo de ficar sozinho?

Ontem à noite senti certas dores na região que comumente chamamos de pé da barriga. A dor não recrudescia e, a cada minuto, eu perdia o tempo exíguo de minhas horas de sono. Eu estava sozinho. Sozinho com minha dor. Aí, nessas horas, a gente se pergunta se vale a pena estar sozinho.

Mas o que é estar sozinho?

Seria o não-estar-sozinho apenas uma vantagem dos casais compromissados com suas vidas completamente interdependentes? Aquela vantagem de que apenas os casados se vangloriam de dividir suas despesas sem partilhar – não a maioria – as carícias necessárias? Às vezes, encontro esses tipos nos restaurantes, sentam-se um do lado do outro, passam um período juntos, mas sequer trocam olhares mais afetuosos. Cumprem sua tarefa de fazer companhia para ratificar o pleno exercício da atribuição de estar casado, junto, enrolado, amancebado. No entanto, vivem numa harmonia forçada e sempre pensando que a grama do vizinho é mais verde.

Certa vez vi um casal discutindo sobre como eles deveriam trabalhar o carinho que um achava que faltava do outro. Pedia-se atenção, mais tempo juntos, mais presentes, mais sexo. Cobranças, cobranças. Parecia uma verdadeira prestação de contas. E eles a faziam em pleno supermercado, em meio a pessoas e sua prole descontrolada.

Confesso que diante de minhas dores, não fiquei a lucubrar todas essas memórias naquele momento. Mas, certamente, se tivesse um companheiro, ele estaria presente para aplacar a sensação daquela dor; pelo menos, era pareceria menos dolorosa. Será?

Mas o que seria de meu aprimoramento como ser humano, se não soubesse lidar e superar esses problemas domésticos sem contar comigo mesmo? Fico pensando nessa possibilidade como verdadeiro amadurecimento tal qual os samurais se submetem, enfrentando a dor, a ausência, a solidão.

Mas seria temerário dizer que a união de um casal seja sob qual escudo, pretexto ou credo, fosse apenas para aplacar essas dores físicas que nos acometem vez em quando. Talvez subsista algo além de minha compreensão do que realmente une os opostos; nem com isso quero dizer que seja atributo único dos casais normais e falte ou sobeje nos relacionamentos não convencionais. Mas deveria ser algo mais complexo esse encontro alardeado das almas complementares. Também sei que a felicidade não é outro atributo exclusivo. Ela está em toda a parte.

Mas a dor aumentava a ponto de me alertar sobre todos os inconvenientes que passara esses últimos dias; como se fossem aqueles, seres inanimados, verdadeiros personagens reais. A dor parecia como um grande alarme nuclear, num permanente countdown para o anúncio de uma versão nova da história já conhecida. Mas, às vezes, tudo isso tem a ver com o novo: ou por que você desiste de dividir suas coisas, ou por que você tem medo de fazer parte de um conjunto bem mais complexo.

De qualquer forma, eu não quero essa muleta para mim apenas para dizer que tenho um complemento. Em que pese minha dor não recrudescer, pior seria ter que administrar um dor no pé da barriga e outra na boca do coração.

Camille Paglia versus Lady Gaga

Camille Paglia

Lady Gaga

Hoje em dia num mundo mais do que rendido ao pop, a transformação de Lady Gaga numa diva, num ícone da música pop é por demais um exagero de uma geração sem muito referencial.    

 Não vou dizer que não gosto dela, mas reputo tanto  “ado for nothing.” Ela tem sua importância para a ressureição do pop, vez que as verdadeiras diva envelheceram, mas não perderam a coroa. De qualquer forma, Lady Gaga segurou o bastão da corrida. Cher está velha, Madonna está virando uma entidade mística; Aguilera foi abafada pela onda de repetir os moldes de Gaga; Kylie é Kylie- não se pode comparar. Mas voltando a Dama Gaga, tanto é sua falta de Avant Gard que uma de suas últimas inspirações- pois há cultura pop também na moda- para confirmação de seu estilo, foi o surrealismo- dântico-esdrúxulo adotado em seu vestido para premiação do VMA. Pura falta de bom senso – todos concordaram. Tudo por conta de um editorial de moda para um fotógrafo japonês que repercutiu bem; então abusando de seu respaldo junto a comunidade na assunção de seu valor como formadora de opinião, ela repete o famigerado vestido de carne.  Foram apenas alguns minutos sob a pele de cordeiro, ou de vaca, ou de veado, ou de cabrito, ou de qualquer outro animal, para ela revelar sua falta de senso para com o público que queria ver mais uma de suas bizarrices.    

  

Carne de primeira ou de segunda?

Aparte isso, li recentemente um artigo de Camille Paglia na The Sunday Times Magazine, fazendo verdadeira apologia às avessas, pedindo para demolir Lady Gaga; e ainda a definindo como “um ser assexual, uma cópia misturada que seduziu a geração da internet.” Desnecessário, dizer ou falar sobre o currículo desta antifeminista, autora do consagrado Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson. Ela ainda deu um apelido a Gaga: “A diva do dejà vu.” E eu assino embaixo. E sei das represálias de muitas pessoas, mas é o que penso. Dias desses, assisti ao show do The Queen e vi algumas das extravagâncias de Fred Mercury sendo repetidas por Lady Gaga: as roupas, o jogo de cena, o piano. Eu já falei aqui de repaginação da arte, de apropriação, de paródia. E para mim, apesar de seu talento latente para música e canto, acho a tentativa de Gaga apenas uma reinvenção do já feito. A nova geração da internet, que Paglia se referia, está desprovida dos referencias; pensam que o novo é autêntico. É apenas um déjà vu.

Os Evangélicos são homofóbicos de fato?

 

Dia desses- adoro essa definição de tempo-, li um blog falando da existência de evangélicos bonzinhos, sem aqueles apelos registrados de fundamento secular. Eles se travestem sob o epíteto de Ala progressista; ou somos nós que os vemos assim?

Assuntos diversos colocam estes seguidores- os quais muitos deles se autoproclamam únicos detentores de um espaço no céu- num questionamento infindável do historicismo bíblico como verdadeira premissa de fundamento. Todos são enfáticos em defender de forma cega as convicções contadas no grande livro de histórias que é a Bíblia.

E sobre o assunto mais contraditado pelos evangélicos, além do aborto, da transfusão de sangue; o homossexualismo é ponto nevrálgico para a estabilidade da doutrina evangélica. Mas, dia desses, em conversa com um amigo evangélico que lê e estuda, na sua forma, a Bíblia, deu uma verdadeira aula sobre interpretação de texto bíblico. Quando solicitados para falar sobre homossexualidade, eles logo se referem a Levítico, para alegar o axioma da abominação. Mas se esquecem das histórias de Jônatas e Davi (1 e 2 Samuel) que são camufladas, ou até mesmo, escondidas nas transliterações amplamente deturpadas. Amor é mudado para amizade; a perseguição do Pai de Davi é desconsiderada. Enfim, a palavra é utilizada para benefício próprio. Não se lembram de que – agora me falha quem é o profeta- existem admoestações a mulher como impura; que ela deve se calar:

“Quando um homem e uma mulher se unirem com emissão de sêmen, se banharão e ficarão impuros até a tarde. Se uma mulher menstruar, ficará impura até sete dias após o término do fluxo, sendo que tudo o que ela tocar ficará impuro até a tarde. Se alguém tentar tocá-la ou tocar em um móvel deixado impuro por ela, ficará impuro até a tarde. Quem se juntar a ela durante este período ficará impuro por sete dias.
- Levítico 15:18-33.”

E me pergunto, e meu amigo responde prontamente, por que essas palavras são menosprezadas pelos eloqüentes pastores. Por que tantas admoestações a homens e mulheres e nenhuma referência ao amor – amor de alma: Eros, fileo e ágape- de Jônatas e Davi, que virou rei?

E quando volto minha atenção à política- a qual detesto, por razões intestinas-, pergunto –me por que essas vinculações seculares aos problemas humanos modernos. Por que se fala de bancada evangélica na Câmara, se todos deveriam trabalhar pelo conjunto da população? Por que essas disenções?

Aí, a política hodierna, herança de uma democracia desengonçada ratificada na política de favores que remontam a monocracia portuguesa. Então, sinto-me obrigado a votar na ideia transfigurada de que o voto obrigatório é exercício de cidadania. E então devo votar. E penso como deve ser esse voto. Devo votar em candidatos que me beneficiem por conta de pertencer a uma minoria desprezada? Ou devo vislumbrar o benefício maior de uma candidatura abrangente? O voto é uma arma. Mas ainda não pude vislumbrar o calibre e o potencial explosivo.

No entanto, superada essa fase do direcionamento, restando apenas a convicção de prestar um serviço para uma comunidade menor que minha causa e maior que minhas vontades. Então devo para aquele que contemple um discurso mais amplo, mais inclusivo. E minha única alternativa era Marina, mas ela é evangélica e por essa razão suspendi minhas expectativas. A bancada evangélica tomaria corpo e talvez se criasse uma barreira política para os pleitos das minorias LGBT. No entanto, era por pura falta de verdadeiro conhecimento da candidatura dela; de ler, de acompanhar suas entrevistas que me distanciei. E confesso que o discurso Meio-ambiente-orientado, deixava fraco o argumento de Marina. Porém, li recentemente que um pastor evangélico, psicólogo, Silas Malafaia, declinou de ajudar na campanha de Marina porque, segundo ele,  ela deturpou alguns institutos seculares dos evangélios. A reportagem falava de uma ala progressista da qual Marina parecia pertencer. E o fato deste pastor declarar sua saída da campanha dela, fez com que eu clareasse a certeza em quem votar. Não vou na onda da Dilma, apesar de me sentir um melhor brasileiro hoje; mas eu quero votar por convicções próprias.

Literatura e amadurecimento

             Um monte de ideias vêm a cabeça nesse processo que é intenso na busca do conhecimento. Há muita informação detalhada que às vezes se perde, e que às vezes me arrodeia. Mas não está sendo assim. Uma postura mais madura está exigindo mudanças substanciais em relação às minhas leituras. Antes nada havia para ser interpretado. Tudo era sentido com a disciplina do medo. A figura de Cristo esquálida no teto, na nave da igreja me ensinava tudo que precisava entender naquela tenra idade. Desde as questões mais simples até as inalcançáveis.  O “não” assumira um tom disciplinador de minhas condutas. Eu não pude entender a indulgência cristã por nenhum viés, senão da conduta resignada de minha mãe que se confundia com aquelas imagens sobre as paredes da mãe de olhar reflexivo e cheio de angústia silenciosa que estampava de Nossa Senhora.

            As leituras também se apresentam mais responsáveis. Não posso mais admiti-las com simples passar de páginas. Elas se impregnam de todo um valor moral,  de retórica, que agora parecem indissociáveis. Anda junto no pensamento a velocidade das estruturas mais complexas de todo o processo cognitivo subjacente. Então a leitura fica mais complicada ao tempo em que as ilações e referencias devem ser feitas automaticamente. Ao mesmo tempo me penitencio por não ter lido, ainda, Hamlet de Shakespeare, ou Sócrates de Platão; e assim como na cabeça de Harold Bloom, um aforismo do rabino Tarphon ecoa dentro da minha: “Não sois obrigado a concluir a obra, mas tampouco estais livre para desistir dela.” Então, o mestrado bate a porta fazendo o mesmo clamor, no entanto, assumo a postura de derrota antecipada. Os livros se cumulam na prateleira aos montes, numa hierarquia de importância e cobrança nunca antes atribuída. E agora lembro de meu irmão, na mais tenra idade; quer dizer, entrando na adolescência, sentado lendo a coleção dos Grandes Pensadores. Penso que ele é que deveria estar pleiteando um passo adiante ao aprimoramento.

            Nessa falta das coisas mais necessárias, ou básicas, relembro agora de culpa. A mesma que me deixava recluso com minhas ideias mais tolas; aquela que aprisionava minha verborragia; talvez a resposta para a filosofia do “não”; ou a alternativa para entender desde aquela época que não me convinha entender tudo. Talvez eu procure um entendimento mais repleto agora que me falta aquela maturidade precoce de meu irmão.

            Espero que ainda haja tempo para as leituras e a compreensão do mundo mais complexo que reside na Literatura da vida.

Inconstâncias

Quero que me respeitem quando silencio diante da dor. Esse suspiro de agora que me sai como um filho abortivo é conseqüência velada de minha insurgência.  Quero mesmo é gritar a dor. Mas não sei como dizer esse momento de insensibilidade. Pode ser apenas passageiro como a lembrança do mar de ontem. Às vezes pode perdurar como a saudade constante de filho saudoso. Eu não sei.

Não quero o tom do lamento; a cada dia já basta seu mal. Mas não encontro a felicidade nas coisas que todos se confortam. Eu prefiro a sorte que está nas estrelas. Sim. Eles encontraram outro referencial de vida em novo planeta. Assim posso encontrar uma nova filosofia sob novas luas. Posso adorar um outro sol. Quero fugir daqui.

Tem a ver como lido com a mortalidade; como lido com meu fígado e meu tempo ocioso.

E nessa virada do tempo quando as coisas se assentam, ainda encontro o poder mortal da palavra, que deveria, ao contrário, virar vida, árvore troncuda.

Ignoro as palavras soltas, atiradas contra mim. Fico inerte diante das perspectivas do errado. Imploro um perdão. Desperto a inveja. Mas consigo caminhar sozinho, apesar de tudo.

Sim, estão reprisando tudo e estou vivendo do passado. Perco o olhar na visão perdida do ex-amante. O olhar perturba a alma. E constato que não é ele; é apenas meu desejo íntimo revelado. Viro as costas pra tudo na comparação extensiva de que tudo não está certo.

Encontro o sossego finalmente nas palavras ludibriosas e certeiras do verdade do vinho. Ele entra, ela sai. A filosofia perde o sentido na sua prescindibiliade da poesia. E não rimo nada com nada. Pode ser apenas a razão então.

O que quero mesmo- na verdade- com clareza? Eu não sei.

Nunca antes eu encontrara uma significância para minhas leituras. Sim, elas vivem dentro e fora do aqui. Elas vêm como bálsamo; um colírio, quem sabe, um afago. Nunca  me bloqueiam. Deixam-me as vezes atordoado. Mas logo vem uma lembrança de praia deserta. A água salgada adoça o pensamento solitário.

 

A mordaça gay

A mordaça gay

Imagino como seria bom ver abafado o sorriso dos colegas de trabalho pelo fato de me sentir sempre o objeto de suas piadinhas corriqueiras. Todo santo- ou diabólico- dia, o tema das piadas oscilam entre “ viadinho”  faceiro e o pervertido. Elas não são diretamente direcionadas a minha figura. No entanto, atingem a imagem que eles começam a ratificar todo o dia a respeito de minha sexualidade. Será que teremos esse poder?

Críticos, cristãos fervorosos, a bancada evangélica no Congresso entre outros segmentos da sociedade começam a achar que teremos esse poder nas mãos se o PLC 122. Então começo a imaginar a dimensão pequena que minha rotina pode atingir, elevando o grau das piadas disfarçadas de humor velado de hipocrisia e preconceito, e como meu problema pode não ser isolado, nem menos ofensivo. A todo dia, milhares de pessoas sofrem o preconceito disfarçado por muitas manifestações. Comigo ela se disfarça com a máscara jocosa da piada; para outros podem ser uma palavra ofensiva, mãos pesadas e violentas, ou uma arma de fogo covarde. A égide do PLC 122 parece um grande colete a prova do cartucho infindável dos preconceituosos.

A Lei está causando muita polêmica por conta de punir severemente atitudes tidas como preconceituosas. Segundo o projeto:

 “Art. 5º Impedir. recusar ou proibir o ingresso ou permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público; Pena — reclusão de um a três anos”

“Art. 6º Recusar, negar. impedir, preterir, prejudicar retardar ou excluir em qualquer sistema de seleção educacional, recrutamento ou promoção funcional ou profissional. Pena — reclusão de três a cinco anos”

Alguns segmentos, principalmente os evangélicos, protestam sob o fundamento de que a lei permitirá a prática em público de sexo; de exercer com plenitude seu credo, entre outros absurdos. Isto revela o quanto eles são mestres em interpretar as leis, especialmente das historinhas da Bíblia, ressaltando e elevando sua falta de entendimento, criando nos seus asseclas a ideia deturpada que foi veiculada erroneamente. Assim fizeram com o casamento gay e assim estão propalando a ideia que seremos os algozes da liberdade de expressão. Mas eles não entendem é que as vítimas é que são silenciadas. Às vezes a vida insipiente é ceifada com um taco de baseball, uma granada em meio a multidão da parada gay, a segregação, a ignorância. Muitos são as seqüelas carreadas pela onda preconceituosa. Os danos são irretratáveis e variados.

Ainda não alcanço os efeitos benéficos da lei; senão pelo fato de retirar do conteúdo das piadas a magia do disfarce. Quanto ao meu mundo, vou deixar de ser o mote para os amigos incautos. Mas pensando na abrangência que a lei pode tomar, ela pode proporcionar uma convivência automatizada do respeito. E aí reside meu medo, pois concordaria em conversar a respeito, expondo minha indignação, assim como fizera no meu ambiente de trabalho. Mas por outro lado, o gay da rua que sai de casa e é insultado gratuitamente, geralmente responde com a própria vida. Ele não tem argumento. Sente-se inferiorizado; rejeitado; acuado e se sobrevive a essa ameaça, vai levar para o resto da vida a mácula na sua honra aviltada. E somente quem conhece a dor da mácula na alma sabe o quanto essa lei é importante.

Por enquanto eu resolvo meu problema com a conversa diplomática e amistosa essas dissensões entre meus colegas de trabalho. Mas até quando eles continuarão a fazer piadas? Dizem que os brasileiros são educados sob a máxima de cobrar e punir (por meio de penalizações, ou multas) condutas razoáveis para se viver em sociedade. É assim com a limpeza pública; o álcool e direção; a calúnia e por que não com o preconceito aos gays?

E a igreja? A igreja que mude sua pregação diária, podendo bem incluir em suas ladainhas a passagem bíblica que conta a história de Davi e Jônatas e falar sobre tolerância; amor gay e respeito. Chega desse discurso eivado de vitimismo e falsa violação de direito.

Vinte anos de BEING BORING ( twenty years of Pet Shop Boys’ Being Boring)

Vinte anos de Being Boring e, no entanto, parece que foi ontem que escrevi o Tribute book for Pet Shop Boys. Parecia brincadeira de colegial escrever em forma de diário minhas interações com a música dos PSB.

 Twenty years since Being Boring and, however, it seem it was yesterday that I wrote the Tribute Book book For Pet Shop Boys. It all seemed a scholarly game the diary register of my interactions to the PSB’s songs.

Tudo começou com VERY. Ele foi lançado em 1993. Eu tinha dezessete anos. A partir deste album comecei a entender melhor as profundas letras de Neil Tennant. Em certa altura, já com o domínio da língua inglesa mais apurado, assumia que as histórias ali contidas tinham a ver comigo de forma clara. Então passei a fazer registros reais das mensagens das letras da música e a repercussão delas em meu cotidiano.

 All begun in VERY. It was release in 1993. I was seventeen. From this point on, I started to understand much better the profound Neil Tennant’s lyrics. To a certain point, with the accomplishment at the English language, I took for granted that the histories within the lyrics had to do with me clearly. So, I started to write down real registers of the messages in the lyrics and the relation to my routine.

Being boring representava uma visão nostálgica. Parecia um verdadeiro epitáfio para alguma pessoa querida. Para mim, sem uma compreensão mais complexa, being boring representava a apologia ao carp diem; a procura de uma inspiração maior; a vivência da juventude. Corpos nus, jovens desfrutando das coisas simples da vida. Sem falar do polêmico garotão nu e seu cachorro num cometimento lúdico que só a juventude pode explicar. Memorável.

 Being boring represented to me a nostalgic memória. It seemed a trully epitaph directed to a special dear person. To me, without any bigger comprehension, being boring represented the apology to the carp diem; the searching for a greater inspiration; the youth experience. Naked bodies; young people enjoying the simplicities of life. Needlesss to say about the young gorgeous guy and his dog playing like just youth experience could explain. Memorable.

Mas a música tinha outros propósitos e tinha a ver com morte, saudades. Depois descobri que Neil Tennant escrevera a música por conta da perda de uma amigo devido as complicações da epidemia do HIV: “All the people I was kissing, some are here and some are missing!” A devastação que o virus promovia entre os amigos. Lamento feito ainda antes, lá em It couldn’t happen here. Era assustador aquela época pensar que isso poderia acontecer.

But the lyrics had other purposes and had to do with death, homesickness. Later I figured out that Neil wrote the music due to the loss of a great friend, because the complications of the epidemic HIV.: : “All the people I was kissing, some are here and some are missing!” The devastation that the virus caused amidst his friends. This kind of grieving was done before in the song: It couldn’t happen here. It was scaring at that time to think about that it could happen.

Mas pra mim ficava a versão alegre da juventude e tudo aquilo que se vê na introdução tendo como pano de fundo o corpo delicioso daquele homem e seu cachorro feliz:

I CAME FROM NEW CASTLE IN THE NORTH OF ENGLAND. WE USED TO HAVE LOTS OF PARTIES WHERE EVERYONE GOT DRESSED UP. AND ON A PARTY INVITATION WAS THE QUOTE: “ SHE WAS NEVER BORED BECAUSE SHE WAS NEVER BORING. THE SONG IS ABOUT GROWING UP___ THE DEALS THAT YOU HAVE WHEN YOU’RE YOUNG AND HOW THEY TURN OUT.

Vidas passadas, vidas futuras

Acho que vou me isolar um pouco da agitação de mim mesmo. Já tentei esquecer-me como humano e fui buscar lá dentro a parte animal mais racional de mim. Escolhi a de um passarinho preso. Eu não podia ansiar voos maiores porque a gaiola não permitiria. E não poderia reclamar da comida grega que nunca comera porque só me restaria o alpiste regrado.

O que poderia me exigir se de minhas asas eu não sentiria o peso de meu corpo flutuar sobre o ar? A expectativa frustrada é coisa humana. Eu poderia me resignar nessa libertação. Não haveria por que me sentir triste além de minha condição de bichinho de estimação. Então ficaria de um lado pro outro como se felicidade fosse apenas a dialética da alteridade dos cantos. Cantaria o refrão da música: “Never had a point of view because my mind was always someone else’s mind.” O dia passa e nem preciso lutar pela meu panis et circenses. Os homens se divertem com minhas penas coloridas, meu cantar único e meu desespero para encontrar a saída. E se não posso mais voltar a natureza. Minha alegria é a alegria deles.

Então resolveria por definitivo essa luta pelo sucesso; essa necessidade de mostrar que sou melhor, que posso dar conta; que posso ser imortal.Tudo porque agora me invade essa solidão de passarinho ventríloquo. Não pareço um projeto definido nas bases capitalistas, do estatus de um clã convencional. Já não tenho mais forças para o pertencer; sinto-me alheio a esta convenção.

Mas sentei a beira do lago e vi pássaro livre. Ouvi o cantar dele como se estivesse sorrindo para o meu dia choroso. Fiquei observando como ele usava sua felicidade. A condição da existência era a própria incerteza de sua felicidade. Vivia de galho em galho. A alegria dele era minha alegria. Tinha a disposição uma dieta de alimentação rica em todas as proteínas. Enquanto sua fortaleza era a incerteza de sua missão. Mas de vez em quando polinizava as flores do jardim vizinho. Voava e logo saía de meu campo de visão.

E como aqueles dois seres se cabiam em mim; na proporção da liberdade e do aprisionamento. Mas nunca vou saber de qual deles eu suportaria viver uma vida integralmente assim.

Privações ( um paralelo à tragédia dos mineiros no Chile)

Dia desses, fazendo a limpeza da geladeira, que há dias estava suja, acionei o descongelamento. Sim, a geladeira é simples e não tem a alternativa do descongelamento automático. E quem faz esse tipo de serviço depara-se com a questão do tempo, pois o gelo demora a se descolar das paredes do pequeno freezer. Pois bem, para acelerar esse processo dispus de uma faca para descolar o gelo manualmente. Ou seja, furei a parede delgada do pequeno congelador e o gás- que pensava ser tóxico- esvaiu-se numa velocidade tão assustadora quanto reveladora.

A sensação de culpa e impotência é tamanha que me detive a escutar o barulho do escapamento até seu total silêncio. Em resumo, passei uma tenebrosa semana sem as benesses da água gelada.

Mas a experiência tinha sido ainda mais reveladora do que a descoberta de que o gás não era tóxico. A ausência da água gelada, da conservação da comida do dia anterior, da dúvida filosófica do abrir a porta e demorar-se na escolha, na dúvida do que se quer fazer; tudo isso me faltava. Mas não tê-los abria uma perspectiva até então esquecida, ou desprezada com a evolução da vida moderna. Somos orientados a ser altamente dependentes da automação e de um mundo cada vez disponível na eficiência do botão. E eu pensava que não sobreviveria uma semana sem a geladeira.

No primeiro dia tive que dar todos os alimentos perecíveis que também necessitavam da do frio providencial da geladeira e doei a um amigo para que pudesse consumi-los. A margarina se foi, o peito de frango congelado, a carne moída, o chocolate gelado, o tahine aberto, enfim, todos mudaram de casa. A sensação de vazio era ainda maior. Dias depois, o amigo convida para jantar em sua casa. No cardápio: frango ao molho branco.

(…)

Acompanhava pela televisão a tragédia dos mineiros soterrados a mais de 700 metros abaixo da terra. E num paralelismo inevitável comecei a pensar nas privações que eles começariam a vivenciar, como ficariam desprovidos dos valores adquiridos com a modernidade, as vantagens da energia elétrica, e por força dessa comparação, a água gelada.

Meu sofrimento não poderia ser comparado. A privação dos valores morais que se desmanchavam a cada dia para aqueles mineiros, de longe, relacionava-se com minha perda de uma atribuição do mundo moderno. Lá embaixo, a luta seria pela vida nos parâmetros quase subumanos e que remontariam ao mito da caverna. Não se podia equiparar as perdas. Eu ainda tinha meu senso de existência humana, a expectativa de vida similar a qualquer ser humano, mas com um grande desfalque devido ao friozinho da geladeira. E eles? Eles estavam sob os olhares do mundo. A tecnologia trouxe a um lugar comum aquela ânsia pela vida. A humanidade se apiedou e começou a acompanhar diariamente o sofrimento das famílias e parentes. A comoção era mundial.

As realidades de privação se interagiam em seus pontos de convergência. Minha vontade de voltar a ter a comodidade de antes; os mineiros num resgate de sua vida sobre a terra e o retorno a vida mais simples. As visões se confundiam na sua adversidade. O tempo passava e acompanhava a esperança de vê-los resgatados. A ideia era cavar um túnel paralelo e retirá-los um por um numa espécie de cápsula. O plano era devolver-lhes a vida em sociedade. Enquanto isso, programei a visita de um técnico para o conserto da geladeira. Estava prestes a recuperar a vida anterior e novamente me inserir nos parâmetros da vida normal.

Os mineiros contavam com a ajuda dos outros seres humanos que ansiavam por vê-los ao retorno do convívio social. O técnico era um senhor expansivo. Riu-se ao saber que eu fazia a limpeza da geladeira com uma faca e não uma espátula. A cápsula foi construída. O plano não poderia ter falhas. Todos estávamos envolvidos com o conserto das coisas, o retorna a vida normal, a singularidade de nossas vidas humanas.

O gás foi recolocado, o barulho da geladeira começava a resultar no frio do congelador. A cápsula trazia, das profundezas da mina, o primeiro mineiro sobrevivente. Eu recuperara aquele valor da sociedade moderna, recuperara o frio da geladeira. Lá debaixo, o primeiro ser humano resgatava seus valores humanos de outrora; o abraço do filho revigorou e trouxe a esperança de toda a plateia.

O que seria de nós se não houvesse o outro, a referência preservada? O que seria de mim se não houvesse o amigo e o convite para o jantar? O que seria dos mineiros se não houvesse outros humanos aqui em cima para resgatá-los e trazer, à tona, o senso de humanidade?

Sei que posso viver sem a geladeira de minha casa e que posso contar com a geladeira do vizinho, do amigo.

 

INOCÊNCIA?

Inocência?

 Quando dei meu primeiro beijo- não foi roubado, nem de graça- fechei os olhos e não sabia como fazê-lo francês; os braços pendiam como bambus jovens e as mãos, como girassois pesados. Senti como se tivesse cometido um pequeno crime.

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O Nosso Lar

O NOSSO LAR

            Uma coisa que me fez pensar a ficção em o NOSSO LAR com plausibilidade era a existência do sofrimento mesmo entre as almas evoluídas do grande olimpo- ou como denomina o lugar, NOSSO LAR. A tristeza se manifestava no desejo de um dos protagonistas em sofrer por antecipação pela partida da mãe que reencarnaria outra vez. Há anos eles não se reencontravam, e justamente agora que estavam juntos no plano etéreo, sua mãe deveria partir para uma missão. E parece contraditório existir dor num local onde a alma se eleva ao grau máximo de evolução. Essa dor humana da separação me fez pensar que a vida além-morte é mais que possível. Porque se eu tivesse que ser feliz o resto da vida não sentiria o impulso para a mudança. A vida eterna- ou a vertente da reencarnação – não é premissa de eterna felicidade. Está comprovado, pelo menos no plano real, de que a depressão, a dor, a tristeza fazem parte do amadurecimento.

            A falta de conformação por parte do personagem comprova que perturbações mundanas podem fazer parte da própria evolução contida nas entrelinhas da doutrina espírita. O fato da transposição para o plano etéreo não é condição de felicidade absoluta. Isso dá respaldo a doutrina espírita que apregoa o constante aprendizado da alma. Mesmo que se faça por merecer, a passagem ao mundo paralelo não é premissa de uma salvação eterna. E esta não conformação com os desígnios dos Ministros dá uma cor de autenticidade; de real possibilidade que se coaduna com o senso de justiça e merecimento que ainda deve existir na constância da evolução da alma.

            NOSSO LAR é cheio de ficção científica própria dos espíritos imaginativos que de alguma forma, penso às vezes, são os únicos detentores dessa capacidade. No entanto, mesmo que não aceite esta verdade, o mundo paralelo é feito para que sejamos felizes, para que elevemos a condição humana ao patamar mais evoluído.

            Não vou falar do filme que, em certos pontos falham, mas gostaria de ressaltar essa observação que fiz nessa análise superficial de meu conhecimento acerca do assunto.

COMER, REZAR e AMAR

          

Mais uma vez a questão da identificação. E aí fico a pensar se existe uma compensação ou demérito. No entanto, eu gostei COMER, REZAR e AMAR. Se não fosse Julia Roberts no papel principal, ou seja, uma mulher, eu me encontraria mais facilmente na conjuntura de seus mesmos problemas existenciais.

Por várias vezes me vi na reconstrução das histórias vividas pela escritora Liz Gilbert, ou Liss para o guru espiritual Ketut. E a imersão nessa viagem interna que ela desejava promover se coaduna com meu status atual. Uma verdadeira crise existencial de monta igualável aos dramas sofridos pela alma da escritora. E tinha de se uma escritora, que não vê com pouca dor o lamento próprio; penetra na vastidão de questões existências e revela a necessidade de uma cura.

            COMER, REZAR e AMAR é um filme de autoajuda, mas também um filme que apela para o ideário do divino. E não poderia ser diferente já que o tripé da filosofia da autora. Mas como em outros livros, tais como a CABANA, CONVERSAS COM DEUS, essa menção da religião, do valor identitário e redentor do divino, é mola mestra para o sucesso da película e do livro comentado.

           Além das imagens que remontam aspectos importantes da tríade filosófica, o livro- ou o filme- possuem mensagens já batidas e reconhecidas pelos leitores da Literatura de Paulo Coelho e afins. Mas é sempre bom, especialmente quando se trata de identificação, ouvir algumas palavras de recomforto- mesmo que momentâneo- para dar um certo sentido a vida atribulada que levamos. É sempre bom parar o ritmo da vida e dar uma versão nova aos acontecimentos que não temos controle imediato. Então damos voz e força para uma experiência de vida que não nossa para experimentar a catarse realizada em nós mesmos.

            Fiquei tocado pelas mensagens que o filme revelou em minha vida. Mas é pra isso que servem os livros e os filmes de autoajuda; servem para delinear os contornos de nossas vidas com um traço mais grosso, reavivando as regiões limítrofes pelas quais começamos ultrapassar.  Assim, COMER, REZAR, AMAR, VIAJAR e TER uma boa conta bancária é um ótimo filme. Pelo menos eu consegui parar um pouco para pensar nos meus valores e repensar o ritmo de vida que estou empreendendo par minha vida. E para finalizar esse comentário, utilizo um jargão, ou clichê, para resumir o filme: “ Não precisamos empreender viagens epifânicas para encontrar nossas respostas. O nosso Deus está dentro de nós mesmos.”

AMOR MORTAL

Ele falou o que sentia. O medo real era do interstício; da demora; da ausência. Já cansara de visualizar o reflexo do espelho. A culpa? Bem, a culpa estava sempre no outro. Sua consciência não parava de admoestá-lo, mas ele aprendera a controlar seu alter ego. De que adiantava dar razão à consciência perturbadora? O certo seria continuar sofrendo. Até agora foi fácil readaptar-se ao eco do pensamento solitário. O corredor que levava a cozinha parecia grande; extenso demais para sua persistência. Mas tinha que atravessar; ouvir os passos e continuar acreditando que podia chegar ao outro lado. Mas sempre se debatia com seu cansaço; seu descrédito no homem. Ninguém se interessa pelo que já está anunciado morto. Mesmo que o beijo, o corpo, o sexo os animem, o que importa é o longo; o longevo; o duradouro; o eternamente jovem. Mas o que, de fato, anima o gozo do homem? É o impulso para frente, numa batalha de esforços comuns? Ou é o soprar do vento egoísta ao conduzir a viagem de cabotagem? Poucos ele conhecera que abandonaram o barco para que ele seguisse uma viagem segura. Entenderam sua justificativa e deixaram-se náufragos. E quando encontrou o porto seguro, a estadia é apenas pela aventura, pela história envolvida. Nunca é para habitar a ilha. Ele falou o que sentia. Mas o homem continuava no desejo incontido do perfeito, saudável, duradouro. Não faz parte do jogo a revelação íntima primeira. Abre-se a casca e a derme é comida ainda que o suor exsude. Mas o prazer anônimo; aquele que reconhece a legitimidade no obscuro; no não dito, ratifica-se o comum. Ele não quer mais o desterro, tampouco o casamento infeliz. Ele quer o outro não como complemento, mas como próprio. Ele quer o outro seu; outro corpo; outra permissão. E não queria mais falar sobre o que sentia. Não lhe interessava a sinceridade, nem dos olhos, nem da fala. Calou-se por muito tempo a espera de sua alvíssara cura. Guardou-se. Criou uma planta inteira até seu fruto. Esperou as estações vindouras. Anos após ano resguardou sua saliva e seu suor; seu sal e seu doce; seu mal e seu bem; sua dor e seu silêncio. Ele eclodiu como borboleta que rasgou o casulo. Não quis saber das cores das asas. Sabia-se colorido. Defrontou-se com o corredor desafiador. Calçou os chinelos, andando livremente por entre os cômodos. A voz soava livre, límpida, como uma antes nunca sentira. Esperou a risada final, detendo no reflexo de espelho. Ele sabia que restabeleceria sua altivez e sua felicidade. Regojizou-se com o sorriso espalhado. Sentiu-se curado. lou o que sentia. O medo real era do interstício; da demora; da ausência. Já cansara de visualizar o reflexo do espelho. A culpa? Bem, a culpa estava sempre no outro. Sua consciência não parava de admoestá-lo, mas ele aprendera a controlar seu alter ego. De que adiantava dar razão à consciência perturbadora? O certo seria continuar sofrendo. Até agora foi fácil readaptar-se ao eco do pensamento solitário. O corredor que levava a cozinha parecia grande; extenso demais para sua persistência. Mas tinha que atravessar; ouvir os passos e continuar acreditando que podia chegar ao outro lado. Mas sempre se debatia com seu cansaço; seu descrédito no homem. Ninguém se interessa pelo que já está anunciado morto. Mesmo que o beijo, o corpo, o sexo os animem, o que importa é o longo; o longevo; o duradouro; o eternamente jovem. Mas o que, de fato, anima o gozo do homem? É o impulso para frente, numa batalha de esforços comuns? Ou é o soprar do vento egoísta ao conduzir a viagem de cabotagem? Poucos ele conhecera que abandonaram o barco para que ele seguisse uma viagem segura. Entenderam sua justificativa e deixaram-se náufragos. E quando encontrou o porto seguro, a estadia é apenas pela aventura, pela história envolvida. Nunca é para habitar a ilha. Ele falou o que sentia. Mas o homem continuava no desejo incontido do perfeito, saudável, duradouro. Não faz parte do jogo a revelação íntima primeira. Abre-se a casca e a derme é comida ainda que o suor exsude. Mas o prazer anônimo; aquele que reconhece a legitimidade no obscuro; no não dito, ratifica-se o comum. Ele não quer mais o desterro, tampouco o casamento infeliz. Ele quer o outro não como complemento, mas como próprio. Ele quer o outro seu; outro corpo; outra permissão. E não queria mais falar sobre o que sentia. Não lhe interessava a sinceridade, nem dos olhos, nem da fala. Calou-se por muito tempo a espera de sua alvíssara cura. Guardou-se. Criou uma planta inteira até seu fruto. Esperou as estações vindouras. Anos após ano resguardou sua saliva e seu suor; seu sal e seu doce; seu mal e seu bem; sua dor e seu silêncio. Ele eclodiu como borboleta que rasgou o casulo. Não quis saber das cores das asas. Sabia-se colorido. Defrontou-se com o corredor desafiador. Calçou os chinelos, andando livremente por entre os cômodos. A voz soava livre, límpida, como uma antes nunca sentira. Esperou a risada final, detendo no reflexo de espelho. Ele sabia que restabeleceria sua altivez e sua felicidade. Regojizou-se com o sorriso espalhado. Sentiu-se curado.

Por Roberto Muniz Dias Postado em Sem categoria Tagged

Gays e Forças Armadas (Don’t ask, don’t tell)

 A primeira ponderação que faço é: Por que gays insistem em reafirmar a cidadania por meio do alistamento no exército? Por que ainda se propala a vinculação de cidadania e guerra? Partindo desse ponto eu afirmo categoricamente que sou contrário a esse pleito dos homossexuais americanos.

Na terça-feira, dia 19/10/10,  a juíza federal Virginia Phillips determinou que a “Don’t Ask, Don’t Tell” fosse suspensa. No entanto, o Departamento de Justiça apresentou recurso. Ontem, dia 20, uma corte de apelação decidiu manter a proibição de gays nas Forças Armadas, enquanto o processo tramitar na justiça.

O presidente Obama disse ser favorável a aceitação de gays assumidos no serviço militar- inclusive isso foi promessa da campanha em 2008. Porém, o governo alega que isso seja paulatino, enquanto refuta-se o pedido por conta de um “treinamento” para a inclusão dos novos recrutas. Treinamento?

Talvez o que cause a revolta entre os homossexuais é que talvez o serviço militar seja ambição profissional de muitos deles. Isto é até justo, vez que tenho muitos amigos na carreira militar e compreendo este desejo. No entanto, o que deve ser revoltante é ter que esconder ou suprimir, sendo militar de carreira e tendo prestado serviços a nação americana- questionável as intervenções absolutistas nessa seara empreendida pelos EUA recentemente -, a verdade sobre sua sexualidade De qualquer forma, é justa a solicitação de equiparação de direitos pois não se deve preterir um profissional capacitado apenas por conta de sua orientação sexual.

O tema é polêmico, vez que mobiliza a nação americana- um misto de arrocho e libertinagem sexuais – inclusive artistas famosos com o “gabarito” de Lady Gaga já se pronunciaram a favor da entrada de homossexuais nas forças armadas.

Infelizmente esses assuntos, não raro, repercutem na política americana. Se o governo Obama não conseguir resolver o problemas dos homossexuais e forças armadas, certamente perderá apoio da comunidade Gay-Democrata. Assim, os Conservadores Republicanos reforçarão suas bases antiprogessistas, enfraquecendo o governo atual e arrochando o preconceito contra os direitos dos homossexuais.

Inocência? ( Texto integral)

Inocência ?

Quando dei meu primeiro beijo- não foi roubado, nem de graça- fechei
os olhos e não sabia como fazê-lo francês; os braços pendiam como
bambus jovens e as mãos, como girassois pesados. Senti como se tivesse
cometido um pequeno crime.
A música soava como tinha que ser para combinar com o ambiente. Um
escuro se apoderava das imagens que se formavam depois de minha grande
excitação. As luzes espaçadas, os desenhos multicolores que se perdiam
aqui na minha mão, no meu rosto, nas paredes da boate, nos móveis, no
teto…Pareciam holofotes procurando revelar minha alegria do primeiro
beijo.
Por alguns instantes me senti um grande adereço, uma imagem
decorativa. Fiquei parado sentindo aquelas sensações promovidas pelo
beijo do rapaz anônimo. Não sabia o que fazer com minha excitação
estampada no meu corpo. Um simples beijo apenas. E minha vontade era
de tornar aquele homem menos anônimo; talvez repetir, pedir que
repetisse o beijo. Mas ele queria mais e se eu repetisse, para ele não
seria tão emocionante. Então guardei comigo aquele beijo como
resquício último de minha inocência que, de alguma forma, tento
resgatar nas relações de hoje.
Quando dei meu milésimo beijo, já não sabia como denominá-lo. Talvez
pudesse chamá-lo de corriqueiro, mas com certeza não me causaria
aquela sensação do primeiro. Esse novo, apesar da constância, era puro
diletantismo. A noite perdia sentido se não conseguisse beijar por
beijar; mas nunca parava pra pensar no resgate do primeiro beijo.
Apenas beijar por beijar. E ele tinha mudado. Quando beijava assim,
meus braços se entranhavam na pessoa do outro, de forma a se
uniformizar naquele consumo das almas; as mãos se perdiam por entre a
roupas, nas partes mais íntimas tentando encontrar o cerne da
superficialidade. Não raro, encontrávamos nossos corpos suados. A
libido bebida na lascívia do suor, dos odores, dos amassos, na dureza
frágil de nossos pênis tresloucados. Meu corpo já não se mostrava
lânguido, perdido na sensação de um beijo ingênuo. Ao contrário, não
tinha mais o escrúpulo de experimentar o gosto da descoberta. Tudo
parecia conhecido. Os beijos se assemelhavam, se comesinhavam, se
acumulavam numa conta sem valor.
Hoje em dia, acostumei-me com o beijo distante, vivido na memória. A
ingenuidade nunca fora tão desejada como agora. Às vezes, nem mesmo
sei mais como beijar. – E como denominar essa ausência de beijo?.
Talvez seja o beijo Santo Agostinho- a espera sem fim. Porque
envelhecemos e ficamos novamente escrupulosos. E o que mais queremos é
um resgate humano de nossa atitudes.Mas não estou tão velho. De fato,
procuro uma nova excitação para um frio na bariga. Aquela que tive no
primeiro beijo, porque hoje tá muito fácil conhecer o outro no fundo
de um beijo mais do que francês. Nos entregamos aos beijos voláteis,
de esquina, de gisele, de um êxtase, de bala, de balada, contratado,
enfim a todos os que podemos esquecer no dia seguinte.
A busca de hoje é pelo sentimento que me invadiu naquela noite. A
lembrança do beijo que nunca se repetira porque desaprendi a beijar
inocentemente, naquela entrega pueril.
Hoje contabilizo 506.346 beijos – enquadrando todos os tipos -, mas a
pretensão de hoje é alcançar o beijo de número 1 (um).

Encontrando James Mcsill

Eu e James Mcsill

(Brasília 23 de outubro de 2010, CULTURA, Casa Park)

A mansidão no falar e o olhar sorridente, de longe não anunciam a grandeza do escritor James Mcsill.  As palavras saem fáceis e as ideias claramente se fundem ao pensamento exposto. Foi assim que observei o consultor palestrante que diante da gente parecia contar a estória de um enredo que mistura comédia, drama e peripécias humanas. Isso sem se esquecer de toda sua técnica empregada para falar dos assuntos que permeiam e adentram a arte de escrever um livro.

A palestra correu leve e com a participação ativa da platéia. Assuntos como: escrever por vaidade; escrever para si mesmo; talento; foram os assuntos debatidos com Ênfase pelo palestrante. E a cada slide, ia se desvendando esse mundo de sonhos da empreitada do escritor. E assim Mcsill ia conduzindo o interessante colóquio. Eu mesmo fui um dos entusiastas e acabei ganhado a atenção de Mcsill que perguntara sobre o quê eu escrevia. Incontinenti, falei que escrevia ficção. Mas tudo ali se dava sob a perspectiva da ficção. Então ele me pediu que falasse de meu livro, foi quando ele atestou que se tratava de uma estória para distrair. Que no mundo da ficção existem uma gama de livros market-oriented que, de certa forma, seleciona seus próprios leitores.

Interlúdio de James Mcsill

Mas de volta ao James; o engraçado, ou interessante é que ele está saindo dos bastidores como grande agenciador de carreiras, voltou-se para seu mister inicial. O resultado é seu livro Interlúdio- o qual adquiri copia autografada- que representa o talento por detrás da técnica. E o interessante, como ia dizendo, é que tanto Interlúdio como meu livro de estréia tematizam assuntos correlatos: paixões proibidas. E Mcsill aprofunda ainda mais a complexidade desse assunto enveredando pela questão religiosa, cutucando assuntos considerados claúsulas pétreas dentro do dogma religioso. Alguns amores são proibidos. Mas existem categorias de amor que se sobrepõe a outro de forma a justificar uma irracionalidade? Será que nesse caminho existe um meio termo, onde religião e preconceito andam juntos? Eu ainda não li INTERLÚDIO, mas estou curioso para esse processo de descoberta. A capa me intrigou também. Onde cabe aquela espécie de anzol e o golden-fish? E a impressão da mão em revelo estilizado, que quer dizer? Essas e outras respostas vou ficar devendo, a não ser que o James se antecipe na resolução.

É sempre bom esse intercâmbio entre pessoas mais experientes e ter a oportunidade de, a cada um deles, sair com a sensação de ganho.

 

O Livro e o Filme; o Papel e a Película!

Recebi um convite formal para realização de um projeto, no mínimo audacioso, ainda mais para quem começou a escrever profissionalmente recentemente. Mas o convite soa como um elogio e um desafio, transpor para o vídeo a aventura psicológica vivida pelo personagem de meu livr,o Adeus a Aleto- aquele limiar entre ficção e realidade por outro viés . A propósito, um jornalista já havia dito que meu livro funcionava como um verdadeiro roteiro de filme. Segundo ele, citar as partes de meu livro era como se descrever cenas. Fiquei lisonjeado.

Mas transfomá-lo em filme, é um sonho- e um convite- além do que posso descrever. Mas, desafio, talvez seja essa a palavra correta. E o convite partiu de um leitor – que virou amigo -  Thiago Thomazini. Mas não é um leitor comum. Para descrevê-lo, vou usar palavras de outro amigo escritor Kiko Riaze: “Thiago é ator, escritor, roteirista, tem 02 curtas filmados … um estilo de narrativa dinâmico e opiniões bem firmes e autênticas com muitas das quais eu me identifico bastante. Um talento prontinho para alçar grandes vôos.”  ( entrevista feita com ele pode ser conferida no site: http://kikoriaze.com/2010/09/22/entrevista-com-o-escritor-thiago-thomazini/)

Então o projeto é a lonog prazo, mas fico na expectativa de que se firme logo a ideia. Fico já imaginando o burburinho das gravações, os atores, as tomadas, os bastidores. Enfim, o que parecia um grande projeto íntimo, particular, começa a tomar um tamnaho de realização real. O plano é simples já que parte da conjugação de esforços mútuos de pessoas envolvidas com as artes, sejam a literária ou a cênica. Mas não vai ser um projeto fácil. Precisamos- olha que já falo no plural- de patrocínio, eventuais colaboradores, etc. No entanto, a perspectiva de tornar todo aquele intricado jogo de palavras em ação humana, coloca-me em eterno estado de excitação antecipatória.

E para aqueles que se interessaram, logo abaixo, disponibilizo com a autorização do próprio Thiago, a exibição dos curtas realizados pela CATARSE produções da qual ele fazia parte. O primeiro trata-se de  Pátria e o segundo intitula-se Pólvora.

A PÁTRIA

PÓLVORA

INTERLÚDIO

Interlúdio quer dizer trecho musical entre dois atos, duas cenas, numa peça dramática. Quer dizer, também, intervalos. E são as vozes de Dennis e de Lázaro que se intercalam em seus dramas particulares. E assim se revezam

James Mcsill

estas vozes dos protagonistas que se assemelham aos jovens protagonistas de Romeo & Julieta de Shakespearre. Famílias diferentes, histórias diferentes, religiões diferentes. E, em Interlúdio, Romance do escritor James Mcsill, a religião é um forte elemento que conduz a caminhos opostos a vida dos dois jovens apaixonados. Mas não é a religião que conduz a Deus, é a religião fundamentalista que estigmatiza, que discrimina, que segrega. O pano de fundo para essa a história de amor, diferentemente de Shakespeare que se concentra nas paisagens de Veneza, dá-se em diversos lugares, como no Brasil, na Europa, nos EUA, e principalmente nos espaços das almas apartadas.

A cada página do livro de Mcsill conhecemos, com riqueza de detalhes, a história de Lázaro e Dennis, unidos pelo acaso proposital de um postal misterioso. Lázaro se anunciava professor de Inglês e acompanhante. Então, são unidos pela famigerada ligação do algoz de suas vidas o comandante Betts- pai de Dennis. É com a ajuda dos amigos que eles contam para viver clandestinamente o romance proibido.

 A história é alinhavada, à cada página, pelo intricado jogo de pequenos interlúdios dentro própria história; pequenos crimes são revelados; pequenos dramas são desvendados pelos personagens. Tudo se condensa numa narrativa densa, instigante e dramática. Os personagens ganham vida a cada reconstituição do passado. A memória é um grande recurso utilizado pelo escritor para revelar os desejos e sonhos dos protagonistas. O tempo é outro elemento utilizado, no qual os pensamentos são revelados na constância das reminiscências e da realidade.

 A história em si é perturbadora nas passagens em que o Pai de Dennis, John, inflige ao filho seu fundamentalismo radical contrário a homossexualidade do filho revelada no amor incondicional por Lázaro. O abuso sexual, o prego que atravessa os olhinhos de Joãozinho, são cenas inesquecíveis. Os recursos utilizados pelo pai pra distanciar os amantes são quase inimagináveis, levando a práticas obsoletas de psiquiatria, como a lobotomia, para fazer com que o filho esqueçesse o amor latente. Dennis sofre nas mãos do pai. Lázaro sofre com a distância. Os dois sofrem com as informações truncadas; com corações vinculados.

 Cada voz do livro é ouvida com amplidão, com um eco dentro da alma. Reverbera dentro de nós leitores as vozes dos protagonistas que tentam se ver livres de um passado, ao mesmo tempo, feliz e opressor. Nas entrelinhas observa-se o antever de uma grande história de amor. Colocamos-nos a postos para antever a vitória do amor, em que pese os percalços típicos dos grandes histórias de amor. E mais uma vez o amor não tem sexo; não tem religião. As determinações maniqueístas revelam que no embate o bem, racional, sempre vencerá no final. E ainda sobre a história das vozes, intercalas nesse interessante interlúdio, o tempo é o grande ator. O tempo passa, muitos anos se passam, e o amor parece ainda intacto. Lázaro, a certa altura, pondera: “Que mundo era aquele em que vivia, que acabava e recomeçava sem aviso?” Mas sabiamente, o escritor conduz a história para que o aviso do final feliz estivesse mais perto do que ele podia imaginar. Lázaro, como que renascido de suas chagas reencontra o amor. E mesmo que sua outra metade, Dennis, se recusasse a lembrar de tudo que havia acontecido, devido às sessões de lobotomia, o amor e a lembrança estavam guardados na memória emotiva.

 Interlúdio é, na minha opinião, um romance épico que reconstroi a história de dois homens unidos pelo amor e separados pelo preconceito. São gigantes como Atlas, carregando o fardo da culpa e da dor sobre as costas, sopesando cada dor como aprendizado. É uma oportunidade para refletir que a justiça de Deus não tarda. E ainda, que o Deus, sempre benevolente, perdoa aqueles que nunca entenderam o amor. As almas se repartem para que, depois dos embates emocionais, depois das lutas diárias com a vida; a reconfortante e redentora força do amor prevaleça.

Perda temporária

O papel branco assume uma dimensão complicada na relação causal de uma crise existencial que se estabelece sazonalmente em mim. Mas não é o papel em branco silencioso, e sim aquele tendencioso que verdadeiramente insinua-se, pronuncia-se em violentas mensagens telepáticas, inteligíveis e contundentes. Então inicio um processo doloroso de espera, de angústia desesperadora; olhando o papel em paralítica discussão. Uma espécie de vontade recolhida, confusa…

Parece ser uma clara manifestação do bloqueio de criatividade. Mas isso poderia ser apenas uma manifestação temporária. No entanto, arrasta-se há tempos me deixando claramente inerte. E me perco na constância dessa manifestação, alternando rompantes de construção e desconstrução; coragem e resignação. Diz-se ser natural esse desafio da página branca. Mas a tortura que se instala dentro de mim é desconhecida; está mais forte. Poder-se-ia dizer que é nova desta vez. Agora, necessito de mais força, de mais discernimento em relação ao seu poder destrutivo. Tem sido assim por dias esse acorrentamento das ideias que se alternam num vai e vém de euforia e medo.

Embora as fases de euforia tivessem que proporcionar o criativo, pelo contrário, estabelece um vazio criativo incomensurável. Diante desta situação, fico horas a consertar as palavras para acertar e dar um rumo ao discurso. Fica assim tudo pela metade, incerto, sem rosto. Os projetos se acumulam sobre a mesa. Fruto de ideias paradas, não terminadas. Então, tenho a história perfeita para o tema selecionado. Enxergo diversas paisagens; situações onde posso encaixar novos personagens. A história começa a se desenhar, então esbarro na página próxima. A página branca que fica na espreita do toque que não acontece.

O fim do ano se aproxima e a exigência interna da avaliação das conquistas é imperiosa. As coisas começam a ser repassadas na cabeça como se num flashback compulsório. “ O que realizei este ano?”, pergunta que ecoa na cabeça confusa e cheia de realizações iniciadas, mas sem projeto de conclusão. A sensação é de perda, associada a uma frustração recorrente. Sei da reconhecida benesse da frustração superada. O que vem em seguida é um período profícuo de inspirações e realizações. Àquela segue-se uma onda criativa que acrescenta experiência ao seu trabalho empreendido. Por enquanto, esse benefício ainda se distancia de mim. O seu período de manifestação atrasou-se sem anúncio de retomada. Está aqui, agora, nessas sofridas palavras que se ajuntaram num esforço hercúleo para tentar definir o que sinto atualmente.

Como pode ser a Saudade?

Saudade é aquele olhar perdido no espaço imenso da memória de uma sensação lembrada. É íntima, mas pode ser compartilhada na dimensão das dores envolvidas. Mas em geral, é particular, vivida na intensidade da lembrança resgatada. Aquele olhar fixo não é nada mais do que aquela sensação de perda irreparável, senão pela mente sedenta do momento outrora vivido.

Mas saudade pode ser aquela memória olfativa; o cheiro que gruda nas coisas que lembramos; o perfume que encerra em si uma história dividida. Não raro, essas sensações sensitivas se misturam umas as outras que chegamos a sentir o gosto da saudade na saliva. O cheiro, as lembranças e o gosto se misturam na vivência do passado resgatado. Tudo fruto da imaginação que não se contenta em apenas experimentar o novo, mas se detem na busca das sensações mais íntimas, quase esquecidas, que inevitavelmente nos transportam para o momento anterior ao que vivemos. A saudade se camufla por entre as memórias voláteis, mas sempre submergem para recontar ou reviver um momento. Nem sempre a recordação é de alegria. Geralmente, enrola-se no manto dialético do arrependimento. A memória nesse sentido se divide nas recorrentes lembranças das atitudes tomadas, suas consequências e o aterrorizante resultado. Essas lembranças ocasionam os reencontros, as desculpas, a experiência divina do perdão. As pessoas se deslocam para consertar o presente. E nesse sentido a saudade é sensação reconstrutora.

Há a saudade que recupera a dignidade na eterna lembrança de nossos feitos. Às vezes, vive-se a vida inteira apenas nessas lembranças de resgate. Fomos aquilo do passado. Tememos viver o presente. Essa lembrança pode ser destrutiva e quando menos deletéria, é apenas um registro de homenagem. Enfim, a saudade revigora, alivia, suplica, revive e as vezes pode até matar.

Mas é sempre bom ter a saudade sinestésica, daquelas que sentimos quando estamos repensando o amor em nossas vidas. Ela começa com a lembrança fotográfica do momento, alterna-se na lembrança doce do beijo, depois dá lugar ao encontro carnal com o toque – quase palpável. E então, a sensações se revezam no constante repensar daquele momento. Esta é a mais forte porque pode reviver em quase realização física o momento mágico do contato.

JOGOS MORTAIS VII (SAW VII)

Além das cenas fortes, uma constatação fica clara e igualmente angustiante no filme JOGOS MORTAIS IV: a autotutela do cidadão. A limpeza ética em relação a sociopatia instalada e promovida pelo Dr. Jigsaw dentro do seio social. O emprego do mal para purgar o mal é a premissa fundamentadora dos jogos promovidos pelo autointitulado limpador social.

O debate é pertinente e talvez atual, vez que governos paralelos, mormente em grandes capitais- e não apenas no âmbito local- promovem com maior freqüência o instituto mencionado. As práticas de autotutela e autocomposição são práticas expurgadas do meio jurídico hodierno. A promoção dessas práticas remonta ao completo desamparo ou mesmo ineficiência do Estado em relação aos problemas sociais. E nesse sentido é que o paralelismo entre o gênio maligno do Jigsaw e esse Estado medievo é verdadeiramente aplicável.

 Assistindo ao filme ao longo das  incursões narrativas deste personagem emblemático , personificado naquele boneco/marionete movido pelo triciclo mortal, observei atentamente o objetivo escondido nas entrelinhas das armadilhas perpetradas pelo mestre das punições purificadoras. O intuito é promover ao merecedor, tanto da armadilha quanto da sobrevivência, um chamamento, um alerta aos homens sociais que, de alguma forma, promovem, estimulam, realizam alguma ação, premeditada ou eventual, que vá de encontro aos princípios morais mais importantes estabelecidos na cartilha pessoal do sociopata-mor. Essas ações também podem ser omissivas, o que também não passam despercebidas por esse implacável justiceiro ético.

As práticas quase medievais, não fossem os meios eletrônicos e intervenções midiáticas, ainda assim promovem um estado de angustiante de revolta intestina. São cenas fortes para as quais tive que usar as mãos para barrar a visão das execuções quase inescapáveis.

Fica o alerta para essa limpeza ética promovida pelos autointitulados senhores da razão. A autocomposição e a autotutela podem estar disfarçadas- e reforçadas- na promoção diária de nossa indiferença em relação às matanças, chacinas e pequenos crimes a que fazemos vistas grossas. Não raro concordamos tacitamente com essa limpeza feita com as próprias mãos isentando o Estado de sua função maior que é a defesa e promoção dos direitos sociais. Se continuarmos a aceitar tacitamente as milícias autoinstituídas sem o reconhecimento do poder jurisdicional do Estado Democrático de Direito, estaremos sendo convenientes com estas práticas e assegurando a esses falsos operadores do direito o poder que antes era legitimado pelo primado legalizado do Povo.

O Olhar mais que não-perdido(achado!)

Ah! Que os meus olhos nunca me faltem; e que tenha que morrer antes que eles se percam. Antes a mim do que eles eu prefiro na hora que tudo findar. Por que sentir sem tê-los é uma lástima. Sentir sem ver é castigo. Por isso não quero que eles morram primeiro. Preciso deles tanto. E me imagino aprisionado a uma armadilha se tiver de viver sem eles.

Antes minha alma pereça do que meus instrumentos de trabalho. Assim desejo nesse momento que mais internalizo a felicidade. Nesse momento de meu gozo íntimo com a palavra lida, escrita, vista numa amplitude divina, epifânica. Não quero que ainda eu fraqueje com o olhar míope, nem cansado. Quero ainda desfrutar do pôr-do-sol escrito em linha, mesmo que seja uma  tergiversação.

É com eles que vejo minha linha que ganha vida; que reconheço a vida na linha escrita dos outros, num sentido de caputar com o paladar da visão a complexidade de conceitos, as luzes, os sons, os medos.

Que antes vá minha alma fraca e que seja perene esse olhar atento para as coisas.

É devaneio pensar nisso, mas quero apenas o registro de meu instrumento-mor, o olhar visionário.

Minhas mães e meu pai (The Kids are all right)

Sobre a teoria da Identificação já falei em posts anteriores. A questão de enxergar-se do outro: na página seguinte, da letra, da tela.

E outra teoria se forma. Não é nova, mas pertinente. Como se portar diante do novo, quando nos confrontamos com a possibilidade de sairmos da clausura de nossa segurança?

Talvez seja isso que observo nas entrelinhas. Por que o fica claro sobre o que tematiza o filme THE BOYS ARE ALL RIGHT, ou como ficou no Português MINHAS MÃES E MEU PAI, que conta a história de dois irmãos que procuram o pai doador do sêmem que gerou em cada uma de suas mães Joni e Laser, filhos do casal Nic e Jules, respectivamente a brilhante  Annette Begining e  Julianne More. A história poderia ser assim resumida. Uma história que funcionaria como clichê não fosse a intenção real do filme.

O pai procurado é o charmoso Mark Ruffalo que empresta o estilo largado, ligeiramente irresponsável, bon-vivant ao personagem Paul . Este é o verdadeiro fio condutor ou desviante dos caminhos preparados pelas mães preocupadas com os rumos da criação dos filhos. Não se pode negar o componente estrutural do casal, que se reflete no novo molde de familiar hodierna. A família tradicional, mormente a americana, vive em crise conceitual. A família tradicional americana reflete e reverbra a figura inanimada do pai presente-ausente-vazio personificado no personagem Homer Simpson do cartoon Os Simpsons. Não é a toa que estudos têm sido empreendidos na análise sociológica da alegoria existente neste personagem. Mas esse não é o assunto deste post. A condição vivida pelos filhos do casal protagonistas do filme poderia ser facilmente apontada e pontuada pela instabilidade ou anormalidade do casal lésbico- especialmente pelos censores ortodoxos da família tradicional. No entanto, a existência dos problemas na adolescência pode ser observada em qualquer família, digamos, tradicional- convencional.

A tomada inicial é a reprodução de uma cena comum na vida de muitas famílias. A reunião a mesa numa hora de refeição é campo propício para as reflexões diárias, um resumo das atividades e um reencontro da família separada pelo tempo,trabalho, escola. Enfim, a cena inicial reproduz a vida almejada dentro de uma família: a estabilidade emocional.

Mas não poderia ser diferente nessa família ainda não convencional. No entanto, as cores do drama são intensificadas pela ultrapassagem da linha de conforto que norteia a vida do casal lésbico modelo e dos filhos criados sob a mais rígida educação. Mas a linha não impede as falhas, o desgaste, o outro. E assim, esse outro invade o espaço, na pele do charmoso Paul. Esse elemento novo é simplesmente o doador de sêmem do qual surgiu os filhos do casal lésbico. A aventura de Joni a procura desse Pai-doador redunda no encontro com Paul que se sente interessado em ser procurado por sua filha Joni.

Enquanto isso, adentra-se no mundo apartados e desiguais das famílias vividas pelo casal e pelo solteirão Paul. As vidas são entrelaçadas pelo envolvimento dos filhos que gradualmente inseriam o Pai no contexto familiar. Esta imersão adentra numa seara que questiona a estabilidade da concepção na qual o casamento gay se estabelece numa antítese do que une o casal hétero. Nesse aspecto, as tensões do casal lésbico que entra em crise tem como elemento ocasionador a fragilidade de Jules e o interesse de Paul deixar a vida mundana e assumir uma família.  O triângulo surge como uma verdadeira válvula de escape, para as inseguranças de Jules e o desejo recôndito do Pai-doador-do-sêmem. Aqui o filme encontra seu ápice, causando uma constatação inquietante cuja revelação instiga a se repensar a questão de nossa sexualidade.

No final, diga-se de passagem, a atuação de Annette Bening pode render-lhe um Oscar, a maturidade da relação é retomada na assunção da divisão das culpas, da qual sempre a atenção ao parceiro é sempre um dos caminhos para o reforço da relação.

Além da mensagem geral sobre nosso comportamento diante do novo, repensando os valores que compõe nossas escolhas; outras questões se perfilam no desenho desta história. Questões como a liberdade no casamento; a prudência na solteirice devem ser analisadas. No filme em tela, a sensata conclusão que temos é que o amor que se erige dentro de uma família nunca terá sexo. As vidas poderão ser apartadas, mas o que sustenta qualquer tipo de relação é a eterna observância da existência e permanência do amor

 

Pai é quem cria!

Ele só pensava no filho. Não se preocupava mais com seu corpo. Os músculos que lhe davam a fortaleza se amoleceram com suas novas responsabilidades.A barba surgia espessa da noite pro dia.Trocara os hábitos notívagos. Não podia viver a vida de antes. O filho era mais frágil; a mãe dele morrera e agora o resto da educação competia a ele, o pai acidental.

A criança não entenderia as referências a Tom de Finlândia, os quadros de torsos nus, as revistas, senão na cabeça do adulto perturbado com a nova função. A atenção não podia mais ser do namorado ciumento. As roupinhas, acordar cedo, levar para a creche, levar ao médico e as pequenas concessões que se fazem quando não se tem mais a si como um só, começavam a fazer parte de sua rotina. Ele logo perdera a companhia do namorado. Não havia meio termo entre eles. Então, deixou-se levar pela responsabilidade maior. Esqueceu-se de si. Temia a educação de seu filho. Os amigos apareciam de vez em quando em situações sociais compartilhadas: num shopping, na casa de parentes, na vizinhança. Escondeu de todos seu crime anterior. Sua vida pregressa não poderia ser revelada. A vida, agora, pertencia ao pequeno Kalvin.

Mas a justiça sabia de sua vida anterior. A assistente social era a presença feminina mais marcante naquele novo ambiente familiar. A presença dela servia para confirmar a salubridade, a higiene, a leveza da novo lar do pequeno Kalvin. Tinha de assegurar que a vida levada pelo pai não afetaria o comportamento e a educação do filho.

Ele a recepcionou como de hábito. As unhas estavam mal pintadas. O cabelo se arrumava num rabo de cavalo desajeitado. Os olhos cansados de uma noite mal dormida. Abriu a porta com o mais singelo e amistoso sorriso. Num dos braços, junto a sua cintura estava o pequeno Kalvin, que segurava em suas mãozinhas a chupeta azul. A assistente se deteve na cena, olhando para a camiseta transparente dele, na saliência evidente dos seus seios postiços. Enquanto se detinha na visão do pai nervoso, a criança, sentindo o calor do contato com os fartos seios do pai, insiste em pedir pela chupeta que cai no chão. E olhando para o pai e apontando para o chão, fala:

- Mãe, mãe…

Qual seu pecado?

Meu pecado deve ter um nome, este de ficar de joelhos sempre a altura da melhor parte dos homens, olhando-os por baixo e sentindo-os mais frágeis e mais vigorosos ao mesmo tempo. Eu não tinha noção de pecado, apenas sentia a vontade de sempre estar aos os joelhos de um homem desejoso de sexo. Lembro-me das tenras idades em que eu entrava no banheiro masculino, sempre tateando os homens pelas suas cinturas. Havia uma ducha escondida no final do clube. Lá os homens sempre entravam nus, e eles sempre aguardavam meus préstimos libidinosos.

Meu pecado era querer mais e mais. E tudo começou como pequenos joguinhos sexuais. Quando brincava de casinha havia sempre espaços para essas tentativas de iniciação. Eu, não sabia como, talvez conquistados por uma habilidade nata de convencê-los, atraía os meninos para a casinha que fazia, no fundo do quintal de minha casa, com as caixas de papelão. E quando dava por mim, já estava lá na brincadeira que imitava um papai-e-mamãe insólito, que depois aprendi chamar de fornicação, e, mais tarde, poderia chamar de um pecado de luxúria orientada. E a princípio era um segredo que sempre guardava pra mim e, claro, para todos os outros que entravam na casinha de papelão. Enquanto fornicação, nem mesmo eu sabia como estragar alguma coisa. Eram apenas aqueles pequenos crimes: felação, pegação, amassos, os bolos-fritos…nada mais complexo. Essa noção de algo mais invasivo- ou mais prazeroso- ainda não tinha me atingido. Mas eu continuava em meus joguinhos perversos de sedução.

Um dia a casa de papelão caiu. Passei para a quitandinha, onde sempre dava ou vendia fiado minhas carícias mais elaboradas. Depois veio a brincadeira do médico na qual começaram a aparecer os donos de corações partidos. E foi assim nessas brincadeiras mais pueris que aperfeiçoei minhas pequenas traquinagens luxuriosas. Infelizmente as casinhas de papelão, a quitandinha, os médicos sumiram; a partir de então eu começara a seguir outros instintos mais claros. Adorava os terrenos baldios, a sombra, o beco, e especialmente os edifícios ou as casas em construção- e seus insólitos visitantes. Assim começaram as primeiras descobertas mais espessas, consistentes, como a viscosidade das sementes dos homens. Como era bom sentir aquelas sensações de calor interno, pulsação. Inicialmente, as vontades eram apenas um desenrolar de mecanismos naturais como necessidades fisiológicas.  Depois entendi como o mecanismo dos meninos funcionava, e como eu podia utilizar minhas ferramentas. Além da mão, da boca, havia outras partes que nem Freud descobrira. Na fase anal, por exemplo- onde talvez eu tivesse mais problema ou aceitação-, eu descobri que podia ser mais útil do que apenas dizer sim ou não. E o primeiro contato, o mais complexo, foi no mundo pós-adolescência. Foi um pedido simples- como de praxe- para que eu ajoelhasse e contemplasse a eloqüência do membro de um homem adulto.  Do bate-papo veio a gravação, o aumento do volume e a grande explosão quente e aquosa. Minha iniciação estava selada. Então, depois desse episódio, ficar sobre os joelhos era mais que uma posição de súplica.

E sempre dizia sim, numa obediência quase cega aos preceitos da teoria de um amigo mais experiente. Continuei sempre dizendo sim. E parece que tudo se iniciou claramente lá na quitandinha. Os inúmeros clientes se acotovelavam na porta da grande quitanda. Clientes cheios de iniciativa. Olhares insinuosos, tendenciosos a uma postura sempre ativa:

- Me vê uma bundinha ai?

- Sim, sim , sim, sim.

Uma estória de um escritor num lugar que não existe livro ( mais uma estória começada e não finalizada)

- Não existe escritor aqui nessas áreas- disse o transeunte abordado pelo escritor anônimo. Assim, ele seguiu andando ainda atônito com a informação obtida. Continuou sua caminhada em direção a qualquer lugar; qualquer lugar que lhe disse a segurança que estava procurando. Mas não se sentia sozinho ali. A rua se alargava em duas pistas largas, os carros se deslocavam num ritmo alucinado, buzinas, luzes. Em tudo a cidade se parecia com uma cidade normal. Pessoas havia que se deslocavam normalmente por entre as calçadas; por entre elas mesmas. Nada parecia de diferente, senão o fato da inquietante descoberta. Os passos se apressavam numa velocidade não-espontânea. Caminhava como se soubesse de sua jornada final.

Sentia-se estranho de alguma forma. No entanto, não era um desejo seu andar por aquelas ruas. Sentia a necessidade de um café. A andança parecia não ter fim. No entanto o passo se afrouxava, o ritmo de seu fôlego recrudescia. Viu-se parado na frente do café Soul. Entrou. O burburinho enchia o espaço de uma decente animosidade, parecia que o lugar se enchia da civilidade que procurava. Sentou-se e acomodou seu olhar nos passos firmes da garçonete que se aproximava. – Pronto para pedir senhor-, ela perguntou com um sorriso igualmente firme. Ele respondeu incontinenti: – Você sabe onde posso encontrar uma livraria aqui na cidade?- ele perguntou olhando para o cardápio, procurando por seu tipo de café favorito. Enquanto isso, o rosto da garçonete mudava de um tom doce de quem estava pronta para bem atender e de repente, se insurge com o olhar cheio de incerteza. – o senhor poderia repetir a pergunta- ela perguntou tocando levemente com seu dedo o ombro dele. Este, trazido novamente para sua realidade desconhecida, retrucou repetindo claramente sua pergunta anterior. A garçonete não sabia responder, sentia-se impossibilitada em entender o pedido de seu cliente. O silêncio perdurava entre os olhares por alguns instantes, Então novamente, a garçonete repetiu com o mesmo tom em sua voz: – Pronto para pedir senhor? – e o mesmo sorriso singular rondava seu rosto na certeza de que desta vez estaria pronta para bem atender. Ele a observava, tentando encontrar qualquer sinal de excentricidade; uma tatuagem, um piercing, uma cicatriz, qualquer coisa que confirmasse a extraterritorialidade daquela mulher. Estranhamente tudo parecia normal, não fosse sua insistência em não entender a pergunta. E isso lhe causava mais inquietude. E ainda paralisado por tanta estranheza, permitiu-se uma nova pergunta: – Existem bibliotecas por aqui?- sua pergunta pareceu constranger novamente a moça, deixando no ar a mesma falta de trato para seu ofício. Ela se sentiu incomodada.  – Não existe isso aqui! O que é uma bi-bli-o-te-ca…senhor?

Ele se levantou, mesmo que intimamente já havia decidido tomar seu cappuccino que sempre acompanhava suas leituras; seus livros. Levantou-se quando se revolta com a má qualidade no atendimento. Revoltou-se com o cinismo com que a garçonete o tratara. Não quis reclamar ao gerente. Não quis outro atendimento. Saiu como que revoltado com a ignorância daquela moça, levantando dentro de si a voz que avolumava sua raiva. Um rosto bonito não poderia ter outro motivo para aquela garota ter sido selecionada, e não a última leitura que fizera seria parte da sabatina para o desempenho daquele trabalho. E novamente aquele ritmo se imprimia as suas pernas, aos seus passos. As ruas ainda estavam cheias. As pessoas continuavam em suas jornadas particulares. As luzes vacilantes iluminavam as ruas timidamente. Pareciam que se aninhavam para uma doce reclusão dentro de suas lamparinas.  E como um moderno dimmer, elas se diminuíam e podia perceber o cheiro de gás. Nunca imaginou, nem se deu conta de que não havia eletricidade na cidade. Tudo estava à meia luz; velas ou lamparinas iluminavam a mesa do café de outrora. As vitrines pareciam pinturas não-impressionistas. –Onde estão as sombras do sol?-perguntava-se como se a plasticidade das coisas fossem inanimadas. Como se o vulto das pessoas fossem sombras mal trabalhadas numa paisagem expressionista. A visão turva e as passadas mais largas. Mãos nos bolsos do sobretudo.  O frio salientava-se por entre as falhas das suas vestimentas. Sentia a necessidade real do café estimulador. O ar saía-lhe com dificuldades. Uma espécie de acomodação compulsória se fazia espontaneamente em seu corpo. Uma pele se descamava de sua subpele; uma necessidade de readaptação ao clima, àquela cidade. Os cheiros ainda novos, mas nada que não houvesse sido registrado em sua memória sensitiva. E tudo parecia absurdamente familiar. Repentinamente o estado de estranheza dava lugar a uma ligeira acomodação dos sentimentos. Ainda as passadas firmes e apressadas. Na garganta e por todo o corpo uma vontade de tomar seu cappuccino era quase incontrolável, como se encontrasse numa verdadeira fase de abstinência provocada pela ausência de uma droga. Seus passos o conduziriam novamente ao ambiente de um novo café. Novamente as passadas reduziram o ritmo avançado e logo estaria diante de outro café. Desta vez, entrou sem nenhuma hesitação. As pessoas também se amontoavam no pequeno salão do estabelecimento. Sentou-se e aguardou atendimento. Diante do garçon, antecipou-se. – Cappuccino pó favor- pediu olhando firmemente para o rosto fino e pálido do garçon. O pedido foi prontamente atendido. A xícara de porcelana tinha bordas douradas. Uma fina listra de porcelana branca se sobrepunha sobre a fina listra dourada. O requinte da delicada arte combinava com o círculo que emoldurava o centro do pequeno pires que apoiava a xícara de café. Observou esses detalhes como se quisesse localizar aquele objeto no tempo.  – A que época aquilo pertenceria? Lembrou-se, resgatando de sua memória sensitiva, de que as linhas distinguiam traços de nobreza de dinastias chinesas. As linhas eram confeccionadas com ouro e tinham as mesmas intenções da distinção que Luis XIV fazia com os saltos de seus sapatos, pintando-os de vermelho. As tintas faziam a diferença dos hábitos da nobreza; tiravam da mesmice os costumes que se espalhavam por entre os plebeus. Lembrou-se disso tudo por conta da última leitura que fizera.  Alías, o livro fazia parte daquele momento no qual seu cappuccino acompanhava sua mão esquerda e segurando o livro a altura dos olhos, a outra mão sustentava a leitura do momento. E o primeiro gole do café achocolatado, causava-lhe uma obrigatoriedade para com a mão vazia. Levava à boca a xícara milenar, mas sentia que aquela necessidade ainda estava incompleta. Então levou a mão insatisfeita ao bolso interno do sobretudo, do lado esquerdo, logo acima do peito. Tirou a mão que se enchia do livro de bolso de Thecov. Naturalmente ergueu o pequeno livro a altura dos olhos e manejando habilmente abriu com a ajuda dos dedos abriu na página marcada. A dama do cachorrinho tinha viajado ao encontro do amante. Aguardava-o com a mesma expectativa. E ele continuou a leitura enquanto durasse o calor que a outra mão proporcionava ao levar o saboroso cappuccino a sua boca. Os movimentos pareciam compassados como se orquestrassem na medida em que paladar e visão se alternavam harmoniosamente. Os movimentos se alternavam num momento quase hipnótico, o que acabou causando certa curiosidade. O garçom intrometeu-se, deslocando momentaneamente o leitor de sua apreciação. – O que o senhor tem na mão?- perguntou-lhe sutilmente recolhendo lenços usados sobre a mesa. Sem dar muita atenção o leitor atento respondeu: – É Téchov! – respondeu sentindo certo respeito às convenções a que estava acostumado. Deteve-se na leitura. – Perdão, mas o que é isso em sua mão, senhor?- o garçom olhava-o de soslaio timidamente limpando a mesa com o pano dobrado em sua mão. A pergunta pareceu reviver um desconforto. A princípio quis ignorar aquela interpelação, afinal já se sentia mais a vontade com o café e o livro. Aquela insatisfação e urgência para alguma coisa aplacavam os seus sentidos. No entanto, preferiu ignorar como quem se satisfaz com a nobre ignorância dos outros, aquela sensação se superioridade apelativa; plana-se diante da visão achatada que o outro tem sobre a existência de um outro mundo além. A soberba surge como uma alavanca que abre as comportas do mundo: só se salvam aqueles equipados com a bóia do conhecimento, com o letramento flutuante.  O olhar ainda permanecia fixo naquelas linhas que tentavam entender a necessidade da traição da mulher; o cachorrinho como artifício, um anteparo para que os outros não enxergassem o verdadeiro motivo.  Pessoas livres e felizes, ele lia. Ele pensava nessa afirmação como se libertasse de sua ligeira corrente presa a seu pescoço como se fosse apenas um ardil recurso para o plano final. Imaginou que a ignorância e desconhecimento daqueles garçons fosse algo proposital, próprio da categoria. Mas não poderia ser uma coincidência institucional. Era pura ignorância. Aquilo que lhe dava o brilho no olhar quando das aulas para seus sequiosos aluno no curso de Literatura. Seu olho brilhava no momento da dúvida. Momento em que seu prazer se diluía na imensidão da sala, ao explicar o porquê das entrelinhas. Lembrou-se que daquilo, desde o início. Era seu refúgio, sua recarga diária; a recompensa por ter escolhido aquele mister. Então, mudou o olhar como se quisesse se imaginar de novo naquele ambiente acadêmico. Voltou o olhar para a página seguinte; repentinamente, olhou para o garçom ainda a limpar os últimos resquícios de polvilho sobre a mesa. Tentou capturar aquela angústia que via em seus alunos; aquela vontade de saciar a fome de conhecimento; de juntar-se a bóia salva-vidas. _ Quero outro cappuccino-, solicitou ao rapaz que não parava de olhar para seu Téchov ainda a limpar a mesa. A solicitação parecia mais uma estratégia do que um pedido. Ainda que pudesse reconhecer as ruas como parte de sua vida, ainda assim, a arquitetura e as pessoas daquela cidade não pareciam catalogadas. Era apenas um estilo qualquer emoldurado por um mistério fragmentado no ar, no frio que cercava o pescoço, naquela dúvida recorrente; nos olhos do rapaz. Pensava consigo que talvez a exposição do livro tenha revelado meu gosto incomum; talvez o livro fizesse parte de um Index proibitivo; uma calunia inaudível; talvez fosse um mau gosto dele. Ele pensou inúmeras possibilidades até que o café pudesse novamente repousar sobre sua mesa como um alívio para seu leve desespero. Mas enquanto esse momento, não se aproximava, ele percebia uma espécie de desconforto, como se uma energia tomasse de conta de sua aflição inicial. Sentia-se como presa, encurralado. Talvez fosse esgotamento mental. Mas sentiu ao seu redor olhares, como se realmente existisse algo de errado com seu braço em riste, as mãos a segurar algum manifesto declaratório de guerra. A paz nunca seria uma possibilidade na vida da dama do cachorrinho e de seu amante. Ainda que o tempo fosse eterno o problema do adultério continuaria o crime deles. Ele refletiu sobre essas linhas. Pensou no julgamento dos olhares diante da sua aceitação, de sua predileção por aquela leitura. Por alguns instantes, ainda que o café não lhe desse novamente a segurança do seu ritual para a leitura; mesmo que o café e o livro contivessem sua desconfiança- antes mesmo que o garçom lhe direcionasse aquele olhar duvidoso-, ele se sentiu ameaçado pela a guerra declarada. Antes que todos voassem sem sua direção, antes que o julgamento da platéia condenasse o casal adúltero; e antes que o garçom colocasse a xícara sobre a mesa. Recolheu seu livro, levantou-se abruptamente e correu em direção à saída. Empurrou a mesa a sua frente, tropeçou na escada e rolou em direção a rua. Não teve tempo para racionalizar sua atitude. Agora, suas pernas imprimiam os passos mais rápidos de uma corrida. A necessidade do café fora saciada. O livro ficara para trás.  – O que tenho que fazer agora? Perguntava-se ao mesmo tempo em que apressava as passadas fugindo do garçom atordoado.

(…)

Falava internamente de seu medo. Como era estranho sentir-se monitorado a todo tempo. O medo se travestia de coragem externa. Todos diziam que conseguiria. Mas sentia que sua verdadeira vontade era sair em disparada carreira diante do nada- ou pelo menos em direção da saída. A porta estava aberta. Seria mais fácil agir assim do que ter que sentir-se desafiado. Correr do medo não parecia sua única experiência. Sempre utilizara essa estratégia para fugir das repreensões da vida, não como um rebate covarde de quem fustiga a onça presa na jaula, mas o processo curioso da formação da identidade. E fora assim correndo dessas armadilhas que se viu na primeira barreira às suas disparadas.

 (…) grandes e finitas reticências.

Um erro emocional

O mais novo livro do escritor Cristovão Tezza, Um erro emocional, não trata apenas de um erro, mas de todos os erros que cometemos quando hesitamos em viver, apaixonar-se, falar o que sentimos.

E a conversa entre Beatriz e o escritor Donetti se fragmenta em pensamentos íntimos divididos com leitor como se eles disputassem sua atenção durante toda a narrativa. Entre as conversas e ilações, somos levados a entrar no mundo de cada personagem que se alterna entre experiências recentes ou reminiscências. 

O escritor consegue desvendar e desnudar os personagens nas suas mais íntimas necessidades e frustrações num recurso de linguagem que revive as narrativas de Wolf, adentrando a mente das personagens como se estes conversassem com o leitor. E ainda há um recurso que coloca a personagem Beatriz numa conversa paralela que, às vezes, se imagina relatando sua experiência recente a essa amiga que não aparece, mas surge no compartilhamento de sua conversa com Donetti.

Confesso que adorei essas conversas- que, às vezes, adentram um mundo muito particular, de difícil desvendamenteo- entre os personagens misturando as leituras internas das atitudes de cada um em relação ao outro. Todos parecem ter cometido um erro emocional ao não se comunicarem intimamente como se revelam em seus pensamentos mais intestinos. Estes erros se comunicam numa falta de comunicação que se realiza no âmbito de suas emoções mais recônditas.  As memórias se refugiam na narrativa do escritor que de alguma forma rememora lembranças mais comuns e mais sutis, mas que refletem na interação do escritor e da sua maior fã.

Os papéis amarelos rabiscados revelam um pouco do escritor que se apaixona pela revisora ideal. Beatriz é essa revisora que conhece todas as linhas do escritor, mas que se resguarda diante da figura materializada dele. E nesse propósito de revisar, ela conhece o escritor cuja obra aprendeu a amar. Por seu lado, Antônio Donetti, decadente e velho, comete o erro emocional ao revelar seu amor.

Por um momento o diálogo entre os personagens rememoram as cenas vividas no apartamento do casal (que funciona como a única noite em que se dá a conversa do romance em questão)  vividos por Grace Kelly e Ray Miland em Dial M for Murder de Alfred Hitcock. As emoções são disfarçadas, como se eles conversassem sobre segredos que nunca poderiam ser revelados. Mas o vinho é um nivelador dessa batalha e coloca em campo os personagens com suas armas mais vulneráveis. Ler Um Erro Emocional e aprender um pouco sobre nossos erros, especialmente o que cometemos e os que a nós são submetidos, para o aprimoramento de nossas atuais relações.

Um erro emocional é literatura madura, repleta de jogos mentais que desanuviam os temores dos traumas.  A incomunicabilidade faz parte das relações interpessoais, mas o cometimento de um erro sempre oportuniza a possibilidade do conserto.

O travesseiro da rua

A sua cabeça doía como se carregasse todo peso do mundo. Não. Não tinha a ver com a garrafa de vinho que repousava silenciosa em sua frente vazia e solitária. Era a dor que vinha do pescoço e se irradiava por toda sua cabeça. Noite mal dormida. Fora de casa. Sem o calor e desvelo do outro. Sem o travesseiro de casa. E o que deveria ser o travesseiro, era o braço do sofá de dois lugares. Mal cabiam-lhe as pernas; mal cabia-lhe o corpo sem forma que agora se desenhava naquele micro espaço sem conforto. Conforto? O pensamento ia em direção a Ricardo. Mas este já não estava ao alcance dos braços.

 

Acordou sobressaltado como se quisesse acordar de um pesadelo. Mas ele inventara o pesadelo. Sacudia a cabeça numa tentativa de fazer tudo apagar de sua mente. Quem tinha culpa? Ele se perguntava e respondia com as palavras do psicólogo “nesse sentido os dois são culpados, pois em nenhuma relação pode-se atribuir a uma das partes a vitória.” Aquelas palavras se repetiam na sua memória e também nas últimas linhas do bilhete: a culpa diagnosticada é sua. Mas ele não tinha certeza do que realmente desejava. Sentia-se sufocado pela presença do outro. Já não se entendiam. O papo mantinha-se comercial. A cama apenas para descanso.  Onde eles estavam naquele momento ainda juntos? Perguntas e mais perguntas se faziam que nem os feixes de luz que entravam intermitentes por entre as frestas da janela do hotel vagabundo no subúrbio.

Não sobrara nada. Tudo ficara na casa do outro. E olhando para si, nada tinha sobrado mesmo. Apenas um orgulho imprestável. Nem ao menos recordava o que escrevera. Queria apenas deixar claro que não podiam mais ficar juntos. Não. Não houve traição. Pelo menos ele se orgulhava de tê-lo amado até o último momento e de sua parte nunca houve outro que interferisse no relacionamento deles.

Tentou levantar-se, mas um certo torpor tomava de conta dele. Agora era o efeito do vinho tomado de uma vez só, no gargalo, criando coragem para manter-se distante, isento, correto em sua atitude. A coragem lhe deixara quase morto, a cabeça vazia, e agora apenas zanzava por aquele pequeno quarto escuro, frio. A coragem apenas lhe aparecera naquele momento, logo, logo o álcool tomara de conta dele provocando a mais profunda indiferença quanto a sua vontade inicial. Tentou levantar-se, estendeu a mão como se pudesse dizer: me levanta Ricardo, me levanta. Mas sua mão parecia dança no ar escuro daquele quarto como se quisesse alcançar um vulto imaginário que pudesse parecer familiar. Tentou levantar-se e dizer que ainda o amava, que estava errado, que poderiam ter tentado mais uma vez. E então, relembrava-se do psicólogo a falar sobre isto, sobre aquilo. Alegrava-se com as palavras a seu favor. Viu? Ele pensava internamente. Eu não sou ruim. “Eu consertei as palavras para que não te magoasse.”- repetiu para si mesmo, engasgando com a saliva e acordando de mais um pesadelo.

Levantou-se, tentando equilibrar o corpo diante de um pequeno reflexo seu que se fazia na distancia de um anteparo de vidro. Mal podia se enxergar, mas se sentia mal por ter sido covarde. Covarde? Ele assumia uma culpa inconsciente, mas logo se livrava dela pensando na altivez da coragem. O novo. O novo seria essa nova fase; essa dor de cabeça; essa dor de estar sozinho e assumir parte dos erros. A dor diminuía e a realidade aparecia em toda parte; nas cores acinzentadas dos móveis, nas paredes escurecidas pelo tempo, nas vozes inaudíveis que se confundiam em sua cabeça. Um som parecia invadir os pequenos espaços abertos da janela, da porta, do vão. A música entoada era conhecida apesar da voz desafinada, o refrão na voz da anônima repetia a canção dos dois.  A poesia recrudescia memórias divididas, resgatava momentos divididos; os dois. O que eu fiz? Ele se perguntava entre um soluço de choro e outro.

A dor não parecia ter fim e confundia-se agora com a realidade mais nítida do que até os últimos minutos. Estar sozinho lhe dava a dimensão de sua responsabilidade assumida. A vida nova teria de ser resolvida assim nas emendas que iria fazendo dia após dia; noite após noite.

Pensou na outra garrafa de vinho. “Onde estava a outra garrafa de vinho?” Onde estava o substituto para a atitude daquele momento? Ele procurava a garrafa como se pudesse escapar daquele dia, como fez ontem. Ele imaginava que poderia invadir um outro sonho e sair daquele momento de dor, de dor física. A ferida causada parecia maior do que as chagas divinas. Quis gritar, quis suplicar entendimento; talvez fé para acreditar que poderia suportar aquilo sozinho. Porém, ele não queria acreditar em sua coragem, era mais fácil submetê-la ao vinho, afogá-la nesse estado de enlevamento de onde a alma alcançaria certa placidez. “E o dia seguinte?” Parecia se perguntar antes de perpetrar contra si aquele ato. Internamente, ele respondia que no dia seguinte o travesseiro da rua já não mais seria o mesmo de ontem.

 

 

Uma possível leitura do filme REDE SOCIAL

Passei a noite sem dormir, virava, revirava. Eu não sabia o porquê. Apenas pensava no dia posterior e como encarar o cansaço e a falta de ânimo.

Parece o início de mais um dos meus contos intestinos, mas esse relato foi verídico, logo após ter assistido o filme sobre a vida do criador do Facebook, Mark Zackerberg. E parando para tentar entender o que havia acontecido comigo, percebi que tinha a ver com minha frustração interna de não ser como ele. Mas aí comecei a fazer uma lista de coisas que me distanciavam de Zack: estudante de Harvard; computação; excentricidade (visão deixada pela leitura do filme de Jonh Huges), arrogância- às vezes a tenho; genialidade. Esta última ainda é tema de discussão entre meus iguais.  Porém, muita coisa me distancia desse “empresário” das mídias sociais, mas ao mesmo tempo me aproxima daquela urgência para o sucesso; da deflagração de uma guerra contra o estabelecido; da vontade de superar uma paixão frustrada- Mark alega que já namorava antes de criar o Facebook-; de acreditar em si mesmo.

Como escrevi num blog:

Falando em hedonismo, vejo o mesmo olhar tanto em Mark quanto em Rimbaud. Um olhar de transgressão e boemia. Mark não passa de um tipo desses gênios que surgem com uma visão atípica sobre sua própria obra. Em entrevista a jornalista do programa 60minutes, Zackerberg disse que não sabia o que poderia ter criado. Era assim com a poesia de Rimbaud-jovem e gênio- e incosciente da sua verve poético-transgressora. Coisas que ainda só valorizamos quando estes personagens envelhecem nas páginas amarelas do tempo; ou no mural do FACEBOOK. A propósito, facebook me!

Tem a ver com acreditar no projeto de vida que começamos, empreendemos, esboçamos ou sonhamos- no meu caso, mesmo apostando em ideias impossíveis e promovendo a transgressão. Mas, voltando ao início deste texto, eu tive um sonho sobre a criação de uma rede social na qual uns ajudavam aos outros a arranjar empregos, recolocação no trabalho, etc. E o que entendia de meu pesadelo era talvez essa mensagem subliminar que residia na história de Zeckerberg. Ele mesmo, quando perguntado pela jornalista do 60minutes , sobre sua impressão sobre o filme, disse que existiam coisas falsas e verdadeiras, por exemplo, as camisas eram as mesmas que ele usava; já a história dos gêmeos era mentira. No entanto, ele afirmava que recebeu milhares de mensagens que mencionavam como o filme havia mudado a vida deles. Essa, segundo Mark, teria sido a maior verdade do filme.

Talvez tenha que acreditar mais em meus projetos; parar de desenhá-los sem os contornos necessários para o correto planejamento de minhas metas. O sonho não parecia apenas um alerta do subconsciente cansado de pelejar, mas um ultimato. A idade também é uma diferença entre mim e Mark, mas realização de sonhos só precisa de ação, enquanto houver vida há tempo para sonhar. Então, ainda posso alcançar uma grande ideia (acho que posso) e acreditar em minhas potencialidades.

A música que foi feita pra mim

Eu ouço a música que foi feita para mim. Está em outra língua. Causa-me confusão; procuro entender as palavras que não sinto o significado. Então aprecio-a de outra forma, sentindo a melodia em minha homenagem. Sim, eu tenho uma música feita para mim.

No entanto, quando procuro o autor, que está longe, a distância se parece com a delicadeza da tradução: está na sutileza de uma palavra não entendida. Fico nessa procura pela concretude das palavras e, estranhamente, encontro no registro fotográfico as possíveis interpretações para a música idílica. Começo a entender pelas imagens vivas as palavras lacunosas. Entendo, imagino, internalizo a intenção da música. Sofro, choro, esmaeço com esse entendimento solitário.

Repito várias vezes até a exaustão; até que o sentimento se afogue na inundação de entendimentos. São múltiplos, discordantes, congruentes. Deixo a música entrar e penso que não é justo sofrer por amor;  refrear o sentimento de querer bem. Penso nas escolhas que fazemos, e a distância que sempre atrapalha o entendimento das coisas. Ficamos cativos dessas instâncias autossuficientes.

Para o autor a música conforta a dor, numa transposição de sensações tácteis para as intangíveis. Enquanto isso, do outro lado de um grande abismo existencial, fica a dor e a lembranças inalcançáveis. Fico eu nessa tentativa de entender como o amor pode nos unir agora. Não há solução para essa dimensão das coisas sentidas.

Repito pela última vez com o coração menos aflito, refugiado naquele plano físico da imaginação chamado resignação. Experimento a falta de tudo- inclusive do total entendimento da canção- e me acomodo na interpretação ilusória do vazio preenchido. Invento um sonho e materializo a intensidade do toque, o perfume da pele e a existência mágica.

Deitado na sargeta, mas olhando para as estrelas

Deitado na sarjeta, mas olhando para as estrelas

         Pela trigésima oitava vez fazia, com as pontas dos dedos, o mesmo caracolzinho no meu cabelo, olhando fixamente para o céu empoeirado. Não combinava com o chão branco forrado de uma penugem das paineiras. Se estivesse alcoolizado diria que nevava aqui nesta terra seca. Mas parecia que estava sobre um chão de nuvens. E quando sentia um certo frio nos ossos, descobrira que estava sóbrio e sem casaco, debaixo do tempo parado, de uma sombra morna e de uma repetição de sentimentos.

        Estava se sentindo na sarjeta, mas olhando para as estrelas e isso lhe dava certo contentamento de ser humano, apreciando um céu que estava ali para todos. Mas nem todos se sentiam humanos por isso. Talvez ele sentisse essa pureza em meu coração porquanto o que mais necessitava era sentir-se mais humano naquele momento.

        41 anos e o pé ainda estava sujo. Parece que a sujeira estava ali desde a primeira vez. Incrustou como limo. Passou a mão para limpar um pouco a sujeira. Também tinha um quê de resgate de minha humanidade nesta atitude de limpar os pés.

         Então levantou para começar o dia.

        A cabeça parecia pesar o fardo dos erros do mundo. Ele assumia que carregava, como Atlas, o peso do mundo nas costas por conta de uma percepção cristã. Sempre bebeu muito, correu muito, atravessava as margens em poucas braçadas. Na outra margem, observava o trajeto da volta. Mas sem muita preocupação. Pensava que a onda de volta o trouxesse em sua crista. Era pensamento vão, como este que o invadia agora. Mas ele sentia o peso de tudo em suas costas. Para falar a verdade, parecia ser o peso de uma constante ressaca seguida da outra. Enfim, levantou-se.

        Sentia uma vontade de ouvir aquela música. Bem da verdade, ouvia-a todo dia. Mas sentia naquela hora a necessidade de ouvi-la com atenção. Sentou-se em frente ao Café Montserrat. Ficava bem pertinho de onde dormia. Por esta razão, caminhara apenas um bloco curto de prédios. Sentou na beira da calçada mesmo. A música já tocava. Parou apenas para ouvir. Hoje parecia diferente. Ela começou de novo. Parecia que alguém sabia que queria ouvir do começo. Puxou as pernas no abraço de seus braços. Trouxe-as para perto de meu corpo. Sentia-se como um menino que cumpria um castigo, ouvindo vozes internas de culpa e resignação. Então ficou lá sentado, como um menino culpado de uma travessura contra as regras, contra o mundo, contra Deus; cumprindo aquela rotina todos os dias. Mas, enfim, estava ouvindo a música do Montserrat. Assumia que não entendia muito da música. Mas sabia se tratar de uma música clássica por causa da clientela do ambiente, e também por pegar uma conversa de dois distintos senhores que saíam do café rumo ao táxi. Ouvia-os falar que gostavam da música daquele lugar. Como sempre quis entender daquela música, parou para ouvir o diálogo; aproximando-se silenciosamente para não interromper. Logo após ter ouvido que se tratava de Debussy, eles o olharam como se repreendessem a criança que saíra do castigo. O olhar era repreensivo e confirmava a reclusão ao espaço da calçada na posição de castigo.

        Mas hoje eu quisera ouvir Debussy sozinho. Sentou-se naquela posição. E não pediu nada naquele dia. Ficou apenas cumprindo seu castigo silenciosamente. E a música entrava nele como nunca antes; talvez, hoje, por que limpara seus pés, quisera tirar a sujeira despercebida há anos; somente porque hoje sentira que podia levantar de seu sonho nebuloso; da cama de algodão natural. Nessas razões simples do ser, residia a falta de pertencimento àquela situação rotineira. Aquele dia em si parecia diferente. Sentia-se diferente.

        As pessoas passavam como se não fossem mais um monte de insensíveis. Todas elas se pareciam com ele. Ele as olhava agora nos olhos. Via-se no senhor do lado, degustando seu café matinal. Via-se na senhora passeando com o cachorro; no menino que pedia mais bolo pra mãe.

        Olhou para seus pés, os dedos comprimiam até atingir o espaço exato da sandália. Olhou mais uma vez , e viu-se sentado na cadeira do café Montserrat, tomando café, ouvindo música clássica. O jornal se desdobrava em duas folhas abertas diante de si. As notícias falavam de uma guerra que não era sua. E nesse novo estado do seu ser, não se importava com os outros.

       Mais uma vez comprimiu as pernas, abraçou-as de novo, sentiu-se menor, mas estava livre do castigo.  A música continuava. Debussy! Tentava olhar para os pés, mas não conseguia vê-los. No entanto, sentia ainda o frio da manhã sobre a sola do pé. Estava descalço. Sentia a mesma dor anterior na perna. Ficou parado até que a última nota ecoasse no vazio de sua existência.

       Levantou-se. A calça quis descer pelas pernas. Ele a segurou como se segurasse toda sua última gota de moralidade. Olhava em volta com a preocupação de sempre. Mas decidiu caminhar para frente. Ergueu o semblante sujo e triste- com a moldura de pelos grossos-, até a altura do sol que começava a nascer forte e quente. Andou como nunca, esperando encontrar o que tinha perdido, enxergando uma pequena lembrança do que havia perdido.

        – Onde estão minhas sandálias?- ele se perguntava cegamente.

        Eram as sandálias que ele havia perdido. Elas aqueciam seus pés calejados. Ele as havia perdido numa noite de sonho. Acordou na noite sentindo falta de um dos pares da sandália. O pé ficara desprotegido; o frio mais intenso; noite mais curta e mais uma sensação de perda. E nesse dia claudicava como se tivesse perdido a própria perna. Caminhava com a coluna pendente para a esquerda; caminhava como se todos os pudessem ver nua nudez de civilidade; como se pudessem ver sua revolta com o roubo de sua identidade.

        Mas como se pudesse encobrir e resguardar o que ainda possuía, cobriu-se com o cobertor que achara no lixo e assim conseguiu aplacar aquelas dores que sentia na alma. Caminhou mais e mais. Duas ruas, dois blocos, mil pessoas, mil rostos anônimos. Sua busca era incansável. Seu pé descalço e sua única sandália sentiam o peso de sua incompletude. Caminhava repetindo aos berros:

        -Onde estão minhas sandálias?

       Mais um dia se passou e a única riqueza que lhe existia eram os sonhos com tufos de algodão que caíam sobre sua casa ao relento; sobre seu jardim de esteio; sobre suas roupas emprestadas. Tudo parecia como o dia anterior. Seguia uma noite após a outra; e em meio as preocupações fisiológicas e existenciais, rompeu com um grito o silêncio incrédulo da multidão, perguntando sobre sua sandália perdida.

        …Levantou-se para mais um dia. Ainda as paineiras, a sombra morna e a repetição de sentimentos. A sandália faltosa era difícil de se esquecer. O peso de seu corpo aumentava a cada dia; sua cabeça também. Levantou-se. Tentou correr. O cabresto da sandália quebrou. O ritmo de sua corrida parou à medida que a sandália se esfacelava com a violência de sua corrida incauta. Sentia os dois pés agora no chão desprotegido, molhado, seco, liso, limpo, sujo, nobre, ríspido, clássico, pagão, cético, enfim , todos eles.

        Saiu gritando no meio da multidão nua, crua, sem vida. Saiu gritando loucamente, abrindo com as mãos o ar que ia de encontro ao seu peito:

        – Quem roubou minha vida? Quem roubou minha vida?

NOVO LIVRO

Errorragia é uma compilação de trabalhos entre contos e crônicas, resultante de um neologismo de erro e verborragia; ou de uma certeza e uma insegurança. As histórias se imiscuem entre coisas reais e muita criatividade ao ponto de enredarem situações que realmente aconteceram e aquelas que repousaram no íntimo de uma situação inventada. Não se sabe o que foi feito nas entrelinhas da experiência ou na divagação de um sonho inconfortável. Errorragia é um erro entre muitas coisas que nunca foram aceitas; compreendidas. É também a verborragia do medo, enquanto as histórias vão procurando sua altivez. É a colisão das ideias que misturam o erro e a hemorragia cerebral. É a visão de pensamentos que se encontram no erro e no acerto, mas nunca essas duas instâncias se harmonizam nestas palavras.

Biutiful

Genre: Drama, Horror
Official Site: http://www.biutiful-themovie.com
Director: Alejandro Gonzalez Inarritu
Run Time: 148 minutes

 

Até agora, estou ainda sem saber qual emoção o filme Biutiful provocou em mim. Embora seja um drama em pequenos subconjuntos de dramas menores, o filme tem um toque de critica social e misticismo. É, acho que essa é a mistura de sensações que agora estão sendo processadas em minha cabeça.

O filme começa com um silêncio incomodante, logo interrompido pela conversa, em sussurros, entre Uxbal e sua filha, detendo-se na beleza de um anel que era da avó da menina. Depois, já no final do filme, utilizando o recurso In media res, trazendo de volta esta cena inicial, pelo menos os diálogos, numa outra perspectiva. O que também me causou certa confusão na interpretação da leitura do filme. Mas vou deixar aqui minhas impressões sem recorrer as leituras e críticas já feitas.

O filme se passa no tempo presente- apesar das incursões, talvez em pensamento, de Uxbal no futuro- em Barcelona. A cidade está tomando pelos Africanos que detém o mercado de produtos falsificados, vendendo-os nas ruas da cidade, e que são fabricados por outra “gangue”, a dos chineses, revelando a invasão de estrangeiros da atual Europa em crise. A realidade se confunde com muitas outras realidades num subúrbio de uma grande cidade. Este é o pano de fundo da estória de Biutiful que retrata a beleza que existe num amor de um pai aos seus filhos. Javier Bardem interpreta Uxbal um pai dedicado, mas atormentado com os negócios que está envolvido, a ex-mulher maníaco-depressiva e seus filhos. Acresce-se a isso, a mediunidade disfarçada de charlatanismo, e esta manifestação o atormenta-o por várias vezes, como real faculdade sobrenatural, durante o filme- parte de minha confusão é devida a este fato – e da qual ele consegue alguns trocados.

O núcleo do filme é divido em pequenos dramas, como foi dito acima. Tem o drama da imigrante africana que tem o marido assassinado numa perseguição da polícia; o do chinês homossexual “dono” dos chineses que trabalhavam na fábrica de bolsas falsificadas; as crianças que sofrem com a separação dos pais e a mãe bipolar e, a bem entrelaçada, construção das histórias que se relacionam.

Beautiful causa uma leve angústia, pois não tem uma dinâmica de ações. Muita dessas ações se dá no plano das emoções, nas tomadas poéticas de algumas cenas, na introspecção das imagens fortes, principalmente nas cenas em que ele começa seu martírio ao descobrir o câncer na próstata. As cenas de seu sofrimento são bastante densas e comoventes.

O filme é um pouco longo, mas compensador pelo final surpreendente- Bardem está muito bem no filme- no qual as borboletas somem, a africana decide ficar e Uxbal decide ir embora. O recurso do retorno a imagem inicial se desvela de uma forma inesperada. A última conversa me leva a crer que Uxbal era uma espécie de vampiro imortal que se preservara com seu rabo de cavalo por anos. Ao final, pôde realizar o sonho do carinhoso filho Mateo, levando-o para ver a neve nos Pirineus. Pirineus is biutiful!

A Espera ( Esperança?)

A espera me leva a pensar na peça de Beckett onde os dois mendigos esperam, esperam..pela presença de Godot. A peça é o ensejo para tratar de assuntos filosóficos; Deus como Godot uma tautologia para God ( Deus em inglês).

Mas, enfim, estou nessa espera como se aguardasse pelo Deus, que resolveria tudo, mas nunca aparece para estreitarmos os laços de amizade. “Nada a fazer” diz uns dos personagens. E eu estou aqui nessa espera na qual não há nada a fazer, pois esperar depende dos outros. O outro dever se manifestar com a negativa ou a afirmativa. E a sequência da evolução é reacionária aos mandamentos do esperado. Devo continuar? Devo desistir? E por isso estanco ou me catapulto. O fato de esperar sem ter as notícias necessárias nos coloca em eterno estado de duas instâncias: da assunção do trabalho bem feito ou da insegurança na confecção do que nos propusemos fazer, realizar. O mesmo quando acontece com o pôr-do-sol, a iminência da permuta de perspectivas, o dia deixa de ser claro para a existência da noite. E como pode ser danosa essa troca. Os estados emocionais se alternam na possibilidade e na impossibilidade. Ah! A espera! Como pode ser angustiante a espera!

Mas pode ser uma perda de tempo produtiva. A espera pode representar uma parada no processo de criação; uma reflexão para o trabalho realizado. É o tempo para a revisão dos atos, da palavra.  Pode ser também um momento para a reavaliação dos processos constitutivos de uma prática ainda em aperfeiçoamento. A prática pode ser reorientada, planejada novamente. Por essa razão, a espera revela uma outra perspectiva em toda uma existência desviada ou extraviada.

No entanto, quando esperamos dos outros o sim ou o não, ficamos reféns de uma aprovação ou de uma reprovação, a aceitação ou a recusa. Sendo assim, ficamos no eterno aguardar das coisas e suas repercussões. “Nada a fazer”, ainda parece o mais adequado a se fazer. Tanto que a leve mudança nos personagens, como quando Pozzo e Lucky aparecem, os rostos dos mendigos se enchem de esperança, logo frustrada pela resposta que não vem ou ainda quando o menino aparece para dizer que Godot não aparecerá esta noite. Que não seja assim em relação as minhas expectativas. Ainda me resta esperar, ainda que demore. Apenas não desejo por uma vida toda esperar, senão o momento necessário para a resposta afirmativa e para que, nesse ínterim, reavalie, reflita, aprenda e amadureça.

O encontro consigo mesmo

As coisas acontecem ao mesmo tempo: o ferro passa por sobre a roupa e sua voz se insurge alta e no ritmo da música que toca na sala de estar. O sentimento que brotou dessas duas atividades não tem explicação difícil. Sim, existe uma motivação externa. Esta antecipação da roupa bem passada e a felicidade de estar cantando têm a ver com um encontro; a promessa do encontro.

A música se ouvia alto pelos corredores do pequeno apartamento. Entre ajustes da gola e do punho, o ferro parecia dançar por entre as dobraduras no mesmo ritmo da música. A música falava sobre corações partidos. E ele nem poderia imaginar em falhas naquele momento. Nem na camisa que seria usada para o encontro, nem no encontro em si. Estava tudo bem. “Nada pode dar errado. Estamos juntos!” A música continuava a tocar em seu rádio. Ainda existiam muitas dobrinhas insistentes que não se dobravam ao calor do ferro. Este ainda deslizava sem mais problemas pelas grandes extensões da camisa. O ritmo de sua voz alternava com as melodias que se insinuavam tristes e depois vinham altivas.

“Nada pode dar errado. Estamos juntos!”

 O amigo chegou quebrando aquele estado das coisas. De longe se ouvia a música e sua voz- quis dizer em tom de leve reprimenda, mas manteve-se calado. “Essa alegria e a roupa nova que tá passando, tem a ver com um encontro. Só pode ser um encontro!” o amigo desentalou o comentário que não quis sair antes. O outro olhou ainda desconcertado com o comentário. “Por que tinha a ver com um encontro?” ele se perguntou silenciosamente. A felicidade podia existir por si só, como evento partícipe daquele passar do ferro. Apenas como uma forma de imprimir um ritmo diferente a uma simples ação. O amor, ou melhor dizendo, esta felicidade pode ser para nós mesmos, para um momento simplório.

“Aposto que você marcou um encontro!” o amigo quis insistir, tentando roubar informação preciosa. O outro continuou passar o ferro, agora, reforçando o que já havia passado. Sua motivação de antes estava sob nova consideração. Felicidade não deveria combinar com a presença de outra pessoa. Ele deveria estar feliz porque sua condição de existência presumia uma necessidade interna. Nada parecido com a necessidade de dividir a felicidade com outra pessoa, e depois de usar, receberia de volta sua parte doada. Mas vinha meio danificada. Ele deveria estar completo, pensava enquanto passava pela trigésima vez o colarinho da camisa.

“Quando a pessoa vai ligar?” o amigo tentou a última vez. O outro que já havia parado de cantar, parou de fazer de desfazer as nervuras. Parou para olhar para o amigo autossuficiente. Nunca precisou de alguém para reafirmar sua felicidade. Pelo menos não cantava pelos cantos do apartamento, nem parecia que passava uma roupa que usaria num encontro.

Parou por um instante para entender o que estava fazendo. Por que deveria esconder o que estava acontecendo? Devemos nos enganar ou enganar aos outros? Aparentemente, mentir aos outros é bem menos doloroso. “Eu vou deixar uma roupa passada pro trabalho. Não vou deixar para passar em cima da hora do trabalho. A música…é…a música foi por acidente que liguei o som, de repente a música começou a tocar. Simples assim! Simples assim, parecia a reposta que quis usar. Mas não teve coragem de mentir para si, por isso, usou essa desculpa mesmo. Olhou para o celular e nada, nem uma mensagem.

A hora do encontro estava próxima. Mas o telefone não tocava.

[...]

O tempo passou muito depois do minuto que poderia ser do encontro. Sua alegria se desfazia a cada instante. O amigo falara em estar bem consigo mesmo; que estava feliz por ter tido hoje um momento seu. Sentou a mesa do bar e bebeu sorvendo o gosto da vida sem preocupações, sem intervenções alheias. “É bom estar assim solteiro, mas não sozinho” atestava assim sua filosofia em poucas palavras que resumiam mais uma defesa do que um estado de fato. Mas o outro não entendia as suas próprias convicções filosóficas. Sabia que o encontro o encheria de vida, a vida que promovera a mudança instantânea do seu humor, como o fez no momento da música cantada, no momento da roupa passada. “De que adiantava todo o esmero?” ele se perguntava olhando para o corredor vazio.

O tempo passou do momento do que poderia ser sua felicidade. O telefone não tocou. Já não ouvia o som do amigo perturbador. Bom, ele pensou. Assim não revelaria no seu rosto a decepção do bolo que houvera levado. Mesmo assim, tomou seu banho preparatório, num mesmo tom ritualístico empregado à camisa passada. Cantou a música que veio a cabeça. “Não diga que seu amor está me matando. Você sabe o quanto isto significa pra mim” era o refrão da música.

Depois de muito tempo da hora do encontro marcado,  tomou um banho, enxugou-se demoradamente, secou o cabelo, passou o pente, passou a colônia, colocou a roupa que passara, abriu a geladeira, abriu uma cerveja, foi para a sala, colocou o filme no DVD, sentou-se no sofá e curtiu a presença de si mesmo e de suas próprias alegrias; sem preocupações com a roupa passada ou a música que tinha na cabeça.

Egito e Brasil: comparações pertinentes

Estive pensando, depois da leitura do livro de Edney Silvestre, Se eu fechar os olhos agora, e lembrei de uma fase do Brasil, durante o governo de 34, quando vivíamos a ditadura de Getúlio. Não sabíamos ainda o que era o gostinho da democracia, e nos alternávamos em oligarquias que governavam de forma nada satisfatório. Pois bem, Vargas através da “Revolução de 30″, prometeu uma reforma nesse molde oligarquico-paulista-cafeeriro-mineiro-leite, o que, na verdade não passou de uma tautologia disfarçada. Então, observamos um certo Aí veio a Constituição de 34, copiando a Constituição de Weimar, adornando-a, aqui, de democrática. Então, temos ao longo de três anos a insurgência dos comunistas e a “pretensão de proteger a democracia” do governo Vargas, então o golpe de 1937, o plano Cohen, e então o estado novo. Pena que ainda não tínhamos o FACEBOOK, o TWITTER, para que essas ideias fossem veementemente rechaçadas. Pena que não temos um povo como o egípicio que talvez pensem, genuinamente, nos moldes revolucionários e cheios de propósito como os da Revolução Francesa. De repente, a ditadura de Mubarack parece repetir a história mansa de nossos registros históricos, nossa história quase apagada.Então, novemente, pego-me pensando na volta de Vargas, num outro movimento de eleição democrática e a escolha de um ex-ditador, como real representante da nação. Então, Mubarack, auspiciado pelos EUA- que pelo menos pediu a transição imediata-tenta a genuinidade do governo até setembro. Quiça eleições democrática tragam um novo Mubarack e uma nova oportunidade. Será? Olhando o passado eu vejo o presente do Egito como um Vargas repaginado. Olhar para a situação do Egito, hodiernamente, e repensar nossa postura pacífica de anos pretéritos. A situação que os acomete é uma possibilidade de rever nossos prórpios conceitos e entendimentos que temos acerca de nossa História. Olhar o Egito é olhar nosso passado, mas com a alternativa de mudança.

O Cisne Negro

“the only person standing in your way is you!”

No meu livro, (veja aqui) têm algumas passagens em que o narrador, que não deixa de ser um espectro tautológico do escritor, vê-se assombrado pelas erínias- as bruxas vingativas. Elas o perseguem por ter cometido crimes de sangue; assim como em Cisne Negro, a bailarina vê-se perseguida pelos seus próprios medos. Uma sequência paranóica que coincide com o cometimento de um verdadeiro crime de sangue; a cena final do último ato.

Natalie Portman interpreta uma bailarina que sonha em ser a princesa transformada em cisne que precisa quebrar a maldição por meio de beijo de amor, um príncipe redentor de seu destino. Os cisnes, tal qual na opera do lago dos cisnes, em que os atos se alternam na cadência da música, alternam-se em atos nos quais a dramaticidade do papel da bailarina  se intensifica em cada pirueta. Nina está bem, confortável no seu desempenho do Cisne Branco; não seduz nem emociona nessa performance. O problema é encenar e dar vida à maldade dentro de si e encarnar o seu lado mais soturno. O cisne negro surge, dentro dela, a partir de sua mordida intempestiva, dada em resposta ao beijo do diretor da companhia (Vincent Cassel).  Este marco, apenas temporal, dá início ao tormento da bailarina na busca da perfeição da interpretação do papel. Ainda assim, com todos os esforços ela não consegue despertar o grande cisne negro. Mas o papel da princesa enfeitiçada é garantido à Nina como recompensa ao beijo sanguinolento. O diretor da companhia sente-se seduzido, mas ainda Nina teria de enfrentar suas inseguranças nesse meio tempo.

Ao lado desses desafios na interpretação dos dois cisnes, Nina vivia um drama domiciliar. Sua mãe não deixava de tratá-la como se fosse uma adolescente de 12 anos, ainda a ninava- não é mera coincidência lingüística a correlação- com os toques clássicos de uma caixinha de música em que uma bailarina dançava despercebida. Fica subentendida uma relação de dominação e ligeiramente, angustiosamente, incestuosa. Fracassos passados e cobranças camufladas de carinho em excesso são os ingredientes dessa relação caseira. Fato que provoca o estrangulamento da relação.

A trama começa a se desenrolar quando Nina começa a desafiar a rotina de sua vida, permitindo sair da bolha de segurança que criara na dedicação abnegada de uma bailarina quase perfeita, não fosse sua insegurança. Esta se materializa na bailarina substituta que parece lhe roubar os tempos preciosos entre uma pirueta e outra. Nina enxerga nos rostos dos bailarinos o desejo pela recém chegada bailarina; até mesmo os olhos do diretor ofuscam co tanta leveza e libido espontâneas. Assim, Nina adentra num verdadeiro jogo de verdades e mentiras, desejos ocultos e superficiais.

A automutilação é um jogo representativo daqueles que não se permitem ao desejo da carne, da vida. É uma forma de procurar o prazer de forma inversa, culpando-se por não poder chegar ao topo da liberalidade. Mas é assim que Nina enfrenta seus medos, num eterno jogo do real e fictício, ainda assim não despertara seu cisne negro. Seduzir. Esta seria a chave para o enfrentamento.

E como num thriller psicológico, o diretor do filme encapsula, num derradeiro delírio, a vingança das erínias sedentas de sangue. E no ato final, na cena final, ele promove o encontro entre as antíteses da grande opera. Nem o feiticeiro, nem o príncipe são os destinatários de seu amor. E o grande desfecho dessa opera cinematográfica são as últimas palavras de Nina, ao despertar o equilíbrio da dualidade.

Coração de mãe

Pareço um grande covarde tendo que deixar para trás tudo o que revivi aqui. Parece que estou matando alguma coisa que vai estar viva, enquanto sigo para outra vida, minha vida, minha escolha. Tento parar de pensar assim, mas já é a saudade que toma conta de mim.

Todo dia acordo cedo. Vejo minha mãe se levantar e cumprir seu ritual existencial. Em meio as suas panelas, providencia o calor necessário para o café da manhã. Entre tantas tarefas ainda consegue reservar  um sorriso tímido entre uma pitada e outra. Olha pra mim e fala: – Já estou com saudades meu filho!

Tento ser forte para não me desabar em pranto mortal, enquanto por dentro escondo a alma em frangalhos. Ela separa a xícara, a colher e o leite. Deixa que eu me sirva, porque sempre foi assim. Eu sempre me servia. Mas sua vontade era de me servir tudo na medida dela, na medida de seu carinho. Logo, ela se sentaria à cabeceira da grande mesa e conversaríamos, só nós dois, sobre tudo o que nos faltava desde o último encontro.

Eu não consigo parar de olhar para ela e sentir um carinho que não consigo plenamente descrever. Não consigo verter em palavras essa ligeira dor misturada com felicidade; essa indulgência misturada com cuidado; essa saudade misturada com partida. Fico com o tempo parado sobre minhas vistas, observando a maneira como ela come, fala, sorri, olha para mim, sem precisar dizer nada. Como queria que fosse tudo isso eterno e não dolorido, agora, que começo a chorar. É minha mãe que estou deixando pra trás. E tudo o quanto significa em minha vida se vai, ou fica, aqui nesses gestos simbólicos repletos de sentido. Invade-me agora o pensamento de que não posso viver disso, de idas e vindas, pois sei que, um dia, eu não terei essa visão novamente. Ela se reduzirá, perdera o viço, a força, a alegria, a existência que me motiva.

O choro não cessa à medida que tento escolher essas palavras. É dolorido pensar que posso deixar para trás e não ter de volta. Podia estacionar o tempo e deixar que ela esperasse, sempre, pelo nosso eterno desjejum juntos. Mas eu parto sempre na melhor hora, deixando tudo para trás.

Não tem feijão mais gostoso; não tem dieta que me faça escolher o que comer. Como com os olhos fechados. Tudo que ela faz tem um gosto diferente, gosto de amor, de carinho de mãe. E onde encontrar isso?  Não tenho outra fonte dessa companhia, dessa vazão, dessa dimensão. E sempre, na melhor hora, tenho que dizer adeus. Eu vou e não sei se quando voltar ainda encontrarei o sorriso e a surpresa de minha existência. Invento de viver em outras terras, mas não consigo inventar o que ela tem pra me dar. Não consigo segurar o tempo.

Eu vou e pareço que não volto e sinto no suspiro da ligação, ao telefone, que é um suspiro de vida pela metade; é um lamento; é um pedido conhecido e sufocado. A dor e a alegria se misturam numa sensação sem nome, que só é sentida se se diz alô e adeus. Alô e adeus se complementam como uma solução deletéria, na qual nos matamos lentamente.

Eu a deixo sem repostas às perguntas sobre a volta, o retorno, uma data. Eu vou como se não soubesse falar coisas simples, como: daqui a pouco volto, ou até breve. Parto com o sentido de que tudo se perde no passado recente e, com o tempo, se transforma em apenas memórias.

Saber que sou covarde é reconhecer paradoxalmente que, ainda que eu parta sem uma definição para as respostas do retorno, da volta, a ausência que me acomete é a sensação de completude que eu sinto, mesmo longe, de um amor que nunca vai se acabar.

O peso da realidade

Incrível como a imaginação pode ser tão traiçoeira. Aqui sentado olhando para os desenhos no azulejo da parede, vejo figuras humanas, monstros, rostos de amantes antigos, a morte disforme, uma pêra madura, meu arremedo de caricatura. E fiquei horas a observar as histórias que podia interpretar; as pequenas histórias que podia contar para mim mesmo, acreditando que conseguiria fugir daquele instante. O gato saía de fininho até encontrar um pequeno pedaço de queiro meio borrado. Aí a labareda de fogo se avolumava e queimava apenas o ar que era da mesma cor do azulejo rajado. Parecia um céu deflorado cheio de pontos que poderiam ser estrelas, se fosse uma noite. E o rosto do ditador ficava parado. As condecorações eram claramente perceptíveis, e ele tinha uma arma que apontava novamente para aquele céu amarelado. Num único quadradinho podia ver uma história completa: os homens conversavam sobre a mulher do lado. A mulher do lado tem olhos manchados e rosto esquálido. Um avião passa rapidamente por sobre as cabeças de um monte de pequenos seres. Parecia que tudo existia lá naqueles desenhos instantâneos. Podia até ver pessoas antigas que já passaram pela minha vida; decerto com outros finais para elas: faces jovens, esquecidas. Tantos outros monstros: o bicho papão, a mula sem cabeça, meus piores pesadelos. Ainda que quisesse ver os sonhos eu não podia visualizá-los naqueles pequenos quadradinhos. Ficava horas a fio, tentando encontrar meu rosto. Mas meu rosto não se mostrava. A imaginação que tinha sobre essas imagens fazia parte de um mundo de memórias, mas eu não conseguia ver minha própria realidade.

Algo maior do que liberdade!

As vozes internas falam de liberdade, mas, lá no fundo mesmo, elas te insuflam para algo bem maior. E o que é isso? Posso passar uma vida a pensar no que seria isso e perder a luz que me orientasse para um caminho alternativo: uma felicidade autêntica, mas menor.

Por que me satisfazer com a verdade ampla, se me basta a comezinha? Aquela sutil lembrança de que amanhã tenho um café sobre a mesa, o sorriso do dia ensolarado e o chão firme sobre os pés. Por quê?

Por que me antecipo na infelicidade se de minha cobertura não vejo ainda mais perto, como quero, o brilho do dia; se bem aqui embaixo, debaixo de minha  castanheira, consigo ver a cor das flores, do lago, dos rostos? Por quê?

Eu não quero o pleno, mas apenas o completo: o almoço completo, um cheiro completo, um abraço completo, um carinho completo. Não preciso das coisas desmedidas. Tudo de um pouco basta.  Por quê? Porque assim não morro de fastio, mas morro de satisfação.

Se me faltar algo, vou lá na fonte de tudo. Eu mesmo me rego, me aguardo, me refresco.

Por que o medo, se eu tenho o amanhã?

Um Buquê Improvisado

 O NOVO LIVRO DO ESCRITOR ROBERTO MUNIZ DIAS

” O que poderia pensar de mim mesmo se tivesse minha memória pedido? Saberia falar de dor? O que seria prioridade? Como reinventar os cheiros e prazeres? E depois disso tudo como resistiria o amor?” 

‎”A hesitação faz parte do novo, do começar. Queria te dizer que quero me separar - o problema não é com você é com o outro.”

“O que ela quer de mim apesar de saber de tudo. Um outro filho? E depois, como vou organizar essas coisas mais intestinas? O que ela quer de mim, além de me tirar o sorriso dourado?”

“E a mentira contada pra si mesmo é, talvez, a maior das mentiras. Mas o que está a minha frente nesse reflexo amorfo? Eu, o outro? E a família esperando na sala, o que querem de mim?
A resposta é simples: a porta, o armário ou o abismo?”

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O espaço das ideias

O espaço me aperta.

Meus quadros, meus livros, a mesa, o corredor, o chão estão em abraçando. Mas é um abraço apertado que me sufoca até que me sinta tal qual um móvel dessa sala. Ficamos estáticos nesse abraço. As ideias vêm como disparos de tiros a esmo, como se todos fossem possíveis criminosos. E como se meu anteparo para a bala fosse uma parte de mim- esse pedaço de ideia solto do ar. Então eu era o criminoso e o algoz. Eu escrevia e apagava minhas próprias palavras como se pudesse fazer e eliminar o crime tudo ao mesmo tempo. O que era a ideia pra mim, senão uma vontade de descrever um sentimento? Mas eu me enchia de vontades mudas que não podiam ser vertidas em ideias. Ficava parado pensando na próxima sensação ou no próximo crime. Que ideia matar? E isso me causava angústia porque me obrigaram a apagar um parágrafo inteiro, como se não pudesse entender a ideia de forma enxuta? Tinha que ser assim, daquele jeito. Qual a palavra que não podia existir? Era igual ao abraço, obrigando-me a aceitá-lo sem saber se me caberia naquela sala. O pensamento poderia invadir o espaço todo, enchendo de ideias mortais ou mortíferas. E quanto a mim, como poderia safar de meus sentimentos? Estou lá parado e nem parece que estou em movimento cerebral, nem parece que os sentimentos se ricocheteiam e que a ideias podem me matar. Eu posso me matar; eu posso apagar as palavras; eu posso virar a página.

O quadro tem figuras incompreensíveis e as pinceladas parecem falar algo. A mesa parece segurar todo o peso de minhas ideias. O corredor se encurta e apenas me caibo ali. O chão acorda e abre sua boca por onde entro e escorrego até um fim. Pedem para eu apagar as linhas, mas eu não consigo imaginar isto tudo sem movimento. O quadro, a mesa, o corredor e o chão precisam me devorar. Eu preciso que eles se movimentem e deem vida a minha história.

Estado de espírito

Estou um pouco cansado, mas não é desistência é descrença.

Estou quase na beira, mas não é suicídio é mudança.

Estou na tentativa, mas não é dispersão e sim escolha.

Estou na procura, mas não é por um filho é por uma razão.

Estou na dúvida, mas não é falta de meta é a certeza de que posso perder.

Estou preocupado com o tempo, mas não é desespero é apenas uma questão de tempo.

Estou meio surdo, mas não é perda é silêncio.

Estou  apressado, mas não é queda é a sensação de deslizar entre os dedos.

Estou meio perdido, mas não é azar é apenas uma maldade interna.

Continuação desnecessária

Um pouco cansado de tudo um pouco. Mas não é fadiga muscular – tampouco anúncio da velhice; ainda ela não me tomou – é descrença. Desacredito que possa conseguir chegar lá, mas não é desistência, é desilusão. Paro para pensar em muitas coisas – um cara com TDA assumido- e concluo que não vale a pena, mas não é suicídio, é morte de valores.

Reconhecço que a autossabotagem é falta de um reinício verdadeiro. Porque tudo tem um começo e fim, mas recomeço é parte de uma alternativa ao fracasso. Aí tem sorte, destino, portas abertas, coisas que não quero acreditar.

E tem a bendita memória – os monstros que ainda não consegui matar; alguma deidade assumidamente latente- que insiste em tomar assento ao meu lado, ao lado vazio, ao banco vazio. Tudo é uma metáfora, e do que mais preciso é realidade.

Ao fundo ouço um coro fraco repetindo as canções de Russo e sinto que posso acreditar em algo: nas poesia, nas pessoas?

É a única concessão a este conflito interno.

Olho ao redor e reconhecço que sou e que posso, mas sou apenas mais um.

Diálogos sobre o querer

- Quer dizer que vamos viver a eternidade de um momento contado?

- Sim, não devemos mergulhar sem ao menos sentir o gosto da água? Como se gozássemos pouco e sofrêssemos pouco? Carpe diem!

- Sim, eu devo estar errado porque me deixo levar pelos extremos!

- Não sei o que dizer, apenas que pode ser imaturidade. Mas não somos um tanto quanto livres para não viver nessas amarras. O que é certo? O que é errado?

- Tem razão. Eu é que morro por conta das convenções. Lutei contra elas e agora estou a mercê delas.

- Você é especial!

- Acho que todos nós somos. À medida que amamos nos tornamos mais especiais. E quando acontece isso, uma inquietação aumenta.

- Estou aqui. Não precisamos pensar na despedida.

- Quando vamos nos ver novamente?

- Estou aqui. Aproveita! Não sei o que nos espera amanhã. Talvez seja algo melhor do que hoje. Um amor maior; uma saudade maior.

- Assim não sei viver. Vamos voltar para o mesmo ponto.

- Você deve rir mais, perdoar rápido. A vida é curta. Quebre as regras, beije suave…ame de verdade.

- Eu sempre soube o que é amar. Mas o amor que me prometes é ligeiro, volátil, sem intenções de durabilidade. Não sei o que dizer.

-Mas quem disse o que sei do que tem que ser dito. Nada sei disso meu amor. Só sei deste agora. Eu gosto é de você. Certeza maior não tenho agora, senão a inexorável.

- Você diz que gosta. Mas como é esse gostar multifacetado, no qual os seus olhos se enchem de amor por tudo? Eu não vejo o óbvio.

- Mas o que é óbvio meu amor?

- Nossa conversa é óbvia, enquanto o que deveríamos, segundo você, era viver a vida, não é?

- Vem cá me dá um beijo!

- Isto é óbvio: beijarmos.

- Sim, tudo parece um pouco claro. Mas parece que não existem regras para isso. Agora, nesse momento, meu beijo pedido é mais do que gostar. E isso evolui!

- Então poderemos encarar o amor mesmo? Digo…ficar juntos, acordar juntos, fazer coisas que até então não pensávamos fazer? É isso?

- Eu só sei do agora que esse querer bem, que não me autorizar a estatizar nada, a pensar lá na frente. Apenas sinto que você é especial e se eu pudesse pensar em futuro eu pensaria em você.

- Devo ficar feliz eu acho com tanta manifestação de carinho. É tão cedo para se pensar em amor como se fosse uma coisa grande, imutável, que perpetuaria esse momento meu de descoberta.

- Mas o que havia antes que você não soubesse?

- Disso de amar agora! Essa coisa que tem forma, mas não se agiganta porque temos medo.

- Você… tem medo!

- Você não tem?

- Eu não sei dizer por onde começar, pelo sim ou pelo não!

- Comece pelo não, então!

- Eu não tenho medo de perder isto agora, porque amanha invadimos o campo da incerteza, da vida, da morte, da sofreguidão dos sentimentos e da parada do ritmo ideal. E sim , tenho medo de perder tudo o que não vivi. Não isto agora, mas o beijo que você não me der amanhã. Entendeu?

- Então, no fundo no fundo você tem medo!

- Entenda meu amor. Vivamos o agora! Sem esse falso determinismo das coisas. O nosso amor é agora!

- E se eu guardasse para amanhã todas essas coisas, existiria amor amanhã?

- Se você o guarda hoje é porque tem medo de que o amor cresça agora. O sentimento de perda amanhã é mais doloroso. Por isso quero você agora.

- É, talvez eu tenha que ver o amor como algo ainda novo, como se eu cuidasse agora sempre sabendo que poderia vê-lo crescer, mas que crescendo se torna independente, e sendo assim qualquer dia pode me abandonar. É isso?

- Se você quer ver assim! Só posso falar do que sinto agora ( ele segura o outro pelo braço e encara-o como se fosse mergulhar nele) e o que sinto agora tem a ver com te amar ( e sussura no ouvido do outro: eu te amo) e amanhã tenho a possibilidade de ter muito mais.

Mais um dia

Acordei como se pudesse transformar o mundo de  minhas  pequenas coisas ainda não realizadas. Pensei que pudesse mudar tudo com apenas um pensamento. Tudo ilusão, pois como dizia Tennesse  Williams: ” o contrário da morte é o desejo.” E o que poderia ser isto se não um desejo antecipatório, mas sem saber o complexo final de tudo? E novamente citando o escritor: ” há um tempo certo para partir, mesmo quando não há lugar certo para ir.” E qual seria esse tempo e esse lugar? Estou começando a ficar velho e a pensar claramente na minha obra, na beleza que vai, na  opinião dos outros, no lugar que vou escolher como definitivo.

Se questões como “você é  o que bebe,  como, veste, etc”, como não posso pensar no que realmente sou independente do que já comi, bebi, vivi?  O que sou além disso aqui? E essa vontade de ter sonho mantido a todo custo; até que o último suspiro? “Nunca desista de seus sonhos”, diz a capa do livro mais vendido.

Mas parece ter um tempo definitvo para essas coisas, principalmente para se buscar a felicidade. Agora me lembro de como eu me sentia feliz, quando pela primeira vez morei sozinho, quando comprei o primeiro móvel da pequena sala. Fiz a festa do sofá. Convidei os amigos que sempre me interpelavam por qual circunstância haviam de celebrar. E quando entre vinhos e mobílias vazias, apontava seriamente para o sofá. ” Era para ele que celebrávamos.” E tudo parecia  meio sem sentido para eles. Não para mim, que agora reforço a memória nesses registros do momento, e que sinto que a cada dia sou salvo por um devaneio presente. Como hoje  que vi o sol pela  seis da manhã. Parecia vivo! E me chamava atenção de que ele poderia ir-se naquele  momento, e como minha vida (nossas vidas) estão condicionadas ao seu brilho, ora espontâneo, ora – isto pode acontecer – temperamental. E chego a conclusão que somente essas linhas é que me salvam.

Ainda assim sobrevivi ao epitáfio do sol, olhando como se pudesse desafiá-lo, mas era uma luta sem fim – a não ser que ele desistisse e na desistência dele nós dois definharíamos para sempre. Mas estou de pé, em que pese os tapetes puxados, as ventanias dos Deuses e o desejo ignóbil do ser humano de ignorar a vida. Vou sobrevivendo dia após dia como se aprendesse mais uma lição com o sol. Acordo e vejo que o dia não se repete – porque poderia ser igual se estivesse prostrado pela solidão -, mas o dia não se repete mesmo.

Agora tenho aulas que me darão um futuro posto de mestre o qual me importa o status – coisa que já venho desfrutando: mestrando em…Mas não importa, o que importa é o que ganho dia após dia, nesse vagar de descontinuidade que me dá um certo sentido.Ainda não explorei todos os lados que deveria caminhar. Sinto uma lacuna indescritível. No entanto, não se parece com falta do que fazer, realizar. É apenas uma falta que nos impele ao breve paladar do complemento. Tudo parece ser um simples encaixe. E nem falei de como uso meu sexo, porque já sei o que fazer dele, e não é por isso que ganho ou perco meu dia. Sim deve haver algo mais concreto.

Cada vez me distancio e me aproximo, na linda dialética da vida, do pensamento de Tennesse, numa inconstância que imagino ser o desejo da vida – o quer que seja sua significância.

O precoce “eu te amo”

Parece existir um precoce eu te amo quando as coisas são verdadeiramente sinceras. Não tem a ver com imaturidade ou tempestividade. É apenas uma vontade quase explosiva de colocar para fora o que se guardou por muito tempo. Apenas uma válvula de escape por que não se usava mais o amor há muito tempo. Um dia isso sai inexoravelmente. Aí a dúvida é se o alvo é genuinamente merecedor. Porém, por que ter medo do “precoce” te amo?

 

Ontem, anteontem, parece que tenho abusado do eu te amo. E me liberto, exalo mais uma vez o que guardava. Mas não era como um berro catártico, que libera angústia, peso. Era uma tentativa mais clara de entender por que sofria tanto, como gaveta cheia de história e papel amarelo. É uma tentativa e não um diletantismo de quem hesita numa arte qualquer.

 

Eu te amo parecia tão estranho quando foi enunciado. Não entrava bem em minha cabeça por que parecia imaturo pensar em gostar em tão curto espaço de tempo, contado na agenda, registrado como história. Parecia tudo meio, um pouco estranho. Mas sabe quando o que você fala sai esquisito, como quando você fala seu próprio nome. O estranho é familiar, já dizia Freud.

 

Por esta razão é que andei ouvindo ad nauseam a palavra estranha, familiar – não era meu nome por razões óbvias já estou acostumado –, mas “eu te amo”, sem medo ou remorsos ou outra bendita palavra que vem enfrentar este sentimento, inarredável, inconstante, mas vivificador.

 

Mas sinto que vou cair sem o aparato para a queda. Sinto nessa necessidade de meu outro com a mão segurando o copo de cerveja, rindo, rindo de si, pela famigerada imaturidade que não cresce com o tempo. Ela é inevitável nesse campo do amor. Quando se diz “eu te amo” o gás do balão começa a faltar, não alimenta o fogo, o oxigênio faltante, a falta de sentido para suas palavras. O balão se extravia, desce, vai a esmo. A queda.

 

Olho ao redor e não alcanço com a vista confusa um indício de álcool no ambiente. E a palavra já foi dita, solta e o álcool ainda não chegou a veia no indício de sepultar o sentimento agora rejeitado. Parece um pequeno desespero, este de não ser ouvido. Mas não é desesperador. É como disse antes, uma tentativa em torno da felicidade. A fenda foi empreendida pelo desejo de Zeus invejoso; é a procura inexorável da outra parte, que deve preencher o sentido de uma lacuna cultural – antes o masculino e feminino, ou o bíblico enredo secular. Almas, almas soltas, díspares, sozinhas, vagando, desesperadas, aguardando, caçando. Vivendo?

 

Por isso que ontem, anteontem – ainda não tive ocasião para o de hoje – sempre direi eu te amo, por que desse mal de calar-se diante do destino, ou que quer que seja, não sofrerei, imagino. Foi quando pus em prática quando abri aqueles livros de palavras que impulsionam; aquelas palavras curryianas de que se tem que ir atrás de um sonho, de gritar alto, verbalizar o pensamento. Portanto, definitivamente: te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo, te amo…ad nauseam.

Não quero mais falar sobre amor

Não queria falar de amor. Toda vez que falo de amor, perguntam-me se invento ou se experimento esse sentimento. Se invento ou se caio de cabeça, é relativo. O que importa é a emoção mesmo que forjada ou vivenciada.

Mas o que me pergunto nesse facear de sentimentos,  é se devo desistir de um projeto iniciado ou se desisto daquilo que nem tentei. Essas coisas que parecem se polarizar, mas parecem estatizar uma natureza dúbia, como se todo projeto em si fosse um protótipo de um nada pronto. Complexo, não é? Mas é como me sinto nesse momento.

Desistir de um projeto pressupõe um esboço, uma tentativa em direção a algo. Mas recordo de minhas leituras internas de que existe essa questão do impossível, mesmo diante de um projeto – isso se chama projeção. Por muito tempo imaginei e senti que isso poderia ser apenas uma vontade vã, viver de sonhos e por que não de interpretações projetivas de uma fábula que me aprouvesse. Mas até agora, mantive – você deve se estar perguntando-  essa natureza irrealizável! Que texto mais prolixo! Eu vou tentar amenizar.

Se eu desistir de algo que começou agora, como parar de pintar um quadro ainda sem forma definitiva, estaria eu desistindo ou apenas protelando? Se, como poeta, inventasse um poema de amor, e por algum motivo o impulso anterior se transformasse em perda, poderia continuar, e parar seria uma desistência?Onde reside mesmo essa coisa do desistir se ainda se tem o tempo para a conclusão futura? Mas aí entra outra questão, essa parada contingencial, esse vagar na coisa ainda não contemplada em sua dimensão maior, depende do outro? Do tempo? Da distancia?

Parece que se parar pode demonstrar fraqueza, impaciência, falta de trato, intempestividade. Tudo parece meio depreciativo nessa parada. Mas seria altivez esse momento? Assim arquitetar-se-ia uma reflexão em cima do todo, do projeto, da persecução, do sonho, do gozo, da urgência, do tempo que não é o de ontem, enfim… do medo?

Tem a ver com medo do irrealizável? Será que tem a ver com o impreciso gosto do não-completo, do falso fastio, da precária abundância, de uma eterna sensação de descontinuidade? Seria por essas razões que tenho medo de continuar o que não sei se termina ou começa em si mesmo, como um grande amor com prazo determinado – e eu não queria falar de amor, mas parece que o assunto de materializou num exemplo concreto. Seria?

O amor pode ser um projeto incompleto, inacabado, protelável?

Pois se eu ainda não sabia do que falar, acabei imaginado algo que poderia ser alvo desses meus pensamentos. E agora me pego pensando nos projetos, planos e projeções que faço do amor, do meu amor, de nós.

A água limpa do poço

Permita-me usar o espaço mais uma vez para exorcizar meus monstros e demônios. Não passa de um exercício diário de uma análise compulsória sem diagnóstico abalizado, senão pela própria necessidade do impulso para a vida. A vida normal, diria, pois a vida perfeita ainda é um desafio ainda mais inatingível. Conformo-me em alcançar uma vida normal em paz comigo mesmo.

E peço desculpas por ainda usar um espaço tido como mais literário do que confessional, embora essas dimensões se misturem na mais alta exegese e poética na prosa narrativa. No entanto, esta é uma outra discussão. A questão, em seu ponto mais importante,  é versar sobre pequenos dramas, também inerentes a boa e tradicional literatura, dramas particulares – talvez universais.

O meu conto pessoal tem a ver com decepções amorosas, amores de verão, amores eternos (sei que prometi não falar mais de amor), pequenos amores, expectativas e as relações diretas e indiretas com a dinâmica dessas relações interpessoais. Como controlar essas dimensões do gostar e do cair; do querer e da compensação; do prosseguir e do parar? E aí entro numa seara não só dos meus amores, mas das relações com o ser humano. Decepção tem a ver com o lado humano, ou com o lado desumano.

Tento não perder o fio da meada ao tocar nesses assuntos que se convergem e divergem numa estreita relação com temas negativos. Temas negativos? É, tristeza, decepção, espera (sim, espera pode ser ruim), frustração e desejo contido. São posturas inadequadas com o padrão de quem se alinha aos princípios da objetividade, da praticidade e de um egoísmo valorizado para realização e persecução de empreendimentos e satisfação pessoal. Nada desses temas negativos afetam a vida das pessoas normais. Mas não sendo normal, eu me preocupo com essa exigência de estar sempre alegre. Somos estimulados a ser muito fortes, enquanto o choro se transforma em fraqueza genuína.

Então me deixem chorar. E isso não tem nada a ver com morte, com desconstrução, com ruína (sim, ruína de ruim). No entanto, é parte desse prosseguir, a queda… a reviravolta, o gosto doce de uma superação vem logo em seguida.  E não é exercício de um desejo de resignação típico de quem se atola no buraco; é mais válida a visão das estrelas do que a permanência da sarjeta – parafraseando Wilde.

Tem um livro sobre essa perspectiva do poço. Existe este fundo escuro, longo e impossível de sair; no entanto, também existe a luz do dia ou da luz da lua – perspectiva de esperança, o lógico para o absurdo. O absurdo da vida e a claridade da morte. A vida é uma preparação para a morte, já dizia o escritor. E por que se preocupar se para viver eu choro um pouco, eu me perco do caminho, eu me decepciono ou me isolo? São instâncias do viver. Destarte, dou-me o direito de ser imperfeito nesses dias de poço.  São fôlegos de vida, podem acreditar.

Sei do poço, mas sei também da corda que resgata a água limpa do fundo.

Render-se ao novo. Render-se ao novo?

Tenho uma alma meio instável, mas isso não quer dizer que eu mude substancialmente. O tato muda, pode ser. Uma coisa mais biológica do determinismo anatômico. Eu tinha uma estória – ou história- construída sobre o símbolo dos meus antepassados e de uma consciência que não era minha. Nunca foi. Foi empréstimo barato.

Sinto uma vontade de mudar, mas não porque queira a mudança. Talvez seja porque é mais fácil aceitar a criatividade divina. É mais fácil cair e deixar-se levar pela correnteza que tem um sentido unívoco. Mas aí tem as possibilidades de interpretação desvirtuante; nem feliz, nem triste. Apenas uma necessidade inconscientemente inequívoca. Mas tem o toque natural; o toque predestinado. E qual rumo tomar?

Essa claudicação vem por conta de minha decepção de agora; da falta do toque certo. Mas o que seria certo se o toque quando se a permissão é única? Tem de existir somente um? E quando a natureza não fala mais alto, mas fala algo diferente do que você se acostumou por uma verdade sua e absoluta, e este algo é potencialmente bom? O toque tem sexo?

Ontem me senti personagem de uma estória de filme que pode ser real. As almas podem mudar de gênero e eventualmente mudar sua sexualidade? E esse toque deixa de existir- e ser bom- apenas porque a idéia de felicidade é nova? Com certeza o desejo pode ser genuíno e independe dos maquinários dos usuários.

Seria uma mudança pesada esse de mudar todo um conjunto de convicções? O desejo é verdadeiro se contraria uma contingência quê dá amostras de uma nova esperança? Esperança? Ou seria apenas um momento de decepção passageira, daquelas que se avizinham como chuva passageira?

Ontem senti esse frio de mudança na barriga, na ponta da espinha, no cérebro estabilizado sobre a fixação de que se era feliz. Agora o toque diferente vem dizer que a possibilidade mais aceitável é permitida. Eu quero enredar este sonho de instabilidade? Ou viver a procura de um toque certo?O que seria certo? Mesmo assim, a carência é uma necessidade que deve ser satisfeita de imediato. Seria a iminência e urgência do toque uma causa desta mudança da alma? Pode minha alma mudar?

Será que poderia mudar tudo de uma vez, só por uns instantes, até que a vontade pudesse ser esgotada? Posso sentir o cheiro, a pele, o roçar de forma como nunca antes e mesmo assim ser o mesmo? Posso tocar meu corpo na lembrança da outra pessoa? Seria isso apenas por um tempo? E minha real necessidade, construída sobre a luta de muitos e de minhas vontades intrínsecas?

Sou assim ou posso tentar uma investida no meu não-natural-assumido? Seria uma loucura voltar à origem, a natureza divina? Ou é tudo apenas um sonho como um filme imaginário de rolagem curta? Seria uma traição comigo mesmo? E o dia seguinte?

Teria eu a mesma alma no dia seguinte?

Os gays poderão casar e daí?

Os gays poderão casar e daí?

 

A pergunta não me incomoda, mas incomoda o vizinho do lado porque talvez, daqui a alguns dias um casal gay poderá morar na vizinhança. E meus os filhos, ele se perguntava? E se algum dia esses casais se abraçassem, trocassem afetos, em frente de nossas casas – este vizinho perguntaria novamente – e se se beijassem loucamente?

 

O medo dele é do carinho, do afeto, da existência do amor entre os homens. Este vizinho não se lembra de como era bom o carinho de seu pai, o beijo no seu rosto, os abraços dos irmãos – ou talvez não tenha reconhecido o amor. “Mas ninguém transa com irmãos, pai”, diria este homem já formado. Bem, de fato, o argumento é raso e pífio para aqueles que não entendem o carinho. O que importa é que nos amoldemos aos valores e convenções da sociedade sob o primado heterossexual e patriarcalista freudiano. Mas todos sabemos que a sociedade é dinâmica. Ela é impulsionada para o além, para uma situação equilibrada, na qual direitos e deveres se compensem na medida certa das necessidades individualistas, mas não egoístas. Essas necessidades individuais sempre são resolvidas as portas da Justiça que não deve se silenciar diante da desigualdade de direitos pela qual essencialmente comprometeu-se lutar. Mas o que tem a ver minha dor particular com Justiça?

 

O vizinho ainda resmunga diante da possibilidade da decisão histórica. Ele se assusta a cada voto favorável, como se, no seu radinho de pilha, ouvisse o anúncio de o bombardeio inimigo alcançar a soleira de sua casa. O medo se converte em preconceito, na sua mais íntima definição. Um voto a mais é dado, explicado sob a mais rigorosa técnica jurídica, emanada de exímio operador do direito. A notícia que ele não quer ouvir colocará o Estado em pé de igualdade- e na vanguarda- com países que há mais de dez anos consideram o convívio harmônico entre casais gays uma realidade. Mas qual é seu medo?

 

Não passa de uma ideia arraigada que perpetua um pensamento anacrônico e sem sentido hoje em dia. Deve-se compreender o pensamento desse senhor e até permitir que ele exista, pois senão estaríamos inventando outra ditadura, outra moda. Mas antes fosse uma questão de forças; esta luta se trata de direitos, igualdade. Antes era o poder da força, do Homem. Hoje ele está mitigado. O que é o homem? A questão do gênero mudou. A sexualidade pode ser vivida sem traumas, sem adesivos que abafem o grito. Foi-se este tempo. Nossa rebeldia sem causa de hoje é a luta por direitos iguais. E tentem vislumbrar como a questão simples da igualdade pode redundar em outras e inimagináveis constantes mudanças para o bem. Não precisa ir longe. A igualdade celebra a vida e a paz.

 

E quanto a eu e meu companheiro por que precisamos sustentar a manutenção deste direito? Os outros não vivem nesse questionamento. É normal que os outros vivam, construam suas vidas, casem – mesmo que não venham a ter filhos –, troquem os devidos afetos e os indevidos. E quanto a mim, fico adstrito ao talante da lei que me diz que afeto e existência não garantem a união civil, somente ao homem e a mulher. O que é homem e mulher senão constructos da sociedade, e que hoje se move sobre uma plêiade de possibilidades e invenções? Como não dizer que é o afeto e a existência que impingem o grau da união.

 

O Estado é laico. Adão e Eva. Incompatibilidades vão sendo deduzidas, espalhadas como se fossem uma verdade, como se um livro de histórias inventadas fosse o limite das nossas esperanças. A lei maior é evocada para não dar direitos, para expurgar e ainda mais discriminar o amor homossexual. Como ainda podemos viver nessa bolha de idiossincrasias, se Justiça tem a ver com o povo de uma nação? A voz abafada de uma minoria deveria ser desconsiderada em detrimento de uma metafísica teológica, arcaica, vencida e altamente sujeita a interpretação disvirtuante? Essas questões não se misturam quando Direito e evocação de leis divinas – ainda que promovam a probidade –, são utilizadas com o mesmo peso. Interpretações a esta última podem ser sempre deturpadas. E como deveremos nos portar: na retidão da lei que nos protege ou nos caminhos tortuosos de uma lei que pode para mim, sim, ser desprezada?

 

Mas o senhor do radinho não contempla a lei erga omnis que deve olhar – tirar a venda e enxergar os erros ­– para reparar as deficiências da lei maior (a Constituição Federal) em relação à igualdade de direitos como escopo do Estado. Posso falar do Art.5º e usar como escudo, mas falaria de algo maior, o afeto. Promover o bem de todos (Art. 3º), o que é isso? É a garantia da integração comunitária, da civilidade entre os concidadãos, da fraternidade, dos direitos da mulher, dos negros, de um pluralismo harmônico. Estamos prontos para ser invadidos por alienígenas mais avançados? Estamos prontos para ensinar nossos filhos sobre civilidade e humanismo? Estamos prontos para “amar aos outros assim como vos amei?”

 

Vedação ao preconceito. Sexo? “Não se é mais digno pelo fato de se ter nascido homem ou mulher.”- palavras do Ministro Ayres Britto, que ouço no meu radinho avançado, como aula substancial sobre o que tenho aprendido sobre Direito e sobre humanismo. Agora me lembro do princípio da proporcionalidade: a balança pende para os heteroafetivos (como quer o ministro) no quesito de que possam viver tranquilos com suas famílias. O que é família? Eu me pergunto o tanto que as coisas mudaram e nós não mudamos!

 

Somos pessoas e isso resolve muita das dissensões num plano menos jurídico e mais humano, deixando de lado quaisquer idiossincrasias, credo, paixão. Somos além de tudo e além do mais, seres humanos. E não quero me sustentar nos moldes da Constituição, deixar aqui este texto derramar sobre um teor técnico, uma leitura enfadonha, procurando evidenciar o silencio embutido nas entrelinhas da lei. Mas posso falar do Direito limpo, claro, sem deturpações, no Art. 5º da CF. A liberdade, os princípios fundamentais, os tratados bilaterais, multilaterais, todos corroboram nossa vontade, a simples vontade socrática: conhece-te ti mesmo. Este mover, este impulso é individual, mas não torna o novo desconhecido um pretexto para a exclusão.

 

Não quero ir longe, mas debaixo de minha axila, carrego meu livro preferido que me assegura a minha existência e meu afeto, minha liberdade, como uso meu equipamento sexual, como devo me portar diante do Outro, como devo pagar as contas, como devo proceder para atingir minha felicidade. Eu não preciso do aplauso, da apologia ou do louvor, o que preciso é de respeito.

 

E o que precisa o vizinho ao pé do rádio? Ele precisa de Lei. A Lei o mostrará que o preconceito é que é a bomba que está ainda por cair e explodir – se ela já não foi detonada. Ele precisa de um banho de realidade, mas não como uma imposição da lei, mas por uma compreensão natural de que a nação é constituída de cidadãos com garantias de direitos e deveres.

 

E quanto ao casal de vizinho gay? Eles merecem numa linguagem técnica, tratamento isonômico, dignidade e numa linguagem bem rasteira, eles precisam viver ipsis literis como vivem os outros.

 

P.S. Inspirações em meio a decisão do STF em relação à União Homoafetiva. Inspiração também oriunda das lindas e tecnicamente poéticas do Ministro Ayres Britto.

Brasília 04/05/2011

Por que levar a vida tão a sério?

 Não se levar a sério

Sempre fui muito certinho, não porque quisesse – nem sempre queremos ser certos–, mas porque era uma invenção de vida, um arremedo de meu pai talvez. Era uma alternativa ao que poderia ter sido normal, e eu preferi enxergar tudo muito seriamente.

Poderia ter brincado mais, trepado em pés-de-pau mais (poxa, mais do que fiz,seria impossível), mas poderia ter subido mais alto. Porém, eu não tinha compreensão mais profunda da vida e nem que se vivesse mais ludicamente, sem tentar ser um pequeno adulto antes do tempo, conhecendo a verdade por uma práxis sofrida, entre dores físicas e na alma, talvez eu teria sido mais feliz. Pelo menos naquele período.

Conheci a traição desde cedo e com ela a mentira. Meu super-heroi era o inimigo da verdade. Meu super-pai tinha amantes, tinha vícios. E eu tinha que entender que tudo que os adultos faziam era certo. Mas eu inventei minha verdade e atribuí à minha mãe o posto de detentora de minha atenção e respeito. Não precisei me separa para me parir. Fiz tudo com o auspício dela.

Mas o bom disso tudo: de enfrentar as verdades, é que eu subsisti ao tempo, transformando-me num adulto meio assintomático para muitas dores. Elas, no entanto, não causam tantos problemas, afinal quando deveria ser doce eu fui duro, e quando devo (ria) ser rude estou sendo doce comigo. Sem cobranças, agora que virei homem, porque existem diferenças entre o menino, o jovem e o homem – sexualidade é outra coisa. Embora esses estado em mim não se separaram definitivamente. Até então conduzia minha vida como se fosse um menino ainda reparando as coisas com aquele olhar desiludido (e os que são da exegese pseudo-psicanalista de plantão que se fod..). A questão é de viver a vida. E agora é se devo ainda ser o menino ou o homem o que me importa. Ser um menino hoje em dia é bem mais perigoso.

Ainda bem que estudei outra língua por vontade própria; aprendi uma arte pela propensão natural de enxergar tudo diferente. Eu comecei pequeno a desenhar o mundo. Eu não sabia de profissão. Só sabia que Jesus era esquálido e que estudar levaria a um lugar (seria este?). E como eu disse, não sabia da verdade, senão a minha que inventei. E até então, eu vivi essa verdade. E parece mentira dizer que ainda sou tão ingênuo, não é? Mas não quero ser detentor da verdade mesmo que seja a minha. Estou apenas dizendo que quando poderia ser doce, fui rude e quando deveria ser doce, estou sendo o mais duro comigo mesmo. Não parece ser um bom caminho para a vida, parece?

Hoje o posto de escritor me salva de minha invenção e a do mundo aqui fora. Muitos dizem como devo ser, porém quando olham para suas vidas constituídas querem um pouco da minha indefinida. Eles se ressentem de um passado e de um presente. E não estou nem feliz, nem triste por isso, porque eu deveria estar num outro patamar, talvez o mesmo daqueles dos quais falei. No entanto, eu acho que nem eu nem eles deveríamos mais nos preocupar com o quanto a sombra é grande, mas se ainda o sol vai brilhar para todos nós e como podemos nos prover dele.

Embora a filosofia niilista seja boa de saborear enquanto não se faz nada e não se cobra nada, o mundo ainda exige uma tese, um partido, uma causa. Somos sempre cobrados por nosso pensamento, mesmo que não verta em palavras ou sons. Deixo a vida me levar? Correr atrás da realidade ou viver os sonhos?Já me fiz essas perguntas várias vezes.

Ouço a música de agora como prenúncio de respostas: é o fim do mundo, ou apenas uma nova profecia mentirosa? Deixar a barba crescer ou me assear para a vida? Continuo a pular amarelinha ou jogar  os dados…ou cartas sobre a mesa? Vai ser o destino ou moinho da vida?

Sozinho de novo

 

Tá lá o telefone mudo. A unha fica menor a cada minuto. O pensamento longínquo não se aglutina.

Estou mal e não é doença diagnosticada daquelas que têm dor. Tem antídoto, mas não tem alívio eterno. E enquanto dói, a dor se alonga por horas.

O fato é que estou sozinho. O som deste estado do ser reverbera por todos os cantos da sala. Mas não é um som audível, e se o fosse não deveria ser nada benéfico.

Essa dor não para e se estende até que por alguma força você a esqueça: ou quando o sono vem; ou quando o telefonema é errado; ou quando o tempo acaba.

Quando o sono vem parece mais um pesadelo. Quando o telefonema é errado, você quer alongar a conversa. Quando o tempo acaba, a ideia fixa vai embora de uma vez.

Mas não pedimos para que o tempo acabe. Preferimos que as horas passassem, mas que o pensamento se fixasse na pessoa amada – ou naquela que projetamos – e que morrêssemos levemente ao invés de vivermos de uma vez.

Não é suicídio, é uma falta desesperadora. Não se entende a causa estúpida dessa lacuna. É uma tentativa de esperança elevada à categoria de felicidade, mas vinculada a existência do outro, ou pelo menos na sua presença física. Não se admite aquela imagem simbólica, eis que o simbólico se perde na memória de uma ressignificação.

E o que mais queremos é a interpretação conhecida; o toque vivo; a voz ao ouvido; o coração pulsante, ritmado com a paixão; o fluxo do sangue; a paz interna. Pode não ser paz – isto ainda não é ponto pacífico.

E mesmo tentando entender tudo o que se passa nesses momentos de solidão, nem mesmo essas linhas de desabafo podem me salvar. Fico ainda mais pensativo quando tento esquecer para dar razão à loucura leve que me angustia. Não passa a dor doutor.

Não dou razão à ciência ou a minha fraqueza? Dói ou magoa? Espero ou desisto? Existe ou não?

Por alguns instantes esqueço que pode ser ruim. Volto para os momentos que vivi – porque minha saudade tem uma existência –, e o que sinto é mais do que uma falta. Mas é falta porque estou sozinho. Mas o sozinho justifica a falta? Onde está a outra parte minha que me falta para que eu não me sinta parte, metade, sozinho?

O telefone não tocou. A unha sumiu de tanto esperar. O pensamento não para, não para, não para…

Reencontro com DEPOIS DE SÁBADO À NOITE

 

É sabido que venho desenvolvendo estudos na área da Literatura gay, ou como alguns já estatizaram, numa epistemologia mais abrangente, Literatura Queer. Tenho feito inúmeras leituras numa busca de uma identidade – não sei se atingirei o alvo – dentro desse universo litterário.

A busca me revelou casos e histórias peculiares dentro dos livros ou fora deles. É curiosa essa questão da identificação desse tema, pois eis que uma condição deve ser imposta: a literatura é gay por conta do enredo ou ela se imiscui no universo particular do autor? Esta resposta é crucial para minha pesquisa.

Embora continue nessa busca sem fim, um monte de livros têm caído em minha mão. Alguns são novos anônimos, ou porque os desconheço ou porque o mercado os esconde. Descobri, nesse período, Tabajaras Ruas, com seu O amor de Pedro por João; entre outros já conhecidos, como Jean Genet, O quarto de Gioavani; João do Rio e João Gilberto Noll. Minhas opções passaram de poucas para umas dezenas de obras e isso nem mencionei as escritoras lésbicas como os lançamentos de Elisabeth Bishop e algumas “histórias” sobre Clarice Lispector e ainda uma gama de literaturas por conhecer.

Mas o que me deixou feliz nessa busca foi reencontrar, por indicação de minha professora orientadora do Mestrado, o livro do Kiko Riaze. Uma doutora com experiência e orientação de várias dissertações me indicou o livro Depois de Sábado à Noite. Poxa quanta honra senti ao ver o trabalho de meu amigo escritor ter um valor reconhecido para pesquisa, pois o trabalho dele vai além do mero diletantismo, é literatura pura. Por essa razão novamente escrevo este post para sugerir uma boa literatura gay com respaldo acadêmico. E comunico ao meu amigo escritor que o livro dele está elencado no “corpus” de meu estudo. Indico a leitura e me regozijo com a alvíssara coincidência. Tempo propício para uma releitura.

O Dia Seguinte ( Uma rotina de um casal gay)

 

Deu o beijo no companheiro como se fosse um dia qualquer. Mas era um dia pra ser igual aos outros. E ao mesmo tempo não era. Aquele beijo tinha gosto de vitória dividida. Tudo que tinham agora era deles, inclusive o pequeno Manoel no quarto ao lado.

 

“Quando o Estado nega-se a reconhecer uniões homoafetivas, ele instrumentaliza os homossexuais, sacrificando seus direitos. Ao não reconhecer as uniões homoafetivas, o estado compromete a capacidade do homossexual de viver a plenitude de sua orientação sexual.”

 

Ele saiu de casa logo após dá um beijo no pequeno Manoel. Sabia que agora ele estava seguro. Abriu a porta e sabia que não seria um dia fácil. Mais uma tentativa de aplacar o leão diário. A luta pela sobrevivência como um trabalhador comum. Tinha que escrever mais um capítulo. Deu um passo a frente da soleira. – Como vai o manuelzinho? – a gentil senhora quis saber.

 

- A formação da união homoafetiva é a experimentação de um novo a dois que se alonga tanto que se faz universal. Se as pessoas de preferência heterossexual só podem se realizar ou ser felizes heterossexualmente, as de preferência homossexual seguem na mesma toada.

 

Deu o segundo passo com o pé direito. Respondeu que o companheiro ficaria em casa cuidando dele. E, sim, ele está bem – diria sem precisar explicar nada. Era uma pergunta que deveria ser simples. Eles tinham uma vida comum. Seguiu em direção ao escritório. Alguém da vizinhança no caminho parabenizou com o polegar indicando positivo. Sentiu-se mais forte.

 

“Não é lacuna, é intencional silêncio. Se não estiver juridicamente proibido, está juridicamente permitido. Ausência de lei não é ausência de direito. Se não há lei que proíba, a conduta é lícita.”

 

Ele percebeu o que significava cidadania. Aquele sentimento que alivia a carga de ser diferente. Ele era diferente, mas não menos cidadão do que a vizinha curiosa. Sentiu-se altivo. Como sentia firme o pé sobre o chão que nunca lhe faltara. A terra parecia a mesma, mas o ar, a praça, a estrada , os prédios, a padaria, o supermercado, a igreja, o banco predileto, o restaurante da esquina pareciam mais dele do nunca. Nunca se sentira tão integrado ao que deveria ser ideal.

 

“ Não existe família pela metade, família de segunda classe. Casamento civil e união estável são distintos, mas os dois resultam na mesma coisa: a constituição de uma família.”

 

Sentiu um aperto no peito por deixá-los em casa. Queria ficar junto. Fazer o café da manhã. Saudar todos com um beijo coletivo. Mas a vida continua. Agora tudo depende deles. A família deveria continuar. Mais tarde estaria em casa. Sentaria no carpete as sala. Manoel sentado ao redor de seus brinquedos. A porta abriar-se-ia, Manoel entusiasticamente diria: – Pai João, o papai Pedro chegou! E os três continuariam a reforçar os laços familiares na rotina comum do casal que eram, da família que eram.

“Preconceito é um conceito prévio, engendrado pela mente humana fechada em si mesma e, por isso, carente de argumentos sólidos. Não reconhecer a união homoafetiva é uma brutal intromissão do Estado sobre trocas de afeto e de desejos.”

 

Independente do  final, eles viveram felizes para o enquanto sempre.

 

P.S.Os textos citados foram retirados do voto do Ministro Ayres Britto na sessão histórica sobre a decisão da União Civil de casais gays.

O que se ganha com o beijo gay na televisão brasileira?

 Parece-me que a televisão americana- pelo menos a televisão fechada – já não sofre dessa antecipação, ora negativa, ora instável, sobre o “acontecimento” do beijo gay. Várias cenas de beijos gays já saíram nos EUA e por não ser um país (entenda-se um Estado fundamentado numa Constituição, mesmo que não seja escrita) potencialmente católico ou religioso, onde encontramos segmentos sociais ou Instituições religiosas que preservam uma “invenção de manutenção dos reais valores da família”; mas nem tanto eficientes, ou hipócritas, quanto às congêneres aqui em terra tupiniquim.V

Vamos lá: Grey’s Anatomy, Gossip Girl, True Blood, The OC, Modern Family, The L World,Brothers and Sisters, gly Bety, House, em todas essas séries já forma veiculados beijos gays entre casais gays masculinos e femininos. Estas manifestações de afeto, demonstradas pelas peculiaridades de seus enredos e protagonistas, revelam como natural e possível é o acontecimento do beijo gay. É plausível. É uma realidade íntima, mas às vezes, não se pode evitar a troca de carinho; não se pode narrar uma história de amor sem falar no contato íntimo mais sublime. E a manifestação do carinho, do amor, do afeto não tem sexo.

Embora não tenha o poder da televisão brasileira, a teledramaturgia americana, menos despreocupada com a perda de “certos valores morais”, resiste muito bem às críticas contrárias- que são naturais também, mas não devem ser de interdição.

Aqui, a antecipação militante precisa mitigar os argumentos já preparados, fundamentados num preconceito arraigado, anacrônico e inútil. Podemos falar agora que, em tempos de APROVAÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL ENTRE GAYS, este tipo de interdito não funciona mais. A questão da sexualidade, ou como ela é usada, já não é mais questão de exclusão ou de perseguição sob uma égide ultrapassada de limitação da igualdade de direitos. O entendimento e a compreensão da “nova” instituição familiar promovem uma melhor aceitação – essa palavra não me agrada, melhor estatizar: respeito – em relação aos cidadãos que antes se sentiam excluídos e estavam excluídos. O beijo gay televisionado parece ser apenas, agora, mais um passo natural, entre outros direitos, como a adoção.

Tão plausível parece ser que o SBT antecipa o beijo sem a falsa promessa, a falácia dos diretores e escritores de novelas da Globo. Hoje, dia 11/05/2011, o SB vai veicular o primeiro efetivo beijo gay. E o que importa se não é entre homens – porque inexplicavelmente parece mais “agressivo”, também não gosto da palavra, e não tenho sinônimo para eufemizá-la –, se o que mais importa é desconstrução de uma “imagem de falsa moralidade” existente sobre o primado de uma parte da sociedade que apoia o controle de alguns “princípios de qualidade.”

Pois bem, o SBT entra na vanguarda, mas não é uma antecipação mágica ou verdadeiramente simbólica, subsiste uma necessidade de garantir uma espécie de concorrência. Mas perguntem a mim se me importo com esse “embate” de Ibopes. Não me junto às fileiras dos que se acotovelam sobre a plasticidade, o romanticismo, a originalidade para o caso; e me perfilo com aqueles que se importam com a oportunidade alvissareira – também não me importo se ela vem no mesmo bote salvador da decisão do STF –, com a possibilidade da existência harmônica e pacífica, sem falso moralismo.

 Nem vou falar das promessas da Globo. O que interessa é o fato, e o fato vai ser veiculado para todo o Brasil, hoje, em o AMOR E REVOLUÇÃO, dirigida por Reynaldo Boury, as 22h15, no SBT, o tão esperado beijo gay.

E respondendo a minha própria questão, numa tentativa de compreensão e satisfação pessoais, encontro uma resposta clara, simples, mas não menos elucidativa. Ganhamos com o beijo gay? Sim, claro. A visibilidade traz à tona o debate, o apoio e a dissensão. Ela promove a discussão sobre o tema como uma realidade, como um comportamento a ser trabalhado e internalizado na sociedade da forma menos intransigente possível. Não é uma imposição, mas uma mudança no discurso majoritário. Respeito e aceitação são fundamentos simplórios. Mudanças, dinamicidade das relações sociais, a urgência das minorias, o protagonismo social, enfim estes elementos é que deve compor essa nova ordem social. Sem militância cega nem grandes paradas-gays vazias de sentido, mas voz e vez.

Sexo

Revira dentro de mim, à noite, a ideia de uma sexta-feira (ou outro dia da semana). Ela revolve como se tivesse vida numa antecipação conhecida do que se pode fazer- porém sem autocontrole. Tem a ver com a autoestima, se está alta, as coisas se aplainam internamente; mas se baixa, as coisas se alteiam como poeira excitada na contra-luz. O que é este revolver de uma insatisfação não classificável, mas que possivelmente vislumbramos como falta?

O formigão que pinica a vontade até que ela seja sentida como real. Uma verdadeira sensação de prazer faltante; um vício logo vivido após um outro, um estopim para tudo se dar conjuntamente. Pode ser uma ânsia de completude, de penetração propriamente dita. O preenchimento que não é da alma. Alma é outra coisa!

Tampouco é uma ideia nova, sensação diferente; está mais para insatisfação com a alma mansa. Alma aqui é o cerne racional. Por isso que esse revolver deve ser algo de superficial, algo na pele; ou opera pela química dentro de nós – dentro dos nós que afrouxamos quando deveríamos apertá-los.

Posso falar sem necessitar do disfarce inicial. A ideia entra como deveria ser o instrumento que opera a dor-prazer. Um intenso desejo de perdão e culpa, de entradas e saídas, de saliva e de merda. É isso sobre o que tudo deveria falar acerca da ideia que revolve por dentro? Pode ser isso e pode ser loucura, separadas ou juntas, na cama ou na mesa, na presença ou na exigência. Sim, talvez seja na exigência que essa falta se contempla, se realiza. – Eu quero agora!

Sexo pode ser somente uma ideia que revolve, como se pudesse entrar e sair e resumir, definitivamente, a essencialidade do mundo que me cerca. No sexo tudo inicia e tudo se finaliza, sem fim em si, mas num gozo memorável. Tá tudo lá dentro dele. Quando em volta, penetramos como esperma ou saímos como um desprezo coletável. Mas tá lá no ato final. Em cima, por baixo, no seu princípio onanístico ou dividido, ou simplesmente na verdade finalística de morte ou de vida.

Os sons do nada

Eu gosto do barulho das coisas inanimadas. Tem-se, às vezes, a intervenção humana. No entanto,  parece que são vidas autônomas e autênticas. Aquele barulho do pisca-pisca do caro, alertando uma condição de permissão, de passagem. A volta é feita sob o barulho intermitente, cobrando a atenção e efetuando uma  transição. E, quando ao normal, parece que a viagem não prossegue.

Adoro o barulho da dobradiça. O ranger da porta faz com que, abruptamente, eu pare para escutar, escondo os manuscritos e me deixo levar pela sensação de leve medo. – Quem está aí? – ou – Quem você pensa que vai pegar em flagrante?

Gosto também daquele som da expectativa, aquele som do fósforo que não acende. Isto também excita minha falta de explosão. Esta necessidade de pólvora, pronta para a combustão – nem sempre acontece. Este é o barulho que mais me excita (para acender o cigarro, o fogão,  a cinza da brasa ou o fogo da lamparina.)

Tem também o barulho de uma broca, furadeira, a interromper o pensamento genuíno. Aquele momento em que eu adentro um mundo (escolhido pela leitura atraente) e, de repente, perco o valor da concentração e volto à realidade. Este é o barulho que incomoda, mas desperta para a vida. – Qual vida? – é a pergunta mais adequada.

E o barulho que não quer ser ouvido, como aquele do celular no bolso da calça. Aquele som que antecipa , que entremeia uma comunicaçã. O celular vibra no bolso e o pensamento se fixa numa ideia, numa pessoa ou situação. Este barulho se confunde com frustração, às vezes, nem ludibria nem esclarece. Tudo isso mitigado com a força da voz que atende. Pode parecer um outro alerta de vida, não é de despertar, mas de ligeira perturbação da alma. Lidar com expectativas é demasiado, contraditoriamente, propulsante.

E para terminar, me fascina os sons das páginas que passam uma das outras, na velocidade do pensamento, no entendimento, na aflição do personagem, na solução do crime, ou , pelo menos, na sensação inteira do poema.

Tudo isso me anima e me desperta, quando, às vezes, me pego ouvindo o silêncio da vida.

VOTEM EM MIM

Prezados,
Meu livro ERRORRAGIA está concorrendo ao 2º Prêmio de Literatura do CLUBE DOS AUTORES.
Votem lá!


http://premio.clubedeautores.com.br/web/site_premio/votar.php?id=36591

 

PRÊMIO CLUBE DE AUTORES de Literatura Contemporânea

Errorragia é uma compilação de trabalhos entre contos e crônicas, resultante de um neologismo louco entre erro e verborragia. As histórias se imiscuem entre coisas reais e muita criatividade ao ponto de enredarem situações que realmente aconteceram e aquelas que repousaram no íntimo de uma situação inventada. Não se sabe o que foi feito nas entrelinhas da experiência ou na divagação de um sonho inconfortável. Errorragia é um erro entre muitas coisas que nunca foram aceitas; compreendidas. É também a verborragia do medo, enquanto as histórias vão procurando sua altivez. É a colisão das ideias que misturam o erro e a hemorragia cerebral. É a visão de pensamentos que se encontram no erro e no acerto, mas nunca essas duas instâncias se harmonizam nestas palavras.

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MUITO OBRIGADO.

A redentora do Brasil

 

Ela entra como se fosse apenas mais uma a usar a palavra. O silêncio que acompanha seus passos antecipa uma dança inesperada. O porte não tem a indumentária de um colosso, mas suas palavras têm poder da pedra de David- certeira e argumentativamente mortífera. Ela começa com a indulgência de que todas essas pessoas são, por uma razão além do altruísmo, erigidas com o mais tenro e edificante dos sentimentos- ao final ter-se-á a noção do vem a ser isso. O discurso é simples, se rebuscamento ou falácia. E sua estatística é real, contundente, não metafísica. É constrangedora. Os números 930 indicam sua indignação, diante dos reais algozes. Mas sua fortaleza vem do sotaque forte e inteiriço como rocha bruta, mas lapidada pelo tempo, o tempo das expectativas. Como ela consegue enfrentar os leões de sua inexorável cova, com apenas esses três dígitos? Quantas pedras lhe restaram para golpear o grande monstro de nossa falta de política para com a Educação. “ Seria eu a redentora desse país?”- ela se convence de que não seria a pessoa certa. Sem forças, sem a alimentação correta para o dia de cão para enfrentar; como poderia enfrentar os pequenos Golias diários, tendo que se justificar sempre pelo fraco alcance de sua meta para a aula do dia? Seu discurso se inflama. Levanta o contracheque como se pesasse o peso da humilhação. Mas quem é tributário disso senta-se com suas indumentárias caras e se empapuçam com seus perfumes franceses. Como lidar com essa realidade- ela se pergunta enquanto tenta organizar e continuar seu discurso. Que estatística forte ela apresenta diante de nós. Que aconteceria se “eles” (professores) deflagrassem uma guerra civil por direitos. Seria justo como é justo a sublevação dos povos árabes e a estrangulação de um sistema de opressão insustentável. Como ensinar, se o peito se enche de uma revolta genuína e justa? Como se locomover entre os três turnos para multiplicar um pão estéril que é o seu mísero salário? Como ensinar a palavra futuro? Ela se aninha na sua pequenez, mas se avulta com grande lucidez- e altivez- para não falar com impropriedade. E os números dos outros? E as estatísticas mirabolantes para mascarar a velha e conhecida realidade – a inércia herdada de todos os governos e governantes? Quão leviana esta propaganda de que tudo depende do ensino dado pelos professores, como se fossem os verdadeiros culpados de toda a precária logística que o governo reserva a estes eles. Não preciso criar palavras e romancear esta realidade, este discurso do vídeo acima. As palavras da professora são fortes e lúcidas. São embaladas por uma violência crua de sua realidade. E o cenário que ela pinta – está mais para contornar os traços -, é um cenário local? Que tipo de país é esse? Eu falo com a voz íntima que este texto permite, mas minha voz se enfileira no mesmo discurso, vez que meu mestrado me levará para a sala de aula. E o que nos resta dentro desse recinto redentor. Estamos fadados a salvar o mundo com poucos recursos ou sem eles? Só nos resta a guerra civil? Ou a reinvenção do mundo e a mudanças dos parâmetros sociais e, conseguinte, valorização dos professores, em detrimento dos astros, celebridades e autoridades forjadas numa hierarquização de valores que beiram a amoralidade? Ela tem de pagar o carro, para se deslocar de um trabalho para outro; tem uma filha para bem educar; tem que se alimentar. E sua estatística fala mais alto do que qualquer filósofo, pedagogo, cientista social que o valha. A estatística da fome, da miséria, do esquecimento, da desvalorização do professor. O número é 930. Mas ela tem nome, não se esconde por detrás de um cartaz, ou de uma mensagem anônima. Ela mostra o rosto. Ela é tem uma revolta justa – não somente sua. Seu nome é Professora Amanda Gurgel.

Parabéns Professora Amanda Gurgel!

O aviador e a ilha (um paralelo entre amor e abandono)

Há uma intrínseca relação entre amor e abandono. Parece mais um antagonismo daqueles que sustenta outro aforismo: existe uma linha tênue entre amor e ódio. Mas essa é triste e não menos drástica. A que proponho explicitar tem a ver como o amor deveria ser. Imaginem dois homens que não podem se ver. Estão casados com outras mulheres, ou outros homens; estão presos em celas conjugadas, não se veem, mas se sentem; um homem que pode voar e outro que vive a admirar aviões, um deles tem medo, o outro não pode pousar em sua ilha; ou ainda um deles tem uma profissão, um status que não o permite amar outro homem. Bem, os exemplos vão aparecer aos montes. Mas onde está em si o abandono?

Quando o homem que voa, por exempl,o e que não pode pousar na ilha do amado, esta impossibilidade começa a desgastar a relação. Eles não têm contato, não têm sexo, vivem de trocar cartas, um transforma a carta em bola de papel amassado e deixa cair sobre a ilha do amado. O outro, por seu turno, e quem diria, ironicamente, faz aviõezinhos para arremessar ao outro. As vezes o tempo fecha, a chuva cai, a nuvem densa se avizinha da ilha. O outro pensa que não existe esperança, que o certo é guardar o sentimento e abandonar uma garrafa com um pedido ao alto mar. Mas de que adianta se o outro está sempre no ar? O aviador refaz o trajeto, flutua sobre as nuvens densas, dá m vôo rasante arriscando-se num perigo. Volta a altitude certa, estabiliza a velocidade, pensa que não pode dar certo. Pensa em desistir, que não há esperança e o certo é guardar o sentimento e abandonar um beijo no ar. Mas que adiante se o vento vai extraviar? E não tem jeito. Eles se perdem na comunicação, quando o tempo estia, o aviador se fecha atrás da porta de um quarto, e quando uma sombra se faz no teto da casa, é apenas um grande pássaro estacional. O amor não some enquanto eles se alentam no pensamento. Mas o melhor para o dois é pensar que esse amor é puro abandonamento.

Pensamentos de um domingo ( acho que parte II)

Este domingo frio bem que poderia ter sido menos óbvio comigo. Mas não, insistiu em ser rude e silencioso, não fosse os barulhos dos carros anônimos lá fora. Sei que tá tudo certo porque ouço a vida que os propulsiona. Em mim é que não tá certo, porque estou contestando a vida, meu próprio mecanismo interno de  propulsão. Parece falho diante do que procuro ser um sentido para esse, como posso dizer, essa, falta de barulho interno.

Fosse hoje uma segunda-feira de sol, não teria me tomado de súbito por este pensamento ligeiro e pesado de agora. E mesmo que seja temporário ele pesa como se não pudesse me levantar por completo. Fico mesmo é prostrado diante das coisas paradas no quarto, mas que têm sentido. Apenas em mim, na iminência de um movimento, estaciono, vejo-me sem ânimo. Paro. Não me sinto tão necessário quanto tantas coisas silenciosas que tenho paradas em meu quarto. É um domingo frio este. Entendem agora. Ele petrifica meu pensamento na idéia fixa do ser imprestável. É ligeiro, como disse; mas é pesado.

Parece até que foi a frieza dele. Me deixa sozinho sabendo do silêncio das coisas quando ele – toda vez – fica frio. Ele deixou de ser mais um dia, para ser o dia; mesmo que lembrado nessa agonia de agora. Repito: ligeira, mas pesada. Mais pesado daquilo de mais danoso que imaginaria que uma coisa – ou alguém– física pudesse me causar. E aqui estou, não sei se é doença, mas me cansa, me atormenta, atrasa o sono, dispara o medo dentro de mim.

Menti de que não havia movimento em mim. Mas tem. O medo fica circulando, para no coração, desmantela-se em pequenos medos e espalha pelos outros órgãos. Mas ele se dá melhor no cérebro. Lá ele se refestela ao ponto de induzir todos os outros pequenos medos a se juntarem a ele. Quando não, lá estão todos a dar um certo movimento interno no meu corpo. Contraditório esse medo, esse frio; não é?

O que posso fazer? É ligeiro esse pensamento, mas é pesado como disse. E graças a Deus – como querem alguns que eu finalize com palavras de esperança e felicidade – amanhã, é apenas uma segunda-feira!

Intimidade e cobrança

Intimidade e cobrança

 

Não sou perito no campo do amor, das relações interpessoais, mas no auge de meus trinta e poucos anos, tenho certa experiência nessa seara.

E está acontecendo, ao mesmo tempo, uma coisa interessante entre mim e meu amigo. Não tem nada a ver com a transmutação desta relação, ainda continuamos bons amigos. A questão que nos une agora é saber quando cobrar uma atitude mais séria em caso de relacionamentos amorosos.

Sou buscado para orientar como fazer nesses momentos em que o fortuito de uma relação – vez que no momento em que lidamos de forma séria com o ocasional, nominamos isso relação – torna-se demandante. Em outras palavras, quando duas pessoas começam a descascar a pele que envolve o íntimo, elas começam a se conhecer melhor, e começam a exigir obrigações – mútuas ou unilaterais. Isso não é nenhuma descoberta. Mas passa despercebido pela maioria das pessoas. Às vezes nem damos conta de nossas intimidades divididas, talvez nos percebamos cobradores de alguma coisa a mais. Porém, nem sempre somos levados a refletir sobre isso. Somos demandados a apenas viver isso.

Aqui acolá damos conta de nossa irracionalidade e automatismo do mundo em que vivemos e paramos para pensar um pouco. Este é o momento em que nos encontramos agora. Momento em valoramos nossas atitudes nas relações amorosas e partimos para uma atitude mais séria conosco. Esta sapiência nada tem a ver com velhice, mas com amadurecimento; este presume-se incipiente, porquanto ainda propenso a aperfeiçoamento; quanto à velhice, ela nos traz genuinamente a sabedoria. Pois bem, nesse exato momento, entendo que qualquer prolongação de uma relação, dita séria, leva-nos, naturalmente a um postura diferenciada, de questionamento e valoração contínuas.

Não existe uma regra para essa percepção – por isso reforço os conceitos de velhice e amadurecimento –, mas uma condição interna estipuladora de um começo. Normalmente, essas valorações de juízo e de “tempo perdido” coincidem com o passar do tempo. No entanto, ainda poderia estar alheio a isso mesmo agora. Perdido nas folias da vida, a todo tempo, em todo lugar, ad infinitum. Mas o momento é de reflexão.

Quando entendemos o outro, dividimos experiências, encontramos afinidades, perguntamos sobre os detalhes, os observamos, elogiamos, entramos no universo fechado do outro, sorrimos, brigamos, discutimos, afastamos, bebemos todas, nos isolamos…retornamos, e repetimos o ciclo; é porque alguma coisa se aproxima do insólito. A isto chamamos de intimidade. Parece estranho, mas é assim que ela se dá. E aí é que entra a questão da cobrança.

Invariavelmente se você passou por esse ciclo, que pode ser sazonal ou contínuo, já se percebeu nesse jogo de interesses. Tais interesses são indisfarçáveis e inarredáveis, e por essas razões, damos importância ao outro de uma forma especial. A companhia é importante, a opinião é importante. Encontramo-nos arrodeado da outra pessoa e isso nos autoriza a questioná-la, observá-la, preocupar-se com ela. Todas essas manifestações operam um novo momento em sua vida, ocupando certo espaço, tempo e importância. Por mais que sejamos orientados sobre o amor-próprio,  e que isso tenha a ver com certo egocentrismo, sempre existirá uma parte faltante – o desejo freudiano –, uma insatisfação dessa parte que foi “emprestada” com estima e que é difícil de retomá-la imaculada.

Sem filosofar para não ser prolixo, tampouco descambar em outros assuntos, eu e meu amigo temos procurado entender esta cobrança, não como ultimatum, mas como um verdadeiro corolário dessa atitude mais racional- que confesso não somos doutrinados a praticar. Intimidade e cobrança (causa e efeito ou um fenômeno reflexivo) sempre andarão juntas mesmo para os mais descompromissados dos casais existentes. E quando nos deparamos com casais perfeitos, em que essas instâncias não existem, podem ir a fundo que um dos dois, ou dois, mente a respeito de seu amor próprio, ou de seu amor para com o outro. Nem mesmo em uma verdadeira amizade, esta dupla se prescinde.

 

Um silêncio pesado

Você foge e não diz adeus. Não me dá a possibilidade de rever pela última vez o rosto que tinha na memória. E nada de me deixar te perguntar: o que fazer? Tento encarar seu silêncio como coragem, altivez. As últimas palavras foram suas. Onde fica minha verdade? Fico em meio a devaneios do que deve ser feito. Como continuar sem a doçura de teu sorriso leve. Será que és o mesmo que tenho aqui nesse resto de desespero? O tempo me ensinará a aprender. O que quer que seja irei guardar, cuidar para que eu não consiga entrar de novo em seu coração. Ficarei parado como beija-flor em êxtase, mas sem rumo, de flor em flor. Que rumo este, hein? Que rumo tomamos em nome do amor, ou do que não sabemos nominar? Deveria ter pensado que as coisas poderiam ter sido vividas sem nome, sem destino, sem espera. Você vai embora. Em boa hora já não sei o que dizer. Preciso repensar o peso das palavras. Vai e vem, momentos de vitória, vai e vem, tenho momentos de inglória. Ficar parado. Ficar calado. Ir-me embora da sua vida.

Incontinência de sangue lamurioso

Sabe como deve ser um coração rasgado?

Eu não sei, mas devo estar perto.

É como se o sentido de dor não existisse.

Nem parece com o parar do peito.

É ansiedade disfarçada,

É desespero coagulado

Que é isso de coração rasgado?

Fibra por fibra desvendado

Como se pudesse ler cada passagem do sangue

Como se ignora essa dor que não é dor?

Como se segura esse grito sem refratário?

Onde colocar as mãos para estancar o sangue?

Sim, porque de algum motivo se deve morrer disso

De esperar, esperar

Ah coração romântico e de anacrônico desejo

De não saber onde você está, vivo pensando no barco que se distância

Ainda aqui a te pensar e te escrever. Por quê?

 

O que deve ser disso de coração salgado?

Uma única atitude evasiva

A assunção da verdade que não se admite

Deve ser assim um coração calado

Esse peso do silêncio que não dá para suportar

E o mundo lá fora na bolha da felicidade

É distância, é conhecê-la antecipadamente

E como aprender a sentir a perda como vantagem?

Aprender a empunhar a arma que muda o coração

Faz-se pedra, para o fluxo e impede a decepção

Vou ficar em casa

Vou ficar importando ideias infinitas

Ah coração embutido donde não se vê as lágrimas

Apenas sinto o peito, a dor, a pena

Não saber o emprego, o uso dele

E ficar nesse eterno por quê, por quê…?

 

Santa Intolerância

 Comentário feito ao texto do Blogue do escritor amigo Kiko Riaze. Clique aqui para ler o post.

Quando a revolução começará? O mundo parece entrar em colapso e ainda somos questionados como usamos o nosso sexo. Por quê ainda guardamos nossos canhões de balas arco-íris e não detonamos a guerra? Somos mais fortes juntos. Onde está a mobilização meteórica da parada gay? Por que nos sentimos ao mesmo tempo poderosos e subjugados?
Temos a violência mais forte nas mãos tal qual aquela de Gandhi? Sim, podemos ter, podemos usá-la, aliás, com temos feito, usando a palavra, o esclarecimento. Temos uma arma mais forte que a bomba atômica: a internet e sua isenção e alcance. A usamos mas talvez nem tenhamos noção ainda de seus desdobros. Aguardamos a obra que não contempla os contemporâneos, como disse Eagleton. Mas vamos esperar o saldo positivo da história daqui a 5,10,50 anos?
A caça as bruxas foi aberta. A temporada parece ser demoniacamente crucial para nosso movimento. Como continuar contra argumentos criados por uma eterna geração deles. Eles que têm o poder! Como deve ser a consistência de nosso escudo protetor?
O conhecimento canônico dessa Igreja que nada tem de indulgente e misericordiosa não muda há séculos. Páginas inteiras são reveladas com reflexões antigas e anacrônicas. Basta pensar a condição da mulher, e não vou citar versículos para parecer pedagógico. As bruxas que foram não passaram de perseguição gratuita e misógina, como se o poder da mulher, a grande vagina incompreendida engolisse o conhecimento do homem, só feito, produzido e perpetuado pelo Homem (gênero masculino). E as outras categorias deveriam ser silenciadas, queimadas.
Hoje está sendo acesa as precárias e obsoletas cinzas se fogueiras medievais. Queimam por que existem aqueles que as alimentam.
Não há política a se perseguir neste Estado? O que entretém os deputados naquela casa? Por que assuntos estruturais não são debatidos, enquanto eles se protegem em sua bolha de privilégios? Eles não sabem de nossa bomba de arco-íris? Não sabem? Então, deixemos-lho saber. Mas ainda antes da declaração da guerra definitiva, temos a lei, os operadores do Direito, o voto, a mídia, a internet, o esclarecimento desvinculado dos valores bíblicos, o próprio sentido bíblico da convivência mútua pacífica, a Igreja Inclusiva – se formos trocar balas. Temos ainda nós mesmos. Temos o STF como corte como protetora da Constituição Federal. Ela está a favor de todos nós! Temos os Sérgios Cabrais da vida, que em referência homônima ao nosso descobridor, abriu as fronteiras de um novo Brasil. Ele abriu as portas para as grandes expedições em naus que flamulam as bandeiras dos arco-íris, e não em pura manifestação egoísta de nossa causa, eis que o arco-íris representa paz. A paz é atributo genérico a qualquer povo.
Lutemos pela paz, então, que é benéfica. Mas precisamos da guerra para alcançá-la? Hoje tenho convicção que sim, já que o inimigo, ou melhor, a bancada evangélica, mune-se de todo despautério secular para nos atacar. Precisamos da violência pacífica de Gandhi para nos proteger, mas não devemos recuar como o discurso, nem com as meias-conquistas. Devemos continuar a nos entender e entender nosso real propósito. Se não acho importante o casamento gay, devo, pelo menos, tentar entender que as conquistas estão apenas começando e que não devemos nos demover do continuar.
É difícil aglutinar os desejos de uma comunidade que ainda aprende a se identificar como tal. Somos muitos, misturados, mas nas pequenas conquistas vencemos as batalhas entrementes. Não vale a pena questionar, agora, as equiparações legais. Somos livres para o casamento ou não. Respeitar o direito do outro é garantir nosso próprio desejo.
Resta-nos saber o que queremos: ser sempre jovens ou garantir uma longeva juventude mental em que pese o tempo? Portanto, devemos continuar no front. Temos o Willis ao nosso favor, temos a lei, temos nós mesmos. Usemos nossas armas a exaustão.Decretemos a reação à caça as bruxas, mas cientes de que os verdadeiros demônios são eles.

RARIDADES (Livro de Contos de Dan Porto)

 

RARIDADES – contos

do escritor Dan Porto

Alicia Star é a personagem principal de um desfile de diferenças e realidades que Dan Porto apresenta em Raridades. Os temas são abordados do ponto de vista de um observador que observa pelos olhos dos observados.

Há pessoalidades, pesquisa, observação, elaboração e poesia no tecido das histórias, nas falas e no pensamento, foco principal em cada narrativa, para personagem e leitor.

Personagens-narradoras conferem veracidade e um caráter de depoimento, que põe o leitor como ouvinte de confissões ou mesmo na possibilidade de analisar ou refletir com essas.

À primeira vista talvez a realidade extrema narrada por cada personagem, possa chocar ou mesmo incomodar, mas o desejo de seguir, revelação após revelação, prende o leitor e o transporta para o tempo/espaço do narrador.

O tema que costura todo o livro é, sem dúvida, o amor. Olhando com olhos atentos e ouvindo as vozes que saem das páginas, não se pode julgar nenhuma das personagens de Raridades, não há demagogias, talvez mentiras, mas elas não se negam a si mesmas, não sublimam desejos em detrimento de bons olhares.

Raridades é um convite a olhar o mundo da segurança de um livro.

Confiram:

Lançamento: 11 de junho, 18 horas, Samurai Café em Santa Cruz do Sul, no RS e online via Twitter e Facebook e no I S@rau Litarário via Twitter

Ensaio sobre o dia dos namorados

 Ensaio sobre o dia dos namorados

 

            Preciso de um corpus para a feitura dessa escrita crítica. Sim, é uma opinião crítica, contrária a onda amistosa do amor, feita sob o arroubo de uma sequência frustrante de  relacionamentos, confessadamente fracassados, mas que não tiram de mim  a característica empírica da experiência, da sobrevivência.

            Algumas obras, principalmente na música, fazem-me pensar neste assunto. A propriedade das palavras que reproduzo a seguir parece corroborar qualquer argumento assertivo; mas parto deste princípio pacífico para a tormenta de meu argumento. As palavras são de tom Jobim, Wave:

 

Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho…

O resto é mar
É tudo que não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho à brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho…

Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade…

Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver…

Vou te contar…

 

            Parto desse princípio quase aristotélico de uma verdade íntima do poeta que parece ser incontestável, bem no início, nas primeiras premissas do poema – as últimas linhas grifadas da primeira estrofe. A primeira premissa afirma que o amor é fundamental. Como se a vida fosse apenas uma delírio do poeta de em tudo ver apenas o amor. Porém, além do amor existe a própria vida, e vida, não precisa ser expert, não é só amor.  O fundamental, eu contra-argumentaria, é viver a vida bem vivida. O amor, no sentido empregado no texto: de não estar sozinho, ou seja, ter alguém, é uma falácia. Não digo que não seja necesário para a vida, como uma parte integrante, mas não como essencial. Talvez devéssemos fazer as coisas com amor, apesar de saber que algumas coisas sem o amor também funcionam; perícia, dedicação e competência são outros elementos valorativos de um trabalho, de uma obra, enfim de alguma realização humana. Amor é fundamental, assim como a água, o ar, a terra que pisamos, a amizade, a esperança. Enfim, poderia passar uma eternidade elencando o que é fundamental na vida, sem mencionar, que este amor é tão relativo.

            Superada essa primeira premissa, vamos ao segundo verso: “ é impossível ser feliz sozinho.” Partimos da ideia de que sem o “amor” do poeta, não é possível ser feliz sozinho. Então, como tenho vivido meus dias de solteiro? Eterna lamúria? Seria uma eterna busca de satisfação pessoal esse outro, que assumo ter sido escopo nos últimos anos? O que seria isso senão mais um constructo social para afirmar características outras de fundamentação de uma existência em sociedade? Eu acho que poderia aprender, como tenho feito, a buscar uma alternativa para a felicidade compartilhada – como quer o poeta e como quer os outros que nos cercam – sem provocar um juízo interno de depreciação do que realmente foi perquerido ou alcançado. Os de fora diriam ser frustração. Não me afasto dela, mas entendo que a frustração é parte de um amor não alcançado e não a falta dele. Ele está sempre perto, mas para a “falta” dele existe a alternância de algo entre amor e contentamento. O que seria? Para isso teria de saber o que é realmente esse amor fundamental.

            O amor é bom, não há dúvida nisto. A questão é atribuir a um outro a rendição de nossos traumas. Saber viver é fundamental, com amor ou sem esse amor, é uma questão optativa que vislumbra a felicidade. Amor nem sempre é meta, é meio.

Saber viver esse dia 12 de junho é uma questão de convicção íntima. Estar sozinho é um meio de adquirir a sua felicidade. Não à toa o aforismo “meglio solo que malo acompanhagto” constutui também uma máxima verdadeira. Não menos falaciosa, mas não tão insidiosa. Saber amar, além de tudo, é saber viver.

O Ânimo dos corpos

Para Giselle Jacques

 

Confidências em um único ato

Ele meteu como se pudesse me desvendar num único momento toda minha necessidade. Tentou safar-se de minha perspicácia em entender que aquilo era apenas brincadeira. Mas eu me entregara como se entrega no jogo, o rei em cheque. Sem escapatória coloquei-me numa servidão sem mensuras. A espera era silenciosa, enquanto ele tentava me descobrir; tirar vantagem. São assim mesmo esses jogos de sedução. O poder deve ser controlado. Qual o mal em dividir as entradas e saídas? – lembrei-me de um amigo! E por essas entradas e saídas é que descobrimos um ao outro; na permissividade do olhar sobre o ombro esquerdo (pode ser o direito), nessa lambida nas costas. Tudo deveria ser permitido. Mas esquecemos dos ombros, das lambidas, dos tapinhas, da palavra suja…do beijo. Não me interessa onde estou e sim como posso dividir o que sinto de forma ampla e não-egoísta. Mas será que só eu penso assim? E tudo isso vinha no mesmo instante em que o desejo diminuía e recrudescia, tudo de antagônico ao mesmo tempo; mas só servia os antagonismos salutares: dentro /fora; dor/prazer; líquido/secura; acelerada/parada; em cima/ em baixo. Enfim, os binarismos que movem a vida e por que não a vida na cama? Não me interessava quem chegasse primeiro. Tudo é questão de tempo e intimidade. Se houvesse muito tempo, acho que duraria aquele momento uma eternidade; se houvesse intimidade o tempo não seria bastante para a medição do que quer que fosse; qualquer medida pareceria atemporal. E ele continuava dentro de mim também como memória. A memória que embalava o gozo solitário, que não é mais descoberta e alívio para a falta. Somos sempre faltantes nesse vagar pela mente vazia. Somos (eu sou, acho) levados a sempre desistir quando se inicia, mas quando lá dentro de nós ( ou de mim) a coisa se enche de vida, revelando uma predileção íntima pelo quente, pelo carinho. Todos nós (agora é genérico) precisamos de dar e receber contínuos.

O último colóquio com o sol

O sol me disse que ia parar de brilhar. Perguntei por que a mim essa confissão. Que esperasse minha formatura, o encontro com minha mãe ou ao menos me deixasse sentar a penteadeira pela última vez. O que faria ele me perguntou. Pedi que me desse mais tempo para pensar; uma lua seria pouco tempo para raciocinar.
Peguei a xícara com o café ainda morno que esperara pelo término de nossa conversa. Ficamos pouco minutos nesse colóquio. O suficiente para esfriar o café e me causar a maior aflição de minha vida. Seria o mais novo filme de Win Wanders uma premonição antecipatória? Eu falara que gostaria de ver esse filme. Seria um castigo? Castigo? É, poderia ser se eu fosse um cristão normal. Mas eu era um cristão já arrependido de tudo. Não, não seria o grande complô que sempre me cercara. Não tinha nada a ver com o que sempre imaginara em minhas anotações pueris; aqueles papéis amarelos.
Ele não voltou a falar comigo. E disse que não tinha a ver com carpe diem. Tinha a ver com sabedoria. Mas eu nunca tive que decidir com cabeça. Sempre agi com sofreguidão. Nunca guardava o vinho para o dia seguinte. O que faria? A geladeira estava vazia. Sem vinhos nem alimento; nem alento.
“Eu me esquentaria ao ponto de uma ebulição extraordinária. Não sobraria nada. Incorporei os desejos revoltosos do Deus criador!” E me disse que não esperaria muito. Que eu teria tempo suficiente para tentar encontrar uma saída. Logo agora, que eu queria tanto a vida, depois de ontem, da notícia do câncer. E a minha pequena hortelã na garagem: morreria seca; os galhos ressequiriam em questões de milésimos de segundo. Deixaria minha hortelãzinha lá sozinha?
Que notícia daria a minha melhor amiga: o câncer ou o plano maléfico do sol?
Pedi uma nova audiência. Queria falar para ele sobre minha hortelã, meu câncer. Quem salvaria primeiro? Pedi que ele não queimasse tudo de uma vez; que purgasse seu ódio com vagar. Pedi que reconsiderasse tudo, que não se esquentasse tanto. Ri de minha própria piada sem destinatário, ri de mim na tentativa de entender o que era vida realmente.
O dia passou, a noite chegou, mas logo estava para ser o dia. Mas houve um eclipse, uma mudança repentina em tudo. O dia se escureceu. O que mais poderia fazer sem o calor do sol e o brilho de minha pequena hortelã? Pedi que ele aparecesse. Não achava meus olhos na escuridão daquele despautério solar. Não podia dar um passo a frente. Não havia estrelas, nem a lua, tampouco um asteróide desatencioso. Não havia um pensamento a se considerar. Nada parecia funcionar. Nem baterias havia por perto. Comecei a sentir um frio na alma. Mas não sabia se era o esfriamento final ou o sinal do câncer a despertar dento de mim. Pelo menos o sol não se queimou por inteiro. Deixou que sentíssemos falta pela sua ausência.

Um gozo para viver

Toda noite, antes de dormir, ele se entregava a Onan. Era quase automático! Nesse automatismo ele perdia um pouco de si (o que seria restaurado no dia seguinte), mas era nessa perda de fluido que ele se refestelava por ser só ele mesmo. Não precisava de um mortal. Onan se ia, e ele ficava sozinho num pensamento quase onírico sobre existência. _ O que fazer agora vazio?

Ele se cobre violentamente com o lençol da ignorância. Perde completamente o sentido do instante. Ele se enche de uma escuridão e silêncio profundos. Não há prazer nesse logo depois.

Ele faz isso para tentar viver o outro dia que é sempre um recomeço. A vontade de  desistir se vai no impulso para fora: a vida vai embora no chão do quarto escuro. Nenhum anteparo, nenhum receptáculo. Apenas o vazio misturado com o  prazer ignorado.

E ainda debaixo das cobertas, que escondem seu rosto (não sei dizer que feições aparenta ter), acha que aquilo é viver. O desperdício parece um alívio ao que nunca redundará em vida. Não interessa a ele se a terra (ou a meia) se engravida com sabedoria. O que interessava a ele era que, na perda, ele encontrava, todo dia , um vazio para ser sempre preenchido.

O funcionamento das coisas

As palavras ferem e as palavras curam

 (Um pedido formal de desculpas à Giselle Jacques)

 

 

 

 

 A garotinha perguntou onde desligava o gatinho. Depois de horas brincando, diante do cansaço dele, queria saber como dar corda novamente. A mãe não sabia responder. Afinal ela não sabia como controlar a vida e a altivez do gatinho preto de olhos grandes. Ela entendia de livros, de cinema, de coisa de adulto.

Mas a menina não se conformava com a ignorância da mãe. – Onde desliga mãe?  Onde liga de novo, mãe? É uma coisa que se aprende, tentava balbuciar a mãe. Mas o que seria tentar explicar aquilo que não foi dito? Como preencher as lacunas? – Será que preciso saber de tudo para que minha filha se sinta segura? Ela se perdeu nesse pensamento longínquo.

A filha queria entender aquele mecanismo. Como se pudesse controlá-lo como um interruptor de luz, procurava por uma coisa parecida naquele corpinho peludo e preto. Mas o gatinho tinha truques diversos, não se deixava entender. Mesmo que procurasse lógica, ela nunca encontraria o botão do sentar, pular, parar. Ela não queria que parasse naquele momento.

A mãe estava entretida com mais um roteiro. Queria dar um fim à história da conversa. Queria entender a mente nada linear do escritor arrogante. Ela queria saber por que ele se mantinha tão irredutível. Ela queria preencher os buracos que ela mesma não entendia. Olhou para a filha envolvida com o gatinho sem mais questionamentos.

 – O gatinho foi dormir mãe!

Dia seguinte, e a pequena menina de sorriso dourado, não parava de interagir com seu pequeno brinquedinho animado. – Você aprendeu como desligá-lo? A mãe imaginou uma pergunta para iniciar uma conversa com a filha menos curiosa agora. Enquanto isso, a menina colocava a gatinha no colo, segurava-o pelas patas para que andasse com apenas duas, largava o gatinho livre, mas ele voltava para puxar o pelo de seu casaco. A mãe parecia intrigada.

Dia seguinte, e a roteirista ainda não havia decifrado a conversa. Estava muito petrificada por aquela falta de entendimento completo da história. Perdeu a tarde toda lendo um monte de despautérios de um escritor insipiente e incipiente. Ela queria entender. A menina não parava de brincar com seu gatinho preto de olhos luzentes. Pulavam, brincavam, se entendiam plenamente. – Você que saber onde desliga este gatinho serelepe? – A mãe não entendia aquela falta de questionamentos da menina sempre curiosa. – Eu te acho tão inteligente mãe! –   a criança falou sem encará-la. A mãe sem compreender o porquê, perdeu-se num olhar fixo para a filha. Depois de alguns instantes, a mãe ainda  ficara absorta naquela brincadeira sem fim de sua filha, que estava falava sem fôlego porque o gatinho não a deixava em paz. E sorrindo sem parar falava:

 – Ainda bem que a senhora não me mostrou o botão de desligar! Ainda bem!

Acho que agora it’s over, baby!

Vontade de entender toda a tristeza do mundo e aquilatar a minha entre as mais baratas. Vontade de entender minha sofreguidão para com o dilatar das pessoas. Vontade de abrir minhas asas e superar essa barreira de montanhas imóveis, altas, óbvias.

O que fazer para superar essa dor que verte lágrimas secas, que não encontram palavras para nominar esse sentimento na sua depuração final? É fraqueza? É tristeza somente?
O que fazer com essa atribuição teleológica de trampolim – antes fosse ponte levadiça!

Preciso entender o pesar desta balança onde nunca preciso quanto valho; quanto vale meu suor; meu corpo gratuito. Essas medidas me facilitariam ao acesso de minha própria natureza. Talvez residisse aí o segredo da abertura do cofre interno. E poderia encontrar dentro de mim a saída para essa inércia de agora.

Decepção é a palavra que me orienta os sentidos agora. Mas resta saber se ela está em mim ou no outro que me enxerga, mas que teme o confronto. Eu sou o ideal, eu sou um possível caminho. No entanto, pra quem tem medo, eu, talvez, seja um obstáculo mortal. Um espelho? Ou uma possibilidade remota?

Eu poderia te falado de traição, mas quis falar de decepção. Traição pressupõe uma premissa de compromisso, e o que havia era apenas o precoce “eu te amo”; nada mais. De nada mais precisávamos, justamente, porque, lá no final do amor, alteia-se o ódio.

Eu poderia ter falado de compromisso, mas isso não havia. Havia apenas um contrato velado de temporada de amor. E o que é isso?

 

Alguém pode me ajudar por favor?

O lado vazio de um banco e outros pensamentos

 

Tudo, às vezes, parece vida que se move como o vento; dunas; pássaros ou o passar dos dias…Mas nem tudo é tão móvel quanto parece. Pode ser pedra; pode ser uma memória; a perda de alguma coisa. E tudo isso pode acontecer agora ou depois. Vai depender se a gente deixa isso ser móvel ou petrificado por dentro.

Invariavelmente, paragens e poeiras de nossas experiências sensoriais têm a ver com a vida, com o vento, com a pedra, com a perda e com o passar dos dias. Depende, sempre, do que queremos ser.

Hoje sou pedra amarrada – um mecanismo para o suicídio; posso ser a pedra do estilingue de Davi; posso ser a pedra fundamental de uma construção. Posso ser um pouco além, o vento de uma bandeira de paz; posso ser o sopro de mais uma velinha; posso ser o último suspiro. Ou ainda, se quiser, posso ser um último registro; posso ser uma lembrança de alguém…ou posso ser a última esperança.

O escuro ou o novo?

Ouço o escuro do silêncio neste quarto fechado comigo. Experimento ouvir o som das teclas do computador como se elas fossem sinfonia geradora de algum ânimo. Ao meu redor, pensamentos disfarçados de fantasmas como se pudessem me assustar. Mas o único medo é o de a luz se apagar em meus olhos. Por um instante repouso a cabeça sobre o lençol macio. Sinto o cheiro, o carinho e o conforto gratuitos. Esqueço da luz, do escuro, do meu medo. O que me vem à cabeça é esquecer-me de tudo. Como se eu fosse um pequeno bebê que não sabe de nada, não tem nada. Eu não tinha nada, como tenho agora esse escuro. Parece nada e este nada me satisfaz. Não sinto necessidade da carne, nem do pensamento. Seria a escorregadia sustentação do prazer todo o meu sofrimento? Seria o desapego à luz, ao contato, ao pensamento uma solução? Estou quieto como se fosse aquela criança sem expectativas. Sinto uma felicidade inominada que ainda não conhecia. O escuro me permitia ver, a mim mesmo, sem impressões erradas de falhas psicológicas; sem os desejos primitivos de existência plena e satisfatória. Sem posses enfim. O que poderia querer? Nada, seria uma solução para essa eterna solidão? Seriam eternos esses desejos de querer e ser? Ser nada redundaria num corolário da felicidade? Continuo a ouvir o silêncio das coisas que me rodeiam e insistem em existir. Estão todos ao meu redor, embora eu não as reconheça. Sei que existem a cômoda, os sapatos, o dinheiro na gaveta, o lustre sobre minha cabeça, o amor lá fora. Mas o que me bastaria agora? Criança medrosa. O que é o medo dentro do nada? Não, não é medo! Ainda estou deitado olhando para a luz. Esta que dá cor as coisas, as desencobrem, as qualifica e dá nome a tudo. Seria culpa da luz a minha ignorância para lidar com o que não sei? Era a única coisa que deixava clara que eu era aquele ser cheio de perguntas. A luz, o conhecimento trouxe uma ligeira insegurança, uma tristeza que até então sabia. Mas seria a mesma tristeza de não ter nada no escuro? Mas não seria tristeza essa ausência das coisas? No escuro nada tem a mesma significância. É novo! Novo, novo… O novo inaugura a incerteza de uma possível felicidade e certeza de uma corriqueira desistência. Coisas se alternam nesse novo entender. O novo instaura a surpresa do alívio para as coisas inominadas ou mesmo as que vemos sob a luz. O novo preza o desapego, refuta as verdades antigas e sepulta nossos medos. Não tenho medo do escuro que me cerca e que me tira o equilíbrio. Com a luz reconheço os obstáculos. Mas é sobre o esteio do novo que recomeço a viver.

Tudo de novo

 

 

Parece que passa. Vira memória. É uma passagem essa vinda. Ele veio de longe. Pouco tempo de permanência. Logo invade o meu peito de amor. Como pode me enganar? Mas o discurso era do hoje. O agora para ele era o pouco sempre. Uma vontade de tudo ter. Ou o peito estéril ou o peito de leite. Era tudo possível. Uma camisinha no bolso. Um desejo para todos. O que viesse podia ser felicidade. Um gozo, dois gozos: a dualidade. Prazer não tem nome. Beijo podia ser das duas línguas.

 

Como é isso? Uma chance perdida no impossível. Tentar viver o pouco tempo. Um único tipo de beijo. Nada de perigo, senão a incerteza! Queria eu saber o que não sentia? Ele era forasteiro. Poderia enxergar a verdade? Soubesse eu beber dela. Teria saltado a fogueira. Mas ainda foi antes.  Antes que eu entregasse minhas jóias. Entreguei apenas o cofre fechado. A chave escondi mais fundo. Engoli. Perdi. Me engasguei!

 

Eu o vi de novo. Novos braços o conduziam. No meio de uma multidão alheia a tudo. Tudo o cercava. Como seria o ideal? Decerto não era eu. Eu já não havia. Era outro. Éramos outros. Eu aqui do outro lado. Ele lá com outros beijos. Não eram beijos! O que eram aquelas entregas? Aquelas testemunhas me olhavam. Peito doído. Mãos geladas e soltas. O som do ambiente parecia além. Onde estavam meus pudores e rubores?

 

Não tinha onde. Era apenas o lugar de minha ausência. Sozinho! Eu estava de novo. Mas não era novo. Estava perdido no que eu era. Eu era alguma coisa para ele. Mas o que seria? Nada parecia o mais simples. Era mais difícil as mãos ao vento. Sem atrito, sem resistência. Quis eu esse caminho. Tava tão bem na solteirão. A cama que cabia minha solidão. De que valia o cheiro da presença. Extirpei fronhas cheirosas.

 

Passa. Tudo passa! Né verdade? Agora é passado. Sem interferências. O prazer das mãos. Sozinho é nova palavra. Aquele sozinho que deixei antes. Reencontrei antigas fotos. Nada de mãos dadas.  O que é isso? Isso passa; isso de sentir mãos juntas. Nunca mais! Nunca mais? O que fazer agora? Não sei. Apenas tento o novo ar. Ar de novos pulmões. Sangue novo. Aparência de antes. Tudo como antes. Escova no copo. Uma escova apenas. Um sonho apenas para colocar no único prato!

Um conto a procura de um título

 

PARTE I

Juntaram os gozos como se pudessem criar um novo “eles”. Não importava agora. Estava decidido. As duas essências entrariam em Maria para que o novo rebento fosse um segredo da criação. Como seria esse novo fruto deles? Apenas a história futura poderia dizer. O rosto… teria o nariz de quem? Os lábios de quem? Os olhos de quem? Como seria a assunção do desejo da real herança dos dois? O segredo seria revelado?

A mistura estava guardada como se fosse relíquia de uma nova geração por vir. As células se misturavam, tentavam unir os desejos. Como amalgamar esta vontade em líquidos, e como sentir essa permissão tecno-teológica de sonhos como Deus? Apenas precisariam de Maria. A espera seria normal, o passar dos dias  normal, tudo seria normal. Não fosse uma dúvida dividida. Maria seria apenas o divino receptáculo e gerador da vida redentora. Mas o que seria o rebento desse amor? O nome? Qual seria  o nome? Seria, teria a letra inicial de quem? O sobrenome? Pequenas perguntas diante da imensidão de grandes possibilidades.

(…) Não quiseram mais falar da mistura. Estava congelada… em suas almas, esquentada por um calor que somente poucos entendem. Dia e noite pensavam nela, mas queria vê-la em Maria. Como ficaria Maria? Quem era esta Maria? Tinha que ser Maria esta mulher…

 

Continua…

 

 

Noite pesada

O chato disso tudo é ter que encontrar o sono perfeito num comprimido. A vida se resume a compacidade do poder em uma única dos, ainda que não perfeita. E para – pelo menos deveria – para esperar o efeito; entorpecer-me de um sono obrigatório.

Parece que lá no início do texto já havia algo. Quando usei o “disto” tudo, alguma coisa acontecera. Pois é proposital esse tom referencial, como se ontem tivesse sido tudo do mesmo jeito, e hoje apenas uma insconsequência de ontem.

(O comprimido não surtiu efeito ainda)

O que tenho agora é uma vontade de que o tempo passe porque lá fora o mundo está se acordando para a noite. Eu é que fiquei me controlando no mal que lá fora ri e se droga. Eu optei por descansar um pouco, dar uma refreada. Parar é um pouco deixar-se morrer. Mas o outro dia é sempre um inexorável recomeço. Consigo parar?

(Sinto um efeito querendo aparecer)

De fora do quarto, uma música me convida pra sair: “ take me out tonight…I don”t want to GO home”. Diz-se que o pior é ficar sozinho – e isso tem sido uma infeliz constante.

(Mudo a posição de meu corpo para ensaiar o sono)

O cérebro parece dar os últimos sinais de funcionamento como se fosse parar para sempre; uma preparação a morte! Seria assim a morte: uma grande excitação, então depois um grande silêncio escuro?

(Há tempos que não penso nessa finitude)

Os olhos parecem arder; seria outro efeito do remédio? Ou seria um desgaste por tanto deixar meu corpo não agir sozinho?

(Estou –estava – escrevendo esse texto à mão)

A mão parece cansar. Não é cansaço, é falta de costume, falta de uso tal qual o canino perde a “rasgabilidade”. Somos todos uma reinvenção de si, ou melhor, uma ressignificação das nossas necessidades.

(Tento segurar a cabeça com a mão esquerda)

Parece surtir efeito o poder da droga feita pelo homem. Começo a olhar sem sentido para as coisas do quarto. Mais uma vez tento evitar a queda da cabeça pesada. Os olhos ardem e sinto um pouco de morte como se fosse fechar os olhos para sempre.

(Repito a mesma mensagem do início)

O chato disto tudo é ter que recomeçar. Tudo de novo. Queria acordar e perceber que amanhã seria de fato outro dia. Diferente! E que meu cansaço final não fosse de rotina, mas de um dia de rotina, mas de um dia repleto de vida.

(Releio texto como se corrigisse o tempo perdido)

Vou tentar ouvir Rufus…

Por que ser gay?

O que restou ao homem entre a angústia e a ansiedade? Agora que o Cristo está morto – não volta, não voltou – o que fazer? Resta lutar contra a alma, adotar a luta do corpo, pelo corpo.  A nova causa para a rebeldia é a sua essência. Sê gay! Essa é a nova esperança e causa depois das guerras.

É a autêntica liberdade da impositiva burguesa patriarcal. É uma possibilidade para a falta de entendimento do real compromisso com uma verdade relativa. “Eu não tenho mais por que gostar de bola, coçar o saco, ser provedor de uma família tradicional e já posso casar como quero!” Há uma antítese para os padrões que fundamentaram o homem ao longo dos séculos.

Se a preocupação é com o futuro, ser o que não se poderia ser;  estar gay parece ser um solução para o cartesianismo da teleologia. Seria? Tudo parece o mesmo, o tempo todo. Mas SER gay é um estado diferente. Seria uma tautologia para uma tendência existencialista? Na dúvida subsiste uma esperança.

A percepção é de uma sensibilidade ambivalente: o poder da reprodução e o poder da contenção. Mas não apenas o risco existe, tem também a libido. E o que é isso de SER – não estar – gay realmente?

Há contra o que lutar? A homofobia é uma luta justa, uma bandeira a ser levantada contra os radicais – que ecoam a suposta ira de Deus – existe o discurso da paz, do respeito, de cidadania. Nunca antes democratizamos tanto e ensinamos a usar essas palavras. Lutamos contra esse ódio em nome de Cristo, essa marcha em torno da ira. Temos uma luta contra o convencionalismo operante que oprime, segmenta, seleciona e certifica o maniqueísmo alienante. Desde que somos livres, podemos não ser os mesmos a cada dia; desde  Focault é chato ser o mesmo sempre. Mas existe um fundamento contingente que dá identidade e corpo.

Então, o que é reforma agrária hoje em dia? O que é luta de classe? O que é independência e colonialismo? Ainda há lutas para se lutar (que não a da fome)?

Eu tenho uma e espero que daqui a alguns anos eu possa relembrar dos destroços e relíquias da guerra. A pior guerra é aquela que travamos internamente. Eu já venci a minha. E se se pode dizer : sê homem menino; pode-se também dizer: sê gay homem!

Coisas boas têm seu tempo para acontecer (reflexões sobre um pedido para entrar na história de sua vida)

 

ESTOU PRONTO PARA ENTRAR DE NOVO NO CAMPO DO AMOR – E NÃO DEVERIA SER DIFERENTE…

Agora só um rio caudaloso me enche de vazão. Canais fechados. A porteira só se abre se ele quiser fugir. Rio violento e tenro, como a palmada e o toque sutil. O rio tem sotaque forte como quem tem casos para contar. Nunca me sinto vazio!

(…)                    

Ele pode ser mais um, mas mais um que soma, não subtrai, não divide. Tampouco se multiplica, espalha-se como vinho sobre a toalha branca. Nódoa que pode ser eterna. Mas ele vem brando como vento de tarde, beira-mar, sorriso aberto. Que seja mais um, mas é talvez o que queira como primeiro. Primeiro em tudo, como se eu experimentasse tudo o que é bom de novo. De novo, amor!

(…)

Os olhos falam e sorriem pra mim. A constância surpreende minha incredulidade. Sou solicitado para deixar o escudo em casa. Reapareço com o champanhe e taça nas mãos. A entrega é certa. Já havia sido no primeiro beijo parcelado em três vezes. A última seria a conseqüência final. Este tempo presente em que tudo é tão intenso quanto a passagem pela vida!

(…)

O abraço à noite me remete a algo bom, já vivido. Nada é igual, é a diferença do gênero carinho. Mas a espécie dele é melhor, é quase palpável. Poderia até guardar num vidrinho só pra mim. Viver disso? Não, tenho a dose diária se quiser. Ele também sabe o que é intensidade. Sabemos. É felicidade de começo.

(…)

Vivendo cada segundo. O tempo não é de tantos planos futuros. Já gastei meu milhão de reais. Perdulário da vida assumidamente. E ele (não é o dinheiro) vem numa onda que me atinge. Para meu ritmo como se me tirasse do curso das coisas ruins. Leve impacto, grande percurso, forte reordenar. As mãos parecem ser juntar, unir para seguir passos lado a lado. Lado a lado não se houve mais. Antes era meu curso, agora é simplesmente nosso!

(…)

E pediram para mim felicidade. O que é isso se só sei do que é para sempre? Felicidade é coisa para sempre? Contingências me fazem mal. Gosto do que é duradouro, como a vida e a luz do sol. Existe coisa parecida, que pode dar vida em si, luz e calor? Que é isso que me toma agora como eventual e eterno ao mesmo tempo? É o beijo dele, meu leve desespero ou o tal destino?  Essas coisas misturadas querem me dizer algo. O que será meu Deus?

(…)

Não estou mais triste. O que era isso meu Deus? Não era meu verdadeiro eu, mas fazia parte assim como a lua prescinde do sol. Nunca se encontram. Mas as vezes perduram mais tempo que o outro. Minha face é hoje da felicidade – agora não me pergunte se tem a ver com sol ou lua, convencionalmente tem a ver com luz, calor, sol. Não importa. O que importa e merece ser registrado é que guardei o escudo em casa e abri o peito. Seja o que Deus quiser, ou o que nós quisermos…

AMY WINEHOUSE

EU TAMBÉM QUIS MORRER, QUIS CHORAR ANTES, MAS SERIA POUCA LOUCURA. FIQUEI ORFÃO. FIQUEI SEM PALAVRAS, MAS TIAGO SORAGGI VOCÊ “ESTRAGOU O CONFORTO DA SOLIDÃO QUANDO ENTROU EM MINHA VIDA!”_________________________________

TEXTO DE TIAGO SORAGGI

As lágrimas não ainda secaram por conta própria

Hoje, várias cabeças, assim imaginam, que os vícios realmente levam corpo e alma. Será que o vício do amor? Hoje, muitas cabeças comparam o corpo dela fino, magro, ressequido de amor a um de quadris largos, perninhas grossinhas um rosto róseo com suas bilhas verdes constrastando em seus cabelos que se imaginavam loiros devidos à cútis, mas eram um tornado negro, tempestade esta que saía de seu âmago em raios silenciosos, sofríveis, iluminando, apesar de muitos obscurecerem.Mas o som do relâmpago vinha em voz. Hoje, várias cabeças vão afirmar que pensaram que era negra, que pensaram que era uma senhora negra, que pensaram que era uma senhora negra com mais uma música de refrão chiclete, mas que era Blues. Ah! As cabeças! Os racionais! Os pensantes…

É necessário reticências para as mentes práticas, pois a prática, em suma, é reticente, é sem graça… São, na verdade, três pontos finais que querem ser um. Que não se finalizam… O que se finaliza, menina? Você Trovão, foi mais do que três pontos, você foi um ponto só e infinito.

Menina relâmpago, hoje minha carta pra você, a última, é para te dizer o quanto te entendo. E o quanto para te entender é preciso se livrar de todo o entendimento. Não é necessário ser racional para te ouvir. Você chega aos meus tímpanos pela vibração, menina. Pelo choque, pelo medo do choque, pelo disparo, no arrepio.

Hoje, também, as cabeças, lhe chamam suicída e que finalmente você conseguiu dar fim a você mesma. Também ouvi que você não tem cérebro, só talento. Ouvi que agora você não passa de um exemplo a não ser seguido. Eles estão errados, os cabeças? Não, menina! Não estão!

Torcemos tantos por você, por mais um disco, por mais um show, por mais um escândalo… só para ver você existindo por aí. Só para entender que seu coração ainda estava aí e não enterrado. Só para continuar acreditando que você seria mais forte do que os cabeças por aí.

Mas não garotinha, você não foi mais forte. Sua morte ainda é dada como inexplicável. Hoje eles abrirão você e acharão o motivo de sua partida. E mais uma vez os cabeças virão com aquilo que usam para existir e sobreexistir: A razão!

O que eles verão quando lhe abrirem? Nós emoção, os coração que não os cabeças, já sabemos o resultado de sua autópsia: Raios! Luz! Amor não ouvido!

Mas você não morreu pela razão. Voce não morreu! Você só explodiu em emoção meu amorzinho. Você é a emoção. Você causa inveja por que a razão não lampeja, a razão só breca, só acalma a luz, só apaga.

Você poderia ter sido mais forte, você poderia ter dito mais sim, sim e sim. Você poderia voltar às suas clínicas o quanto quisesse. Você talvez não tivesse os amigos que precisava. Mas tinham tantos outros que nem chegou a tocar e que tanto te amavam.

Mas você se entregou ao amor. Você disse que morria uma centena de vezes, então volte meus olhos verdes! Volte! Pois, para mim, você não é apenas uma moeda rolando paredes acima. Você também havia dito que “Não se pode ajudar quem não quer se ajudar”, Isso foi uma desistência? Por que, menina? É tão cedo… Você me ensinou a me rasgar por amor, você disse e chegou a alertar, chegou a avisar que você não era boazinha, mas você não era boazinha com o amor, com este que nunca foi bom para contigo. Afinal, nessa guerra profana, você me ensinou que o amor é um jogo de derrotas.

Você foi a artista completa, você não foi cópia de nada, você não era a “nova”, nada. Haverá, a partir de ti, novas. Você ressuscitou o soul, e tua alma, ressuscitará? Tua alma continuará clamando e teu corpo reclamando por vida e por amor e por calor em cada faixa dos teus discos, em cada vibração da tua voz, em cada arrepio de nós, os teus corações ainda não enterrados? Você era a artista da entrega, você elevou a decadência, você era a amante, a suja, a do chão, você era a que ficava sozinha no quarto, na sua cama, esperando por um pouco de calor.Você tentou agir igual a eles, linda. Você se manteve compromissada o suficiente para não se perguntar onde estava o amor, você ficou cansada de chorar. Eu estava lá contigo menina, você esteve comigo ao meu lado, escorrendo comigo enquanto tuas notas me faziam ainda vivo. Tentei limpar a casa contigo, tentamos beber menos nossos vícios, mas somos profundos demais, não somos silenciosos para nos calar com esse senso de contentamento que todo mundo tem e desaparece assim que o sol se põe. À noite, o amor continua ardente em nossos olhos, se prende em nosso interior, nos enche de medo, nos ensopam até a alma, e o amor nada em nossos olhos ao lado da cama, nos derramamos sobre o amor. Mas hoje a lua foi embora e você acordou sozinha…

Você era aquela que acreditava chorando, você é aquela que ainda espera. Você não acredita em ilusões como eles dizem: de se amar mais, esperar menos, querer mais. Você foi a que mais se olhou no espelho e não se viu. Você foi a mais aberta, a autópsia artística mais clara. Nunca negou que amava e ainda mais, mergulhou no amor e foi nadando cada vez mais fundo… E não teve mais tempo de voltar. Havia encontrado seus olhos no fundo de suas próprias lágrimas. Conhecer o amor é amar o amor, certo? Você me ensinou a encarar a derrota neste jogo de amor e a ter esperança de que não se diz adeus com o coração, apenas com a razão.

Quem vai acordar sozinho agora serei eu!

Sua música foi apenas gritos por ajuda, por amigos… Oh! Sinto-me agora tão sozinho. Eu também me encontro sem amor, sem amigos que me entendam. Só me rodeam cabeças, razões, praticidades, frio e vazio. Meu coração jaz contigo, minha linda! Minhas lágrimas secarão por si só, mas ainda não.

Pequena grande voz, você só amou muito. Amou sem medo do medo do amor te levar. O que te levou foi o amor. Onde está enterrado teu coração, agora ficará todo o teu corpo e quem voltará ao luto seremos nós, os que enterram o corpo e apenas restam de si mesmos o coração que teimamos em não enterrar.

Eu, Tiago Soraggi, que te amava por inteira, não me dispeço de ti, mas jogo um punhado de areia com pétalas brancas sobre ti.

Sentirei falta dos teus olhos, mas um dia voltarei a vê-los, secos, verdes e com um risco de lápis preto de dentro para fora e pra cima que só você, que verteu de dentro pra fora e que chorou lágrimas que não caiam , soube fazer como ninguém. Até logo querida Amy.

Nós só diremos adeus com palavras.

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Minha essência

Para e por causa  de Caio Fernado Abreu

Minha plantinha de hortelã ainda cheira. Eu me levanto para ver de perto esse cheiro. As folhinhas se entrelaçam como se fossem renda. E paro para pensar nas coisas ao redor. Momento meu. Então, fico sob o sol tentando sentir o calor; lá dentro da casa faz um frio solitário.  E não aguento mais esse afago da solidão. Deixo pra lá esse pensamento. Continuo a observar o meu redor. Logo em frente, uma frenética corrida de carros de um lado para o outro. O mundo se avexa como diria algum ascendente. E eu pareço que paro, atrevo-me a refrear o ritmo. Às minhas costas o cavalete de pintura está seco, quase podre, quase inútil. Penso logo no vernissage que tenho que fazer antes de dar o quadro prometido. Tudo são promessas nessa hora: o tempo vai passar; a hortelã vai dormir; o sol vai descansar. Mas são promessas? – eu começo a me perguntar. São constatações comuns. Volto ao meu redor. Os braços estão rijos. Novo corpo sobre o reflexo avantajado do vidro de meu carro. Olho duas vezes para mim. O cabelo assanhado, a camisa roxa, o reflexo do sol nos meus olhos. Desisto de me entender. Tento voltar para dentro da casa, mas o frio me assusta. Permaneço sob o sol. Quente, vívido, contínuo. Olho pra cima e vejo o céu límpido sem rastros de vida. Nem nuvem, nem pássaro, nem avião. Está tudo muito límpido, eu penso. Continuo com as mãos no bolso e penso mais uma vez em entrar. Olho para trás e tem uma parede verde. Apenas uma parede verde, e se olho para o outro lado vejo-me de novo no reflexo do carro. Eu de novo! Dou dois passos para esquerda e tenho-me diante de minha hotelãzinha novamente. Esmago uma pequena folha e logo sinto a essência no ar. – É hortelã mesmo – meu pensamento se prolonga na sensação daquele cheiro. Dou mais um passo para frente, prestes a me enclausurar e me pergunto: –  Se pudesse esmagar um pouco de mim, que fragrância momentânea eu sentiria?

ERASURE, 04 de agosto de 2011

 

http://youtu.be/_Q5V6L4DJkQ

 

Eu começo esse texto sem voz, sem as pernas…Cantei, pulei. Tantas foram as emoções provocadas pelo show do Erasure ontem, dia 04/08/11, em Brasília. Ter visto Mr. Vincent Clark e Andy Bell bem de pertinho, como se diz, numa apropriação mais do que comum: não tem preço! Na verdade, não tem.

Andy Bell, o vocalista estava bem no palco. Mais magro e mais sarado, para um quarentão que luta contra o HIV é por demais celebrar a vida. E ele a celebra sempre em suas letras. Esse clipe acima é da música Breath of Life: “vou viver meu tempo pelo resto da minha vida!” Parecia que o tempo tinha voltado há anos, quando eu tentava timidamente, na clausura de meu quarto, imitar as peripécias – vamos denominar essas facetas de peripécias – de Andy. Lembro-me agora dele cantando Oh’Lamour (que a multidão de fãs em Brasília cantou num coro só) de sinta liga. E pensava: – Poxa um artista pode ser o que quiser! E vivia imitando, enredando aquelas músicas, procurando entender o que havia por detrás das letras. Um coração partido era o mote de muitas delas, “o amor pode ser mortal”, dizia Leave me to blead. Ele não tocou muitas músicas intimistas. Abriu o show com Hide away, autobiográfica, que conta a história da maioria de nós que temos que abandonar a família por conta da rejeição, conflitos com família, preconceitos. Mas logo em seguida, cantando Breath of Life, o Erasure trouxe de volta os glamorosos tempos dos anos oitenta em que se lidava bem com a sexualidade. O maiô daquela época não tornava Andy feminino, mas atribuía-lhe a marca de seu camping (fechação) ingênuo e ousado. Para mim esta música é a mais emblemática do Erasure, pois fala sobre vida, sobre fantasia. Nunca me satisfiz com as letras dessa música, mesmo quando agora fluente no inglês. “Quero a vida e a vida me quer”, não são frases fáceis de aceitar. Aliás metáforas compõe o estilo de escrever de Andy. O azul pode ser do pássaro ou da tristeza. Blue Shavanah Song é segundo ele umas de suas prediletas. E ela a cantou da forma mais visceral que já vira antes. E pode se dizer que os shows do Erasure também não são completos se não houver as back vocals. Lembro de 92 no show em que cantaram The soldiers return e como o back vocal ficava lindo, coreografado e a batida singela de Mr. Vincent Clark ao fundo. Memorável. Assim como as duas cantoras que abrilhantaram com suas vozes.

O set list Hideaway / Breath of Life / Fingers & Thumbs / Heavenly Action / Always / Push Me Shove Me / Ship of Fools / Victim of Love / Breathe / Chains of Love / Sometimes / Drama / Save Me / Love To Hate You / Blue Savannah / Knocking On Your Door / Who Needs Love Like That / Chorus / Oh L’Amour / A Little Respect / Stop

Achei curto o show. O Erasure tinha música para fazer uma festa inteira, ou seja, enveredar madrugada a dentro. Mas uma hora e meia se passou com gostinho de que poderia continuar. Eu não parava de cantar, completamente extasiado pelas músicas, pela persona do Andy, pelo seu carisma e sua dança esquesitamente sensual.

Em knocing on your door pude perceber seu singelo tchauzinho pra mim. Sim como certeza foi. – Love you Andy – eu gritava já sem voz. Coisa de fã. Então ele me respondeu com seu gesto enquanto cantava. Foi muito bom! Tentei pegar uma de suas toalhas, mas em vão. Um monte de gente disputava o pequeno souvenir. Mas valeu a pena ter ido. As vezes, enquanto cantava, especificamente I love to hate you – o povo cantando- e via todo mundo de braços levantados em coro cantando em coro. Foi lindo. E para o artsta deve ser especialemente recompensador.

“Eu tento sempre encontrar algo que me faça mais doce” Seria assim, literalmente doce? A little respect também contagiou o público. Olhei pra trás e lá estavam todos cantando e novamente os braços em onda. Que sensação gostosa. Eu continuava feito louco, afônico, cantando com todo meu peito.

Faltou Abba, alguém gritou quando terminaram o show metaforicamente com Stop. Mas não foi falta, foi escolha. Afinal a turnê é de seus hits. Mas confesso que faltou umazinha do Abba, pelo menos Voulez Vous. Bons tempos, mas se você comparar Andy (O Erasure) de antes e agora, eles continuam os mesmos!

http://youtu.be/Z-GbjE6O2CM

 

 

 

Cadê o Robertinho?

 

Eu sentei sobre a cama que costumava ser a minha. Estava prestes a tirar as meias dos pés. Olhei para o lado, levantei-me. Tudo parecia tempo de ontem, ontem quando meu corpo ainda cabia dentro do armário. Era apenas para me esconder de mim mesmo. E quando abri a porta veio aquele cheiro de memória. Meu medo tinha mudado, mas meu esconderijo permanecia intacto apesar do tempo.

Tudo parecia pouco mudado. As coisas de que havia me livrado, voltaram de alguma forma em outra versão, mais antiga, mais contundente.

 

(…)

Tudo que vejo tem sentido de tempo. Como se pudesse continuar percebendo cada sensação na poeira sobre os móveis, no tempo abafado, nas janelas de madeira. As coisas novas: o pano de filó, a bicicleta hergométrica,  a TV LCD; elas também coexistiam, mas era história nova. Ainda queria do velho tempo a lembrança do que já fui.

Mas tudo parece parado, como se se animasse apenas quando eu voltasse a arrancá-las do passado. Lá na parede, quem nunca teve aquela foto em frente a bandeira nacional? Meu rosto fino, olhar quase pra baixo; à direita um jarro de flores. É engraçado sorrir do tempo. Como é bom reviver coisas deixadas presas à parede do passado.

(…)

Bom é rever o carinho de mãe. A panela no fogão, o pensamento nos passos do filho na cidade lá fora. Ela me fala assim: “Sento para catar o feijão e fico pensando onde está o Roberto!” E continua a fazer o que tem que fazer sem pensar que algo de ruim possa acontecer. Sua preocupação é só em saber que vai dar tudo certo. Onde anda meus pensamentos quando quem mais me ama direciona os seus a mim? Onde poderá estar o Roberto?

(…)

Eu peguei o avião fugindo das lágrimas brasilienses, como se pudesse chorar apenas as de saudades teresinenses. Tola fuga! Estou fugindo de que, de quem? Do passado? Talvez eu fuja de uma tentativa mais suicida de viver o presente. Eu escolhi viver o que acho que é certo, nada além, nada muito meticuloso. Nada que possa realmente matar.

(…)

Somos seres viventes apenas de passado e de presente. Futuro é amanhã e somos por demais hoje. E é bom dar essa volta de mãos dadas com o passado. Parece que toda vizinha sabe que Roberto chegou: o som alto e a voz desafinada a entoar uma música diferente. Eu e meu pequeno castelo de Rapunzel. Cabe perfeitamente o pano de filó na janela. Posso ser perfeitamente a donzela de cabelos salvadores. Eu o the one de Rufus. É a novidade que trouxe para a vizinhança. Menos erasure e mais quieto agora. Afinal já se passaram 17 anos.

(…)

Ainda não me libertei de minha inocência. Toda vez que volto pro meu quarto elevado,  fico retido nessas memórias telúricas que me deixam por demais algo daqui. E não mais me sinto daqui. Dessas paredes quase velhas, de um cupim saudosista de minhas ripas, de minhas estruturas. Os quadros na parede, os adesivos no basculante, o relógio de ponteiro imóvel, as gavetas fechadas, os livros fechados, de tudo isso tenho um pouco de medo. Tenho medo de parar aqui, por aqui.

Toda vez que tiro minhas meias dos pés, me pergunto: “ Fico pensando, onde estará o Roberto?”

 

T. R. Ê.S

Part I

No primeiro dia, eu queria saber o que dizer; as palavras certas, sopesando o mesmo carinho para os dois. Mas me atabalhoei e tropecei nas palavras a serem ditas. Saiu um:  seu beijo é mais gostoso, o seu é mais íntimo; o seu olhar fica sempre perdido em mim; o seu olhar está perdido onde?

E continuei nessas divagações iniciais e ingênuas. Eu não podia me mostrar por inteiro, especialmente em minha lascívia, no desejo de ter os dois ao mesmo tempo. Tinha que haver um ensaio, um diálogo, um triálogo, uma taça, não, duas, três taças de vinho.

Me digam o que se diz para dois homens diferentes antes de tê-los completamente…

 Continua…

Part II

Talvez a sugestão do amor fosse uma resposta ao susto levado a tê-los vistos em minha frente completamente discrentes. ” O que deveria ser isto?”, poderia sentir em cada pensamento, mesmo em cabeças separadas.  Eu esperava de mim um comentário justo, mas o que seria azado para um momento em que três pessoas se comiam como quem come uma comida exótica pela primeira vez?

Mas eu poderia dizer amor? Seria amor a palavra incial para o início do carinho? As primeiras carícias tinham que ser pensadas, como se meticulosamente eu esperasse uma reação segura e satisfatória? Não seria fácil não saber como reagir a um carinho não esperado. Quantos viriam? Quantas invasões adentrariam minha ingenuidade de ação? 

Mantive-me inerte. Não queria a inteligência de descobrir todos os caminhos para serem trilhados. Apesar de temer a minha falta de ação,  no íntimo, esperava que não soubesse nada, que me deixasse levar por um prazer desloucado de minha retidão herdada de uma educação por mais limitadora.

Amor ainda não era a resposta, apesar de gritar-me internamente que o que tenho de melhor é sim meu amor.

Continua…

Parte III 

(…)

Eu já cheguei quando tudo estava pronto. O grande girassol já tinha 20cm de diâmetro. Os cachorrinhos me receberam como visita estranha, senão a menorzinha que se jogava na grama, rolava e permanecia de peito aberto as minhas carícias de intruso. Mas ela havia me recepcionado bem. E eu pensava que ali residiria minha única dificuldade: adestrar o carinho de uma cadelinha já dócil e receptiva. Algo no meu peito me avisava que já estava prestes a encontrar a segurança, a tão propalada segurança que sempre buscara e somente encontrara num lar solitário; de uma pessoa boa, mas sozinha. Passado. Vivo desse medo atual. Eu chegara com o braços arrodeados como se segurassem um singelo bule de porcelana, tal era delicada minha entrada no novo recinto.

(…)

Mas eu não sabia como brindar a três. Era fácil entregar-se ao vinho. Sempre foi, mas, daquela vez, o vinho me trouxe pudor. Pudor de abrir mais uma garrafa; pudor de confessar mais uma idiossincrasia; de falar mais uma vez: eu nunca fizera isso antes.              

Mas o que pensam vocês? Que tenha sido uma tentativa somente minha? “Era sério!”, dizia um deles sem me olhar nos olhos. Olhava para o outro em sinal de aprovação, como se entendessem seus códigos corporais e gesticulados maquiavelicamente. Eu era novidade mesmo; naquele sentido de não ser descoberto de primeira, de me guardarem para algo mais meticuloso e mais duradouro…não tinham três taças iguais. Havia as deles. A mim, cabia a outra, a da visita, mas que também nunca existira. Improvisaram-me no gosto de uma das bocas…que vinho era aquele?

Continua…        

Parte IV 

Como poderia dizer o que é sexo, depois do que passei pelas quatro mãos? Tudo havia se perdido naquela cama. Minha experiência de nada valia. Onde estava meu juízo? Onde estariam minhas mãos? Teria as perdido por entre calças e cuecas desconhecidas? Como reparar o suor dos corpos se me cabia o espaço do meio? A dúvida se agigantava a cada volume de sangue que nos enchia. As vezes não podia sentir-me. Parecia que me era tudo simplemente um conjunto, um conjunto de calores, de suspiros, de desejos como se pudesse antecipar os destinos de minhas mãos sem norte.

Um gemido, não era apenas um gemido. Era algo, como se pode descrever isto…? Era uma pequena flâmula de fogo a expandir-se, que insinuava novas entradas e saídas. Como se houvesse caminhos bem orientados de onde entrar, donde sair, onde apertar, onde relaxar. Eu confundia tudo que havia aprendido. Eu me confundia com outro, não os outros, mas não me entendia, como se pudesse sair de mim e visualizar a cena completa por um ângulo superior. Seria aquela massa de corpos feliz e completa que Zeus por inveja e com um raio partiu? Felicidade seria algo naquela visão invejosa de um Deus?

Mas era sexo eu podia sentir em minhas costas, em meu ouvidos por vozes diferentes, em meus pés entrelaçados como desejos de uma fitinha do Bonfim. A boca se perdia entre tantos odores, novos sabores de beijos doces, de salivas trocadas. O gosto leve de álcool e de cigarro também se misturavam num resultado que me dava prazer – pode-se-ia dizer que eram doces? Sei lá…Eram salivas que se amalgamavam em um novo conceito que não queria saber de aprender. Eu apenas estava experimentado ingenua e  propositadamente toda minha ignorância de como conduzir dois homens.

Continua…

Pate Final de um grande começo

Um entrou por trás. Senti-me ameaço pelo seu rosto que não via. Os olhos miravam a parede fixamente. Sem perceber o outro abraçava minha cintura, olhos dele fixos em mim. O que me parecia o início de um ritual, era apenas uma grande ameaça de me aprisionar. Senti-a me preso aos olhos que enxergavam todos meus ângulos mais importantes. Por um instante me percebia parte de um jogo. Saberia eu jogar?

Fechei os olhos. Já não os via como deveria ver. De longe eles me observavam num gostoso soriso conjunto. Os cantos das bocas levemente excitados. Deveria cerrrar as cortinas e preparar a história para o outro dia, antes que me comessem? Ou deixaria de ser levado pelos braços do bailarino e dexar-me-ia conduzir num solo improvisado?

Abri os olhos, mas as vendas me deixavam ver apenas o que pudesse sentir por outros meios. Tateava-me como se quisesse saber se ainda não havia sido comido pelos olhos cheios de dentes e línguas. Novamente, senti-me entregue. Meus lados tremiam só em pensar onde eles poderiam estar. Abri a boca para saber se poderia receber alguma dica. Inclinei meu torso. Tateei mais uma vez o epaço vazio…Só me restava sair do jogo e abrir-me as vendas. Desistir de tentar.

Abri meus olhos com a ajudas das mãos. Era tudo um sonho. Onde eles deveriam estar? Estavam por detrás das vendas. Teria que colocá-las novamente. Hesitei. Levei aos olhos as vendas reveladoras. Apertei o nó e tentei enxergar minha excitação. O cheiro logo veio ao nariz com um leve teor de suor. Senti um calor. Mas era calor de corpo de aproximação, de uma aproximação de sangue pulsante, de fôlego irresistivelmente reconhecível. Calores como vapores contra vidro fresco. A pele exsudava de tanto calor. Não deveria ter tirado as vendas.

Senti. Esta palavra foi a que mais empregeui em minha mente. Senti as presenças novamente. Pela segunda e derradeira vez entreguei-me como se pudesse falar pelos meus olhos fechados. Meu coração levemente pulsando por debaixo do peito; a pele dilatava-se. Se alguma vez tive que me  render em uma guerrra, esta seria a primeira vez que me submetia a dois desejos diferentes e congruentes ao mesmo tempo. Deixei tudo correr pelas mãos deles. O sopro ao ouvido de palavras sujas e doces; o toque sôfrego e macio; a boca enxuta e molhada de tempo em tempo. Os sexos conversavam sobre intimidade. Eu já não sabia o que fazer. Só tinha uma única certeza: não deveria tirar aquelas vendas mágicas que me mostravam o real prazer.

TENTATIVAS

E

        u já não sei mais quem sou eu. Quando me penso farto de algo próximo do comum, começo a pensar no exagero de uma despedida completa desse pensamento. Estou aberto, eu acho, novo para entender as complexidades da vida em comum. Largo certo vícios anteriores como o de falar de outros amores; mesmo sendo coisas do passado e memóraveis: arrepio na espinha de um sexo deixado na memória da pele. “Não, nunca se deve falar desses arrepios do passado”, algum amigo já falou. Calei-me para isso. E tento partir do famigerado ou bendito novo. Estou no começo e é assim que tem que ser: as regras do gostar que mais se parecem exceções vão construindo um codex limitador. E mais e mais vou me fechando de mim, aprendendo a ser ou , do outro.

Q

       uando vou aprender algo de fato? Como quem aprende a dizer não! As coisas mais simples estão na negativa da morte; na negativa de não pular; de não correr riscos; de negar a impaciência. Estou buscando essas coisas simples, mas esbarro no perigo da constante aceitação irrestrita. Saber dizer não é uma sabedoria. Mas de onde posso obter essa sabedoria se me entrego de pronto a uma especulação da vida? E sabedoria tem a ver com resignação de certos poderes egoístas que criamos como defesa. Estou velho e aprendendo que a vida está na novidade e na efemeridade, daqui a pouco sou história na boca e vida dos outros. Não passo de uma tentativa. Aliás, sem dramas existenciais, todos nossos somos tributários de nossa memória póstuma, num amigo, num parente, numa foto, num livro. Não há superação que atinja esses meios. Somos fadados a viver nos outros.

A

        í espero na cama o que queria como verdade: o carinho, o sexo sem procura externa, a segurança…enfim, tudo não passa de ideia nossa, inventada, que ocorre de uma em um milhão. A loteria da verdade. Eu sempre jogo para acertar, mas nem sempre a vitória coincide com planos miraculosos de assistida garantia. Viver é criar pequenos sentimentos para serem herdados, nada prospera aqui.

T

         alvez a espera seja um alento para quem deseja muito da vida; talvez o sonho possa ser um corolário disso tudo. Sonhar tem me feito mais humano, mas não feliz. Felicidade saiu do campo do altruísmo para virar um truísmo de copo plástico, bebe-se no seu e joga-se no lixo. Lá, mais na frente, vou usar outro copo e enchê-lo de minha pretensa sede por tudo, depois jogo fora tudo de novo. E tem reciclagem para isso?

A verdade e a felicidade podem ser jogadas fora e resgatadas sustentavelmente alteradas?

O

        rivotril bateu agora em que as palavras começam a achar a minha verdade. Rendo-me a uma satisfação de completa nulidade do pensar. Confesso que as coisas se confundem. Não são mais o que se trata de espera e de enlouquecimento. Sei do tempo, porque pareço que vou morrer devagarzinho agora, para a amanhã me encher de um novo nada, ou uma nova verdade, ou quiçá, uma nova esperança. Tento ser ainda eu na procura de um encerramento bonito para o texto de agora. O diário das dores começa a amenizar de certa forma, mas ainda assim o mote de minhas angústias é que rebatem herculeamente com os efeitos da tarja preta.

Pinóquio com alma

Pinóquio com alma

por Roberto Muniz Dias, sábado, 17 de setembro de 2011 às 08:20 FACEBOOK

Quero voltar a ser Pinóquio. Prateleira limpa, lugar exposto. Cansei de terem-me nos braços, manipulando meus passos, meu molejo, minha personalidade de boneco. Antes eu queria ser humano. Viver como quem me criou; ou viver como os outros viviam. Eu vivia um sonho de criança de madeira articulada. Queria subir árvores, criar um roseiral e ser um homem como meu pai. Eu queria ser tanta coisa pouca, sem capas de super-homem, nem braceletes de mulher maravilha – até então nem sabia que poderia ser. Mas isso não importa. Teve um tempo que pulei da prteleira e brinquei sozinho, dando cada passo de forma tosca e desajeitada. As mãos trêmulas. Ainda sentia que não podia fazer muita coisa sozinho.

Eis que Pinóquio quis voltar do menino ao boneco. Estava cansado de ser um humano fraco, de pernas finas, olhar de vidro e nariz de mentiroso. Eu mentia a mim mesmo que longe de meu criador eu seria melhor. Mas o que mais procurava era encontrar um igual a mim. Lá de cima da prateleira apenas avista os pequenos ursinhos; as bonecas de pano envelhecido e as bolas de gude. Mas eu queria alguém com o mesmo sonho que o meu, de ser humano, de amado de uma forma diferente.

Pulei com o último impulso. Achei meu lugar. Fiquei sentado esperando o olhar humano admirado com minhas articulações de mentira, que não me podiam movimentar, senão pela vontade dos outros. Mas dei de cara com o destino. Não é assim que falam dos que se entregam a prateleira, a vitrine da vida? Pois é, estou aqui de novo.

Quem vai querer um Pinóquio genioso que quer ser humano e não mais um brinquedo; e às vezes quer sair da humanidade e voltar a ser um brinquedo sem dono?

Um beijo com adeus

A língua tentou me conhecer por inteiro, mas me assustei quando chegou até meu rosto. Pensei que não houvesse a ousadia de algo mais íntimo. Intimidade não parecia estar em nosso contrato. Mas não havia contrato naquela noite. Pela primeira vez sentíamos o calor de nossas peles; os joelhos se tocavam levemente.  Era tudo.

Como eu era ingênuo. Perdi tanto tempo em minha vida sendo tão decoroso com essas coisas que não merecem isso. Se houvesse tido tempo de descobrir com antencedência como funcionava o beijo, teria-o feito mais vezes. Hoje só sei escrever sobre ele de uma forma quase inatingível, escolhendo palavras que nunca experiementaria na forma literal. Como eu era ingênuo.

Se soubesse que podia beber saliva doce, alcoolizada ou levemente nicotizada, teria feito mais vezes com o ímpeto da placa de permissão de estacionamento; do permitido ultrapassar. Essas coisas que só se aprendem depois da primeira intenção em ser adulto. Pudera tê-lo sido antes de tudo, começando pelo toque, beijo e terminando a vida com um livro cheio de histórias. Como eu era ingênuo.

E quando aprendi que para tudo isso, de alguma forma, teria de gostar. Beijar pra mim já era uma descoberta reveladora e inspiradora de sonhos, mas gostar de quem beijava era uma impossibilidade quase palpável. Era como encaixar as peças de um Rembrand dividido em mil pedaços tranformados em quebra-cabeças. Eu odiaria um Rembrand. E como eu era ingênuo.

Gostar foi pior que descobri que tinham beijos com gosto de fel. Pessoas poderiam apenas te beijar, joelhos quase unidos num só, mas o pensamento era somente no que o beijo poderia principiar. Depois do gozo, não vinha o beijo. Outras descobertas realizei. Dentre elas, uma coisa que descobri que depois de se gostar, e depois de um grande gozo vem um simples adeus.

ESTRELA CADENTE

Ninguém me disse que hoje eu perderia tudo. Que a estrela cadente seria meu último pedido e não o primeiro por tê-la reconhecida. O pedido foi particular. Cabeça levemente inclinada quase se encostando ao peito. O pensamento positivo. Foi o que me pediram para sempre fazer. O que faço agora? Que pedido faço a uma estrela humana, feita de ferros e tecnologia?

Não passo de uma expectativa de um sonho que pode acabar. Se cair tudo que inventamos, cai sonhos e cai satélites humanos. O sonho do homem que vira poeira no céu lá de cima, de fora de nosso alcance táctil.  Eu sonhava com outros planetas, outras órbitas, outras estrelas.

E agora me vejo olhando pro céu numa perturbação de quem tem a alma roubada, o teto de vidro ou o relento como casa. Mas dizem que a proporção é mínima, numa estatística que assusta só por existir. Olhem pro céu hoje à noite, diz o noticiário.

Estou de prontidão, olhando para minhas mãos, para meu céu de todo dia. O sol que nasceu hoje já me disse que seria diferente, que seria um dia de sol. Mas o que a lua pode trazer? O que pode ser visto num horizonte corrompido por sonhos metálicos?

Hoje o dia amanheceu!

Casa

Não parece que estou sozinho. Parece que estou carente. Tal como os personagens de Caio F. E não estou sozinho, mas estou distante. Distante de meus dois amores. Duas pontes por onde posso atravessar, sendo que lá no outro extremo encontro sempre a mesma coisa: a felicidade de braços abertos.

Mas esse mar que não vejo, esse mar que não posso sentir, essa terra de praia que não  posso pisar e esse frio que espanta o calor de uma esperança, tudo isso me faz pensar na volta. Esse mar que é de Vitória bem que poderia ser de armistício, eis que vitória subentende um perdedor. Eis eu aqui!

Ainda estou por fazer o que vim fazer. Agora pareço-me com meus personagens. Aquele que viajou para dar uma palestra. Pareço um personagem prestes a encenar, a dizer as falas, a viver um destino pre-elaborado. E sinto a briza fria que criei. Sinto-a nessa cidade distante. Todas as casas debaixo dessa chuva fina e intermitente parecem abrigar almas mortas, vez que não consigo ainda ver o agito da cidade. serão todos noctívagos?

O que realemente sinto é uma falta. Já não me encontro completo. Sim, existe um complemento que me pertence. Partes que estão presente mas não como uma metade de uma famigerada laranja. E fico a me perguntar qual metáfora poderia usar…Vem a mente as formas de três pequenos triângulos equiláteros, que se forem juntados sabiamente não terá uma forma convencional ou conhecida. Perco meu tempo em achar essa metáfora, essa forma ou essa fórmula para adequá-los. Mas como? Somente lá dentro de mim é que entendo essa geometria mágica: os três corpos exigindo um lugar só.

Sigo o caminho que escolhi; uma trilha ainda que vou pacientemente calçando com tijolinhos amarelos. Vou tentar não errar o caminho, olhando para trás e enxergado o colorido de minha caminhada. Vou deixar assim, que essa tristeza momentânea passe logo. Logo logo estarei de volta para o lugar que pertenço, que me acolhe bem,  que me dá uma sensação de novidade renovada. Um carinho que reconheço e de pronto estabeleço minha condição de completude. É assim que me sinto fora deste espaço aqui presente. Doido pelo regresso a minha casa. Casa. Casa…

XIII CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS. VITÓRIA/ES, OUTUBRO 2011

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Texto apresentado na conferência: A VOZ DO SEREIO

A voz do Sereio- a voz do Sereio - A autoria Homotextualizada.
Autor: Roberto Muniz Dias, mestrando em Literatura pela Universidade de Brasília. robertomunizdias@gmail.com

Neste trabalho, pretendo discutir a empreendida desestabilização do cânone pela crítica literária feminista e as possibilidades abertas; dessa maneira, para os estudos gays e lésbicos. No entanto, a teoria e crítica feminista constituíram ao redor de seu objeto de estudos, a escrita de mulheres. Quando se trata de abordar a escrita de autores gays e autoras lésbicas, os estudos de gênero, embora constituam um ponto de partida, não são suficientes como aporte teórico. A Teoria Queer provê um referencial teórico mais adequado para esse fim, pois permite sondar uma voz identitária outra, encontrável em conjunto de textos que se agrupam em sua linguagem, e por uma temática sexual peculiar, configurando o que podemos denominar de homotextualidade. Um desses textos é a escrita de Caio Fernando Abreu, corpus deste trabalho.
Camerado! This is no book; Who touches this, touches a man; (Is it night? Are we here alone?) It is I you hold, and who holds you; I spring from the pages into your arms-decease calls me forth. So Long (Walt Whitman) 
            Toda vez que releio Morangos Mofados de Caio Fernando Abreu, sinto uma espécie de identificação imediata tal qual aquele homem sob a chuva, o corpo embebido de conhaque e a alma ansiosa, cheia de saudade. Sinto aquela mesma vontade de perceber que alguém me espera e que apresso o passo na correspondência certa dos desejos. A falta de pontuação proposital e o parágrafo extenso me dão uma sensação de ritmo de urgência, o amor não pode se calar. A voz muda do personagem se propaga por entre o som da chuva. Sim, uma voz. Voz rouca, voz inaudível, melancólica; outras vezes, vívida por reafirmar uma condição, um estado, um afeto ou uma identidade.
            As vozes que se dignam a falar, nesse discurso ficcionado, revelam sentimentos guardados, abafados – nem sempre tão resistentes –, imbricados com temas tão apropriados para a hodierna discussão da Literatura Contemporânea. Podem essas vozes maduras de homens gays seguros de sua sexualidade – cônscias de seus papéis como seres performativos dentro da representação que lhes são atributos intrínsecos, registrar um sentimento de genuína autoidentidade?
            E tanta subjetividade pode ser apreendida pelo cientificismo reinante, de uma autoridade positivista, heteronormativa, detentora do cânone estabelecido? A voz gay pode ser objeto para o estudo da Literatura como viés epistemológico? Os estudos e contribuições do feminismo, como produtor de um conhecimento crítico, muito contribuíram para o reconhecimento e inclusão do sujeito-objeto para o entendimento do fazer crítico literário. Para Rita Terezinha Schmidt:
“O que a crítica feminista propõe, no território dos estudos literários, é uma epstemiologia, reumanizada. Alicerçando-se nessa tríade inegociável – interesse + conhecimento+ agenciamento – a crítica feminista promete uma nova tradição de pesquisa. Nova porque os pressupostos e sua prática possibilitam uma interseção de estratégias – política, pessoal, teórica, textual e filosófica – que fazem convergir, no ato e na cena da enunciação, vozes que não têm presença no discurso científico tradicional.” (SCHMIDIT,1994. P.23-32)
            A tríade proposta pela crítica feminista conjuga os elementos cognitivos de uma nova postura pós-modernista, pós-colonialista, dando espaço para estudos baseados na historiografia valorativa de conteúdos de raça, condição social, sexo, minorias. Então, a inclusão do sujeito como partícipe do processo de crítica e construção do saber torna-se o seu diferencial em relação às antigas e ensimesmadas teorias.
          Com propriedade, Terry Eagleton observa que “a vida futura de um fenômeno é parte integrante de seu significado, mas este é um significado do impenetrável aos seus contemporâneos.” (EAGLETON, 2006. P.329). Seria o homem do conto de Caio F. Abreu, sob a chuva, implorando atenção, batendo, batendo, na porta do companheiro. Um marginal ou um ser com identidade própria, amor definido e pleito justo? A quem ele direcionava aquela preocupação e manter-se limpo? Talvez nem o autor soubesse de suas repercussões ficcionais, mas, sim, ele sabia que falava de pessoas e anseios inexprimíveis. Mas é um devir. Somente agora temos a amplitude de sua significação. Parece um deja vú esse passar de páginas de Morangos Mofados.
            Por muito tempo, vivemos imiscuídos num discurso monocromático, essencialmente heteronormativo, patriarcalista, judaico-cristão. Eu entendia tudo isso numa simples frase enunciada pelo meu pai: “futebol é coisa de menino, deixa de lado esses desenhos!” Estava tudo ali embutido. E resgatando Eagleton, vim entender melhor essas normatizações somente agora. A tal questão do gênero-sexualidade nunca foi tão discutida como depois dos movimentos femininstas pós-estruturalistas, dos movimentos lésbicos e gays. E a intedisciplinariedade entre Literatura e os estudos sobre homossexualidade nunca foram tão presentes como no contexto atual. Tanto que a Literatura se tornou um viés para a articulação dessas vozes marginais e desarticulação dos discursos majoritariamente heteronormatizantes de uma escritura que se pretende universal.
            No entanto, como afirma Anselmo Peres Alós, em Narrativas da Sexualidade: Pressupostos para uma poética Queer, os fundamentos dessa poética “não estão apenas a serviço de uma descrição das narrativas, eles também possibilitam uma acurada análise de como o texto reflete, subverte e questiona a realidade no mundo social no qual está inserido.” (ALÓS,2010. P.843) Mas o que uma poética Queer, senão um monte de vozes misturadas numa tentativa de clamar por uma plataforma política homogênea? É possível assegurar as essas vozes tratamento equânime?
            Longe de discutir a legitimidade e hierarquização de anseios, visualizo novamente o homem debaixo da chuva, molhado, com cheiro de conhaque, e de como, talvez o autor nunca tenha se apercebido do que realmente escrevera. Aí reside minha real fascinação pelo texto, naquilo que cabe a mim: a forma como o recebo. Eagleton, ainda em sua Teoria da Literatura, uma introdução, pontua:
 “a teoria da recepção examina o papel do leitor na literatura, e como tal, é algo bastante novo...poderíamos periodizar a história da moderna teoria literária em três fases: uma preocupação com o autor (romantismo sec. XIX); uma preocupação com o texto (Nova Crítica) e uma acentuada transferência de atenção para o leitor... para que uma literatura aconteça, o leitor é tão vital quanto o autor.” (EAGLETON, 2006. Pag.113)
            É aqui onde me localizo, nessa identificação clara com o outro que sou eu mesmo em outro tempo, debaixo da chuva. Mas em tudo o sentimento e o desejo se equivalem. Partindo do ponto de que eu me identifico com a leitura, a apropriação estilística que faço eleva minha categoria identitária a um nível ontológico. A compreensão e reconhecimento do meu status asseguram uma existência mais concreta e sadia. A questão da identidade gay no literário – como meio de expressão dessa voz mencionada – não se trata apenas de reconhecer características de uma poética aristotélica. Alguns querem reconhecer apenas marcas identitárias de uma sexualidade fora do padrão; outros advogam a existência de uma compilação alusiva ao tema. No entanto, segundo MacGee, nos últimos trinta anos no campo da crítica e da teoria literária, os estudos do sujeito “serviram para perceber que o sujeito é, antes de tudo, uma categoria da qual não se pode abrir mão.” (MACGEE, 1992. Pag. 13).
            A Homotextualidade, acertadamente falando como categoria estratégica para a implementação de uma crítica literária, inaugura uma estética experimental de contextualização, uma espécie de temática específica. Tal texto se alinha com outros de temática homoafetiva, reiterando temas e situações na elaboração de uma espécie de sintagma operacional dessas leituras. Por outro lado, a Teoria Queer amalgamou diversos discursos e individualidades, vinculando novos coros de vozes como se a sensação de pertencimento fosse alijada. Como afirma Kristeva, em Estrangeiros para nós mesmos, “todo nativo sente-se mais ou menos estrangeiro em seu próprio lugar.” (KRISTEVA,1994,p.27) A experiência do ser e estar gay promoveu a desconstrução do paradigma heterossexual estabelecido e conferiu  voz e vez àquele que se sentia marginalizado. Pareceu-me que alguém abriu a porta respondendo ao personagem de Caio Fernando Abreu no conto Além do Ponto.
            Que acontece se me declaro gay? Um adulto consciente dos constructos sociais submetidos, aceitos e rejeitados; introjetados e repelidos; refutados e assimilados; como lidar com certo abandono do que se tem experimentado e vivido?
            A questão do gênero, como debatida pelas feministas, abriga certa diversidade. A mulher pode recusar o biológico, refutar a maternidade, então que papéis sociais podem ser desempenhados por ela? Igualmente, ela pode, apesar de lutar por seus direitos, aceitar a maternidade mulher que recusa o biológico, que refuta a maternidade. Essa plêiade de possibilidades parece se desvanecer num discurso radical. Há uma liberdade teleológica sim, uma conformação feliz ou uma identidade decantada. Como disse Focault: “a vontade de ser um sujeito moral e a procura de uma ética da existência era principalmente, na Antiguidade, um esforço para afirmar a própria liberdade e dar a sua própria vida uma certa forma na qual podia se reconhecer e ser reconhecido por outros e onde a posteridade mesma poderia encontrar como exemplo.” (http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/estetica.pdf)
            Entendo que exista uma hodierna descentralização do discurso, ainda citando Focault: “as relações que devemos ter conosco não são de identidade: devem ser relações de diferença de criação, de invocação. É muito difícil ser sempre o mesmo!” (Foucault, 1994, p.739). Mas mesmo com a defasagem do tempo ainda me sinto e me vejo nas linhas de Caio Fernando Abreu, com o sentimento, com a dor, a alegria. Sou parte de um devir estabilizado. Tornei-me um gay pronto. No entanto, dentro desta poética Queer, não há unanimidade em ser este sujeito cambiante focaultiano. A crítica a este postulado é feita pelo movimento Lésbico que procura, também, uma identidade própria neste conjunto. Segundo Jagose, “o ceticismo Queer acerca do evidente estatus de identidade de categorias tornou-se suspeito para aqueles que simplesmente pensam que isto é apenas apolítico ou mesmo uma forma reacionária de intelectualizar.” De certa forma esta desestabilização das identidades é uma clara estratégia de homofobia:
“Nós não podemos permitir que o discurso privilegiado patriarcal (do qual o pós-estruturalismo não é senão uma nova variante) para apagar a identidade coletiva que as lésbicas tem recentemente começado a estabelece...Pois o que realmente  resultou da incorporação  da desconstrução do discurso,  no acadêmico discurso feminista, pelo menos, é que a palavra Lésbica tem sido colocada em aspas, se usada ou mencionada, e a existência de Lésbicas reais tem sido negado, mais uma vez.” (WOLF e  PENELOE, 1993,p 11).
            Parece existir uma luta sectária dentro do movimento Queer para a identificação dessas categorias que antes se unificaram para a luta por direitos e quebra dos estereótipos normativos. Uma espécie de resgate de autoria vislumbra-se nesse momento em que a Teoria Queer tende a perder sua carga política e de representatividade.
            Superadas as questões seminais dos textos edificantes do marxismo-engelismo, do edipiando de Freud e do simbólico de Lacan, tenho a dizer como homem gay maduro, que as práticas realizadas no campo performativo de minha sexualidade, atingiram uma estabilidade que me autoriza distinguir: desconforto de prazer; aceitação de rejeição; sedentarismo de nomadismo. Matei meu Pai, o totem; matei minha mãe: pari-me. Faço parte de uma comunidade unívoca com voz ativa. Sou parte de um coro estabelecido. Podemos falar no Brasil, do marco histórico da aprovação da união civil gay, e isto abaliza uma identificação, uma identidade. Esta respaldo jurídico libertário reforça os pressupostos de Focault quanto à estética da existência, mencionada alhures.
            No entanto, Tânia Swain, no seu Identidade nômade : heterotopias de mim, faz-nos divagar eternamente sobre o que somos, como se pudéssemos desempenhar um papel social inexoravelmente imiscível. Não sou partidário do essencialismo. Tampouco corroboro com os construcionistas que alegam ser a sexualidade algo fluido, o efeito de acondicionamento social. Eu sou o que sou. Porém, o que se quer debater aqui é a ontologia da identidade assumida por um gay adulto, para o qual não mais importa definir conceitos ou desestruturá-los, parte-se deles para um campo de desejos decantados onde se luta por uma existência harmônica, sem uma ideia fixa centrada na constante contestação, nem alicerçando uma passividade de uma verdade não-socrática.
            Os movimentos feministas e de liberação gay trouxeram à baila os problemas de ordem do gênero-sexo-sexualidade. Como afirmou Guacira Lopes Louro: “por certo vivemos num tempo em que os binarismos de gênero e de sexualidade são insuficientes para dizer dos sujeitos e das práticas contemporâneas.” (LOURO, 2008, p.145) Mas dentro do discurso feministas, as alas radicais e as mais brandas, se acotovelavam pela sua verdade. E mais adiante, Guacira se questiona: “Haverá efetivamente, uma única verdade? Ou as verdades serão múltiplas? É possível conviver com a pluralidade das verdades?” (LOURO,2008, p.147). Deixo que o filósofo Sócrates em seu debate com Protágoras estatize que a verdade é relativa.
            Lutamos tanto para o reconhecimento de uma identidade, de uma voz que fora esquecida, ocultada, suprimida, disfarçada, mascarada. Clamamos por igualdade  genuína entre os diversos entes ex-cêntricos, performativos da sociedade. A bandeira da Teoria Queer, ainda sob as matizes do arco-íris, batizada por Teresa de Lauretis ainda flamula com a mesma intensidade? Numa conferência sobre sexualidades gays e lésbicas, ela pronunciou:
“o projeto da conferência foi baseado na premissa especulativa de que homossexualidade não é mais para ser considerada marginal com o fundamento contrário forma estável de sexualidade (heterossexualidade) contra a qual seria definida tanto pela oposição quanto por homologia.” (de Lauretis, 1991: iii).
            Ela advoga – agora reconsidero Eagleton e sua revisão do passado –, por uma nova reconceitualização: “como formas sociais e culturais em seus próprios direitos, embora alguns emergentes e desta forma ainda mal-definidos, descodificados ou dependes discursivamente em formas mais estáveis.” (de LAURETIS, 1991, p.iii-xviii)
            Lauretis se contrapõe à Teoria Queer, termo por ela própria alcunhado, uma vez que  a sistematização desse corpo teórico implicou o silenciamento de alguns grupos. Se há uma discrepância entre interesses, há vozes neste discurso justaposto Queer que pleiteiam características próprias. As reivindicações modernas dos movimentos lésbicos e gays, apartados da miscelânea Queer, constituem autêntica necessidade, não apenas de contestação, e sim de existência. Obviamente que existe uma classe gay norte-americana com expectativas e necessidades diferentes de alguns gays que vivem no mundo árabe, por exemplo, enquanto aqueles lutam por uma maior garantia de direitos, os últimos ainda resistem para poder existir como seres humanos.
            Quando troquei as alianças em meu casamento, as indumentárias que eu e meu companheiro usávamos eram dois fraques, um preto e um branco. Eu usava o branco. Depois de alguns anos, já separado, alguém me alertou para o fato do fraque branco significar: a noiva. Mas em nenhum momento àquela época, deixei-me influenciar por os estereótipos, os símbolos da representação dos papéis. O feminino não me cabia naquela existência. O casamento, a união, a representação de meu papel junto ao meu companheiro era o que mais importava.
           Vivemos num mundo lingüístico e simbólico onde as denominações implicam em atitudes. Portanto, a discussão ente os usos de Queer Theory ou estudos lésbicos e gays se entrelaçam metaforicamente neste exemplo. A teoria Queer seria uma forma de englobar todos os temas ligados à sexualidade diferente, mas dentro da intersecção epistemológica subsiste a tentativa de uma política que não reclama por todos e cada um. As críticas direcionadas à teoria em tela variam entre a perda do foco, um devir constante de sedimentações de interesses diversos e a visibilidade das comunidades sem oportunidades.
         Segundo Jagose, o termo Queer “tem o potencial para trabalhar contra as especificidades lésbica e gay, e desvalorizar todas as análises sobre homofobia e heterocentrismo desenvolvidos largamente pelos críticos gays e lésbicos.” (JAGOSE, 1996, p. 58) E mais a adiante, ela é categórica em afirmar que: “ele (o termo Queer) neutralizará a eficácia das lésbicas e gays como categoria, e esta flexibilidade iria conectá-los com outros cujo comprometimento com políticas anti-homofóbicas é disputado.” (Jagose, 1996, p. 63) Longe de este texto promover uma discussão resolutória, no entanto, fica clara a necessidade de identificação das vozes de forma menos teórica e mais persuasiva. Neste sentido, a conclusão de Jagose sobre o destino deste embate é que:
“Queer não é uma conspiração para desacreditar lésbicas e gays; tampouco desvaloriza os inquestionáveis ganhos feitos pela causa. Seu principal feito é chamar a atenção para as compreensões que – internacionalmente ou de outra forma- são inerentes à mobilização de qualquer categoria indenitária, incluindo ela mesma. (JAGOSE, 1996, p.102)
            Volto a minha releitura de Morangos Mofados e sinto que a voz de Caio Fernando ainda tem uma força peculiar. Mesmo que ele não defendesse uma Literatura Homoafetiva, ele escrevia sobre a perspectiva de um homem gay, com suas problemáticas e suas inquietações. Não sobreviveu a esta contemporaneidade para visualizar o quanto seu trabalho pôde viabilizar a identidade do amor gay, da dor gay, da existência gay. Segundo Anselmo Peres Alós (In Estudos Feministas VOl. 18 N.3/2010, pág. 843), reproduzindo as ideias de Judith Butler:
“...muito mais do que a voz singular de um artista, o artefato literário é a expressão de uma determinada perspectiva, de um determinado conjunto de interesses. As  tensões geradas pelas premissas das teorizações gays, lésbicas e feministas são extremamente produtivas para o desenvolvimento de novas estratégias textuais e intertextuais." (BUTLER, 1999, p.11-20).
            Caio Fernando Abreu não só parte de um ponto de vista particular, ele constrói em sua emblemática narrativa de um fôlego só, contornos de uma subjetividade além da linha; promove a inclusão, a visibilidade.
           Mais uma vez os Morangos Mofados em minhas mãos. E quando releio Aqueles dois volto, o pensamento a toda teoria feminista da qual se retira especialmente que não há um paradigma para o corpo, quando se fala de sexo. No entanto, segundo Butler:
“‘sexo’ é, desta forma, não somente o que alguém tem, ou uma descrição estática do que alguém é: dependerá de uma das normas pelas quais o sujeito torna-se viável, a qual qualifica um corpo para a vida dentro do domínio de inteligibilidade cultural.” (BUTLER, 1993, pag.2).
            E Aqueles dois de Caio Fernando: “...não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais, ou mesmo um pouco burros.” Ainda que não lhes houvesse a compreensão maior de suas sexualidades, a experiência homossexual tornou-se inteligível em suas vidas. E embora os outros da repartição, onde eles trabalhavam, não tinham entendimento do que aconteceria àqueles dois, os outros: “quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.”
                Butler afirma que deve haver um repensar, vez que as relações entre natureza e cultura são decisivas para construção do gênero: “esse repensar chama a atenção para a questão do modelo de construção por onde o social unilateralmente atua sobre o natural e o investe com seus parâmetros e seus significados.” (BUTLER,1993, pag.2) Por isso, repensar a natureza como uma mediação humana, é repensar os novos moldes e estruturas históricas que dão lugar a novos comportamentos sociais. “Aqueles dois” já eram cônscios de seus papéis quando ainda não entendiam sua complexidade. A inteligibilidade de Butler reafirma a condição da identidade como produto.
            Voltando ao viés literário, como forma de propagação da identidade Queer – agora o termo pode ser usado em sua amplitude -, diversas são as vozes que se unem ao coro da identificação como modelo contemporâneo de manifestação de identidade. O amor que não pode dizer seu nome, agora tem uma constituição mais sólida do que antes pudera imaginar. Desde o naturalista/determinista O Bom Crioulo até Berkelley em Bellagio de João Gilberto Noll; ou de Proust com O caminho de Swan a poemas de Gregory Woods, temos reconhecidamente nesse coral de vozes uma característica aglutinadora, o que se chama de Homotextualidade, ou como eu quis alcunhar: a voz do Sereio. Esse ser inventado numa condição de porta-voz, que com seu encanto imaginário, consegue agrupar um conjunto, cada dia mais amplo e afiado, em sua cantiga nada inebriante, nada hipnótica, mas de tom realista e humano. No entanto, orquestra tal como as mulheres, a metáfora de uma música conceitual, falando de homens que se amam, de mulheres que se amam. Ele dá voz ao corpo ou o corpo dá a voz, ou ainda citando Miller: “no corpo de sua escrita e não na escrita de seu corpo.” (MILLER, 1980, p.271). É uma voz que não se pode mais calar.
            Se as feministas sustentaram seu discurso num revisionismo dos conceitos de         Freud e Marx, deve-se contemporizar a fala daqueles escritores que por algum motivo se calaram diante da mesma, ou ainda mais contundente, situação opressora do patriarcalismo, do heterocentrismo, do cristianismo. Este último ainda carrega em suas estruturas a mordaça que ainda proíbe que muitas vozes sejam ouvidas. Mas mesmo assim, o desconstrutivismo de Derrida pode ser emprestado para ruir com todos estes dogmas regulatórios. Afinal tudo foi escrito por este mesmo homem branco-ocidental-freudiano. Porém, hoje, tudo se pulveriza com as desconstruções sobre a ideia do que é ser homem, do que é ser gay à luz da Bíblia, o que é família. Tudo se relativiza quando tentamos polarizar as razões do ser. Tudo se opera no lingüístico, no simbólico e segundo Walter Wink:.
      “A Bíblia vê a homossexualidade negativamente sempre que a menciona. E a repugnância sentida não era apenas por considerá-la contrária a natureza, mas por ser antijudaica, representando a incursão pagã na vida dos judeus. Pura perseguição, sem uma complexa inteligibilidade da condição homossexual.” (WINK, 2008, P,12).
            Isto posto, a Bíblia funcionaria, numa comparação mais que azada, como um Codex obrigatório, um código de condutas sociais, onde as práticas que redundariam das condutas vinculavam gênero ao sexo, enunciando o certo e o errado. E assim vincula estas manifestações proibidas ao pecado. Afortunadamente hoje, este espaço que antes era segregador, rende-se ao postulado maior das leis divinas e acolhe a diferença, com o devido sentido hermenêutico e teleológico da palavra cristão. Há m devido esquecimento de que, às vezes, a própria Bíblia celebrou o amor e amizade entre iguais. Citando o trabalho de Alexandre Feitosa em Bíblia e Sexualidade, ele faz uma análise da história de David e Jonatas – esquecida propositadamente, comparando diversas traduções que citam o versículo bíblico: E sucedeu que, acabando ele de falar com Saul, a alma de Jonatas se ligou com a alma de Davi; e Jonatas o amou como a sua própria alma.(1 Samuel 18.1 ARC) Para Feitosa: “ o autor bíblico utilizou a forma mais profunda de se descrever um amor intenso por alguém: amar com a própria alma.” (FEITOSA,2010,p.105)
            Não há de se contestar que uma identidade formada sobre a superação de alguns pressupostos antes intransponíveis, alicerça toda e qualquer afirmação identitária. Todas essas lutas predecessoras que aconteceram logo após os movimentos feministas e os estudos gays e lésbicos, mais do que apenas uma revolução, eles se estabilizaram no posto, ainda não pacífico, mas numa posição que atesta ao ex-cêntrico alinhar-se ao seu verdadeiro sexo-gênero, ao ponto de lhe conferir uma voz desarticulada do ideal e do imaginário; do padrão e do desalinho. Nem a flauta do Fauno, nem o encantamento da Musa ou da Sereia, apenas a voz do Sereio. 

Bibliografia:
ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. Rio de Janeiro: AGIR,2005.

ALÓS, Anselmo. Estudos Feministas/Universidade Federal de Santa Catarina.Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Centro de Comunicaçõa e Expressão.- v.18, n.3, (2010)-.- Florianópolis: UFSC, 1999.

BUTLER, Judith. Bodies that Matter: on the discursive limits of sex. Routledge.1993,New York.

De Lauretis, Teresa. "Queer Theory: Lesbian and Gay Sexualities." differences: A Journal of Feminist Cultural Studies 3, no. 3 (1991).

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução/ Terry Ealgeton; tradução de Walteensin Dutra; 6ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

FEITOSA, Alexandre. Bíblia e Homossexualidade: verdades e mitos. Rio de janeiro: Metanóia, 2010.

FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits 1954-1988, IV. Paris, Gallimard, 1994.   

JAGOSE,Annamarie. Queer Theory – An introduction. New York University Press, 1996                          

KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos.Trad. Maria Carlota Carvalho Gomes. Rio de janeiro, Rocco, 1994)

(MACGEE, PAtrik. Telling the Other: The Question of Value in Modern and Pos-Colonial Writing. Ithaca. Cornell University Press, 1992.

MILER, Nancy. Women’s autobiography in France: for a dialetic of identification. In: Women and Language in Literature and society, Ed. Sally MacConnel-Ginet, Ruth Borker & Nelly Furmam, Nova York, 1980, p.271

SCHMIDIT, Rita Terezinha, Da Ginolatria à Genologia: sobre a função teórica e prática feminista.IN: FUNCK, Susana Borneo(org). Trocando ideias sobre a mulher e a literatura. Florianóplis, SC. Universidade Federal de Santa Catarina, 1994.
SWAIN, Tania Navarro.

http://tanianavarroswain.com.br/chapitres/bresil/heterotopias%20de%20mim.htm

WINK, Walter. Homossexualidade: perspectivas cristãs. Tradução de Jaci Maraschin. São Paulo. Fonte Editorial, 2008. 

WOLF, Susan J. and Julia Penelope (Eds) (1993) Sexual Practice, Textual Theory: Lesbian Cultural Criticism, Cambridge, Mass.: Blackwell).

O que te encantas?

Eu quis a verdade, eis que me vi chato. Minha régua de procusto, meu medo de perder, minha chance com o nada.

Tudo parece meio isso, meio aquilo. As coisas se assentam numa prateleira escondida, e tudo te parece meio esquisito.

Então te conduzem a porta e você não sabe se que sair, não sabe se a saída é de vez ou  inventada.

Passa a pensar em si como nunca antes pensara e sua saída parece mais como morte anunciada!

Não querem mais teu cheiro, teu valor, tua razão. Te deixam sozinho porque não entendem que o erro faz parte da perfeição.  Não a minha, mas de um conjunto bem maior.

Perdes o senso de territorialidade porque eis que teu terreno é paixão e não o solo, ficas aéreo a pensar no que é verdadeiramente casa!

Ele pega seu braço, quer te mostrar o caminho de casa. Não te deixas sozinho, mas apaga os beijos em teu rosto, vez em quando a lágrima corre. Leva neste ato o que foi  e o que está acontecendo. Tu te perguntas bem baixinho:

_ O que posso fazer meu amor?

Tu te entregas a um choro copioso, soluços,  ao canto molhado da chuva que percorre teu peito agora. O que podes fazer é mais uma vez entender que é fraqueza quando não argumentas com a razão. Então vem as desculpas – que ninguém quer saber de quem – quer apenas ouvi-las. Que adianta o tempo nisso tudo, se ele passa sempre como prova dos insucessos?

_ Não te prendas, não te subjugues, não te entregues fácil assim _,  eis que teus amigos te aconselham dessa forma.

De novo, perdes o chão onde sabias andar, onde sabias dizer o que és teu. Agora te cobras o peso de Atlas, o fardo de Sísifo, dos retrocessos. 

– O que mais me falta? perguntas olhando para os pés no chão!

Queres voar para longe agarrado nas mãos da razão, sobrevoando os descrentes de tua felicidade, eis que eles te querem mais chão. Mas o voo é catártico, não voas por contemplação. Asas de cera não! O peso de um homem comum, também não!

 O que me resta? te perguntas com os pés levemente levantados da terra.

Sobrevoa ainda o que é casa, mas deixa de lado a noção do amor. Carregas contigo o segredo do que poderia ser dividido, mas preferes te encantar ainda com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã. Consegues ainda te encantar com o amanhã.  

Desabafo de um amigo intimo!

Quero andar comigo mesmo para ver se consigo suportar meus defeitos. Os outros têm apontado muitos. Mas eu sempre me importei com minhas decisões, não estava muito preocupado com opiniões alheias. Nem ao menos tinha medo de encarar o espelho.

Depois que reiteradas vezes, em que a causa de um término de namoro resultava em dedos em minha direção, comecei a suspeitar de minha sinceridade.

Comecei a entender que não sou eu o dono da verdade, que não tenho que corrigir os vícios de linguagem, tampouco interromper os pensamentos dos outros. Tenho que ouvir, que assumir erros, a assunção de uma verdade de fora, outra. Eu tinha que fazer isso. E, estranhamente, isso parece com esse momento de ficar sozinho – mesmo que diante de meu computador – e parar o ritmo do que achava certo.

É difícil esse jogo com você mesmo, esse de arrumar arapucas para saber se verdadeiramente você cai nelas. Ando meio descrente desse meu “eu” catastrófico no qual me assusta a ideia de me mudar por completo e não fazer valer a máxima que norteava minha vida. Qual é essa bendita máxima? Acho que vou deixar essa pro final. Final?

A primeira coisa a fazer consiste em identificar os erros. Quais são meus erros? Poderia resumi-los no fato de eu ser muito chato, as coisas operam do meu jeito, levo tudo ao pé da letra, sou sensível demasiadamente, sou pessimista, tenho um sorriso forçado. E meu cheiro mais parece embriagar do que excitar. Com tudo isso só posso ser um superchato. Quem deveria de suportar tantos defeitos? Lá no fundo, admito que tenho assustadoramente me suportado – sem espelhos, sem reflexos em paredes de vidro, nos óculos dos outros…nos olhos dos outros. Acho que é isso! Poxa! Como deve ter sido duro para eu aceitar tudo isso. E não quero falar de qualidades. Logo quando pensava que sinceridade fosse a minha maior e melhor qualidade, eis que a vejo minando rapidamente. Não quero me ver agora no reflexo de um espelho – alem de estar mais velho estou quixotescamente imponderável.

Mas como terá sido tão ruim assim viver comigo mesmo, se tenho suportado o encargo da vida sem reclamações mais complexas. Se tenho amigos, tenho um celular que toca e que invariavelmente seria para dividir com um amigo tolas impressões da vida? Frugalidades que preenchem a vida de um certo sentido teleológico, isso tem sido o recheio de minha vida.

E agora, acuado, entre duas razoes que se acometem,  de uma doença chamada cumplicidade alheia, sou taxado de sério demais, de chato demais, de opinioso demais. É errado ter opiniões próprias? Minha professora de português me ensinou a fazer sempre uma leitura critica dos textos, meu pai sempre me alertou para confiar desconfiando, minha mãe me deu esse lado da escrita. Por que devo abandonar, de vez, esses ensinamentos?

(…)

A caminhada se prolonga com esse meu eu mesmo. É por demais silencioso esse vagar do pensamento concentrado em mim – é egoísta demais, penoso demais. Queria um espelho para ver se me reconheço; se tenho ainda aqueles olhos que mamãe sempre se dobrava as minhas chantagens. Eram chantagens? Será que eu já sabia manipular os desejos alheios ao ponto de só garantir minha felicidade? Não sei. Mas mais uma pergunta se amontoa às outras nessa caminhada que parece estar – sem tentar me apropriar do poeta – cheia de pedras. Agora resta saber se devo chutá-las ou construir minha torre. Mesmo assim, não consigo identificar ainda quem de fato sou eu!

A Revista TRIP de outubro

 

A Revista TRIP e sua viagem pela Sexualidade e a Inclusão

Gostaria de parabenizar o excelente trabalho editorial da Revista TRIP do mês de outubro que ousou com coragem e seriedade – palavras que parecem um pouco obsoletas no cenário jornalístico nacional – colocar em sua capa a temática da sexualidade.

Veja o texto na íntegra:

http://politicaativa.gay1.com.br/2011/10/revista-trip-e-sua-viagem-pela.html

Um botão apenas

Mais uma vez me peguei brincando comigo mesmo. Nada sei sobre fazer armadilhas. Dizem ser perigosas, mas acabei inventando uma. Não sei como dizer. Foi aos poucos. Quando me vi, já estava dentro, misturado com coisas inominadas.

Mas eu me percebia eu claramente. Era eu que estava lá, e que tinha de certa maneira preparado uma autoarmadilha. Eu não tinha o que contestar. Fui eu mesmo.

Fiquei parado. Podia ser um buraco, onde eu poderia apenas contar os dias pela luz e pela escuridão. Do buraco eu via apenas essas diferenças, não dava pra ver mais do que isso. De repente, um feixe de luz destruiu o que viria a ser minha saída. O ponto se aumentava a cada dia. Mas ainda assim era um passar entre os dias e as noites.

Parecia também que estava dentro de uma sala sem portas. Eu não havia construído portas. Tinha uma cadeira, uma mesa e eu – minha armadilha predileta. De novo, eu e meus medos, e não era do escuro, era de mim mesmo. Continuei sentado, cotovelos sobre a mesa, as mãos segurando a cabeça.

Às vezes sentia-me num campo aberto. Apenas eu. As folhas balançavam. Mas o vento não tinha barulho. Agora era o silêncio que me assustava. Caminhava sozinho. Vento no rosto, frio nas mãos. Eu ainda podia pensar que era um sonho. Mas eu não inventaria um sonho sozinho; estar sozinho fazia parte da armadilha. Mas onde mesmo que eu estava?

Lembrei-me de estar novamente sentado, construindo cada peça com as mãos. Uma meticulosa necessidade de terminar, preparando cada sentido das coisas que deveriam se encaixar. Os botões eram interessantes, pois tinham uma gama de funções que se alternavam entre o desafio e a solução. Mas eu, na velocidade dos dedos e do pensamento, não sabia o que tinha sido o quê. Então novamente ficava calado, tentando entender minha obra inútil. Não tinha utilidade.

(…)

Voltei pro poço. Pois deveria ser um poço aquilo de armadilha. Estava agora sem noção do que era dia e noite. O feixe de luz se foi e não teve mais a capacidade para destruir qualquer saída de ar; do que era externo; de vida. Fiquei lá como se cumprisse uma pena. Enclausurado por uma armadilha própria.

(…)

Havia uma escada. Eu me lembro. A escada levava para o alto, na elevação precisa para o antigo feixe de luz. Ela estava lá, eu me lembro. Mas que botão deveria eu apertar para que me tirasse daquele lugar, subisse a escada e respirasse de novo o ar?

Eu não sabia qual botão apertar…

Era para ser uma História de vida, mas virou um medíocre conto

                         As flores do pêssego

 

Eles eram meus melhores amigos. Poderia dizer que era o mais próximo do grupo ou que me tornei o melhor amigo deles. Relembro as frases de outro amigo as quais diziam que família não se escolhe, mas amigos podem ser escolhidos. E eles me escolheram. Mas como lidar com isso tudo – inclusive com amizade – se eu ainda não conseguia entendê-los em sua principal luta?

(…)

A casa estava sempre cheia de amigos no final de semana. O grande jardim se abria em plantas selecionadas pela sua história e ascendência. Tinha um pinheiro que havia sido dado de presente no quinto aniversário de casamento; tinha a figueira que tinha sido trazida do sul; tinham as patas de elefante que se enfileiravam recepcionando todos os carros que ali chegavam. Elas todas tinham histórias porque cada um dos amigos se revezavam em trazer uma espécie nova e longínqua de lugares diferentes. Podia-se dizer que cada planta tinha seu testemunho assim como o meu; e cada novo galho, a cada nova estação estávamos lá todos juntos.

(…)

Sinto a necessidade de falar da verdade de cada um. Todos já se foram nesse momento. Eu ainda resisto por insistir que ainda vale a pena me lembrar dos grandes amigos que eles eram. Seria difícil para eu registrar além do que acontecia em nossas reuniões; as mesas sempre repletas de cerveja, vodka e muitos amigos.

O primeiro encontro foi por causa de um outro amigo que nos apresentou e, em tom pitoresco, os apresentou como um casal diferente. A árvore que meu amigo trouxera era uma muda de ipê amarelo. Ricardo, o mais velho, recebeu com os olhos brilhando o pequeno pedaço de vida enrolado em papel escuro, sobreposto por um outro papel amanteigado. As flores ainda indefinidas pareciam com qualquer tipo de planta, mas antes que o convidado se manifestasse, Rafael antecipou-se em dizer que era um ipê amarelo. Às vezes me perguntava como ele sabia dessas coisas. E talvez aí já surgisse a primeira característica dele, a antecipação e a capacidade de desvendar as coisas. Por isso nunca deixei que ele me desvendasse desde o começo, pois saberia que não admitiria o comportamento com o qual ele baseava sua vida. Por enquanto todos nós tínhamos um mesmo vício: a conversa solta em meio aos copos de cerveja. E foi nesse momento de descontração, paradoxalmente, parece que me deixei fechar-se um pouco; não revelei minhas primeiras impressões das coisas na primeira reunião. Observara tudo como se fosse normal para mim a incompreensão das coisas. As mãos se tocavam como se gatinhasse o bebê em solo desconhecido, pronto para se alinhar e depois conseguir as coisas por si só. Há sempre uma necessidade de descoberta, só assim nos tornamos humanos. E era de humanidade que precisava me encher naquele momento. Lembrava-se das minhas aulas no mestrado sobre alteridade. Essa coisa do outro, do mundo esteticamente diferente do outro. E lá estavam eles repletos de si. Enquanto eu me sentia o estranho, o fora do eixo. Mas qual era esse eixo que, naquele momento, deixava-me claudicante, como quem se equilibra sobre uma corda sobre um precipício de desinformação.

Não vale a pena, no momento, revelar o conteúdo dos diálogos, vez que ainda não me sentia preparado para comentá-los antes de minha própria transformação. O que deveria ser transformado? Continuei durante toda a cervejada, equilibrando-me nessa corda bamba, e ficava difícil imiscuir-me no diálogo deles.

(…)

Eles sempre ficavam em casa. Nunca deixavam de sair para emendar as festas dos outros. Os outros sempre saíam para as suas festas particulares. Mas eles ficavam na deles. Enquanto isso, eu ficava pensando como seria aquela vida. Como poderiam manejar os pensamentos, os desejos – em pensar nisso relembrava de minhas experiências normais e frustradas –, as coisas divididas, os anseios díspares. Lembrei de minha psicóloga falando sobre individualidades. Como se pode ser individualista quando uma perspectiva de continuidade se conforma sobre as diferentes camadas tectônicas do ser? Eu pensava que poderia conseguir as coisas do jeito que me propus a fazer: pela normalidade, pelo revés dos que os meus medos revelavam, pelo o que já tinha conquistado. Nunca imaginaria que eles conseguiriam se entender nessa confusão de sentimentos, nesse trabalho de ourives de uma relação nascida para ser bruta.

Mas o que poderia eu saber de felicidade se para mim o que tinha vivido era uma relação monogâmica centrada no outro, na maestria como ele falava, na elegância de suas dedos nos ares. Eu vivia eternamente a vida dele. Não tinha tempo para a individualidade. O que era isso pelo amor de Deus?

(…)

Eles tinham recebido uma muda da fruta do conde. Eu sempre gostei de fruta do conde. Trepava no antigo pé da escola e comia até a aula terminar. O mais velho deles tinha mestrado em Literatura e a força com que manejava a enxada parecia de um estivador comum. As costas largas lhe davam ainda toda a masculinidade que restara naqueles tantos anos de vida. Parecia ainda o jovem que nunca perdera o viço. Os músculos se dispunham como se fossem desenhados, cada nova investida contra a terra revelava outro músculo, cada novo músculo me distanciava do pensamento do que aquele homem seria capaz. Era forte. A certeza vinha também acompanhada da maestria como lidava com a terra; de longe aquele homem nada parecia entender de letras. Era um exemplo raro do que sempre tínhamos na cabeça quando se falava em homens-perfeitos. Mas éramos amigos e isso distanciava – isso é mais claro hoje – ainda meus pensamentos da possibilidade de conhecê-lo senão fosse pelo caminho da amizade. E por esse caminho percorri todas as nuances dessa amizade que se construía em mim e ao redor deles. Tornei-me, aos poucos, uma espécie de confidente especial.

(…)

O mais novo era o mais difícil. Tornar-me amigo de Miguel foi a parte menos incentivadora. Possessivo, mau, mais novo. Sempre tive certa falta de empatia com os mais novos. Sempre arrogantes com o conhecimento adquirido no dia anterior, sem ácido em seus comentários. Era a única pessoa, a princípio, que me fez pensar que aquele projeto não poderia dar certo.

Olhei para o pé de pêssego asiático e determinei se em 5 meses não florescesse as primeiras flores eu me distanciaria de todos eles. O pêssego tinha tudo para dar certo.  Fui otimista em ter escolhido o pêssego. Se tivesse escolhido o pé de lichia, aquela terra não teria sido fértil.

As flores  não nasceram até a festa de aniversário do mais velho. Passaram-se 7 meses e ninguém se deu conta das flores de pêssego tampouco da festa.

MELANChOLIA de Lars Von Trier

Melancholia é um grande planeta que se aproxima da terra. Aparentemente não oferece riscos aos humanos, mas a melancolia na terra sim, esta traz a devastação interna de uma alma.

Fiquei tentando entender Justine. A sua leve e ingenuidade iniciais me pôs em cheque com minha capacidade de entender um início de filme. Queria ver beleza e lucidez numa mulher que estava na cerimônia de seu casamento. Queria ver alegria ao invés de melancholia – ops melancolia.

De pronto sabemos que nosso solitário planeta de vida vai ser atingido por Melancholia. Somos adestrados a entender ao som de uma intensa música em tons claramente clássicos, que ora nos emerge numa sombria predestinação convicta e nos submerge com a possibilidade de um erro de cálculo. Ficamos antes da grande colisão, entre as imagens de dor, desespero– e por que não melancolia – e o inescapável nefasto destino a que a melancolia nos submeteu.

A cena do casamento; a festa em si nos coloca em contradição pensando na pompa e circunstância da cerimônia em si e na pobreza de valores nos personagens que são apresentados.

Memorável o discurso da mãe de Justine – verdadeira personificação da tristeza e frustração daquela vaidade contingente – quando, em seu discurso, fere com palavras a alegria que o momento envolvia, e declarava em suas palavras finais como repugnava a idéia do casamento. Uma reação clara ao ex-marido que se encontrava a mesa rodeados de mulheres, todas para ele eram Betty(s). Todas as mulheres dele pareceriam comuns em vista da ex-mulher frustrada e de discurso seco. Surpresa para quem acompanhava o desenrolar desse imprevisível casamento.

Justine começa a se mostrar uma mulher instável. Em sua própria cerimônia de casamento se isola, toma um banho de banheira clariciano, que me remeteu a Joana de Lispector , e que invariavelmente demonstra que podemos quebrar os nossos protocolos internos. Afinal Melancholia se aproxima e parece como uma grande lua a mexer nos sentidos, nas paixões, na lucidez, na algazarra de nossa aparente racionalidade.

Parei de entender Justine e comecei a entender que o destino da terra não está mais em nossas mãos. Estamos vulneráveis – apesar de Justine pensar que somos o único miserável planeta inteligente. E se estamos sozinhos quem se importará com mais uma grande explosão explicativa de tudo?

A grande lua se voltou contra nós. É grande a melancholia que se aproxima. Lars Von Trier tenta nos mostrar quão grande é nossa melancolia. Ela está presente mesmo em nossos mais insignificantes momentos. Ela é breve, tal qual a conjunção carnal de Justine com o provável colega de trabalho. Tão breve quanto à felicidade do seu futuro marido, Michael, estampada numa foto de macieiras que poderão dar frutos e sombra – preterido em sua primeira noite conjugal.

Mas não temos apenas Justine. Temos a sóbria e aparentemente “normal” irmã, mas que se desespera com a possibilidade da grande colisão. De  que vale a pena um bom marido, um castelo como casa, uma família estável, se todo o trabalho vai se desintegrar em minutos?

O embate familiar entre as duas - assim como dos pais-  parece repetir o eterno diálogo maniqueísta; a dualidade das coisas em que nos opomos e nos ajustamos. Estamos sempre alegando o mau e o bem; a felicidade e a melancolia…Mas nem sempre sabemos a medida certa dessas dualidades. O que devemos realmente utilizar para as nossas vidas. Às vezes somos maus e as vezes somos ruins. E ruim vem de ruína. Sempre estamos nos implodindo para nos construir de novo.

Lá vem o grande Melancholia nos atingir sem receios, sem pedidos ou concessões. Atinge direto aos personagens: a plácida Justine e a desesperada irmã. Kirsten Dunst se desnuda em nossa frente para mostrar que nem sempre a lucidez é a resposta certa para a compreensão das coisas. Talvez resida, na loucura dela e nossa, a certeza – como quis Camus colocar no suicídio a resolução para o absurdo – de que estamos sempre errados quando apontamos a lucidez como salvaguarda de nossos sonhos.

Talvez haja uma beleza nesse poético filme sobre o fim do mundo.

Hoje sabemos que, de certa forma, a Melancholia nos atingiu não tão longinquamente.

VIAGEM SOLITÁRIA de João W. Nery

Estes percorreres por aí à balda,
nestes saudosos antigos eus.
Qual deles deixei no meio da estrada e em que sombra,
me perseguem até onde sou?
(Do poema "Corte em mim, João W. Nery)

“Não julgueis um livro pela capa!” É quase um corolário não julgar. É quase silenciadora a linha divisória que separa os reflexos opostos de João e Joana na capa do Livro Viagem Solitária – memórias de um transexual trinta anos depois – de João W. Nery.

Não julgue o livro como apenas um testemunho comum, pois ele é pura fantasia. É a fantasia de Joana sentindo-se Zeca, ou quando já o homem formado, João, fantasia o mundo real – vez que o constructo do mundo real é fantasia plasmada num artefato que nunca será nosso. Estamos sempre nos encaixando no mundo dos Outros. João tentou escapar da fantasia. E em busca por uma comunidade imaginada, o tempo soube, inteligentemente, decantar sua alma na realidade que sempre lhe fora real.

Viagem Solitária está além do testemunho porque não fica no eu diegético conspiratório de sua sorte. Ele entra na poesia; nas epígrafes iluminadoras; nas mulheres salva-vidas; na coragem do não-anonimato; na delicadeza do ser. Quiseram ficcionado seu relato como se fosse uma experiência fantasticamente única, isolada; e somente na criação quixotesca de seu sonho ele poderia sobreviver. Mas foi além, além do que se pode gendrar no resumo ontológico de uma condição masculina; nem mesmo na centralização falo-imaginada, pois seu sexo estava além do corpóreo, do imagético.

E como é libertador encontrar-se fora do exigido e fazer disso um primado teleológico de sua vida. A experiência de ser um leitor deste testemunho é poder enxergar a si além do que pretendíamos sempre ser. E que sempre estaremos incompletos. Mas ler Viagem Solitária é adentrar num mundo de incompletudes até saber-se que sempre seremos uma lacuna personificada. No entanto, João W. Nery vai preenchendo sua vagina desconstruída com o conhecimento de si e da negação do que não entendia o porquê.

“Devido a esta absurda defasagem entre minha autoimagem e a que faziam de mim, descobri, quase que instintivamente, que na fantasia estaria a gratificação de ser reconhecido. Considero essa solução a balsa salva-vidas com a qual consegui sobreviver a tantos desencontros. Delineadas pelas minhas necessidades vitais, moldei-a de uma forma que podia adaptá-la à realidade.” (NERY, 2011,p.35-36)

A infância é sempre uma fonte de descobertas e fantasias e assim, a priori, por meio dessas pequenas mitologias internas é que João se salvava dos perigos do gênero imposto. A consciência e externalização da representatividade Maria-homem o assustava. Tinha a Maria (Joana), mas o homem João ainda era um devir.

A leitura se perfaz num constante desconstruir e construir, erigindo uma imagem metamorfoseada. Apenas o tempo e a paternidade – mais tarde, em certo ponto, infelizmente, a velhice – tornariam João no verdadeiro homem que inventamos.

Não queria falar de sofrimentos, tampouco de como fui instigado a ler o livro para descobrir como se construiu o falo mágico de João – a estatização do ser homem. Pura fantasia minha, eis que o homem em João, sempre houve, sempre existiu. Decepcionei-me comigo mesmo. Mas de forma alguma essa curiosidade ofuscou o brilhantismo na poética-testemunho de João W. Nery. A alma do poeta não poderia se desvencilhar do narrador.

O eu narrativo escolhera o masculino. Estava convencido, em todos os momentos, de que nunca existira a Joana – senão na memória afetiva dos outros – e não soava provocativo, ou revanchista, tampouco autoafirmativo. Era uma voz de escritura singular, de um homem construído no desejo de ser o que queria ser. Eu não mais procurava o famigerado falo mágico. Demovi-me da experiência da curiosidade para adentrar o mundo dele; assumir o papel do Outro, dele mesmo.

Outra leitura, assim, recomeça. A leitura de um homem João, que ultrapassou minhas expectativas como leitor medíocre, buscando uma fórmula para entender, finalmente, o desejo dele. Deparei-me com um homem maduro e que coincidiu com a última parte do livro: Paternidade.

Mas não convém atribuir os papeis sociais já construídos pela nossa sociedade heteronormativa-judaica-cristã.  A forçosa idéia a que somos conduzidos para confeccionar o homem sob os pressupostos do imperialismo dos gêneros, do binarismo, do maniqueísmo suicida. Pai aqui tem conotação outra, sob o esteio de uma psicologia inclusiva, aberta; de um olhar menos parental, sanguíneo ou genético. A adoção do seu filho tem ares de redenção, de reconhecimento, mas acima de tudo, o sentido heróico e materno de ser pai.

Enfim, a leitura de Viagem Solitária de João W. Nery nos permite concluir que não é uma viagem solitária: não viajamos sós, não estamos sós. Há nesse nosso tortuoso jeito de ser, uma legião de indivíduos ou comunidades mais do que imaginadas que possuem os mesmos anseios apagados; os mesmos medos avolumados; os mesmos sonhos não acalentados; a mesma incompreensão cristã. Porém, no final, todos resistem sempre por existirem histórias de perseverança e, sobretudo, coragem de permanecer lutando.

A pele que habito

A pele que habito ‏

 

Não sei se falo de recortes, de introspecção, de obsessão, de transexualismo ou de vaginoplastia…
Não sei como começar essa resenha sobre o novo filme de Almdóvar, A pele que habito. Mas sei que o filme é surpreendente. RoteiroSempre trazendo um artista com um charme notável na arte de interpretar.
Fiquei a pensar como seria mudar 180 graus em minha vida. Mudar meu interior. Acho que metalinguisticamente o filme fala sobre essa necessidade, em um ponto de nossa vida, de mudar, mesmo que por intervenção de terceiros – talvez vocês entendam ao final do filme ou a ler este texto.
Antônio Bandeiras retorna ao posto de galã. O tempo fora-lhe justo ainda mostrando certa, agora, a elegância de seus cabelos ligeiramente grisalhos. Mas este elemento ganha vida e realça os tons de psicopatia que Almodóvar quis lhe dar. Deu certo. A obsessão caiu-lhe como um delicioso segredo.
Segredo é o fio condutor deste filme tão inteligentemente costurado. As peças parecem retalhos soltos, nem precisa dizer que lá na frente vão se constituir o tecido de idéias e teses suscitadas no início.
O filme não é linear. Transporta-nos no tempo, como se fossemos verdadeiramente costurando as histórias do passado e presente.
Bem, não costumo narrar a história, mas dar certa ordem é interessante para entender o desalinhavar dessa costura.
Antônio Bandeiras é Robert um respeitado – não se descarta a déia de ser excêntrico – cirurgião plástico que anuncia sua descoberta. Uma pele, construída em laboratório, que se adapta à pele humana e se transforma numa pele mais resistente. Desnecessário dizer que é uma pele que não enruga. Chama-se Gal – mais tarde descobre-se que Gal era a última esposa dele.

Procurando a linearidade das coisas, entra em cena a moça cativa do médico, que não precisa muito para entender que se trata de um sequestro vez que não é espontânea sua estada por lá. Esta moça veste uma roupa especial que cobre todo seu corpo, uma segunda pele. Passa o dia a escrever em paredes, costurar retalhos em bonecos e praticar yoga.
O doutor Robert a mantém presa e, apesar de ter um controle monitorado por ele e por uma senhora cuidadora, uma espécie de enfermeira, ele adentra o quarto, sempre trancado sem muita resistência por parte da moça. Percebemos que a relação de cativeiro criou laços mais fortes do que a de um paciente e médico.
Admiração e atração encenavam uma ligeira aproximação entre criador e criatura. Seria uma versão moderna de Mery Shelley – O Frankstein? Pensei nisso agora. Deve have uma relação porque no final a condição quase sub-humana do cativo em que sempre aflora um ódio interno mortífero.

Bem, continuando com a história. Então o filme dá indicativos de que esta senhora – que é o grande trunfo de Almodóvar – tem um certo desafeto por essa paciente. Ficamos sabendo disso quando seu filho, vestido com roupas de carnaval, travestido de uma onça ou leopardo, entra na mansão. Dá-se entender que este filho fora criado numa favela, fala um portunhol o que nos leva a crer que tenha nascido no Brasil. Mas em pouco tempo, num desjejum feito pelos dois, na cozinha, o noticiário da TV revela o rosto do filho como suposto ladrão de uma joalheria. De repente, mãe e filho se desentendem, fato que comprova que nunca foram unidos, e ele a prende a mãe a cadeira com cordas. E diante dos monitores de TV que acompanhavam a paciente 24 horas, percebemos que ele, ao olhar para a mulher, vê certa semelhança com a antiga esposa do Dr. Robert. Ele encontra a chave da porta. Entra no quarto monitorado e estupra Vera, a cativa. Antes que possamos entender o passado na pouca conversa entre o estrupador e Vera, Dr. Robert entra no quarto e mata o leopardo ensandecido. O abraço entre a vítima e o Dr. Robert nos leva a crer que não mais existirá o cárcere da cativa. As portas seriam abertas.
Então o filme volta em seis anos no passado. Para explicar alguns fatos. Antes disso somos convidados a conhecer a história do Dr. Robert pela senhora enfermeira que depois de ter visto o filho assassinado, conta toda essa história para Vera. O que nos deixa estarrecido com o que seria o princípio da sociopatia do doutor.
Acho que vou deixar esses detalhes pro arremate final; a derradeira costura.
Bem, voltemos ao passado então. Uma festa num casarão. Dr. Robert confraternizava com amigos e a filha ao longe se refestelava com os amigos. De repente todos estão numa espécie de suruba juvenil, no quintal deste casarão. Dr. Robert sente a ausência da filha no salão e empreende uma busca a filha nesse grande jardim. Entre tantos corpos hedonistas, encontras os rastros deixados pela filha: os sapatos, a jaqueta…enfim o corpo desfalecido da filha. A acordá-la a moça tem um ataque nervoso. No futuro sabemos que a moça reconhece no pais a figura do estuprador. Mais na frente sabemos que a moça enlouquece se suicida jogando-se da janela, que nem fez a mãe – revelação que vou esconder para aqueles que assistirem ao filme.
O filme parece mostra seu mote, ou seu propósito aqui: o pai começa uma perseguição para descobrir quem estuprou a filha. Ao descobrir o cara que a estuprou, segue-o e o sequestra. Mantém-no cativo. Até que reveladoramente o Dr. Robert em conjunto com uma equipe de médicos fazem uma misteriosa cirurgia de vaginoplastia.
Acho que já falei tudo. As imagens vem a cabeça num vórtice. Você não acredita que ele tenha feito a cirurgia, que tenha-o (a) mantido em cativo e tenha se apaixonado por essa Frankestein moderna. Almodóvar confunde e clareia uma relação que a doutrina penal já descrevera: a paixão surgida entre seqüestrador e seqüestrado. Mas ele vai além das medidas que conhecemos. Ele nos embriaga com tanta emoção que fica difícil de duvidar de nossas próprias idiossincrasias.
Seu falar do restante , ou esclarecer mais pontos ficará sem motivação ver o filme. Por esta razão recomendo que vejam a película e apreciem as interpretações magníficas da moça cativa, da velha enfermeira e do esmero lapidador de Almodóvar, nesse filme surpreendente.
Ah, não tente adivinhar o fim. Assista!

Janaína Dutra – A lady of Iron

Director: Vagner De Almeida

Produçtion: GRAB – Grupo de Resistência Asa Branca

Time: 50 minutos

Colr (NTSC) – Estereo – DVD

Video Digital

Brasil – 2011

“They taught us to carry the flag of the penis in front of us

They taught us to carry behind an asshole as an armor

They taught us, therefore, to carry half life in front and half life behind

They taught us everything wrong.”

(Glauco Mattoso)

The sertão* drowns itself with the raining; the dryness turns into music; the vision drowns itself in the possibility of life, freedom. The raining invades the dry soil and gives to the sprout: Jaime a rosebud named Janaína. A twisted angel hurried to dress up herself like a boy. In the hurry, in the confusion of her mission, they pushed so soon his coming and his passing away. Death and life present in a complex set among victories and withdraws. Starting by Janaína’s death to maintain the protesting flag of life. From the dried interior soil, passing through the world back to the interior again; this is the journey of Janaína Dutra –A lady of Iron, film of Vagner de Almeida.

The documentary doesn’t make any mistake. The camera seems to confuse itself with the spectator’s eyes; they seem to be side to side or even to face the sincere closest speeches. It seems that we are seated beside her mother: grounded, proud, near the memorable photographs of his son; as she told him to be the son whom she was mostly proud of. And it couldn’t be different. Ceará, Canindé, Brazil instances which by themselves would define the fate of a little boy that liked to play with high heel shoes. He, there would be still the remaining sexism that put him in this between-place, in this way, yet to be trailed to the gender that didn’t chose to walk in, due to the infamous correct clothing. But Janaína went beyond the dried soil and the richness of the dried homeland that could provide. In the very case of Janaína, the richness came from the family’s friendly core and from the dryness came the World outside, the city of rocks, the Fortress.

It’s hard to put myself out of this text, without borrowing the free subjective indirect perspective of Vagner’s direction and try to – see us like northeasters – see in each situation, in each suffered face, in each speech immensely proud. Vagner knew with poetry to get the moments in which the poetry itself drifted from the cast of Janaina’s life plot. Each word seemed to be a rehearsal, for it was so perfect how they manifested the care, friendship and respect for this activist.

Janaína hold with strength the trophy with proud, being the unique, at her time, the first transvestite to register in the OAB (Lawyers Syndicate in Brazil) acting as an altruist lawyer – forgive-me by the manliness of the Portuguese language, I’m gonna use the female gender from now on – and a fighter for the Transvestites’cause. A kind of Messiah with a cane to teach her people, the Others. The Knowledge as a key to freedom. A door trough which she changed into proud, from which she could get in and out as a citizen, without being a prostitute, knowing that this way – chosen for most of her friends – would be the choice of many. But she was aware that this couldn’t be the only one.

Her fight embodied not only the fight for the transvestites, but reached the claims of the human rights, being victim and protagonist of her own ideology. She was arrested, but soon set herself free as she was playing the hide and seek game; or as she could protest for the arbitrarinesses of the heterosexual world. I ask myself: who was not willing to the world? Who was the victim? These are some questions to be solved before and after watching the film.

She fought against her own fate, but she was involved in collaboration to the Health Minister in the process of the first HIV campaign for prevention of the disease among transvestites; she took part of lots of events that promoted learning about the public policies, and many other activities of her ideology and of her own body.

The hurry for getting dressed the dress brought the fast discourse, the fast demanding for the ticket of her life. The best part of this documentary is to make possible to register her discourse when she was still alive in strength, voice, body and courage of the protagonist-character of many other histories. Watch this film documented and retold by her family and parents is more than a regular register. The director knew how to sew every possible stitching of her life, sewing up a magic chita**, revealing all the legacy left form this transvestite who had a name.

It is impossible not to follow the crying of each interviewed at the end of the movie. The crying seems to be a single one that rocks the final sound track. Maria Bethânia transforms and gives sense to the poetry and life to whom fought for a cause without trembling a single moment. Nothing could restrain Janaína. Maybe her literacy set her free and encapsulated her at the same time, but the fact is that being what se was enabled us to free us than to chain her.

A masterpiece worth a prize***

* the typical dried soil of some reggions of the northeast of Brazil.

**chita is a kind of a regional type of clothing

** *5º For Rainbow Cinema Festival of Culture and Diversity, to the movie picture.

The Association of the São Paulo Proud Parade – 11º Prize “Citizenship and Respect to the Diversity- Best documentary and also for the history of gay activism of the director.

Roberto Muniz Dias

Wrote Adeus a Aleto by Escandalo Editor, is permanent columnist of the www.gay1.com.br website and signs up the blog htt://noposthumousparty.wordpress.com

Um pensar caótico

Se tudo pudesse vir a se mais do que o porvir, teria eu alguma certeza além desta da morte, – é pequena diante da vida -; que tenho de autenticamente meu? Minha escrita? Minha verdade? O que é o futuro diante de uma perspectiva decadente do ser?

Eu sou mais do que o além o póstumo, do que realmente posso ser agora. Somente no pó, na poeira é que a essência é vista. Na matéria própria somente existe a matéria insípida que se autoinventa a todo o momento.

Eu sou a matéria de mim, presa à própria excrescência de um estado anormal, perambulando pelas coisas que existem imutáveis. A única coisa que existe é o tempo presente, a inscritura de uma lápide. Meio catastrófica minha visão de futuro, não é?

Nada parece uma resolução melhor do que um ócio elegante e emergentemente absurdo, nem para o viver, nem para a morte. O nada pode parecer simples como dormir em tempo de descanso, parece ser mais do que um paliativo para a vida.

Então, o que resta depois da espera? Se não for o isso de agora: não é sensação de ontem, tampouco alvíssaras do amanhã. É tudo um pouco de nada e absurdo. Hoje tudo parece um pouco fragmentadamente vazio.

HOMOSSILÁBICAS – Seleta de Escritores LGBT

Primeiro Livro da Escândalo Chega ao Mercado

 

Homossilábicas (Foto: Divulgação)Homossilábicas (Foto: Divulgação)

Nasce o primeiro rebento da Editora Escândalo! O livro batizado de “Homossilábicas” traz uma seletíssima equipe de contistas, recheando as 146 páginas da obra com os mais diversos estilos e linguagens.

Como as palavras homossilábicas da gramática da língua portuguesa, que compartilham entre si o mesmo número de sílabas, as palavras do livro Homossilábicas compartilham a mesma temática, exclusivamente LGBT, seguindo à risca a proposta da Escândalo.

Dentre os nomes famosos da coletânea estão Moa Sipriano, Marli Porto e Roberto Muniz Dias. As 12 histórias apresentadas no livro abrangem desde o aspecto mais intimista até o surrealismo insólito, passando por alguns momentos quentes, numa explosão de criatividade e sensibilidade dos autores.

“Estou honrada e orgulhosa por poder trabalhar com tão sublimes autores. E mais ainda por poder dar forma, dar vida a este livro, que era um sonho antigo que eu tinha. Posso dizer que esse é nosso primeiro filho!” diz Giselle Jacques, editora da Escândalo.

A apresentação do livro é assinada pelo badalado escritor Kadu Lago e traz o seguinte trecho:
“Homossilábicas é uma palavra inventada para dar voz a essas letras por vezes tão marginais, por tanto tempo tão caladas (…) Aproximando celebridades e estreantes, este livro vem dar forma, vem dar cara, vem dar a cara à tapa. Vem mostrar que a boa literatura transcende rótulos!”

Conheça mais do livro Homossilábicas e saiba como adquirir o seu no site da Editora Escândalo:www.editoraescandalo.com.

Trinta e um de dezembro/ primeiro de janeiro

Imprecisas são as palavras do início; sempre um pouco perdidas numa condição única.

Quando pensamos na tentativa de se olhar o por dentro das coisas, entramos numa crescente dinâmica do nada.

Que tudo permanece numa loucura imanente como se fosse a própria natureza de uma mente vazia. Tudo parece um pouco ligeiramente fechado.

A perspectiva de mudança opera nos sentidos numa constante rotina de se tido imaginar.

Embora tudo se perda, algo se salva incomunicável, na esperança de realização. Esta se perpetua nas linhas esquecidas do tempo (simbologia). Eu preciso de mudanças e uma nova história. Por onde começar?

Está longa a estrada. Todo início parece algo infindável; algo interminável

A nova história é sempre um pouco sem começo.

Estou tentando começar.

 

AMOR

Parece que foi ontem, quando minha mãe me vestiu no primeiro conjunto de short e camiseta. Tudo da mesma cor. Um detalhe no lado esquerdo, na altura do peito, repetia-se na borda esquerda do calcãozinho. Trinta e tantos anos atrás. E como tenho mudado. O fenótipo da vida foi me transformando no que me pareço ter me tornado. Nunca é fácil. E nem vou falar de aceitação de condição sexual. Longe ser minha vida somente esta preocupação. Preocupa-me a vida em si; o que faço dela e, mais importante, o que ela faz por mim.

Tenho certeza das dúvidas que colho num contínuo processo dialético de entendimento pelo exercício da pergunta e resposta. Mas nem sempre sei o quê perguntar a vida; e muitas das vezes, surpreendo-me com sua resposta. Parece-me que sempre estamos construindo e desconstruindo – ou alguém destrói para você – não sei ao certo. Mas estamos sempre criando e reinventando esta vida. Presente? Alguns pensam ser presente, outros advogam apenas pelo seu existir, como um compromisso que assumimos como bater o ponto, por exemplo. Eu aprendi a olhar diferente, mesmo admitindo que um grande designer a tenha elaborado. Mesmo assim quero usufruir o que me é gratuito e não oneroso; as coisas simples mesmo, como o dia, o ar, o adormecer e o amor. Ah! Mas como tem sido difícil entender, além de tudo o que já foi dito, como é difícil entender o amor.

Tenho uma certa tendência a acreditá-lo como algo passageiro, como o próprio passageiro de um trem: nunca se sabe se ele pegará o mesmo trem, ainda que a rotina o empurre a essa exatidão de horários e compromissos. Há um quê de mudança, mesmo que rápida, imperceptível. E o amor parece sempre nos roubar um momento. Seja qual velocidade for. Aí concluo que basta a gente deixar despercebido ou agarrar esse momento sempre que ele nos foge! Ou apenas deixamos de lado e vivemos como quer uma grande maioria.

Antes eu o buscava sempre, agarrando-o com unhas e dentes. Hoje ele me parece menos esquivo, mais trôpego, como um velho mendigo. Está sempre a me estender a mão. Mas não acredito em disfarces e logo o submeto a realidade dos fatos. Coloco-o em posição altiva, mas ele logo se dispersa por entre a multidão. Eu o deixo ir, mas sei que o encontrarei por ai, pedinte de mim. Não me enlouqueço se não o encontrar; nem ficarei em praças segurando cartazes com os dizeres: onde está o amor? E sem ser nunca, nunca, piegas ou usar do lugar comum, o amor está sempre dentro de nós, nas pontas dos dedos ou numa atitude menos maniqueísta da razão. Está sempre onde quisermos tê-lo. Basta apenas esperar a mudança.

Hoje ainda me lembro do amor de minha mamãe, o zelo para com o conjunto das roupas, o eterno olhar afetuoso. Isto nunca me escapou, porque sempre esteve com ela.

Saudade

 

A ansiedade parece ter tamanho e dimensão humanas, tal parece ser sua sombra pesada sobre mim.

Mas se parece mais como uma grande ausência do tamanho do que não sei nominar; parece montanha, arranha-céu; queda d’água;montanha russa…

Ainda a sensação é de arroubo, tomada de fôlego; um medo quase infantil de se guardar no escuro do guarda-roupas.

Ficar escondido esperando o tempo do grande medo diminuir, parar…

ERRO

Novamente os erros. Os erros meus e os erros dos outros. Como desvencilhá-los?

Se reconheço meu erro sou errado – este é o argumento. Se os outros erram eu estou por cima – uma razão minha. Então, erro por me aceitar sem defeitos, coisa que sabemos todos serem passíveis.

Erros! Como lidar com eles? Ou como se livrar deles?

Bem, mais uma vez falo pela boca da experiência. Boca cerrada, nem sempre repleta da real faculdade de suas atribuições. Morremos por ela, já dizia o brocardo!

Os deuses erram. Por que erramos demasiadamente?

Mas o que é o erro senão algo corolário da culpa; uma espécie infame do erro. A culpa por ter feito o que não é próprio ou certo, adequado… Mas quando erramos, erramos.  É um fato inescapável.

E o que se segue ao erro? A assunção da culpa, a autoflagelação; ou a negação incontinenti; talvez uma permanente ignorância do erro se perpetuando por gerações como maldição – algo mais surreal, mas não menos irrealizável do que as alternativas.

Mas o erro é uma imagem do acerto, longinquamente situado no lado contrário. Uma visão não menos maniqueísta, de um roteiro elaborado em que o protagonista, até a última cena, dispõe-se a salvar a princesa. De repente, ele é o dragão! Roteiro ao revés.

Será que o erro guarda em si uma jaula externamente repleta de qualidades, onde feras não se digladiam?

O que é o erro senão feras cheias de razão, disputando suas verdades!

Essência

Tantas vezes falei que não me trairia; tantas vezes ouvi Amy se condoendo de sua incapacidade. Somos todos maus às vezes.

Internalizei uma culpa gigantesca de não considerar as possibilidades como realidades. Temos tanto pouco tempo. Eu sou pessoa jurídica agora e que dialoga diariamente com o cara da minha própria foto. Não se trata de reflexos, mas de outras imagens. Tantas vezes falei que não me esconderia.

Acordo de um sonho e tenho a certeza de que não somos eternos. As palavras servem para os outros. De que me adianta esse pergaminho que apenas eu contemplo?

Ouço uma música até a exaustão. Frases como um estranho numa sala; tenho sido negligente com meu amor parecem atestar outras tantas verdades que deixamos de viver por medo. A vida pode continuar por outro meio, mas eu não queria a poesia póstuma como alento.

Caio numa pesquisa. Perco-me tentando entender o que os outros disseram, e tenho que continuar dizendo a mim mesmo que não terminei ainda. Continuo o passo enquanto os carros se aproximam e se distanciam como se fosse a real definição da vida. A música de ontem já não toca com sua intensidade. Descubro o novo – uma invenção da lembrança para não escapar do passado. O passo com o tempo fica firme, mas claudica na tentativa do acerto.

Não querem deixar que eu seja eu, outra pessoa se impõe – o estranho no quarto, que a música fala. Por que tanta preocupação com o tempo? Por que a medida da imortalidade para nos dar o preço das coisas? E continuo me enganando com minhas poesias!

E tanto me aproximo como me alongo na imagem autointitulada eu. Quando erro, quem sou eu? Existe erro pequeno? E se sim, pode ele se equipara à rejeição? Somos tidos como humanos e se errar é prerrogativa do ser, por que continuo me perguntando tanto? E o reflexo do outro lado pergunta outras tantas coisas que parece melhor desistir da perfeição por um instante!

Não foi a culpa que me esculpiu o medo da educação. Descobri que foi a falta de responsabilidade a que me atribuíram por, claro, ter construído um caminho próprio, longe da margem, tortuoso, cheio de provas. A irresponsabilidade se confunde com o tempo perdido sem esmero. Pra tudo. E isso me ocupa as horas não dormidas e as palavras desferidas. Até quando?

Ligo a televisão para não me sentir sozinho. Mas sei que isso também é uma escolha! Falo muito de amor, saudade, medo, ansiedade com um tom quixotesco que beira o abismo. Mas sei bem que essas coisas me são caras e passageiras. O que não falo é que as outras coisas por serem mais raras são mais vividas com intensidade, como felicidade, sorriso, chuva, sabor de saliva, as cores das palavras, o som das almas e o gosto do beijo.

Não me tenham por poeta da dor. É mentira em essência!

 

História de amor

Infelizmente o tempo que me restou de teu viço é o presente. Não me importa mais teu passado; tuas fotos amarelas. O que temos hoje é ainda o tempo não vivido. Basta-nos isso!

Mas ao contemplar teu rosto ainda novo com o olhar perdido numa visão que não era a minha ainda, faz-me pensar na condição do se. E se o hoje fosse a mim permitido viver aquele teu passado, como seria nossa história?

O  tempo soubera roubar minha juventude mal aproveitada. Passos longos dei em direção ao nada, a ermo; sem sequer saber que poderíamos andar juntos. Caminhar numa mesma história construída.

Queria registrar os diálogos mais densos; a disposição mais espontânea para as coisas mais simples; queria o período longo de um breve piquenique; o abraço eterno como uma brisa; o calor das mãos por entre os cabelos, desvelando algo por vir. Enfim, queria algo menos superficial; algo mais duradouro!

Mas não quero nada amarrado a uma corrente, como se de mim dependesse tudo isso. Quero algo leve e tranquilo – se eu também permitisse; alguma coisa entre o ter e o querer –, mas ainda assim não saberia como realmente o almejo. Pode ser simples, embora tudo se complique pra mim.

Eu ainda quero as fotos. As fotos do teu passado e usar do photoshop para me colocar naquele teu momento. Criar por pura fantasia um momento do passado seu e meu, como se fôssemos ligeiramente prometidos um ao outro. Queria aquele porta-retrato lá na cabeceira da cama. Nós dois todos os dias!

E parar de pensar que tudo que está por vir fica apenas na minha fantasia!

A minha mãe, ao meu irmão, a minha irmã, ao meu pai, aos meus amores e aos meus amigos!

Dindinha!

O chão batido; uma poeira leve e deliciosa nos sujava de alegria. Para matar a sede o pote cheio de água decantada – ou seria encantada? Tinha a concha e o copo de alumínio. Eu na rua brincando de ser gente, brincando com meus irmãos, vivendo a melhor das férias: a casa da dindinha!

Nos fundos, para limpar a alma, o chuveiro de lata furadinha. A água caía solta como se quisesse me pegar de todos os lados. Não abria os olhos. Era o melhor chuveiro do mundo. De tão alto percebia que o mundo poderia ser assim, de prazeres simples e de alturas indescritíveis.

Do alto me lembro da sua alteza. Ela a gritar comigo – menino de cabelos loiros –; um mimo, o do meio, o queridinho, o diferente! Eu sentia que podia ser diferente. Tudo era diferente naquele pedaço de casa, de rua e de quintal. Afinal quando se é criança a permissão soa como liberdade.

E a dindinha ficava com as mãos nos quartos – as duas – a observar meu comportamento. Ficava olhando, perdia o olhar às vezes e eu nem me tocava de que aquilo tudo: preocupação e zelo misturavam-se ao amor. Amor de mães duas vezes.

Mamãe se desfazia ligeiramente de ser mãe, Dindinha ficava a fazer às vezes. “Tem que comer o que está na mesa!” E não era braveza, era delicadeza. Não dava para sentir a tristeza, vez que depois de todo protocolo à mesa, fazíamos tudo de novo…

…poeira, rua, as atenções de minha querida Dindinha!

Vigor de um desejo

Talvez o vigor de um desejo seja apenas o desejo em si. Nada além! Pois se não ultrapassar este desejo genuíno, transforma-se em expectativa, e esta pode ser menor e menos intensa. O que seria de um desejo maior, cheio de pequenas e estruturantes expectativas?

Deve-se parar de desejar se o anseio final é uma mera expectativa? Deve ser grande o desejo, tal qual uma bomba em expansão do calor? Pode não ser tão controlado, tão restrito o desejo? Por essa razão começo a desejar menos ou suportar as pretensões de uma expectativa?

Acho que quero falar dos outros, de expectativas sobre os outros; para com os outros. Não se deve esperar algo de ninguém! Porque desejar do ser humano grandes obras sentimentais se eles só podem oferecer rabiscos de uma expectativa? Quero coisas grandes; quase irrealizáveis.  Quem pode me garantir o desejo realizado, com egoisticamente o idealizo?

Ou seria o desejo uma invenção tola que nem a Filosofia? Inventar uma forma de superar nossas frustrações para o pequeno, para o maior. Suportar todas as coisas sem desejá-las por completo. Talvez intentar contra o universo um plano conspiratório; colocar o peso de tudo nos astros como destinatários de nossa incompreensão. Pode ser?

O desejo é mero escopo do ser. “O desejo não se acaba com a morte”. O desejo se acaba com a morte? Se ele for bomba, calor, a luz se propagam pelas estrelas. Um anteparo afirmará se a Filosofia teve (tem) um objetivo; um desejo espalhado como energia não deve ter dimensões a se auferir. Desejo deve ser sem tamanho. O desejo de uma satisfação humana; ou melhor, daquela que procede do homem, não passa de mera expectativa. Mas ainda não sei se devo esperar ou deixar que minha energia se dissipe na culpa filosófica dos astros.