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Não vou falar das expectativas deste filme sob a perspectiva de ele ter  sido feito pelo mesmo diretor de Juno. Não  assisti a este último, mas tenho que confessar  Jason Reitman tratou com maturidade seu novo filme, distanciando-se da proposta anterior.

Clooney não emprestou seu lado Don Juan neste novo filme. Ele convence no seu papel de solteiro convicto, exaltando as benesses da vida sem família e preocupações com fidelidade. A não ser que seu interesse fosse na lealdade para a Compania Aérea, para atingir as famigeradas 10 milhões de milhas.

 A visão é atual, dos EUA no período da grande crise da bolha imobiliária. E nesta perspectiva nefasta,  George Clooney, além de suas palestras motivadoras- que, em resumo, apregoam uma filosofia do “my world is my oyster”-, ele tem a incumbência de demitir funcionários de diversas empresas.  A missão é ingrata, mas ele se mostra bastante hábil com o mister.

Cloney é Ryan Bingham solteirão convicto avesso ao casamento, crianças e monogamia. Suas palestras revelam uma filosofia misantrópica criada sob a prática de uma vida de autossuficiência. Assim, encrespado sob essa couraça filosófica denominada “Empty Bagback” fica fácil desempenhar seu trabalho.

Enquanto isso, Ryan vive sua rotina de cidade em cidade, promovendo palestras e demissões num ritmo frenético. Mas ele parece acostumado com sua vida de endereço incerto. Numa passagem do filme, ele revela que passou 322 dias viajando, e que passou quase 40 dias infelizes em casa. 

No entanto essa rotina sofre um ligeiro abalo com a intervenção de uma nova funcionária que trouxe a facilidade da teleconferência para as demissões. Gastos e desgastes com viagens seriam reduzidos. Mas isto provocou mudança na maneira contraditoriamente humana com a qual as demissões eram feitas. Sem a figura de Ryan, as demissões pareciam mais contundentes.  Há uma cena na qual a idealizadora dessa inovação, participa de uma das demissões que, mais tarde, resultou no suicídio de uma dessas pessoas demitidas.

A atuação de Cloney nos convence de que, em pese todas as adversidades deste trabalho ingrato, se sente feliz com suas convicções filosóficas. No entanto, sua rotina parece sair do seu ritmo normal nos encontros não mais fortuitos com Alex ( Vera Farmiga) e o pedido esdrúxulo da irmã. É neste contato com a irmã, que está se casando, que Ryan se vê obrigado a salvar o casamento da irmã aconselhando, a contragosto, o cunhado a não desistir do casamento.  

De volta a sua rotina, e de volta a sua casa ele tem uma visão epifânica sobre sua condição de solteiro. E durante uma palestra sobre sua filosofia “Empty Bagpack”, não consegue mais dissertar sobre sua ideia fajuta, e em desespero deixa a platéia e segue em tresloucado destino a Alex. Mas acaba descobrindo que a vida que levava com Alex fazia parte de um outro mundo. Alex era uma mulher casada e com filhos. A decepção é destruidora.

O filme inicia com várias imagens aéreas, especialmente de nuvens, provavelmente em fotos capturadas através de janelas de aviões. A música de fundo fala sobre a terra ( em sentido de lugar) pertencer a  quem canta, a quem ouve,  pode ser Nova York, California, etc. Alusões ao fato de termos o senso de pertencimento a família, aos amigos, a terra em si. Toda essa composição se complementa, no final, com a assunção de que Ryan – narrando sua atual condição – é uma estrela: “ Numa casa em que a famílias olham pro seu, sou luz num céu estrelado, mas, na realidade,  a indicação dessa luz estrelar é apenas a lâmpada de uma das asas de um avião onde estou.”

A experiência de Sr. Guy Ritchie

Não dá para não comparar o pastiche de sua própria obra, pois em Sherlock Holmes, Guy Ritchie revive cenas de um de seus filmes, Clube de luta, claramente. E ao ver Mr. Holmes lutando feito Bruce Lee em seu estilo marcial bêbedo-palhaço, fez-me recordar que realmente nada é novo. Tudo se reinventa e se mistura.

O Mr. Holmes de Guy vai se parecer com o clássico de Sr. Arthur Conan Doyle nas cenas de meticulosa e apurada descrição dos golpes a serem articulados. As cenas antecipam suas investidas, explicando com toques sarcásticos os resultados advindos. Então a cena é liberada em seu ritmo normal, revelando um recurso simples, mas que dá um charme na composição do personagem que Guy sequer quis saber através dos Cães de Baskeville, por exemplo.

Fui ao cinema observar um trabalho sem fundamento na obra do próprio criador- confessadamente Guy disse não ter lido nada de Doyle. Mas reconheço que, em que pese a falta de referências mais óbvias, todo o clima de mistério e suspense foi accomplished  no final do filme, quando os traços deixados por Lord Blackwood começaram a sair do plano mágico-metafísico, para as explanações bastante científicas  do competente Mr. Holmes.

Depois dos relatos de Robert Downey Jr. acerca do Holmes de Guy Ritchie, sou levado a acreditar que no mínimo seu Holmes é avesso a mulheres. Fica a impressão de um homem frio, cômico e sarcástico; refreando o enlace de Watson e Mary- por ciúmes, talvez- e se esquivando de uma  sedutora mulher. Devo confessar que ficou no ar esta sugestão que Robert Downey Jr soube bem capturar- transpassar-, atuando como o Holmes de Guy Ritchie.

MOVIMENTOS LÉSBICOS: RUPTURAS E ALIANÇAS

 As lésbicas sempre estiveram presentes nos diferentes movimentos sociais, com as associações LGBT, em grupos feministas, bem como na esfera artística e na luta pela descolonização e pela independência dos seus países. Em décadas recentes, as lésbicas estiveram presentes na luta por direitos iguais para mulheres de cor, mulheres aborígenes, e no geral nos movimentos feministas. Esta publicação, em inglês e español, é uma compilação de experiências de pessoas de todo o mundo envolvidas em movimentos lésbicos, sociais e organizações de direitos humanos. (…)

 (Leia mais)

 http://ilga.org/ilga/pt/article/mfGRoqc1D1

Memories of good times

WHERE IS THE ‘ART’?

CÓPIA MAL-ACABADA DE MINHA ÚLTIMA PINTURA EM TELA.

RESULTADO DE DIVAGAÇÕES INTERNAS SOBRE O PROCESSO CRIATIVO.

Avatar 3D

A experiência 3D de Avatar foi triplamente decepcionante.  Algumas samambaias pude alcançar. O plano em três dimensões já havia visto. Pensei que se tratasse de algo surreal.

Nada demais. James poderia ter abusado disto nos monstros, nas cenas de voo. Mas de nada pude aproveitar. Nenhum comentário a mais.

AVATAR

 

 

 

 

 

O enredo de Avatar não parece ser novo. É a velha história contada sob o ponto de vista do oprimido e do opressor; do conquistado e do conquistador, com a premissa de que o julgo do mais racional e civilizado é sempre o mais benéfico; aquela visão capitalista de empreendedorismo que se furta de suas responsabilidades ambientais e sociais. Longe de ser uma utopia; os Na’vi vivem em completa harmonia com Gaya- ou devo dizer Eywa?-, abrindo a discussão para outro tema: o misticismo, como forma ainda primitiva para a explicação da coisas. Mas será mesmo o julgo do civilizado; ou o “povo do céu” o mais salutar? Serão os Na’vi os iraquianos disfarçados de uma civilização menosprezada; e o povo do céu uma imitação fidedigna do outrora Grandeur Estados Unidos? Tais assunções não são tão difíceis de serem percebidas. Avatar é uma ode à vida em harmonia, a despeito de cultura, misticismo, evolução genética, ou quaisquer outros assuntos. É um tratado de armistício entre o Homem e a Natureza, no qual as relações parecem mais simbióticas do que imaginamos.

Poderia ser uma releitura da tecnologia digital, reinterpretando os clássicos românticos. Porque Avatar é uma historia de amor; não há duvida disto. Nada é novo, como disse algum sábio escritor. Romeu e Julieta são a base para a esta história de amor; o ideal romântico, o as novelas de cavalaria: o mocinho, o bandido… Um ritual de passagem; ou de aceitação remonta o ideal do macho pronto para entrar na vida adulta. Jake, vivido em seu avatar, consegue a destreza de domar uma espécie de grande pterodátilo; realizando um trabalho quase hercúleo.  Enfim, uma plêiade de aventuras recontadas e misturadas numa ficção de alta qualidade tecnológica. Avatar é uma história de amor porque também faz chorar.

E num filme que prima pela qualidade das imagens, falar -  ou escrever sobre-, torna-se mero diletantismo.

Quando Rufus esteve aqui em Brasília, senti de perto toda a potência de sua voz e fiquei realmente impressionado com sua presença de palco. E lá estava eu gritando: Cigarrette and Chocolate Milk. Pedi que cantasse. Ele cabisbaixo, ouvindo minha voz no meio daquela plateia silenciosa, de repente, começou a cantá-la. Fiquei lisonjeado.

Tenho acompanhado a carreira dele e me surpreendi com Release the Stars, especialmente com algumas canções bastante expressivas. ” I am going to a town”; “‘Sanssouci” e “Nobody’ off the hook” chamaram minha atenção. Adoro sua voz e sua rima inusitada, mencionado coisas simples da vida de forma ingênua; momentos de nostalgia pueril; a própria vida e o fato de viver abertamente e livremente sua vida gay- ou pelo menos seus momentos gays.  E isso tornava-a mais atrativa para mim, porque poderia cantarolar músicas que falassem de sentimentos mais específicos, ainda que ele falasse da pegação nos parques, ou de amizades incomuns.

Rufus me surpreendeu com sua voz suave e ao mesmo tempo poderosa, fazendo dele e seu piano uma coisa além do que conhecemos. E quando de sua performance visualizei um artista em perfeita harmonia com sua arte. Ele é definitivamente um artista de impressionante talente.

E, agora, ele aparece depois de algum tempo esquecido, com a finalização de seu projeto maior que é a opera PRIMA  DONNA eu pensei- confesso- que ele não conseguiria. Mas está aí; prova de todos para julgamento de sua arte e de seu talento.

Vê-lo neste video me deixa ainda mais adimirado com seu trabalho e sua música. Espero poder ver  Prima Donna em breve.

Bon appetit!

O que mais desejei, quando comecei este blog, foi a resposta de meus leitores. Hoje sei que são muitos, mesmo que diariamente um ou dois o leiam. Mas cada comentário era aguardado e celebrado. E a primeira emoção que senti, quando assisti a Julie & Julia, foi a mesma da escritora Julie Powell- ainda que fosse um comentário depreciativo.

É assim que começa o filme: a esperança de enfrentar o novo sem medo dos desafios. A estória não é nova. A mudança de ares e da rotina faz com que duas mulheres mudem suas perspectivas, enfrentando os pequenos percalços que se avizinham.  Julia faz de sua vida errante de esposa de uma espécie de adido cultural dos EUA, o terreno prefeito para conhecer a culinária francesa quando da passagem deles por Paris. Enquanto isso, Julie queria dar rumo a sua vida monótona- embora seus marido fossem dedicados e carinhosos. E nesse contexto, vivido entre as memórias de Julia Child e as intempéries da frustrada escritora e funcionária pública, Julie Powell, que se desenrola e se entrelaçam essas fascinantes histórias.

Julie & Julia é um filme sobre persistência e força de vontade. A princípio, essas mulheres poderiam viver suas vidas de dona de casa sem qualquer reclamação de seus companheiros. Cada uma com suas particularidades domésticas. Julia mudou-se para Paris acompanhando seu marido e Julie mudou-se para o Queens para morar num lugar maior e mais próximo do trabalho do marido. Tais particularidades tornavam ainda mais desestimulantes as vidas das protagonistas. Mas é justamente o senso de pertencer à mesmice que as faz mudarem de rotinas, buscando lá no fundo, seus reais potenciais. Uma busca que, às vezes, para nós, que estamos fora dessas epifanias, parece difícil; no entanto, são tão claras quanto a magia da vida. Resta-nos apenas não se deixar oprimir pelo novo; talvez ouvir a um chamado interno e, além disso, incorporar a si mesmo.

Saber de si as verdades que nos enchem de alegria; aqui, no caso, como comer e cozinhar e amar os maridos de forma plena, conjugando todos os interesses. Simples, mas mágico como os temperos que dão sabor às comidas; mesmo que seja uma nova maneira de se cozinhar um simples ovo.

As metas em vida também são o grande aprendizado do filme; ou a notória lição de moral; ou aquele friozinho ou o estranhamento que se causa quando assistimos ao filme em questão. Meryl Streep incorpora brilhantemente a grandona cozinheira Julia Child e sua fascinante caricatura de glutona e boa esposa. Julie & Julia é uma linda história recheada de temperos vivos e multicolores que dão estímulos e sabores as nossas vidas simples.



 


 


Juan Antônio María Helena Barcelona


 


A mais nova “película” de Woody Allen é ambientada na agitada e cosmopolita Barcelona. O filme tem o título que primazia duas personagens na estória: Vicky e Cristina. No entanto, as atuações parecem bastante aquém para o nível tão elogiado dos filmes de Allen.


De fato, as atrizes são razoáveis , principalmente a que faz o papel de Cristina. O olhar perdido de um adulto-adolescente – ainda confusa com sua sexualidade -, e repleto de irresponsabilidade compõe bem o personagem de Cristina- muito certa daquilo que não quer. Mas em relação ao amor ainda vacila em concretizar sentimentos. Por essa razão, e mais ainda caracterizada no final do filme, Cristina tem seu olhar bastante convincente de sua pretensa irresponsabilidade pueril. Para aqueles que gostam de nomes , não sei que atriz se trata, mas já fez bastantes filmes.


Javier Barden e Penélope Cruz merecem menções mais apuradas.


(…)


Já a outra atriz- que interpreta Vicky- é a que tem a personagem mais rica do ponto de vista psicológico. Porém não desenvolveu uma atuação significativa. A mulher que traiu o quase noivo se envolve numa dinâmica tão inerte que descaracteriza a real situação do que deveria ser. E , infelizmente, a personagem não vive o conflito. Parece mais uma decisão de qual roupa usar para uma cerimônia do que uma tomada de atitude que pode mudar o curso de sua vida e toda sua felicidade. A personagem vive um dilema difícil e a atriz parece demonstrar que apenas tem uma dor de cabeça.


Javier Barden rouba a cena. Tenta ser um Don Juan, mas sua pinta de galâ não subsiste. No entanto, com todo o charme que envolve os poetas, boêmios e o pano de fundo Europa, não há como resistir aos galanteios de um “bom vivant” em plena Barcelona de Gaudí. Mas em que pese toda a ausência de beleza, sobeja o charme do pintor Juan Antônio que consegue conquistar até mesmo a mais relutante das duas jovens: Vicky. Esta, quase noiva, não pode resistir aos bons vinhos e aos irrecusáveis galanteios. Javier ou Juan – parece até que se confundem, uma vez que os latinos despertam a libido – não tem limites para suas conquistas. Sua abordagem é direta e provocante, fato que conquista Cristina logo no primeiro colóquio.


Deve se dar o crédito a todo o charme que envolve a Europa. , outro país , outra língua.Tudo isso cria certa magia que permeia as personagens de forma a experimentar o convite de Juan , uma vez que a “vida passa rápido” e deve-se” carp diem”. Talvez esse seja o mote , a força motriz que impulsiona todas as personagens, mas que no fundo elas apenas vivem uma experiência fantasiosa da frugalidade que certas coisas devem ser levadas a sério:como relacionamentos e sexo.


(…)


Penélope Cruz parece ela mesma -pelo menos acho que ela seja assim No momento em que aparece lança sua beleza e sensualidade traduzidas num espanhol verborrágico e charmoso ao mesmo tempo.


Mas María Helena também vem com toda sua loucura e com um beijo lésbico bem despretensioso. Mas ela é o componente que faltava para o filme. Talvez os papéis deveriam ter sido trocados , mas Penélope não faria uma autêntica americana. Talvez os outros deveriam ter sido trocados. Mas de volta a Maria Helena,  o par está completo. As atuações de Javier e Penélope dão cor e vida ao filme e de certa foram representam os traços dos artistas – pintores- que são: traços sôfregos e caóticos.


(…)


E como um bom filme o destino dos personagens fica a cargo da platéia.


1006 accesses

“Is not about sincerity” gets its 1006 th access. What does it mean?

(what the hell is: “ is not about sincerity”? - It’s my first blog address.)

 

 

Most of the accesses were of my own initiative- what may not surprise you all.  But the great majority is from people that were interested somehow. Another part of this people was just surfing on the net.

What makes me very happy is the fact that 1000 is a great deal of people. And it represents a lot of things:

1)      Most important: my friends have great patience. They received all these e-mails demanding them any kind of commentary. They love me.

2)      Most of my posts have to deal with poetry and personal impressions. So these people are very romantic.

3)      Despite of many e-mails, no one, never, ever, sent a single e-mail or commentary.

4)      Probably many of these former friends were not interested at all.

5)      Perhaps many of these were, in fact, foes that just accessed to see my mistakes at the language.

6)      Or, maybe, I’ve been a good writer.

 

Nevertheless, I hope you – You All – keep accessing ‘cause I’ve improved a lot. And do hope anyone could leave a drop.

 

Thanks

 

telas em acrilico

telas em acrílico

 

Para aqueles que não conferiram a vernissagem que realizei, em casa, para uma auidência fiel; segue uma amostra das pequenas illustrações literárias.

“Ilustrações literárias” foi o tema da exposição que foi realizada no dia 18 de outubro.

É a realização de um sonho de por em prática uma vertente artística enrustida e que agora recrudesceu com a vida caseira que tenho levado. Mas devo também  dar todo o crédito ao carinho e  ao estímulo do grande amor da minha vida.

É uma constatação de que a arte é algo inato, não se pode roubar.

Então, fazendo jus ao teor do blog, divulgo- para apreciação de todos- as telas com as quais vivenciei nesse meses de gestação telúrica.

Sobre as Telas

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A pedido de um comentarista do “post” anterior, divulgo as fotos- bem caseiras e nada profissionais -, das telas inteiras.

 Desta forma, fica revelado toda a dimensão dos trabalhos numa perspectiva mais inteiriça.

 

P.S. Para vizualizar todas as 7 telas, favor clicar na figura acima duas vezes.

P.P.S Espero ter satisfeito a vontade daqueles que pediram para vê-las inteiras. Obrigado pela apreciação!

Baby Love

baby            Quando a Assistente Social perguntou :

- Por que você não tenta realizar esse sonho com uma mulher?

          Manu engoliu seu orgulho e respondeu, inteligentemente, que não queria atrelar este sonho a outra pessoa pois estava cansado de tentar buscar a pessoa certa. A assistente social respondeu com um sorriso sincero de quem havia entendido o porquê, sinalizando com um sutil menear de cabeça. Nesse momento senti-me tão estranho porque aquilo havia acontecido comigo uma vez, mas situação era um pouco diferente porque eu estava sendo avaliado como um ser estranho a uma nova família.

            Aquela cena ficou estática em minha memória enquanto o filme continuava sua suis generis trajetória. Então a Assitente pediu a Manu que pudesse conhecer os outros cômodos da casa. Gentilmente, ele mostrou toda a casa situada em Belleville, uma região de colorida concentração multi-étnica, cercada por duas grandes comunidades de origem chinesa. Tudo ia bem até a despedida da Assistente Social. Ela estava convencida de que aquele ambiente seria ideal. Manu adentrava a casa comemorando, quando a campainha toca. Era a Assistente Social que havia se esquecido de cobrar as cópias solicitadas. Então os dois entraram novamente no interior da casa. Enquanto Manu procurava pelos documentos numa escrivaninha, deixa, descuidadamente, que seja vista uma foto em que beijava outro homem- Phelipe, seu companheiro. Manu assumiu sua homossexualidade- para meu espanto a França de Sarkozis ainda é provinciana- mesmo assim a resposta da Assistente Social decepcionou o público. Assim começa a história de Baby Love.

            Manu é um pediatra que, em que pese a idéia de que a rotina cansa, adora crianças; tanto que almeja imensamente ter um filho. Esse desejo não é dividido pelo companheiro Phelipe, o qual ameaça deixar Manu caso este leve esta história adiante.

(…)

             A caminho do quarto, depois de uma semana atribulada o assunto vem à baila novamente:

-Phelipe, entrei com o pedido de adoção. Semana que vem a Assistente Social nos visitará.

Isso foi o bastante para firmar a decisão de Phelipe, que diante da resolução de Manu em adotar uma criança, decidiu deixá-lo sozinho.

            Nesse instante, o filme começa a mostrar todas as peripécias que Manu enfrenta para adotar uma criança. Num primeiro instante, tenta convencer a melhor amiga, que é ginecologista, a se tornar uma barriga de aluguel. Sem obter êxito, começa a procurar em sites de relacionamentos casais de lésbicas interessadas em ter filhos.Logo após uma cansativa série de entrevistas, Ele percebe o quão é difícil conciliar interesses.

(…)

            Manu recebe uma ligação de Fina- uma imigrante ilegal argentina.

            No começo do filme há uma cena em o Manu e Phelipe , atrasados para uma ceia de Natal, batem no carro dessa moça e prometem que no outro dia ligariam para ela para resolver a questão da batida. Fina, então liga para cobrar o dinheiro do conserto. Quando se encontram num café , Manu repassa a quantia devida e começa a sentir curiosidade pela moça. Acaba descobrindo que ela estava sem visto e sem emprego aparentemente. Daí, surge um interesse em Manu que a convidá para ser barriga de aluguel.

(…)

            Fina, já ambientada na casa, a convite do pediatra, começa a participar da vida de Manu. Numa certa altura do filme- depois de ver várias cenas em que os dois começavam a ensaiar uma amizade-, percebemos que a garota havia ido longe demais.

Ela havia se apaixonado. Manu estava solteiro e carente. Não deu outra: os dois transaram. A cena peca pela realidade, pois mostra um Manu completamente conhecedor da máquina do prazer sexual feminino, revelando uma pequena falha- uma vez que Manu é um autêntico homossexual. A crítica vem apenas revelar uma falha na composição do personagem. Uma vez gay, o contato com o sexo feminino deveria menos espontâneo e tão forte.

            Fina oferece-se para ser barriga de aluguel. Manu descobre-se aspérmico. Phelipe- a pedido de Manu- oferece seu esperma para fecundar Fina. Fiona engravida. Marca-se o casamento como moeda de troca pela boa vontade de Fina em ser mãe. O circo está armado.

            Depois de toda essa tempestade nas vidas dos personagens, algumas coisas começam a dar errado. Fina, aprofunda sua paixão por Manu; começa a se delinear uma aproximação entre Manu e Phelipe. Este, depois de ter se relacionado com outra pessoa, ficou decepcionado ao saber que os “outros” o achavam muito velho e obscuro. Depois disso, com tantas vidas em completo desalinho, muita carência em jogo e o ciúme pairando no ar, alguém tem que dar rumo às coisas. Então Fina, mesmo grávida, some por um momento. Manu e Phelipe retornam a viver juntos. Fina, reaparece numa ligação. Manu e Phelipe aparecem num hospital – numa cena que também peca pela falta de veracidade-e auxiliam no parto que parece uma dor de barriga de Fina.

            Na porta do hospital , Fina cumpre a sua promessa e deixa a criança- Zelie – sob os cuidados dos dois pais. E novamente some.

  

(…)

            O bom do filme fica sempre para o final. Os personagens parecem se arrepender de seus erros e começam a repensar suas vidas. O engraçado é que nenhum personagem aqui começou acertando . E , de fato, o que aprendi, resumo agora:

1) Com Manu aprendi que devemos sempre perseguir a realização dos sonhos. No entanto, para isso devemos- enquanto casal-, considerar todas as possibilidades e não sustentar cegamente o sonho como uma verdadeira redenção. Tudo deve ser sopesado.

2) Com Phelipe aprendi que podemos se mais tolerante e transigentes conosco e com os outros. O diálogo é sempre uma boa arma quando não temos argumentos.

3)Com Fina aprendi que não devemos confundir os sentimentos de gratidão e amor; tampouco paixão.

            Vale a pena mencionar que os personagens são retratados como pessoas comuns sem o caricaturismo de personagens efeminados, ressalta-se a questão de forma humana, como deve ser.

            O filme é um bom entretenimento para uma tarde de domingo, sem falar nas tomadas- nada comum – de uma Paris suburbana e,ainda assim, charmosa.

Eu vou ler o mais recente livro do Peter Bayard : Como falar dos livros que não lemos; mas sinto um evento de antecipação angustiante.

Estou lendo o guia da Francine Prose e , no final do livro, ela faz uma listagem de diversas bibliografias obrigatórias na estante de um bom LEITOR e de um bom ESCRITOR.

Então pergunto-me - uma vez que já estou lendo Francine e vou comprar Bayard- , como farei  jus aos ensinamentos de Prose se  terei que passar pelas fases da Palava-Frase-Parágrafo- Narração-Personagem-Diálogo-DETALHES e Gesto e terei de aprofundar- me (Ler na íntegra) as obras citadas? Para ela seria o ideal.  Mas para Bayard,  que ainda não li,  seria um despautério.

E se eu fosse um escritor – mas isso também ocorrerá como leitor- , como poderia aprender sobre as tais premissas acima, sem conhecer as particularidades de uma personagem por exemplo; ou de uma exemplar narração, constituição de uma ótima personagem?

São questões quase existencialistas que me induzem a não seguir a lista da Prose e contentar-me com as impressões alheias sobre algo que devo construir com minhas próprias idiossincrasias. Mas ainda me falta a leitura de Bayard. E justamente por essa razão subjaz uma dúvida terrível:

-Devo comprar e ler livro de Bayard?

Ou posso deixar passar despercebido e contenar-me com qualquer resumo ou catálogo que venha falar de: Como falar de livros que não lemos ?

O ponta-pé inicial foi dado. O que, no início, era apenas um sonho- e de fato foi tudo com base num sonho; sem falar do outro projeto -, agora é pura excitação de etapa superada.  

Tem a ver com infância; com religião; sexualidade e concepções maniqueístas: o confronto entre Lúcifer e o Anjo do Bem.

É um projeto que está sendo preparado como um feto em gestação: demandará tempo, carinho e paciência.

Espero, em futuros comentários deste blog, anunciar a tão desejada publicação.

We’re all criminals

We’re all criminals now

 

Today I was thinking about PSB. In fact, I listened to one track at my car, and figured out how they are a different group. Is not just pop music; not only music for dancing. It’s a sort of artistic conception that mixes a great deal of electronic elements and intelligent sense of humor.

That’s what is out now when they release their single: we’re all criminals.

Tennant had already mentioned his idea about this case someway. At Fundamentalism they wrote a song: Integral, in which he dealt with the question also.

For those who like PSB, here comes what was released at THE SUN.

 

 

Met shock Boys:

 

SYNTH pop Lords PET SHOP BOYS have penned a tribute track to police shooting victim JEAN CHARLES DE MENEZES.

We’re All Criminals Now is a scathing account of the events which led to the 27-year-old Brazilian’s death on a Tube train in July 2005.

NEIL TENNANT and CHRIS LOWE’s most controversial track ever tells how De Menezes was gunned down at point-blank range in Stockwell Underground station after police mistook him for a suicide bomber.

 

Mistaken identity … Jean Charles De Menezes was shot dead at Stockwell tube station

London’s Metropolitan Police had been on high alert following the July 7 terror attacks two weeks earlier and after tailing de Menezes from his home in South London, shot him eight times after he boarded the train.

We’re All Criminals Now is the B-side to the Brit-winning duo’s latest single Love etc.

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In it, frontman Neil sings: “Waiting for a bus in Stockwell/Cameras on my back/Suddenly hearing sirens/Sounding a panic attack.”

He goes on: “Got the bus to the station/Music playing in my head/Ran to get on the tube train/Police shoot someone dead”.

The chorus voices fears that liberties are being eroded by measures such as the anti-terror laws that followed the suicide attacks which left 52 people dead and more than 700 injured.

Chris continues: “Hey, hey/Don’t ask me how/We’ve changed/We’re all criminals now/Hey, hey/Don’t ask me how/We’re blamed/We’re all criminals now.”

The duo have never been shy to voice their opinions and Neil has been a vocal critic of the Government.

On their 2006 album, Fundamental, two tracks were aimed at the powers that be.

Integral slammed the bid to introduce ID cards and I’m With Stupid attacked Britain’s close relationship with the US.

Neil told me yesterday: “The title of the song and the song itself sum up the way the Government treats the people of the UK.

“We are all under constant surveillance and are all treated as being potentially guilty, as if we are about to commit some kind of

crime. We are all criminals now   

 

 

 

 

 

 

 

psb

YES, nós somos os PET SHOP BOYS

 

 

Como bom fã, já solicitei meu CD e quero ouvi-lo o mais rápido possível. A expectativa é que o álbum seja tão bom quanto VERY. E isto provoca uma grande excitação.

Este talvez seja o ano dos PSB. Começou com a homenagem do BRIT awards e o reconhecimento do duo para a música pop- e  por que não dizer mundial.

Falar dos PSB é sempre uma honra. Sinto-me orgulhoso de termos uma banda ainda em atividade, e em plena produção artística. Quando lembro disso, sempre, sempre vou recordar das palavras de um jornalista da Rede Globo, em início de carreira, expressando sua opinião a respeito da produção dos PSB. Esse repórter falara que os PSB não tinham mais verve para criação. Desnecessário comentar.

Mas depois que ele fez esse comentário veio; logo após VERY, que vendeu 19.000.000 de cópias:

 

Pois é, parece que a produção cresceu.

E ainda falando de orgulho. Tenho uma carta do prórpio fã clube que acusou o recebiomento de meu “Tribute Book” que escrevi sobre a influência das músicas do PSB em minha vida. Isto é uma relíquia de fã, que vou escanear para publicar aqui , e que vou guardar pelo resta da vida- desculpe-me o exagero de fã, mas fã é assim mesmo.

Ainda não posso assegurar que será um grande sucesso – apesar de desejar isso plenamente-, mas ao escutar Love etc. posso garantir que tem muito mais do PSB original, dos garotinhos franzinos da West end, do que suas incursões  em Release num mundo mais pop-rock. YES , YES  vem para celebrar o sucesso dos PSB como uma banda viva e cheia de altivez musical.

O símbolo do SIM na capa do album, além de ser uma representação artítica e estilizada de uma das obras do artista Gerhard Richter, que os PSB viram numa catedral em Cologne Alemanha, ele representa o símbolo da afirmação para muitas coisas.

Para mim, é uma afirmação da música dos PSB como algo ainda vivo e criativo. È uma afirmação para a voz das minorias; valores sociais e de , dialeticamente, negação da violência da guerra. Enfim, é a celebração da vitalidade do duo.

 

Para uma viagem musical de interpretação do mundo dos PSB, sugiro a visita ao olhar de fã e admirador de Wayne sobre as letras dos PSB. É um ótimo relato de um cátedra em PSB. È um ponto de vista completo de toda a obra. Para fã, é uma leitura obrigatória.

http://www.geowayne.com/psbhtml.htm

 

Salve, Salve…

Estou no projeto duas páginas por dia.

Hoje tive de dar minha contribuição diária, escrevendo algumas linhas que estão vindo de forma célere e espontânea.

Tenho juntado, ao longo de alguns meses,  páginas de material revisado e re-revisado.

Então, o arquivo no qual estava trabalhando , de repente , sumiu!

Sumiu! Simplesmente.

Meu desespero foi grande. E eu ainda havia pensado em salvar o aqruivo minutos antes da tragédia. Mas, infelizmente, não fui tão cuidadoso com meu material.

Acionei todo o help desk da Faculdade e o especialista tentou fazer todo o rastreamento. Mas o diagnóstico foi de morte súbita. Sem alternativas de choques, apenas o meu próprio: meu estado de choque!

Então,  Salve.  Salvem seus arquivos bem antes de deixá-los saber que você os quer salvar.

P.S.: Consegui recuperar 50 % dos meus escritos. De duas uma: ou estavam tão bom- para que eu insiste em continuar-, ou estavam tão ruim.

O lado bom do Papa

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O melhor uso da figura do Papa.

Vou encomendar uma centena delas.

Observação:  Foto retirada do site da globo.com

As plantas ainda crescem em detrimento de minha água

Florescem sem meu alento e carinho.

É difícil manter a paz e a crença em mim mesmo

Sou poeta fingidor; sou poeta fingidor do amor?

 

Não soube lidar com a perda da consciência,

Quando me cobraram eterna vigilância pela florescência no jardim

Fui tolo, bobo, sem o menor denodo para com o mágico sentimento.

 

Não adianta meu choro seco, minha dor velada.

Ainda sou um monstro para os outros.

Porque sou o que sou sem ter planos de equilíbrio

 

Sou um homem na imanência e na transcendência do tempo afetivo

Não penso no mundo como ação e reação

Embora saiba que sou um pecador contumaz.

P.S.: Também publicada no site http://meuprimeiromoleskine.wordpress.com

Ele não beijava

            Os dois se aceitavam sem compromisso. Estavam nesse esquema por mais de cinco anos. Um via no outro o anteparo de sua fraqueza, assumindo a fortaleza que nunca tiveram antes. Bem da verdade, eles se viam como sustentáculos para suas reais fraquezas. A altivez só existia para com os outros. Porque, com os outros, eles eram outros. Não podiam ser aqueles que eram quando estavam juntos. Quando estavam juntos, seus segredos escondidos e inominados transformavam-nos em duas deidades dotadas de poderes além dos outros humanos. Mas esse poder se alternava dentro da rede de confiança que entre eles se formara. A instabilidade deles estava nessa alternância de humores e agendas.

            Certo dia, num desses encontros corriqueiros, a voz de um se sobressaía em relação ao outro. Um deles se calava diante das exigências das prerrogativas condicionantes de relação convencional-principal. Aquela altivez da dupla se corrompia com a alternância de incapacidades. Por essa razão, um deles se calava enquanto o outro se revoltava. Mas a revolta tinha uma instância de culpa velada.  O segredo entre os dois se avultava e a dor deveria ser suportada. Não havia lugar para a exasperação da dor da ausência, mas cabia-lhe no peito a espaçosa culpa.

              O segredo de um parecia ser mais sigiloso do que do outro; parecia ser mais ardiloso, mais vergonhoso. Havia um medo grande dentro de um deles. Esse medo ficava guardado. A ordem era não ficar sozinho. Era mais fácil e aceitável, pelo menos em seus mais novos planos, suportar a angústia dos encargos daquela relação do que livrar-se solto de seu crime.

            

            Qual seria o crime de um deles?

            

 

Obs.: Acompanhe a continuação no próximo post.

 -Você quer subir para beber água? Um deles perguntou despretensiosamente. O outro já havia dito que o tempo para aquele momento seria somente para os primeiros contatos. No entanto, o primeiro estava completamente assertivo, desejoso de um beijo e quem sabe sexo despretensioso.

- Eu vou aceitar a água. Disse o outro bem mais tranqüilo e seguro de sua necessidade.

Quando os dois subiram os corações pulsavam de tanto esforço. Os lances de escadas haviam deixado suas respirações sôfregas e velozes. O sangue pulsava em seus corpos enchendo-os de vida e ânimo. Os passos eram mudos, mas os pensamentos uivavam como lobos no cio. Os dois prosseguiram até o último lance.

Quando um deles abriu a porta o outro já estava quase dentro. Uma euforia que o deixava desconcertado diante do pudor do outro. Mas o dono do apartamento, estava mais seguro dentro de seu espaço. Estava completamente consciente de onde colocar suas mãos e onde direcionar o beijo. E quando se aproximou, na iminência do beijo que não se podia guardar. O outro virou o rosto, redirecionando a mão que ia ao encontro da cabeça para a direção de seu sexo pulsante. Nesse momento, não havia mais pudores e o dono do apartamento- um deles- já havia se entregado aquele momento completamente.

Foi muito rápido para um deles. Afinal não havia beijo, apenas a libido desenfreada dos dois.

Mas ele não beijava. E para o outro isso era um entrave para as outras coisas, as outras palavras. O que haveria de existir depois dos toques e dos líquidos expelidos? Ele se perguntava desde que entraram no apartamento.

O outro permaneceu em êxtase até os breves momentos daquele instante de euforia. Ficara absorto, sem palavras. Pediu água e se despediu sem muita cerimônia.

            Embora tivesse de controlar seus desejos, ele não conseguia. Assistia ao telefone como se fosse o último capítulo da novela das oito. Não parava de fitá-lo. Foi assim por horas, até que adormeceu.

            Dia seguinte, a academia estava lotada. Ele se mantinha concentrado em seus exercícios. Apesar de saber que a possibilidade de revê-lo era muito grande, sublimava sua ansiedade na perfeição dos exercícios. E continuou fazendo-os até que sentiu alguém lhe pedir para revezar no equipamento de supino. Quando virou para ver quem fizera o pedido:

- Claro que podemos revezar. Respondeu ele prontamente com um sorriso efusivo em seu rosto.

            Sua felicidade era saber que o dia seguinte não seria como os anteriores. Havia sim a possibilidade do diálogo, mesmo depois de uma noite de sexo animal, mecânico e quase anônimo. A última vez, a primeira vez fora de poucos diálogos antecipatórios, houve apenas o som audível dos gemidos de gozos que aos dois soava como a melhor das melodias.

- Você quer que te ajude com o peso? Quanto você suporta? O outro perguntou com um sorriso saliente. Claramente seu questionamento tinha certa ambigüidade. A noite do primeiro encontro havia sido sem precedentes. Ele havia suportado todo seu peso em posições de um sexo-tântrico em que o seu êxtase esteve na existência de posições novas e prazeres até então não experimentados. O gosto de sexo no ar; o ar úmido dos vapores do corpo; sua fortaleza na condução das performances dos atores. Ele tomara de conta de todas as cenas, de todas as pausas e de todas as seqüências finais.

- O que você vai fazer hoje à noite? Ele perguntou com a inflexão de quem não dava alternativas, como se a única resposta fosse a afirmativa. Para ele aquele dialogo já tinha sido suficiente, satisfatório, porque antes havia somente o momento particular do gozo egoísta, do prazer solitário. Mas aquele tinha sido diferente: houve o sexo e houve o diálogo. Isso nunca antes acontecera. E o convite ficara no ar; a pergunta que fazia seu coração palpitar permanecia sem reposta. Enquanto o outro terminava a série de exercícios seu coração não se agüentava de ansiedade. A reposta veio logo com o último esforço, o último suspiro:

- Tenho compromisso hoje, mas quando puder te ligo. Me dá teu telefone!

A decepção foi instantânea, apesar de não poder disfarçar, sua voz ficou embargada e emendou seu nervosismo com um exercício não programado. Sentou-se no banco e começou a realizar a série, deixando o outro a esperar por sua reposta. O convite ficara no ar.

Sem disfarçar sua decepção, mas ainda esperançoso, foi até a recepção para anotar-lhe o número. Entregou-o em sua mão e foi embora. Mas antes que pudesse sair da academia deu o último olhar em direção ao outro.

 

Comentário realizado em 24 de abril de 2009 ao post: Nick de Pegação determina caráter de alguém? disponibilizado no site do escritor Kiko Riaze ( http://kikoriaze.wordpress.com) em 23 de abril do mesmo ano.

 

Dias desses, quando a solteirice lhe chama pelo nome de solidão. Lá estava o computador a me chamar de idiota, pois eu estava me sentindo sozinho. Então, cedo aos clamores da internet sedenta de meus sôfregos toques. E quando me imagino de novo em frente ao monitor-reflexo-anteparo-de-minha-dor, debruço-me na questão quase filosófica-existencial: `que nick vou colocar no bate-papo?`. O que era apenas uma diversão tornou-se um dilema dialético. Fiquei a lucubrar qual personalidade me tomava naquele momento de clamor. Seria eu a passiva descontrolada, pela alcunha de rabão-guloso? Ou me tomava um sentimento de pura libertação das minhas próprias amarras e então aparecia: o versátil-passivo? Ou havia em mim a necessidade de contemplar o novo, o insólito: ativo-mete-devagar? Fiquei pensando, por muito e muito tempo, em que pese o clamor das lacunas piscando para que eu decidisse de pronto que nome adotar. Pensei, pensei… Aí vieram as letras da música do Pet Shop Boys: Too many People. E era aquilo que sentia, “as vezes me sentia muitas pessoas, muitas pessoas ao mesmo tempo…um intelectual , um bon-vivant… Mas não haveria interesse se eu usasse, por exemplo, o nick de passivo-com- frizante-e-a-prosa-de-Wilde. Ninguém sequer comentaria (comeria). E se por acaso, ocorresse-me colocar: todas-as-possibilidades-se-houver-amor. Apenas aqueles em pleno conflito existencial trocariam algumas palavras comigo e logo após cometeriam o suicídio. Mas tudo dependia de meu personagem naquele momento; e dependia também de minha voracidade sexual; de minha índole sobre a cama e de meu empenho em mudar alguma coisa. Pois bem, todas essas alternativas cabiam em mim. E todas elas se afastavam, porque o desejo de busca primeiro sacia a libido, depois vem a troca de telefones e o viés contrário dessas experiências- o que , de fato é uma raridade. Eis que uma mensagem pisca no meu monitor: uma mensagem acabara de chegar. A pessoa do outro lado do monitor perguntava: `seu Nick faz uma referência a data do calendário francês da revolução francesa?`Fiquei sem resposta, depois de tanto tempo a usar um nick diferente, alguma alma, que há de se salvar, acertou com detalhes minha alcunha esdrúxula. Então, dei-lhe meu endereço eletrônico e fomos papear privativamente no hotmail. A caixa de diálogo logo piscou e pulou da tela: `oi cara seu nick do hotmail tem a ver com Oscar Wilde?`Nossa! Fiquei sem palavras. O rapaz tinha de ser especial. A lacuna que gritava dentro de mim e na tela do computador se enchia de certa felicidade e o diálogo se prolongou por muitas horas. Depois de tantas descobertas, a pergunta que não queria calar já não podia mais ser sufocada. Os dois haviam falado de diversas coisas: artes, música, vinhos, predileção por filmes, etc. Entao, eis que a magia do clima é quebrada com a revelação pelas duas partes de suas preferências sexuais. Foi quando o cara especial respondeu: `Eu uso gasolina e álcool`. Mas restava uma dúvida a respeito da `atividade` e da `passividade` desses dois elementos altamente inflamáveis. Cogitei em associações pertinentes para não ter que revelar que ele havia subestimado meus conhecimentos sobre biocombusteis e assuntos correlatos. Mas, mesmo assim, despi-me de qualquer pudor e comecei a redigir a clássica pergunta: `Você é at…`Antes que terminasse, ele se antecipou dizendo : ` sou passivo`

 

P.S.: Continue acompanhando o conto “Ele nao beijava” nos próximos posts.

           Uma colega perguntou se meu ex tinha acesso às minhas poesias e devaneios escritos. De pronto, respondi-lhe que não havia problemas. Ele fora o maior estimulador de minhas mentiras e criatividade. Talvez, por essa razão, eu houvera de ser tão libertino, tão livre para sonhar que tenha perdido o sentido das coisas divididas, do senso da comunhão. E por isso, tenha caído na dimensão egoísta do autor em gozo onírico. Aquele gozo próprio, sem audiência; a descoberta íntima de algum legado. Talvez por essas razoes e outras tenhamos separado. Mea culpa”, talvez tenha sido eu o causador de tudo. Mas me restou minha herança: meus livros que somam prazeres únicos, somente meus.

            E por isso e muitas outras coisas, eu pressenti que minha felicidade e meu gozo não deveriam ser somente meus. Eu deveria dividir e, sendo assim, não existiam dois, mas eu apenas.

            Dizem que o poeta e o escritor confessam de certo mister niilista e egoísta , ao ponto de não sobreviverem a si mesmos. Como então poderia eu- escritor descoberto- satisfazer minhas necessidades e prioridades e obrigar a outrem assumi-las?

            Acerca do que escrevo, é apenas pura verve poética de criatividade, de divagação e permissão de invadir mundos. Quando falo em sexo ou em mãos dadas; quando escrevo um conto apimentado, isso não quer dizer que seja o que escrevo. Por mais que acredite que tudo que escreva tem algo de mim, esse algo é o exercício da forma imaginativa, como corpo elevado, tirado de si, observando tudo curiosamente. Sou eu, mas em estranhamento com tudo que é certinho.

            Quando escrevo com propósito de ser eu, meus títulos e temas se traduzem em mim, em gritos, em falas de solidão e esperança. Quando fujo desses parâmetros sou o poeta sonhador que espera por tudo, por todos e pela cura das doenças.

           O telefone tocou. O nome dele piscava como se fosse um grande anúncio, uma propaganda de um novo circo na cidade. Ficara minutos a olhar o visor do celular, hipnotizado pelas letras, cores e o som melódico quase embriagante do toque do celular. A música foi escolhida ao léu, especialmente escolhida para aquelas ligações de estranhos, de pessoas desconhecidas.

           O telefone tocou por mais alguns minutos e ele ficou sem ação. “- Só podia ser ele”, pensou alto.

            A música parou. Ficou desesperado. “- Será que era ele?” Pegou o celular como quem quisesse que ele falasse o número. Apertou os botões procurando resgatar as ligações. Mas acabara descobrindo que a ligação tinha sido feita de forma oculta, não revelando de qual número de celular ela havia partido. Enlouqueceu. Quis quebrar seu celular. Pôs a roupa para a malhação e resolveu ir à academia de ginástica.

            Entrou como louco indo em direção ao  local do último encontro. Repetiu o exercício várias vezes até que a hora azada coincidisse com seu relógio. Nada aconteceu. Cansou-se daquela espera. Voltou pra casa.

            Era quarta-feira, como de costume, abriu seu vinho e o sorveu até a última gota. Deitou-se em seu canto preferido. Pensou na morte, Emile Dinckson, Macário e adormeceu.

            Estava na casa de seus pais. Estava no quintal amontoando um monte de papéis amarelos. Ele estava com o semblante fixo em suas mãos, o olhar não se desviava do vidro de álcool e os fósforos. Então, lentamente jogou, em quantidades espaçadas, o álcool em cima do monte de papéis. Cada gota do líquido manchava as inúmeras frases escritas quando ainda jovem. Cada palavra significava uma dor, uma sensação perdida, um desejo velado. Cada gota manchava e embebia de morte cada letra, cada frase, cada espaço vazio. Então jogou o fósforo aceso. A mancha se transforma numa grande bola de fogo. Tudo se ilumina e seu rosto se perde entre as labaredas e a fumaça. Sua mãe grita:

“- O que é isso meu filho?”. “ Não se pode brincar com fogo”, bradou nervosamente.

            A dor na cabeça parecia-lhe roubar a razão. Acordara como se tivesse bebido trezentas doses de marguerita a base de Jose Cuervo. Sua mente não dedilhava as impressões da noite anterior. Ficava sempre assim quando perdia o controle das coisas. Nunca soubera lidar com a ansiedade. Todas a suas unhas podiam cobrar-lhe a dor incomensurável de suas pontas perdidas e preocupantes noites sem sono.

             A espera por qualquer coisa sempre fora o pior dos seus defeitos. E a vida sozinho havia o tornado alheio a esse defeito porque suas manias, sua falta de senso para as coisas o deixara fechado para a percepção do outro. Seus livros eram o único esmero. Limpava-lhos todas as poeiras e deles permitia-se esperar por mais um, até que a prateleira se completasse. Somente assim sabia lidar com a espera.

            Ele tentava entender o sonho anterior. Na verdade, ele lembrava parcamente do que havia acontecido no sonho, mas podia se lembrar claramente de seus papéis amarelos. Eles tinham sido banidos de sua vida. Não representavam mais nada. Eram pura influência de Álvares de Azevedo, de Byron, de Oscar Wilde em De profundis. Era uma lembrança da morte; da morte em seus planos mais significativos de renascimento, de ressurreição, de novas perspectivas. A morte naquele incêndio era o reflexo de um suicídio de uma vida repleta de dor e ódio. Naqueles papéis amarelos sobreviveu um outro homem que não é o de hoje. O sonho tinha a ver com renascimento, com procura pelo novo, pela vida.

            “- Mas o que aquele sonho tinha a ver com minha ansiedade?”, perguntou-se sem reposta. Lavou o rosto. Foi trabalhar.

 

Ele não beijava (V)

            Desde o primeiro flerte na academia, os dois se encontraram esporadicamente. O que era ansiedade tornou-se mera antecipação das coisas. Toda aquela insegurança havia passado. Agora os encontros se repetiam com a freqüência de um casal normal. Mas não havia cinema, tampouco jantares. Cada um dormia em sua casa. Mas não porque isso era determinação dos dois, e sim porque o outro quisera assim.

            O outro não beijava. Dizia sempre que o beijo era muito importante. Mas como o passar dos anos começou a ceder e já conseguiam trocar um leve beijo de língua. Essa fraca constância de beijos intensos deixava um deles raivoso ao ponto de se insurgir conta o outro.

            “- Por que você não me beija?” “ Por que me evitas?”.

            Os ânimos começavam a se acirrar em todos os encontros. Um deles se envolveu de tal forma que espalhava aos amigos que tinha um namorado. Mas apenas ele não sabia disso. A relação ficava mais íntima, apesar da falta dos beijos. As cobranças por horários, por mais horas, mais tempo junto. No entanto, o outro sempre fugia. Não dava explicações. Sumia. Voltava na mesma data em que a saudade do sexo batia nos dois de forma intensa. E a única vontade que unia os dois sem discussão era o sexo. Essa era a linguagem do outro. Às vezes não havia muita conversa. E nisso ele era habilidoso.

            Certo dia um deles ligou e em poucas palavras trocadas desejava sexo imediato. Estava na porta do apartamento e queria que o outro abrisse a porta pronto para consumarem uma relação à beira da escada, mesmo sabendo dos riscos de serem pegos em flagrante. Quis uma vez, duas e, na terceira, ouviram passos no corredor de baixo. Ainda sob êxtase dos fluídos trocados, recompuseram-se rapidamente. Um deles subiu e o outro desceu. E assim resolveu-se a questão do beijo. Pois não houvera beijo. E nessas situações esquecia-se do beijo. Contentava-se com o alimento do gozo e da euforia.

            Mas depois da euforia e do vazio do gozo, um deles ficava sempre triste. Entrava num mundo em que as dúvidas se avolumavam de tal forma que começavam a ganhar contornos de monstros. E esses monstros começavam a habitar seus sonhos de forma constante e quase diária. E esses monstros ganhavam asas e chifres; olhos vivos, bocas de sangue. Olhava-o de perto e enxergava algo familiar. Perguntava-lhe o porquê da inexistência dos beijos. Olhava-o mais de perto, sentia seu cheiro e percebia a feição do outro dentro da retina dos olhos do mostro. Esse pacientemente balançava a cabeça simulando uma negativa, esboçando um sorriso cínico. Chegou mais perto ainda e tentou arrancar-lhes os olhos. Acordou.

[...]

            De fato a religião se rendeu aos apelos da diversidade cultural. Outrora, dia desses para ser mais preciso, o Vaticano divulgou seus padres em fotos pra lá de fashion. A produção de moda investiu em  cabelos na moda, vestimentas alinhadas, fotos de olhares insinuantes.

            Bem, não bastasse essa ousadia, a onda parece ter atingido as outras religiões, que parecem não ficarem para trás nesse quesito. Agora, os mórmons, ou os missionários da Igreja dos Últimos Dias, deram sua contribuição para o mundo. E como eles mesmos dizem no anúncio acima:

12 Razões para você acreditar em Deus.

Junte-se a nós e celebre a humanidade…

E o que é mais curioso: Nós nos engajamos na diversidade cultural e religiosa.

…E acabar com as amarras de esteriótipos…

E assustem:  … e espalhar o evangelho da TOLERÂNCIA

Enquanto remodelamos as percepções com senso de humor…

Poxa. Confesso que os apelos e palavras deste anúncio me convencem de que Deus realmente é tolerante.

O que você acha?

             Ele tinha certeza de que nesses anos havia apenas beijado uma única boca além da dele. Ele nunca havia traído. Aquele beijo foi apenas uma fraqueza diante de tantas desventuras por qual passava sua relação. Às vezes se perguntava se realmente deveria ser somente dele. Mas no íntimo acreditava que tudo redundaria em compromisso sério.

            Mas hoje parecia que seu mundo havia desabado. Não podia acreditar que em suas mãos estava a confirmação de sua sentença antecipada de morte. “-Não, não…” disse reiteradas e inaudíveis vezes. Apenas para si. Guardou aquele momento. Silenciou em si uma verdade mortal.

            “-Como pude ter sido atingido pela foice mortal, se ao menos não me expusera a nenhum risco?” Sua mente se perguntava sem respostas. Um flashback de momentos diversos passou pela sua cabeça. Em minutos toda sua vida tinha sido passada a limpo.

            Pensou, pensou e não havia uma pessoa sequer que poderia ter sido tão cruel e insensível. Olhou novamente para o exame e não quis acreditar. Pensou em ligar para o melhor amigo. Mas tinha receio da rejeição, da conseqüente pena e de uma revolução em sua vida.

            Pensou, pensou…

            Havia uma possibilidade sim. Uma loucura de pensamento. Ficou a contemplar a foto do outro. O outro. Aquele único objeto de sua atenção e devoção. O outro que tinha em si a definição de castidade e ingenuidade. Isso, o outro era ingênuo. Não podia ser ele o algoz. Mas por dentro pressentia a dor de uma punhalada iminente; um corte vivo, sangrando quase que real. Via na foto os olhos dele em tom de vermelho. Lágrimas pareciam cair e caíam com a violência de um rio. Ficou parado fitado os olhos do outro. Vi-o de joelhos implorando perdão. E o rio inundava sua vida de ódio, de medo, de morte.

            Pensou mais uma vez na possibilidade como um erro imperdoável. Não podia ser ele.

 

(…)

 

            Aquele dia tinha demorado anos. O tempo parecia ter parado, mortificado. O sangue tomava de conta de todo o apartamento e quase poderia ter-lhe sufocado. Então, o outro chega. O encontro havia sido marcado sem nenhuma pretensão. Ele havia controlado a emoção, enquanto o outro viria ao encontro com a alma cheia de sua constante ingenuidade.

            “-O que significa isso?”, perguntou sem deixá-lo entrar. E sem saber do que se tratava, pegou os papéis e leu atentamente. Uma espécie de brisa gelada percorreu todo seu corpo e deixou-o imóvel, sem palavras. Por alguns instantes olhou fixamente o papel sem saber o que fazer.

             “Vamos, o que você tem a dizer?”

             “Eu, eu… vou te ajudar…” Falou sem pensar.

             “Como vai me ajudar? Não te preocupa o fato de eu ser o que não posso ser mais; de não ter mais o tempo de amanhã? É assim que deve ser?” Perguntou ele quase chorando.

            O outro ainda não conseguia se desvencilhar do frio que o petrificava. O papel ficou refletindo uma luz de culpa, focando em sua face o nome do pior dos assassinos. Aquele algoz que poderia ter se furtado do encargo e ter-lhe perdoado de seus próprios erros. “Poderia ter evitado“, pensou como se fosse seu último pensamento. De repente, num impulso inconseqüente, correu de encontro a janela aberta como se quisesse voar para longe dos problemas. Quis saltar, para do alto, se sentir leve; mais livre; menos perigoso. Tentou correr desesperadamente e, no impulso para a morte, seu braço o impedira.

            Ele segurou forte o braço do outro. Ele não deixaria que seu grande amor fosse perdido de uma forma trágica. Não imaginava que seu plano para a confissão terminasse em mais dor. Queria apenas a assunção da culpa e um compromisso mais sério. Queria ele por completo, sem mais segredos e sem distâncias. Queria-o assim, bem perto; sem mentiras, sem desculpas, sem mistério. Queria-o assim bem perto de sua pele, bem próximo de seu rosto e demoradamente perdido em sua boca.

            O metrô me deixou com a parede no rosto. Enquanto meu pensamento queria se fixar na paisagem. A parede, a parede. Claro que posso ver qualquer pessoa. Todos os semblantes são de certa expectativa. Hoje é sexta-feira. E quando o metrô anda, o pensamento não para de querer uma reflexão.

            O elevador, pela manhã, sempre sobe. E eu com meu copo na mão cheio de bom dia. “Bom dia, bom dia!” Mas o que realmente tudo isso representa? Ainda no contexto das passagens fotográficas reside o pensamento fixo no nada. Mas sempre a pensar de certo modo, se formos inquiridos, a resposta sempre retrata: “Estou pensando na vida”.

            O suco é bebido junto com  o alimento. Vem mais um bom dia. E paro pra pensar em mim dentro do metrô. Cheio de pessoas. E eu posso olhar para qualquer pessoa.

            Qualquer pessoa lá dentro se vê alinhada ou com a paisagem ou com a parede. Que deve pensar enquanto paisagem? O que deve pensar enquanto parede? Eu mesmo, enquanto defronte a parede, começo a delinear o pensamento. Vem algo parecido com o futuro de minhas palavras; de meus tormentos. Aí vem a parede que se fixa diante de mim. Então começo a pensar em nada. O metrô se move lentamente. A paisagem se volta contra a retina e começo a pensar na vida, mas com a velocidade das paisagens, começo a pensar em nada.

             O livro que tenho em mãos parece ser bom, mas inicio uma viagem até o íntimo da personagem e clareio certas idiotices em mim. Por que pensar em tronco seco se não há água? Será que sou tronco seco que não dá frutos? Na imagem que faço da personagem perdida em dúvidas vejo o reflexo torto dela em minha frente; em frente ao vidro da janela veloz do metrô. O pensamento, a imagem e a personagem se confundem na velocidade pensada do reflexo. Penso em nada. Penso na parede alinhada com meu rosto. Penso na vida.

            Muitas vezes cantava – sim eu gosto de cantar – e cantarolava; isso devia ser meado dos anos 90, músicas em inglês. Mas era um inglês forçado, sem a devida precisão das letras. Era apenas por conta da melodia ou por conta da moda.

            Bem, inexoravelmente, eu cantava quase de tudo pop, mesmo que fosse rock. Mas um alerta , quando digo cantava, não significa profissionalmente. Era uma coisa caseira e despretensiosa. Mas de volta ao que cantava, por ser em inglês, misturava som com fonemas que me adequavam. E assim, passava a tarde a afrescalhar o calor de minha entediante vida em minha cidade natal. Foram anos nessa imprecisão gostosa de minhas impressões melódicas da vida.

            Hoje, posso dizer que domino certo entendimento sobre o Inglês. Depois de muitos anos lendo tudo que vinha a mão; depois de intensa correspondência com amigos do mundo inteiro, consegui segurança para entendê-lo. E agora, estou fazendo releituras – não obrigatórias, mas voluntárias e espontâneas de algumas músicas deste repertório imagético de minha adolescência.

            Nesse contexto, às vezes fico a ouvir – sim, agora, mais ouço do que canto; embora ainda cante – as músicas que antes embalavam minha momentânea distração.

            Então,  estou revisando ou revisitando The Smiths e toda a sua simbologia; toda a afetação de Morrissey e a eloqüente verborragia teatral; bem como a magistral interferência do John Mars  Passo horas a ouvir e entender a mensagem daquele tempo, daquela época e como ela invade ainda minha própria vivência, reinterpretando ou clareando problemas universais que enfrentamos. Mas não era somente a palavra, porquanto a palavra pode ser solta, mas a melodia. O tom melancólico da voz de Morrissey era o que, contraditoriamente, dava vida aquelas mensagens. Estou ouvindo “Heaven knows I’m miserable now”. Pedaços de poesia que se coadunam claramente com minha presente de condição.

            Engraçado que um amigo Inglês explicara – eu usara “condition” em algumas poesias -  que condition (condição) encerra uma existência transitória de enfermidade emocional. Achei muito profunda a explicação e que estava sendo deveras contundente com minha real condição. Achei por bem elimina-la. Portanto, a música citada tem a ver com essa fase melancólica de absorver felicidade nos outros e não enxergar como possibilidade em nós mesmo. Aí vem:

“In my life

Oh, why do I give valuable time?

To people who don’t care if I live or die?”

         

           É interessante observar que quando nos encontramos nesses estágios passageiros de dor momentânea, pessoas que se dizem experientes – e que aqui, acolá se veem em situações sazonais de oscilação emocional – tendem a se revelar verdadeiros conselheiros. E acusam essas minhas linhas- todas elas- de triste demais. Mas de fato, as impressões da vida são de momentos de superação da dor em detrimento de certo conforto na felicidade. E isto; esses estágios são transitórios. E o que Morrissey quer dizer é muito além do momento presente. A frustração de se doar e permitir-se abrir é muito grande diante da indiferença humana. Viver e morrer é condição de existência, especialmente nos complexos ajustes diários. Mas a indiferença humana é pior.

            Que eu trate da dor e da infelicidade, porque noutro post eu estarei falando de minha felicidade de encontrá-la na próxima esquina. É pequena, e passageira, mas tem seu espaço garantido em minhas linhas. Amanhã poderei falar de música cantada debaixo do chuveiro, ou cantada num dia frio; ou aquela de um ligeiro momento de felicidade. Mas mesmo assim será felicidade.

            No entanto, pergunto-me quantos pedaços de mim tenho ainda que perder para perceber que gasto meu tempo valioso com pessoas dispensáveis. Eu canto com Morrissey minha preocupação diária de insatisfação: quem se importa se vivo ou morro; se vivo na infelicidade das minhas indagações; ou se morro na felicidade que não me consome como nos outros. Ainda cantarolo, mesmo que fale da indiferença. Eu canto, eu canto:

“I was happy in the haze of a drunken hour

But heaven knows i’m miserable now

 

In my life

Why do I smile

At people who I’d much rather kick in the eye?”

 

A Loucura do Não

No fim, todos são malucos.

Não entendem a impossibilidade da amizade.

Querem mandar e por isso são os sóbrios.

Eu estive fraco, mas agora sou altivo- a  partir de hoje 24.05.09.

Mas não quer dizer vingativo.

É apenas a real codição presente

… o telefone toca, mas eu digo não aos novatos.

Ainda não.

Mas não quero ser esnobe, é apenas o final.

E pra que acompanha: basta!

            It couldn’t happen here (dos Pet Shop Boys) é mais uma das músicas melódicas que sempre cantarolava. Vinha sempre acompanhada, melhor dizendo; eu sempre a usava para estimular meu choro proposital. Aquele que comprime toda sorte de eventos ruins, e invariavelmente, acaba em explosão. Então era só ouvir a parte instrumental da música, com seus acordes em gradual ascendência e logo vinham as lágrimas…  

 

Yesterday, remember how clear it seemed

In six inch heels, quoting magazines

Go all the way, you knew you could

So far, so good

 

           E parecia que tudo poderia, impossivelmente, se acabar num último impulso melódico. Toda vez que o refrão vinha, outro arrebentamento de choro explosivo furava o peito.

            Mas quem poderia dizer que hoje aquele evento seria de pura premonição; algo sem um intuito proposital, mas com profundo sentimento de verossimilhança. Que é isso de ouvi-la agora? Como fico com a citação das revistas? E o déjà vu de se ver in six inch heels falando asneiras e dando muita pinta. Como pode ser tudo tão familiar?

            Hoje, arrepio-me com It coludn’t happen here, mas também choro em reconhecer em mim a força da vitória diária. Poderia ser tudo apenas divagações de jovens superpoderosos ao enfrentar tudo com o peito cheio de orgulho e sem medo de sublimações impostas. – Eu nunca quis esconder minha libido – dizia sempre ao meu Pai.

            A canção vem, mais uma vez, em gradual violência. A cadência de acordes animam apesar da triste constatação:

 

Now it almost seems incredible

We’ve laughed too loud, and woke up everyone

I may be wrong, but I thought we said

It couldn’t happen here.

 

 Nessa hora é que mais me emociono e revivo as letras como se fossem comigo.

Seriados Gays

Bons tempos aqueles do Queer as Folk. Nenhum de nós saía, no sábado à noite, sem antes de assistir ao capítulo inédito da semana. Ficávamos todos reunidos, como que na expectativa da final de um campeonato de futebol, esperando – pelo menos eu- pelo Michael. Era um misto de identificação e amor platônico. Mas era um misto de sentimento de pertencimento e viabilidade; ainda que fosse ficção, havia a possibilidade.

            Era exagero esperar que a atmosfera de Pitsburg, onde se realizavam as tramas do círculo de amigos gays- embora fosse filmado em locações no Canadá -, mas isso é outra estória, tivesse as mesmas intempéries de nossos grupos tupiniquins. Mas têm.

            O fato é que, embora Brian fosse o comilão infalível, o exagero de sua personagem dava certo reconhecimento da identidade gay. Tudo isso, por conta da simples caracterização de sua existência como um elemento gay, em que pese a similitude como os garanhões estereotipados da cultura heterocêntrica. Isto dava às cores fortes de Brian um valor existencial, ainda que o assumíssemos que não era um modelo a ser valorizado. O que importava era reconhecer-se gay.

             Em contraponto, como que uma espécie de compensação pelos exageros de estilização do protagonista acima citado, existia a figura doce e equilibrada do Michael. Ah! Ficava entusiasmado com a possibilidade da existência desse tipo de homem na vida real. Mas, às vezes me perguntava se não tinha inveja de seus, sempre bem escolhidos, namorados. Talvez fosse acalentador saber, que mesmo na ficção, embora os tons exagerados que também existiam nele, eu queria ser o Michael.

            No entanto, o intuito dessas palavras é iniciar o debate – talvez apenas expressar minha opinião – sobre as tentativas incipientes de se fazer uma série gay no Brasil.

            Tive contato, por meio de algum veículo de comunicação, com a produção do primeiro seriado gay-themed no Brasil. A inicitiava partiu do dramaturgo carioca Caesar Moura e Gerônimo Granja, produzida pelo Eu Mesmo & Cia Carioca. Em resumo, o mote da produção carioca relata em tom intimista-reflexivo, a vida 4 amigos homossexuais que trabalham num prédio comercial em Ipanema (RJ) e que tem como quartel general: a Farme de Amoedo.

A proposta me deixou bastante curioso e , uma vez que escrevo, mandei uma mensagem parabenizando a iniciativa e, também, propondo uma participação ou como co-roteirista, uma ponta como ator. Infelizmente não obtive resposta. Mas enfim, era apenas um comentário de um post premonitório do projeto. Hoje parece que a coisa está mais adiantada. Os produtores divulgaram alguns trailers sobre os personagens. O interessante é observar que a coisa é tratada de forma bem realista e com um olhar maduro sobre a condição gay. Um dos personagens se pega pensando em sua vida, uma vez que já atingiu os 30 anos e os questionamentos existências da cultura gay – e por que não de forma geral -, que o fazem refletir sobre sua condição humana. Vale a pena conferir as descrições pessoais dos personagens no sítio: http://farme40graus.blogspot.com . Gostaria muito de fazer parte disso tudo de alguma forma.

            Ontem, mexendo na internet, deparei-me com uma outra proposta de seriado gls. Este se chama os caRIOcas. Bem sugestivo o título da série. Toma como o centro dos acontecimentos bafônicos a cidade do Rio de Janeiro. O palco central de toda a cena cultural e gay brasileiras. Aqui vai uma crítica as escolhas do pano de fundo para estas estórias, mas não deixa de ser um atrativo para a comercialização destes produtos de forma mais convincente. Em que pese a crítica, o Rio não poderia ser cenário melhor.

            Nesse congênere, a cena é bem diferente. Pelo trailer, há certo tom cômico na trama. Ela se desenrola também entre um grupo de amigos diversificado e com temática sobre os problemas de assumir-se e ser gay. A paisagem da cidade maravilhosa não pode ser esquecida, uma vez que ela é o cenário de algumas cenas que caracterizam a cena gay: a praia, a pegação, a ferveção, o flerte; e por que não dizer a moldura perfeita para as bucólicas cenas de romantismo. Há ainda , uma espécie de triangulo amoroso que retrata essas cenas de homossexualidade no contexto da bissexualidade de homens casados. Inclusive a cena no trailer, traz como o personagem bissexual um ator global.

            Fico muito feliz e excitado com essas iniciativas. Trazer aquela atmosfera de identidade com o mesmo grupo, da possibilidade e de reconhecimento da humanização do indivíduo gay, enfim, tudo isso, além de proporcionar um olhar nostálgico sobre nossas referências; essas iniciativas reafirmam a cor local. Os valores do carioca, de certa forma representando toda a sorte de problemas universais, mas com o sabor dos trópicos, torna a proposta digna de nossos elogios e incentivos. Mesmo que a mensagem reflita os valores e culturas cariocas, todas as mazelas do indivíduo gay serão matizadas e retradas – pelo menos é o que se percebe. Rio – para os gays – não é só a Farme de Amoedo , tampouco as calçadas de Copacabana. A vida cultural gay do Rio, como de qualquer cidade grande brasileira, numa construção dos macro e microcosmos, também resvala na favela; no gay assalariado da zona norte.

            De qualquer forma, mesmo que o pano de fundo seja o Rio, viver a experiência de se ver num seriado específico, para mim, é fazer repensar o Michael em mim. No entanto, para muitos outros, ela clareia as dúvidas; permite ao enclausurado sair do armário armado com mais orgulho e faz do jovem aceitar-se como pessoa humana, como outra qualquer.

 

P.S. Tentei acessar o site dos Os cariocas: www.oscariocas.tv , mas não consegui acesso. No entanto, pode-se fazer a busca no google e colher mais detalhes.

P.P.S. Para os produtores, se houver interesse gosto muito de escreve e tenho protagonizado um olhar próprio sobre nossos maiores temores. Portanto, se precisar de ajuda nos roteiros, deixem seus recados.

Saiu no site gay americano mais importante dentro da comunidade gay: www.queerty.com

 

” Beautiful Brazlian Men Frolic on the Beach Together. Oh, And There’s a Plot.

 QUEERTY APPROVED — Watching this trailer for caRIOcas begs the question: Why doesn’t the U.S. have programming like this? Even Noah’s Arc was never as captivating (or, frankly, titillating) as this new Brazilian series looks to be. Producers tell Queerty that while the show — its name is a spin on “cariocas,” or native of Rio de Janeiro — hasn’t yet been picked up for broadcast, they’re “in talks” with cable company Globosat for South American air, as well as cable networks in the U.S. Please?  “

E eu não perdi a oportunidade:

It’s funny, because I’ve written in my blog: www.noposthumousparty.wordpress.com about these local initiatives for a Brazilian gay-themed series. Cariocas is fun and it serious; it’s depicting and it’s real; it’s univesal and it’s carioca.

I hope to watch it at a big broadcasting TV. And I do hope to get in touch with the producers in order to take part of this project somehow. To be mentioned at Queety.com is an honor. Hope to let them know  this post by my comments.

And I hope you to help me to convince them to accept me in the cast or being at the backstage like a co-writer for instance.

Good to know the coincidence about the issues.

Good to know Brazilian gay guys  are on the screen for every world to delight and surprise.

A PROCLAMATION Forty years ago, patrons and supporters of the Stonewall Inn in New York City resisted police harassment that had become all too common for members of the lesbian, gay, bisexual, and transgender (LGBT) community. Out of this resistance, the LGBT rights movement in America was born. During LGBT Pride Month, we commemorate the events of June 1969 and commit to achieving equal justice under law for LGBT Americans. LGBT Americans have made, and continue to make, great and lasting contributions that continue to strengthen the fabric of American society. There are many well-respected LGBT leaders in all professional fields, including the arts and business communities. LGBT Americans also mobilized the Nation to respond to the domestic HIV/AIDS epidemic and have played a vital role in broadening this country’s response to the HIV pandemic. Due in no small part to the determination and dedication of the LGBT rights movement, more LGBT Americans are living their lives openly today than ever before. I am proud to be the first President to appoint openly LGBT candidates to Senate-confirmed positions in the first 100 days of an Administration. These individuals embody the best qualities we seek in public servants, and across my Administration — in both the White House and the Federal agencies — openly LGBT employees are doing their jobs with distinction and professionalism. The LGBT rights movement has achieved great progress, but there is more work to be done. LGBT youth should feel safe to learn without the fear of harassment, and LGBT families and seniors should be allowed to live their lives with dignity and respect. My Administration has partnered with the LGBT community to advance a wide range of initiatives. At the international level, I have joined efforts at the United Nations to decriminalize homosexuality around the world. Here at home, I continue to support measures to bring the full spectrum of equal rights to LGBT Americans. These measures include enhancing hate crimes laws, supporting civil unions and Federal rights for LGBT couples, outlawing discrimination in the workplace, ensuring adoption rights, and ending the existing “Don’t Ask, Don’t Tell” policy in a way that strengthens our Armed Forces and our national security. We must also commit ourselves to fighting the HIV/AIDS epidemic by both reducing the number of HIV infections and providing care and support services to people living with HIV/AIDS across the United States. These issues affect not only the LGBT community, but also our entire Nation. As long as the promise of equality for all remains unfulfilled, all Americans are affected. If we can work together to advance the principles upon which our Nation was founded, every American will benefit. During LGBT Pride Month, I call upon the LGBT community, the Congress, and the American people to work together to promote equal rights for all, regardless of sexual orientation or gender identity. NOW, THEREFORE, I, BARACK OBAMA, President of the United States of America, by virtue of the authority vested in me by the Constitution and laws of the United States, do hereby proclaim June 2009 as Lesbian, Gay, Bisexual, and Transgender Pride Month. I call upon the people of the United States to turn back discrimination and prejudice everywhere it exists. IN WITNESS WHEREOF, I have hereunto set my hand this first day of June, in the year of our Lord two thousand nine, and of the Independence of the United States of America the two hundred and thirty-third. BARACK OBAMA

ROSAS SELVAGENS

Rosas Selvagens é o primeiro Livro de poesias de Roberto Muniz Dias.

 

 

Rosas Selvagens

    

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Poesias Gay- Racionalistas
Por: ROBERTO MUNIZ DIAS

            A experiência da existência no mundo racional inspira o autor na busca pela compreensão de sua libido e de seu comportamtento. Os padrões são quebrados para garantir a existência. Mas os valores morais são mantidos como mantenedores da ordem interna. No entanto, a vontade é do grito, da música, da celebração. Os poemas de Rosas Selvagens são espinhentos, melódicos tristemente felizes. São reflexões de um homem gay aventurando a experiência do adulto, do casamento, das crises, do amor e da vida.

Agradecimentos

Gostaria de agredecer a todos pelo apoio traduzido em mensagens de e-mails, parabenizando minha incursão na via literária.  Agradeço cada palavra de sucesso e  de sorte enviada por meio de todas as formas de comunicação. Fico feliz em ser aceito e reconhecido.

Para aqueles que adquiriram o livro, peço perdão por quaisquer falhas. Estamos no processo  contínuo de revisão.  Ás vezes me dá uma vontade de mudar uma palavra aqui , outra acolá. Mas tenho que dar o acabamento de obra pronta. Ei-la no site.

Obrigado!

 

MARIPOSAS AO ENCONTRO DO CALOR DAS LAMPARINAS 

é o mais novo livro de

 ROBERTO MUNIZ DIAS

 

 

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As reflexões são apenas motivos para reafirmar a condição humana. Pensar-se humano é muito mais do que apenas observar a natureza irracional das coisas. Muitas vezes, a ficção está além ou aquém da realidade e, por isso, nos esvaziamos de metáforas e fantasias. Mas a vida está na rua, está na crônica diária dos acontecimentos os quais se encadeiam no vagar das horas e dias. Cada imagem de dor, de desespero ou de alegria nos invade como realidade pura. Mariposas ao encontro do calor das Lamparinas é uma colcha de crochê alinhavada com histórias de miçangas crueis e fuxicos de cores reais. Aqui, acolá, a agulha fura o dedal e a história tem gosto de sangue, mas é apenas delírio das personagens. As mariposas se enfeitam e percorrem a órbita da alegria: quente e luminosa. Elas se esforçam em seus ensaios diários. Elas estão vestidas para a festa. Prontas para celebrar, em conjunto, o verdadeiro sentido da ciranda da vida.

Direitos iguais

            Término de Curso; vontade de mudar o mundo e fazer valer o empenho de anos. Foi assim que me senti quando terminei meu curso de Direito. E queria fazer alguma coisa para mudar desde o início, quer dizer desde o término do Curso e início da carreia jurídica.

             Tudo começou pela monografia. Agora recordo bem. O meu projeto de pesquisa andou de mão em mão, e todos se espantavam pelo tema escolhido. Mas como era um projeto bem feito; bem estruturado, não interessava o assunto e sim a cópia. Mas cansei de ouvir algumas piadinhas dos colegas acadêmicos, futuros aplicadores do bom direito e reformuladores da dinâmica social.

             Toda essa história serve para emoldurar o assunto de fato a ser tratado aqui. Ontem em casa, ao ouvir jornal, mais uma vez, ouvi a notícia dos operadores de Direito acerca das uniões gays, dos direitos dos homossexuais. “Até quando”, pensei. A notícia não parecia nova, tampouco alvissareira.

            -Até quando? Reverberou por muitas vezes em minha mente. Desde a confecção da minha monografia, quando o tema ainda era completamente novo: o projeto de lei da, então Deputada Federal, Marta Suplicy acerca da união civil gay. Eu via naquele pequeno microcosmos, em que eu e mais dois colegas representávamos a estatística minoritária dos 10%; toda sorte de reações contrárias. Em que pese meu ótimo projeto a cabeça dos “novos operadores do direito” continua com o mesmo raciocínio tacanho.

            Mas, ontem, diante o apelo da Procuradora-Geral da República, Deborah Duprat, para o Supremo Tribunal Federal (STF) com um pedido para o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo em todo o Brasil, deixou-me, mais uma vez esperançoso. Nesta ação de descumprimento de preceito legal, a procuradora pede que sejam dados aos homossexuais os mesmos direitos e deveres dos casais heterossexuais em uniões estáveis. Segundo a procuradora, boa entendedora do Direito, “O indivíduo heterossexual tem plena condição de formar a sua família, seguindo as suas inclinações afetivas e sexuais. Pode não apenas se casar, como também constituir a união estável, sob a proteção do Estado. Porém, ao homossexual, a mesma possibilidade é negada, sem qualquer justificativa aceitável”, argumentou Duprat. Na ação movida pela procuradora, pede-se uma liminar a favor da união entre parceiros do mesmo sexo e a realização de audiência pública.

            A bem da verdade, o tratamento igualitário é preceito constitucional. Não podemos mais suportar essas ideias homofóbicas carregadas de teor claramente preconceituoso. O mundo vive uma fase em que a diversidade dever ser tolerada em suas diversas matizes, seja cultural, racial ou sexual. A garantia de direitos iguais foi e é o fundamento de países democráticos, base das Constituições Promulgadas e que representam os direitos conquistados de todos os cidadãos.

             Era esse o discurso ao término do Curso: de lutar pelos mais fracos sem o pieguismo dos fervorosos defensores dos direitos humanos. Além, o desejo inicial era de mudança. Mudança para a perfeita sintonia das várias vozes existentes no coro nacional. Não somos somente héteros, somos heterogêneos.

            Adquiri uma antologia poética de João Cabral de Melo Neto. Trata-se de uma tentativa de encontrar o poeta por ele mesmo em suas poesias, uma vez que ele não fala muito de si: “Sempre evitei falar de mim, falar-me. Quis falar das coisas. Mas na seleção dessas coisas não haverá um falar de mim?”. Por essa razão a existência do Livro “O artista inconfessável”, pela editora Objetiva.

            Sua poesia é inventiva e falar de si é falar da natureza que o cerca. Sempre olhando o movimento dela como se parte de sua própria natureza. Andarilho que era sempre levava o olhar de Recife consigo. Suas visões misturavam os sabores de sóis diversos. Alucinações de ver Sevilha como um sertão. Era o poeta que advogava a o diálogo com a pedra, a vida pela pedra. E, de primeiro, neste contexto, lança seu primeiro livro: “Pedra do Sono”. Este livro me causou tanta felicidade.  Pois em minha pretensão de poeta menor – plagiando Bandeira -, coloco-me também aquém da poesia cabralina. Mas me coloco no caminho, quando descubro que seu primeiro livro tem como tema a natureza da pedra; a pedra do sono, a natureza em observação. Por isso, me resigno de qualquer pretensão maior, na simplicidade de meu primeiro livro a observar as flores que de alguma forma, também, dialogam comigo. Não à toa, “Rosas Selvagens” é observação da natureza em sua instância mais vívida encontrada nas perspectivas diversas como a mudança do curso dos rios, a fortaleza da imagem, nas folhas de jaqueira ou mesmo na maestria de um toureiro.

            João Cabral era assim. De início, na lira de seus Vinte anos, uma obra sem páginas numeradas que me enche de proporções ilimitadas, que me impulsiona no lapidar do uso da língua; no intricado jogo dos regionalismos e neologismos, enfim, na prolixidade de nossas almas.

            Por tudo isso, devo prosseguir comparando-me de início à obra do Grande João como em meu livro de estréia sem páginas a mil, no entanto carregado de esperanças.

            Novamente o interfone tocou. Era mais um a interromper a respiração sofrida dele. Mas não havia cansaço que o desanimasse. Foi ao banheiro, fez um rápido gargarejo e atendeu o interfone.

 

            – Pode subir, disse com a voz suave e mais perfumada. A fita podia continuar a mesma, enfim, havia muitas outras três horas com o mesmo enredo.

 

            Ele abriu a porta. O outro adentrou sem muita cerimônia. Em dois passos o sofá já estava disponível. Não deveria haver muito esforço. E a fita não parava, os atores se posicionavam mais uma vez. Enquanto isso, a cerveja deveria estar gelada. Sempre a mão, e no espaço resumido da sala, tudo estava perto. Os desejos estavam sempre em prateleiras. Bastava-lhos escolher. Ele preferia o mais completo, talvez o mais fácil; aquele que pudesse satisfazer o tamanho sua vontade. Estava cansado das personagens sempre solicitadas; a fantasia alegórica de um outro eu. Aquela que surgia quando as cortinas se abriam, mas que o obrigavam sempre a fingir ainda mais seu pseudo-prazer.

 

             Escondia-o, liberava-o. A audiência aplaudia. Sua entrada tinha sido apoteótica, mas a maquiagem revelava a incerteza da fala. O que dizer?  Que estava no script de seu próprio prólogo? Ele não sabia; hesitou… O outro acompanhava atentamente o roteiro do filme. Não pestanejava. Ele ainda tentava retirar o último véu. Mesmo assim, o outro não se demovia de sua luxúria inicial. Seu sexo se avolumava, mas não representava o ânimo do sangue que Ele desejava. O outro apenas apreciava o gosto embriagante da cerveja na mão. E na outra, seu entusiasmo se avolumava ainda mais.

 

            Enquanto isso, sua realidade-mítica ia desaparecendo; sendo desmascarada. Não havia mais o que retirar. A pequena moça em seu vermelho Salomé – ou seria Jezebel?- personagem daquela peça, já não tinha mais o que fazer. Os efeitos da dança bem ornamentada de nada contribuíram para o apreço do convidado. Não o seduzia. Este se sentou, exigiu outra cerveja; exigiu o aumento do volume.

 

- Vem cá minha pequena! Deleite-se aos meus pés e satisfaça a sofreguidão de meu sexo pulsante, disse em tom de comando. Ele não pensou duas vezes. Por mais que sua audiência não reconhecesse seu talento, na verdade, o que o impulsionava era o gozo, o ápice, o aplauso final. Sua máscara já havia caído, sua roupa se encontrava toda no chão.

             O vento frio daquela noite foi aplacado pelo calor dos fluidos. Eles se anteciparam nas falas. Calaram-se no afago das palpitações de seus corações. Gozaram-se.  Ele no chão, o outro em sua alma, lavando-a com toda a lascívia que o aplauso lhe proporcionaria. O aplauso final, o último ato. Então, recolheu seus véus; recolheu sua vergonha. Ainda quis esconder sua alma lavada. Mas foi apenas um relance. Não lhe viu a satisfação. Abriu a porta, e sua audiência muda havia ido embora.

 

                                                                                                                           Continua…

PANDEMONIUM

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PANDEMONIUM

 

Estou em falta com minha banda preferida.  Antes acompanhava tudo, desde os lançamentos dos  singles até a visita diária no site da dupla.

Mas hoje estou mais relapso, em que pese a produção ativa da banda. Não sou crítico musical, no entanto, deveria falar alguma coisa de YES.

Para falar a verdade, nem mesmo comprei o CD. Cheguei a ouvir 0 álbum  e gostei muito de LOVE and ETC e DID YOU SEE ME COMING. As duas têm uma boa melodia e mantem o padrão musical da banda. Mas, é somente isso que posso falar. Gosto muito deles. Ainda fazem parte da minha vida. Canto todos os dias; no carro, em casa. Eles nunca estarão distantes de minhas emoções mais límpidas e sinceras. Os PET SHOP BOYS me cercam, iluminam…

PANDEMONIUM representa o medo de CRIS em relação ao temor do inferno em que vivemos. Ainda mais para os Britâncios que sofrem ameaças em sua privacidade.

A desastrosa investigação da Scotland Yard ,que resultou no inexplicável e inimputável crime, transformou-se em música a  qual relata todo o pandemonium causado com a morte de Jean Charles.

Agora os PSB  se lançam em nova turnê que me anima pela capacidade que eles têm de se manterem vivos. Eu os amo. E sempre os acompanharei.

 

 

            O interfone tocou. Ainda estava enxugando seu rosto da última gozada. Inquietou-se. À porta, bateram. O interfone tocou novamente. Bateram na porta mais uma vez.

             Inquietou-se. Ele não sabia o que fazer. À porta deveria ser qualquer pessoa com mais intimidade, pois teve acesso sem muitas restrições. Já ao interfone, não sabia quem poderia ser. Ontem à noite havia passado horas na internet. Os toques eram sôfregos pela procura do prazer adequado. As limitações eram claras: nada de homens muito fraquinhos, que passassem as noites sob telhados. Nada destes homens de unhas pintadas e bem desenhas. Tudo menos isso. Adorava os homens maiores, bem grandes; grandes formas; grandes expectativas. Esses sim tinham seu apreço.

             As fotos pululavam no seu computador intensamente. Todos os tipos. Não tinha como selecioná-las. Seu apelo podia atingir qualquer um. A mensagem era explícita: “grandes prazeres com a pequena Jezebel”. Era assim que chamava a atenção dos homens. Todos eles. E, também por isso, vinham todos.

             “Não curto esses tipos pequeninos, com muito pouco a dar”. Revoltou-se. Com seus dedos pequenos dava vazão à velocidade de sua destreza vernacular. Ainda que percebesse a perda de tempo em respondê-lo, sempre se irritava com tais provocações. Até porque, causava-lhe certo interesse sexual por estes mais difíceis. Esses lhe proporcionavam mais prazer por conta de sua capacidade de convencê-los do contrário. Pensava consigo que em todo o homem havia aquele desejo mais recôndito de curiosidade; ou mesmo que esse desejo se mascarasse em superioridade, sempre um ou dois drinks revelariam a verdadeira fonte de prazer.

             Ele tentava, às vezes por horas, convencer de que poderia completar a necessidade de qualquer homem. Perdia seu tempo, mas não a paciência com dois ou três desses tipos. Conseguia manejar duas ou três personagens ao mesmo tempo. E nunca perdia o tempo dessas falas. Sempre estava pronto. Nenhuma solicitação ficava triste. Tinha sempre a fala e a foto para qualquer desejo. Não raro, perdia-se num jogo de voyeurismo. Mas não tinha fim, era somente aquele prazer do outro; não do seu em si. Mas daquela satisfação do rosto alheio em meio a rápidos toques; rápidas imagens; pensamentos sujos; performances solitárias; sedução virtual e ausência de sincero retorno.

             Mas o que lhe dava prazer era a pequena Jezebel. Ela, no entanto, nunca era virtual. Recusava-se a deixá-la ser virtual. Seu jogo de sedução e prazer era sempre real: luzes, cortinas e suave maquiagem. Ela nem sempre atuava. Mas quando atuava, deveria ter uma preparação.

             E o interfone não parava de tocar. À porta, desistiram de bater. Ouviu-se o barulho distante de passadas descendo as escadas. Ele deixou o interfone tocar mais uma vez. Correu para a pequena varanda da suíte e pode vislumbrar, pelo reflexo dos espelhos da fachada dos vizinhos, o corpo que se distanciava na imagem: era o soldadinho. Apaziguou a alma. Aquele viria, decerto, mais vezes, outras vezes.

             De um pulo alcançou o interfone:

            – Alô, pode subir, disse apressadamente. Pôs o fone no gancho, correu para o quarto. Jezebel precisava  de chita limpa.

 

                                                                                                                      …Continua

Bacana e inteligente a iniciativa de convidar o atleta gay Matthew Mitcham, que ganhou medalha de ouro em saltos ornamentais nas Olimpíadas de Pequim.

E,  igualmente inteligente, a propaganda em si.

Sem palavras.

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DA IDENTIDADE

 

DA IDENTIDADE é o mais novo Livro de Poesias de Roberto Muniz DiasLivro de poesias Da Identidade

Livro de poesias: Da Identidade

 

A palavra dá poder aos pensamentos.

Acordo rei ou rainha, depende de meu humor.

 Quando ainda no casulo implemento a construção das asas.

Ainda não aberto aos desejos do Deus das armas e do fogo.

 Plebeu, talvez Hércules.

O momento acaba; sou apenas um poeta menor.

 A esperança do Colosso; do menino pequeno.

Palavras me dão poder.

Hoje sou um pouco fraco.

Daqui a um minuto sou uma identidade fragmentada.

Estive ausente por algumas semanas. O projeto duas páginas por semana parece ter chegado ao fim.

O livro saiu. E o resultado foi uma leitura de teor fantástico na qual um escritor vê-se atormentado pelas suas personagens e sua própria imaginação. É , também, uma mensagem sobre  amor e sexo; numa medida quase que surreal.

Agora, estou fazendo propaganda e esperando um convite de alguma editora.

Espero que possa publicar em breve.

Conto com o apoio de todos.

Entrega para Jezebel

A porta estava entreaberta. Ele entrou como de costume. Nunca precisou de cerimônias, tampouco mascarava seu desejo por Henrique. De fato, nunca Jezebel havia aparecido para ele. Pois ele gostava de Henrique do jeito que ele era.

Mas quem o recebeu foi Jezebel.  A calcinha toda enfiada na bunda e os trejeitos femininos. Os olhos fechados tateando o espaço vazio do sofá.

- Mas o quê é isso?- perguntou ele meio envergonhado. Jezebel não sabia onde colocar seu personagem. Havia esquecido a fala. Certo pudor tomou-lhe de conta. Sentou sobre os joelhos e pôs-se a chorar

A porta bateu  e Jezebel estava sozinho.

[...]

Não havia consenso entre eles, pelo menos no que dizia a respeito sobre o amor. Não havia amor. Mesmo que Henrique não fosse Jezebel, o interesse do outro era apenas sexual. Eles se bastavam quando decidiam ficar um com outro. Geralmente não tinha diálogos; tudo perfeitamente solucionado pelo momento do gozo. E Jezebel, ou melhor, Henrique não enxergava o amor nos outros. O contrato tácito, assumido na premência do toques sôfregos do computador estatizava sempre que não deveria haver algo além do sexo. Estavam proibidos.

De fato, ele entrava sempre. Adquiriu certa liberdade por usucapião do corpo de Henrique, porque este se deixava usufruir. Não se preocupava com o seu poder de sedução.

Havia sido decepção a cena dele vestido de mulher? Será que era isso que ele desejava intimamente?  Decerto, os dois não sabiam.

Henrique pensava consigo mesmo. Sentado ainda sobre os joelhos, chorava para entender seu sofrimento. – Era o quê- se perguntava. Ajeitou a saia apertou o botão  e mirou o aparelho de DVD. A música começou. Levantou-se. Pensou na importância das palavras. “ Como são importantes as palavras!” E naquela noite dançou, rodopiou com sua saia e dançou  até a exaustão.

Continua

Hoje talvez Jezebel não devesse sair de casa. Talvez não tivesse existido. – Quem era Jezebel? – ele se perguntava naquele instante.

Sobre a cama olhando fixamente a lâmpada  pensava como ela surgiu.

[...]

Nada dava certo, nem mesmo a ajuda do amigo mais bonito. Todas as atenções centravam no amigo bonito, alto, forte. Tentou o café; fez cadastro num site de relacionamentos; mas não sabia entrar no ritmo de mentiras dos outros. Tinha seu próprio ritmo: a casa; o programa favorito de televisão; os amigos. Mas nada disso satisfazia um sentimento interno de possuir  alguém em especial.

– Mas quem seria esse alguém especial a querer minha especialidade? – ele também se perguntava. – E qual seria minha especialidade? – ele se perguntava diante do espelho. E a resposta sempre tinha a ver com a ignorância do outros. Eles ignoravam seu enorme coração e suas domésticas.

Eles não o viam como alguma coisa perto dos desejos comuns. Era baixinho, quase uma bonequinha de porcelana. – Sua boquinha de princesa não parece comportar meu soldado de chumbo ­ –, comentou certa vez um de seus admiradores. – Princesa, eu? – perguntou-se acreditando numa espécie de resposta reveladora. Era tão frágil quanto essas coisinhas de porcelana. Poderia ser uma princesa; podia ser algo de contos de fada. Poderia ser apenas um papel no imaginário daqueles homens maiores, mais fortes. E se caísse nos braços de um príncipe, poderia viver a vida de borralheira  ao lado do homem especial.

Partiu, então, desta ideia idiota de tornar-se uma personagem. Na primeira vez usou a cueca separando sua nádegas, imitando uma lingerie feminina. Usou uma, duas, três vezes com o mesmo parceiro. Gostava de imitar um desejo de uma fêmea servindo seu macho num ritual de acasalamento; e este sentimento alcançava a maior parte desses homens  meio-homens.

Uma vez, duas vezes, três vezes como todos os outros e sempre havia espaço para a fêmea reprimida. Podia assim beijar profundamente sem ter que sentir a repulsa natural de seu cheiro de homem; assim disfarçava qualquer intenção do outro em decifrar aqueles toques delicados naquele corpinho de homem fragilizado. Mas Jezebel surgia como mulher poderosa; ela dominava a situação. Nada poderia suplantar a condução dos sentidos de Jezebel, pois ela sabia onde e quando fazer o prazer acontecer.

Jezebel usou o vestido vermelho pela primeira vez. Já não era mais a cueca metida entre as nádegas. Era uma bonequinha de boca macia e pele que imitava o cheiro de fêmea em cio. Sua atuação demorou até aquele pensamento fixo: – Quem era Jezebel? – suspirou para a luz.

 

Continua…

 

O telefone tocou; o computador estava desligado e o interfone mudo. O telefone parou; o interfone tocou e o computador ainda desligado. O telefone, o interfone e o computador estavam sem vida; assim como Henrique sobre a cama.

Nada tinha a mesma importância para aqueles momentos mórbidos. Jezebel parecia completamente morta, enterrada talvez. E isso deixava Henrique sobremaneira preocupado.  “O que poderia ser de minha vida sem minha personagem?” Ele não acreditava que pudesse  ainda ser um grande show. Sua audiência sumiu por entre os convites que não foram mais enviados. Tudo estava sobre a mesa: as fitas vermelhas e a cera derretida não mais selavam os convites. Tudo estava sem vida; nem mesmo o valor das coisas passadas existiam naqueles meios de contato externo. Assim como ele, tudo estava sem sentido.

Pôs a música, mas não acreditava que pudesse dar vida, nem mesmo à poeira. A música vibrava o ar; seus músculos rijos continuavam estático ;o olhar ainda perdido na lâmpada inquisidora.

A música repetia o refrão, repetia: “o amor vem rapidamente, o amor vem rapidamente, o que quer que você faça, você não pode deixar de se apaixonar”. A música repetia, repetia.

O telefone tocou. Olhou o visor do celular. Era ele. “É ele!”, olhava ainda incrédulo para a mensagem que entoava uma música parecida com a que tocava. Os sons misturados davam vida àquele momento de inconstância sentimental. Ainda que quisesse se desvencilhar de Jezebel, sentia que ele não gostaria do Henrique. Mais uma vez apenas queria o sexo, não importava se Jezebel sumisse apenas naquele momento.

Atendeu ao telefone. Apenas disse alô. “Eu queria te ver de novo”, disse o outro em tom amistoso. Henrique hesitou.  A princípio desejou que fosse sincero, que fosse menos sexo, e mais qualquer outra coisa. Qualquer coisa. A música repetia: o amor vem rapidamente, o amor vem rapidamente…

[...]

A porta se abriu sem a urgência dos desejos disparados a léu. Tudo parecia calculado para alguma coisa diferente de tudo. Henrique esperava-o sentado no sofá. Trocaram dois, ou três cumprimentos.

“Queria ver Jezebel”, disse o outro sem conseguir mirar os olhos de Henrique. Estava em pé diante do sofá onde sempre não souberam controlar os bons modos. Sentou-se estático ao lado dele e esperou. Henrique se levantou. Doía aquele pedido, mais do que a vergonha que sentira naquele dia. Mas como sentia que sua submissão era mais forte do que seu próprio orgulho, deixava-se entregar pelo desejo imperioso do sexo. Apenas o sexo.

Ligou o som. A música era sua preferida. Jezebel estava pronta. Dançou como nunca antes, embora chorando. Talvez sentisse que fosse a última vez, ou que sua performance fosse a mais desastrosa. Dançou como nunca antes. Mas apenas dançou. Sentou-se sobre as pernas. Chorou. Levantou-se e terminou o show.

“Queria que você tirasse a roupa”, pediu ainda tímido. Henrique despiu-se. Não havia máscara desta vez, nem uma cor sequer. Era sua pele apenas; nua. Nem calcinhas, nem cueca entre suas nádegas.  Despiu-se de Jezebel.

Ainda chorando, derrotou-se pela humilhação da perda completa.  Não importava mais o sexo.

Ele se levantou do sofá e ajoelhou diante de Henrique. Tentou enxugar suas lágrimas com as pontas dos dedos.

- Você nunca entendeu que eu sempre quis você como agora; nada mais- disse ainda sem encará-lo.

 E finalizou com um beijo em seu rosto:

- Eu nunca entendi o porquê de Jezebel.

 

 

Deuses Furiosos

Ele descansou sobre a rocha ainda com as asas feridas. O sangue vertia vermelho por entre as asas. Apoiou-se numa das pernas e impulsionou o corpo para cima. Voou mais uma vez.

As asas de Cassius batiam sem parar e ele parecia pairar sobre o ar. Jacinto alcançou-o de um só impulso e seu corpo musculoso atingiu Cassius violentamente.

Os dois se abraçaram e permaneceram no ar por alguns minutos. As asas de Jacinto eram menores e a envergadura das de Cassius imobilizaram os movimentos de Jacinto.  O abraço não podia ser desfeito, enquanto os dois caíam numa velocidade absurda. Os corpos pareciam apenas um, mas o corpo de Jacinto se vertia em dor e sangue.  Sua mente apagava lentamente e não podia mais controlar seus poderes a dor diminuía, ao mesmo tempo em que as asas encurtavam e sumiam nas suas costas.

Cassius soltou-o de encontro ao mar. Jacinto afundava ainda desmaiado enquanto o outro fazia o caminho de volta. Suas asas faziam sombras sobre as águas revoltas do mar.

As guelras começaram a apareceram espontaneamente e Jacinto gradualmente conseguia se mover…

Um momento quase como esse de ar frio, envolto pelo cheiro familiar. Parece café com pão; pode ser o de milho cozido. Ao passo da batida, consigo a coreografia para a música; assim a caminhada se torna menos cansativa.

 

E também há a alameda, enquanto me aqueço com meu próprio corpo, meus braços cruzados; e ainda assim, as coisas continuam sem fazer sentido.

 

A música fala de imagens próprias; filmes talvez. Filmes de si. Penso que sejam pequenos flashbacks, como pequenas passagens daqueles filmes de erros que cometemos. E então, têm-se as flores do jardim do lado. Bem decorado; com todo o denodo de um artista apaixonado.  As flores fazem parte de um filme. Talvez seja sobre mim ainda.

 

 Ainda os flashbacks. E as flores vêm com o um cartão de desculpas pelo momento anterior. “Ontem, desculpe-me pela ousadia”. – Por que flores têm a ver com desculpas maiores?-, sempre as questiono dentro de meus pequenos filmes.

 

O passo é firme e não claudica, enquanto a música muda; quando a história parece culpar o outro. Nem sempre a culpa é algo palpável. Meu ódio era apenas das flores. – Que mau gosto!_ e as coisas pareciam rearranjadas como livros coloridos. E os filmes pequenos? Pois lá estávamos eu e as flores, e ele e suas desculpas. Eu não poso parar esse filme. Ele se repete sempre em minha memória.

 

E o cheiro recorrente de saudade desenha outra cena. O café com pão sobre a mesa da casa. Lá está mamãe a servir seu carinho e a comida juntos. Ela e seu amor por mim serviam a mesa. E tudo estava tão simples e perfeito. Era minha mãe.

 

E quando penso na existência de minha mãe, todas as coisas parecem perfeitamente repletas de sentido.

EditorEditoras virtuais que publicam livros sob encomenda começam a surgir no país Publicação: 26/08/2009 09:25 Atualização: 26/08/2009

Editora: Ana Paula Macedo

Para escritores desconhecidos no mercado editorial, publicar um livro com o apoio de uma editora tradicional é tarefa difícil. Em muitos casos, uma boa rede de contatos tem mais importância do que um bom material para que alguma editora se interesse pelo trabalho do autor. Porém, alguns sites na internet, inspirados em iniciativas já consolidadas no mercado norte-americano, trazem uma nova proposta: publicar obras literárias sob demanda, com tiragens sem limite mínimo de cópias e com o benefício de não haver restrição temática. Quando o empresário C. André, 45 anos, descobriu um site que oferece esse tipo de serviço, constatou: “Era isso que eu precisava”. O carioca, que mora em Brasília, mandou o livro que escreveu para editoras fora da cidade há três meses, mas ainda não obteve resposta. “Com esses sites, há a vantagem da agilidade e da democratização”, destaca. Ele exemplifica com os variados tipos de gêneros literários encontrados nessas páginas da internet. “Você encontra dissertações, poesia, autoajuda, romances.”

O professor de inglês Roberto Muniz  Dias, 33 anos, viu na internet a possibilidade de lançar seu material “sem limitações”. Roberto tem quatro títulos publicados em um site, que, juntos, venderam cerca de 200 cópias. “Não dá pra precisar a quantidade, mas eu sei que pessoas de várias partes do Brasil tiveram contato com o meu trabalho. Isso é muito gratificante”, destaca. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) registrou, no ano passado, o lançamento de, aproximadamente, 19 mil títulos inéditos. Ricardo Almeida, diretor-geral do site Clube de Autores, no ar desde fevereiro deste ano, tem 1,6 mil livros em seu acervo – o que representa 8,5% das obras conhecidas como primeira edição publicadas em um ano no Brasil. “Esses números são surpreendentes e significativos”, afirma. A técnica O processo técnico dessas edições sob encomenda é simples: o autor se cadastra no site e envia sua obra em padrão A5, com o arquivo no formato PDF. Na página do Clube há um guia para explicar como se faz essa configuração. O site, então, calcula os custos para imprimir e distribuir a obra – de acordo com a quantidade de páginas – e, em seguida, o autor informa quanto quer ganhar, por cópia, com direitos autorais. O livro, cuja capa pode ser feita pelo próprio autor, não tem orelha, nem texto na lombada . Outro site brasileiro com trabalho semelhante é o Armazém Digital. Felipe Rangrab, da editora de Porto Alegre, sustenta que projetos do tipo “são uma alternativa fácil, barata, e rápida para que os autores possam publicar suas obras.” De livros didáticos a publicações em multimídia (CDs e DVDs), o site abriga material de cerca de 100 autores. A Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) é um site cujo serviço que oferece é um pouco diferente das duas páginas de internet citadas acima. Ela publica pequenas tiragens, a partir de 30 exemplares. Isso também é vantajoso para o escritor, já que editoras comuns não trabalham com tiragens menores que mil exemplares. “Com muita negociação, você consegue fazer o mínimo de 500, mas o custo é alto, pode chegar a R$ 10 mil”, revela Luis Satie, 46 anos, que também usou a internet para lançar os 10 livros que já escreveu. O autor tem a opção de enviar o texto do livro em Word, por e-mail ou pelo correio. Todo o trabalho de arte é feito pela editora, como a diagramação do miolo e a criação da capa. Além do bloqueio O caso de Satie, auditor federal de controle, é curioso. Ele chegou a ter um livro aprovado por uma editora mineira que, de última hora, desistiu da ideia. Por isso, decidiu divulgar o próprio trabalho por outros meios. “A gente que produz fica angustiado, com o texto na mão, e a internet permite que a gente consiga superar esse bloqueio imposto pelas editoras, esse muro de Berlim”, assegura. “Tem muita gente boa escrevendo e esses sites são bons aliados para divulgar”, ressalta. No entanto, apesar dos pontos positivos, os três escritores de Brasília veem algumas desvantagens nesses projetos. C. André e Luis Satie concordam que o custo de produção dos livros publicados é alto, o que dificulta uma margem de lucro significativa. “O problema da impressão por demanda é que o custo unitário acaba ficando alto, pois concentra vários componentes da logística de edição e impressão em poucos exemplares. Do valor do meu livro, por exemplo, eu só fico com R$ 6″, lamenta André, cujo livro custa R$ 43,65. Outro problema levantado por Roberto Dias é a pouca visibilidade que esse meio de publicação traz. “Um site não tem o poder de exposição que uma editora conhecida tem.” Mas André não considera isso relevante para quem só deseja ver a obra concretizada e não se preocupa tanto com a divulgação. E cita o escritor Jorge Luiz Borges para justificar essa opinião: “O autor publica um livro para se ver livre dele, senão fica reescrevendo, reescrevendo%u2026″ SITES PARA PUBLICAR LIVROS No Brasil: http://clubedeautores.com.br/ http://www.armazemdigital.com.br/ http://www.camarabrasileira.com/ No exterior: http://www.lulu.com/ http://magcloud.com/ http://www.blurb.com/ http://www.bubok.com/ TEMA DAS OBRAS DOS PERSONAGENS DA MATÉRIA » C. André: fala sobre atitudes individuais que podem mudar um ambiente social. » Luis Satie: relação entre direito e estética » Roberto Dias: poesias, contos e livros com temas de monografia

O mais novo Livro de Roberto Dias é :

 

Adeus a aleto

SEXO COM AMOR:

        “ … Continuou dentro de mim como se pudesse me levar para outro mundo. Não conseguia olhar em outra direção seu corpo forçava contra o meu na medição de forças mais pacífica que podia existir. E não havia interstícios, pois sua vontade era a minha. Sentia-o cada vez mais forte e maior, como se seu sangue avolumasse a cada minuto seu sexo dentro de mim. Começou a parar e sentir-me provocá-lo; apertava-o como se chamasse a atenção para que não parasse. Por seu turno, fazia isso para sentir um pouco mais de minha vontade; se era de sim ou de não. Mas não havia dor naquele instante.  Pegava-me como se eu tivesse intenção de desistir; puxava-me contra seu corpo para que eu sentisse senão a verdade. Ele não parava e não parava de me olhar… “

SEXO SEM AMOR:

“             Ato I Cena II

            O Sodomizador entra em cena. Completamente nu, um corpulento homenzarrão negro adentra vestido com peças de couro por sobre o peito e uma argola em volta de seu pênis ereto.

            Sodomizador- “Vamos brincar meus gatinhos”. Retira um líquido preso as ligas na cintura e começa a lambuzar seu dedo médio. Começou a enfiar o dedo nos anus do sodomita da esquerda.

            Domintarix- “Mais, quero mais. Coloque sua mão”. Então o obediente servo colocou mais gel em torno de sua mão e braço e outra parte colocou sobre seu imenso falo duro.”

INGENUIDADE:

“ Corríamos, descíamos as escadas como qualquer criança feliz poderia descer: aos saltos; pulos, escorregando pelo corrimão. Não sabia mensurar quão velho estava para pensar que fazíamos uma traquinagem; tampouco desconhecia o quão jovens éramos para poder aventurar a se permitir. Descer assim tinha a ver com certa renúncia; aceitar uma condição de agora, nova e deixar pra trás algumas marcas que o tempo queria mostrar indeléveis. Mas naquele momento apenas havia a felicidade de qualquer coisa menos do que nossa constatação de o tempo ser algum empecilho. Éramos apenas duas pessoas saindo de seus mundos, deixando a irresponsabilidade como maior legado para a geração dos homens que ficaram para trás. “

LOUCURA:

“ 

Tentei esmurrá-lo. Esmurrei o ar. Esmurrei o espelho. O sangue espesso e escuro começou a verter de meu pulso. Espalhava-se por entre os espaços brancos da camisa, pingando sobre a pia. Me veio uma dor forte como revelando um profundo corte em meu pulso. A dor me causou um torpor mortal.

          Apertei meu braço e o sangue parou rapidamente. Amarrei a tolha em torno do braço. Quis fazer um curativo, mas uma letargia tomou meu corpo de conta. Adormeci. “

foto2Depois de Brüno, não pensei que houvesse filme mais politicamente incorreto. Mas acabei me deparando com “Se beber, não case”, (The Hangover), dirigido por Todd Phillips. E ainda me surpreendo com as críticas a elogiar essa comédia escatológica. O filme inicia, tentando inovar na narrativa – utilizando um clichê já não tão original-, contando a estória de trás para frente.

No início, percebe-se certa coerência com as sinopses do filme que houvera lido: os amigos vão para Lãs Vegas para curtir a despedida de solteiro do amigo Doug. Nada tão ingênuo e mais autêntico do que celebrar a solteirice, vez que o casamento não mais permitirá esse tipo de comportamento. Se tal é o pensamento de que o casamento aprisiona, por que as pessoas casam? Mas o filme, de longe, parece preocupar-se com tais assuntos. Ao contrário, parece existir certo ritual falocêntrico e machista de os homens se comportarem como irracionais antes da grande festa. Até mesmo o sogro, que deveria se preocupar com o futuro genro inicia – ou perpetua esse ritual -, oferecendo seu melhor carro para que seu genro aproveitasse o momento da transição. A cena é patética; como se houvesse um grau evolutivo na confecção do grande homem que surgiria depois da grande farra. E para arrematar, o pai da noiva alerta que tudo que acontecerá em Vegas, ficará em Vegas, a não ser os herpes. É cômico, mas ridículo.

Não irei perder meu tempo em recapitular as pérolas desse filme. Para começar vou falar do título, que mais soaria com a temática do filme se intitulasse: Se beber boa noite cinderela; não faça nada, nem case. Pode parecer absurdo, mas não se trata de bêbedos que não sabiam o que faziam; de fato, eles se envenenaram com uma espécie de droga conhecida como boa noite cinderela: Rophynol, também chamada “rape drugs” e que, na realidade, potencializou a embriaguês. O resultado ficamos sabendo só no final. Enquanto empreendem uma busca na tentativa de entender o que haviam feito, as atrocidades começam a ser reveladas. O idiota do cunhado- um protótipo glutão saído de uma orgia woodstoquiana-, um pouco nerd, um pouco maluco, é o culpado de toda a desventura do grupo, pois comprara o Rophynol em vez de ecstasy. Essa foi a mistura explosiva para as loucuras acontecidas. Este tipo parece o estereótipo de um autêntico norte-americano incrustado na sua couraça de alienação e ignorância. O que nos diverte nele é a própria imagem de um país – e por que não uma sociedade globalizada- em plena decadência de valores e costumes.

 E por falar em valores, moral; é preciso falar do metido a galã que, por incrível que pareça, é professor de ensino fundamental. É um absurdo a cena na qual o tal professor- não vou saber de nomes porque são atores desconhecidos- engana seus alunos solicitando uma verba para uma espécie de gincana, ou algo de cunho cultural- não recordo. Mas de fato, o dinheiro dado pelos alunos é usado para financiar sua viagem para Lãs Vegas. Esta cena é deprimente e representa a corrupção e falta de ética que perpassa toda a sociedade americana. Numa cena posterior, a corrupção também afeta os médicos da rede pública ou privada, não sei ao certo; completamente subornáveis e igualmente antiéticos. E assim a película que apela para um humor sem descrição; nem ácido, tampouco simpático; difícil de enquadrar dentro de meus parâmetros. Talvez sê um quê de escatológico ou sádico, porquanto cenas gratuitas de violência e desrespeito povoam todas as passagens do filme. Existe uma na qual a “guarda” temporária de uma criança, que aparece no quarto da orgia- o que fico pensando, será que a criança, no filme, chegou a ver as cenas de sexo?-, fica à cargo do maluquete irmão da noiva. Numa outra cena, o cunhado, saído de woodstock,  simula, com a mãozinha do bebê,  uma masturbação; cena esta que se repete duas vezes. Enfim, o filme parece uma grande brincadeira de mau gosto.

No final, as coisas voltam à cena inicial e eles – os exemplos de masculinidade e moldes de toda a cultura falocêntrica americana-, num exemplo quase irreconhecível de inteligência, relembram que deixaram o amigo- o noivo- no telhado do hotel em que se hospedaram.

Não posso esquecer-me da participação especialíssima de Mike Tyson, o que deu um brilho de inteligência e humor impagáveis. Será que estou sendo irônico?

Juntamente com os créditos finais, eles revelam toda a sorte de coisas que fizeram por meio de uma câmera que registrou todas as peripécias do grupo. E infelizmente, quem lê essa crítica terá que ver o ensaio fotográfico das bizarrices.

Fica no ar a mensagem de que devemos, de vez em quando, ser um pouco malucos e deixar que, de alguma forma, as coisas voltem à normalidade sem o peso e a exigência de posturas sérias diante de nossas próprias vidas. Ah! Se beber não vá ao cinema; ou melhor, se beber, vá ao cinema assistir The Hangover.

A Revista BRAVO!,n° 145, publicou minha crítica acerca da Estética Homossexual na Literatura:

A matéria da edição agosto sobre a estética homossexual ( Existe uma estética homossexual?, BRAVO! n° 144) baseia-se no sofisma da homossexualidade como personagem da psicologia do séc. XIX e restrita àquela estética histórico-cultural. Pois bem, a matéria assinada por José Castello limitou-se a análise enclausurada sob o estigma da homossexualidade ainda tomada como algo doentio. Seria injusto falar numa estética homossexual quando esta não pôde ser vivida na plenitude e sim na doença de seus inquisidores…

…A experiência de Gide é reveladora por conta de sua abordagem, mas se ele não vivesse na atribulação do medo e do pecado, sua Literatura, bem como as dos outros citados, suplantariam qualquer estética de conotação heterossexual.

Veja a crítica na íntegra:

A matéria da edição agosto sobre a estética homossexual baseia-se no sofisma da homossexualidade como personagem da psicologia do séc. XIX; e restrita àquela estética histórico-cultural. Pois bem, a matéria assinada por José Castello limitou-se a análise enclausurada sob o estigma da homossexualidade ainda tomada como algo doentio. Seria injusto falar numa estética homossexual quando esta não pôde ser vivida na plenitude e sim na doença de seus inquisidores. Falar em literatura e limitar sua contribuição para a sexualidade humana é temerário; mas estigmatizar como apenas existente o parâmetro sócio-biológico da heterossexualidade é um absurdo. Em o “Bom Crioulo” usou-se a estética naturalista e biológica, não por existir uma estética homossexual, mas para reafirmar pontos das ideias vigente sobre ela: o caráter quase animal da sexualidade. Mostra-se apenas uma apropriação para trazer à tona a polêmica do tema. Falar em estética homossexual tem que ser feita por homossexuais. Citou-se, exemplarmente Arenas, mas ele não falava em viver a homossexualidade nas ruas escuras, nos parques; havia em Arenas a necessidade de manifestar sua sexualidade numa atmosfera castrista anti-gay, nada mais. E isto era impossível. Em Nova York sentiu a liberdade, mas não teve mais tempo. Falar em Literatura gay, ou estética homossexual e falar de escritores gays, escrevendo sobre suas experiências na literatura. Para falar em Literatura gay, devem-se analisar autores além dos estereótipos doentios, é falar de nós escritores que escrevem com a alma pacificada e o amor gay vivido em sua plenitude. Falar em Wilde suplicando perdão nos últimos suspiros é limitar a estética homossexual a um modismo infundado. A literatura gay existe porque existe o amor gay. A experiência de Gide é reveladora por conta de sua abordagem, mas se ele não vivesse na atribulação do medo e do pecado, sua Literatura, bem como as dos outros citados, suplantariam qualquer estética de conotação heterossexualtéria da edição agosto sobre a estética homossexual baseia-se no sofisma da homossexualidade como personagem da psicologia do séc. XIX; e restrita àquela estética histórico-cultural. Pois bem, a matéria assinada por José Castello limitou-se a análise enclausurada sob o estigma da homossexualidade ainda tomada como algo doentio. Seria injusto falar numa estética homossexual quando esta não pôde ser vivida na plenitude e sim na doença de seus inquisidores. Falar em literatura e limitar sua contribuição para a sexualidade humana é temerário; mas estigmatizar como apenas existente o parâmetro sócio-biológico da heterossexualidade é um absurdo. Em o “Bom Crioulo” usou-se a estética naturalista e biológica, não por existir uma estética homossexual, mas para reafirmar pontos das ideias vigente sobre ela: o caráter quase animal da sexualidade. Mostra-se apenas uma apropriação para trazer à tona a polêmica do tema. Falar em estética homossexual tem que ser feita por homossexuais. Citou-se, exemplarmente Arenas, mas ele não falava em viver a homossexualidade nas ruas escuras, nos parques; havia em Arenas a necessidade de manifestar sua sexualidade numa atmosfera castrista anti-gay, nada mais. E isto era impossível. Em Nova York sentiu a liberdade, mas não teve mais tempo. Falar em Literatura gay, ou estética homossexual e falar de escritores gays, escrevendo sobre suas experiências na literatura. Para falar em Literatura gay, devem-se analisar autores além dos estereótipos doentios, é falar de nós escritores que escrevem com a alma pacificada e o amor gay vivido em sua plenitude. Falar em Wilde suplicando perdão nos últimos suspiros é limitar a estética homossexual a um modismo infundado. A literatura gay existe porque existe o amor gay. A experiência de Gide é reveladora por conta de sua abordagem, mas se ele não vivesse na atribulação do medo e do pecado, sua Literatura, bem como as dos outros citados, suplantariam qualquer estética de conotação heterossexual.

Está crítica saiu na edição de setembro ( BRAVO! 145)

teste1 Capítulo 1

Tímida Luz

            Colocou a cabeça sobre as pernas dele e começou a pensar no peso dos astros pensou na estrelas que cintilavam brancas  se tinham peso menor do que as vermelhas; e os sóis? O sol deveria ter mais peso do que as pequenas estrelas. Pensou nas pequenas estrelas. Como são frágeis longinquamente perdidas no mar daquele céu. E se perdia nas águas turvas daquela noite enquanto se perguntavam o que tinha acontecido com eles. A cabeça pesava muito. – Mas como seria o peso da dúvida em relação ao peso das estrelas-, perguntou ele acomodando a cabeça. “Nossos pesos seriam os mesmos se mantivéssemos a distância correta como as estrelas o fazem?”. Estão lá distantes, pesadas, mas sempre cintilantes. “Elas ainda pesam quando brilham, pois se brilham fazem esforços dentro da estabilidade gravitacional”, indagou taciturno, mais distante. “Estamos sem brilho, mais ainda assim temos nossos pesos; nossa importância. Mas onde está o nosso brilho?”. O silêncio distante continuou imenso; assim como o céu diante deles. O brilho da noite confortava todos eles. Esqueciam que haviam escolhido o momento para esclarecer a vida; as dimensões das distâncias infinitas entre eles e o paralelismo com as estrelas pensantes.

- Onde estavam eles?- ele perguntou ainda fitando as estrelas cheias de cores; pesadas. E eles estavam lá em cima como as estrelas disputando o brilho e o peso das coisas que os arrodevam. E por um momento um deles se perguntou por onde deveriam estar aqueles corpos; qual constelação; a qual galáxia pertenciam.

Ficaram em silêncio observando a terra mexe vagarosamente enquanto seus pensamentos divagam nas estrelas e esperavam delas uma resposta advinda como uma estrela cadente.

- Apontei primeiro! Vou fazer um pedido- disse cerrando lentamente os olhos enquanto acomodava mais uma vez a cabeça na perna imóvel. – O que você pediu?-, perguntou sem tirar a atenção das estrelas. As estrelas estavam lá e apesar de serem anônimas, cada uma tem sua importância. Naquele calor emitido, cada uma dava vida, iluminava , preenchia um espaço vazio entre eles. E foi justamente sobre espaços que ele falou. Disse que havia pedido um espaço temporal quase longinquamente mensurável. Talvez apenas um momento para sentir o peso das estrelas. – Eu pedi esse momento e pedi, também, que a lua aparecesse e que nos brindasse com um peso de brilho maior do que aquelas estrelas perdidas-, disse tranquilamente com os olhos fechados. E assim as estrelas dançavam sua música solitária, por entre aqueles pensamentos dispersos dos dois ainda imaturos quanto ao peso das palavras. Mas mesmo assim, se aventuravam em explicar as comezinhas interpretações de seus sentimentos mútuos. Era apenas distração, enquanto o efeito do álcool amortecia seus prazeres e adormecia o sentimento mais demoníaco que os unira naquele lugar. Mais pareciam feras em cio louco, apertavam-se como se descobrissem os músculos enervados entre as pernas. Cada qual intencionava descobrir onde mais se avolumavam os calores dos sangues que os enchiam.  Suavam pela boca e transpiravam pelas salivas trocadas, num jogo do qual não se saíam vencedores. Duelavam amistosamente por entre os outros. E estavam certos do que cada um poderia oferecer; tão certos quantos os toques sôfregos poderiam mensurar suas libidos em cio quase animal. Não havia um beijo; não era um toque suave, tampouco era desejo. Talvez um encontro excepcional, quase metafórico de conjunções universais de dois deuses furiosos; quem sabe ainda munidos de ira por conta de suas desordens internas. E nesta falta de ordem encontravam o equilíbrio vital para o entendimento de suas ignorâncias completas. – Eu sou médium. Tive um contato de primeiro grau!- o mais afoito declarou no ouvido do mais comedido. Ainda não havia o álcool no sangue e sua mensagem poderia ser entendida como um poder; uma magia. Ele pensou que ele se tratasse de um homem diferente. Estava cansado das investidas; da internet, dos perfis falsos. Aquela falsa magia das pessoas simples sempre o enganara. Escolheu aquele canto para entender as pessoas sem tentar aceitá-las. Admirava-as de longe sem se deixar influenciar por palavras domésticas. Ele precisava de algo surreal, que saísse daquela expectativa vã que seria, invariavelmente, a mais simples: flores, cartões, um jantar dividido. Deveria ser o mais original. Aquele que pudesse lhe retirar daquela tranqulidade no canto escolhido; som e música aprazíveis. Tinha de ser especial.; ou pelo menos diferente.

[...] 

O álcool tinha um poder legalmente elogiável. E conseguia tirar as pessoas dos lugares que elas mais gostavam de estar. Muitos deveriam estar tranqüilos, anônimos, seguro. E então o álcool. E o lugar escolhido ganhava dimensões de um cubo mais elástico. O espaço dos pés poderia ensaiar uma dança; talvez uma saída do encosto do balcão. Era confortável permanecer no estabelecido espaço daquela renúncia. Era fácil trocar um pé, colocar um ou outro, sem necessitar invadir campo alheio. E ele não se aventurava a desafiar a linha divisória de sua felicidade e a felicidade dividida. Campo minado ele sempre pensava assim.

A música era apenas um meio termo entre o que seria desafiar a linha divisória e permanência confortável naquela noite de tentativas mais extensas do que os passos dos pés sensíveis. A linha toda se amoldava aos possíveis passos de danças ou aos pequenos movimentos dos braços sem destino. Ficava ali por horas apreciando o sabor da cerveja encorpada enquanto as linhas aumentavam seus contornos perigosos. De nada valia a batida mais forte, pois a música não tinha o poder de remover sua razão. O álcool sim o tinha. Ele tinha a virtude de transformá-lo e lançá-lo para diante das linhas de forma ousada e impensada ao ponto da desmedida incompreensão de seus valores construídos sobre o cartesianismo de seu olhar para a métrica das coisas desorganizadas. O limite era as duas latinhas de cerveja. Sua ousadia controlada lhe permitia poucos passos, o que correspondia aos pequenos e curtos passos em torno de sua linha mantenedora da ordem. 

[...]  

Pensava nos traços simétricos que o pincel imprimia sobre a tela. Era apenas a medida da cor certa, tinha de ser especial, não podia sair da reta; no outro espaço estava a outra cor e as cores não podiam se misturar: a desarmonia, o desalinho. Restava a dúvida de quanto poderia ultrapassar. A mão suava e não poderia tocar a parte branca. Tinha de ser hábil com as cores. A sintonia delas, os espaços completos e as lacunas deveriam ser implementadas. Mas havia os contornos, aqueles que davam vida às formas e definiam a possibilidades de interpretações. E nada poderia disfarçá-los, pois o toque era grosso, firme, fortemente preciso. Parecia a linha de seus pés atônitos ao redor de espaços cada vez mais exíguos. – E o todo, tenho que pensar no todo. Tenho que pensar no todo? – ele se perguntava na permissão última da derradeira cerveja. O quadro já havia saído, misturando cores diversas sob o controle exato do contorno da linha preta. Então olhou para os rabiscos no chão onde conseguia ver a linha estreita de seu pensamento monocromático.

Estava o quadro pintado como ele queria sem os passos largos de pinceladas autômatas. Era ele quem mandava nos pés- até que o efeito do álcool não ultrapassasse o seu limite de controle- de forma a colocá-los na linha correta do controle de tudo. E a linha grossa do contorno permitia que desenho se formasse claramente; as linhas desenhavam os caminhos de uma trilha. Lá estavam pequenos carros e pequenas estradas, desenhadas pelos traços coloridos como de ruas do interior de sua terra natal. Eram ruas estreitas que permitiam pequenos movimentos como se pudesse se lembrar das ruas de sua infância, quando suas linhas eram bem maiores. Os espaços eram largos, bem maiores dos que agora poderia dar. Lembrava-se do ritmo de suas pisadas contadas quando sumia da casa de seus pais, quando sempre temia que fosse descoberto, mas era quando suas expectativas se tornavam em saltos largos, sem o comedimento de suas linhas controladoras, assim parecia ter  vida. A vida irresponsável de sua juventude lhe dera a liberdade de conhecer outros espaços; outros tamanhos de felicidade maiores do que as havidas até então. Mas, de repente, a vida adulta e responsável de um artista cheio de visões o obrigou a ter um olhar mais agudo das coisas; certo pudor e decoro para tirar as cores certas, o traço perfeito. E sua medida das coisas levava consigo no seu mudo cercado de quadros coloridos e de paredes brancas. Havia apenas o realce das telas, no entanto sua vida era o anteparo branco das paredes sem vida. Eram paredes brancas.

Mas havia linhas brancas por entre os sapatos; era apenas um pequeno quadrado nos quais lhe cabiam os pés. Ainda estavam assustados com sua ousadia de ensaiar uma dança, um ritmo diferente ao compasso da música. Seus braços estavam cruzados. O limite das cervejinhas já havia sido atingido como a pincelada última; não poderiam existir mais reajustes. A pintura estava pronta. Não poderia sair dali senão para o caminho da saída. Mas tinha uma saída nas linhas tortuosas da tela colorida. Sim, havia uma espécie de saída para os passos daquele que estava a percorrer a estrada dos caminhos. A tela parecia fechada e a saída tinha sido um descuido do pincel desatento.

E os pés pareciam ter vida própria e queriam sair daquele claustro. Ansiavam por sair e encontrar não a saída da rua, mas como a saída da tela que existia como possibilidade. Era uma saída.

[...]

- Por que você está calado?-, perguntou o outro ainda sem entender o pedido feito as estrelas. Ele respondeu apontando para outra estrela cadente. Agora foi sua vez de fazer um pedido. Fechou os olhos e pediu inclinando ligeiramente para baixo a cabeça pesada.  – Então o que você pediu? Também quero saber-, disse ele levantando-se tentando olhar em seus olhos. Mas não quis falar sobre isso. Era extremamente tímido. Ele não teria saído dali se o outro não tivesse aumentado os quadrados de seu caminho. – Pedi que meus caminhos pudessem ser alargados como o caminho das telas que pintei, havia uma saída, ou que houvesse sempre alguém que mostrasse o caminho de mais quadrados- falou como se aliviasse de uma tortura. Ele ficara por muito tempo naquele espaço. O tempo passava longinquamente por entre seus pés. Deteve-se por muito tempo como se dependesse de uma muleta para sair andando. E de repente ele enxergou a saída como a deixada por displicência na pintura última. Estava lá fora da interpretação fechada que queria dar. A abertura da rua não tinha o contorno da tinta preta que cerceava a liberdade da obra. Ela era fechada porquanto não havia interpretações. – Eu não queria saídas!- disse como se explicasse a resistência ao galanteio do outro. Na verdade, os traços tinham sido feitos ao léu. Na sua experiência sabia que a obra final apareceria no último traço.

Não havia preparação, apenas as cores primárias. Elas tinham que existir de qualquer forma, mas não gostava de detalhes de humanos nas suas pinturas. Eram, por excelência, abstratas num sentindo mais intimistas e repletas de interpretações instantâneas. Eram simples demais. Naïf. No entanto, fortes. Cores fortes que representavam a alegoria de uma metáfora de um livro escolhido. Poderia ser a última leitura como o último romance da cabeceira escura. E lá estava Wilde a decifrar quase que hermeneuticamente os sonetos de Shakespeare; ou as leituras impossíveis de visualizar de Emille Dickinson; ou poderia ser a mistura, a tentativa de entender as linhas que rimavam e que escondiam um amor longínquo. Estavam na cabeceira como um alento; em último caso, inspiração.

Não existia tampouco um ritual, uma indumentária talvez: um saco plástico por sobre a bermuda já manchada. Ao lado sempre deveria estar a paleta. A sua já estava completamente tomada pelas cores, pelas tentativas de criar algo novo e como se do algo novo surgisse a cor perfeita e, por conseguinte, o traço perfeito. E aí residia sua principal preocupação. Ele sempre pensava no último traço, pois sabia que ao término teria a satisfação final. Até lá, tinha a difícil tarefa de encontrar a inspiração para o depois do primeiro rabisco na tela. Sobre o que seria o final também o deixava sob certa angústia. Às vezes a imagem não parecia ter formas, ou pelo menos uma linha, um desenvolvimento. Era instinto talvez.

Passou o primeiro traço vermelho sobre a tela branca. Pensava no caminho de rosas vermelhas de uma estrada sem fim; para isso reforçou o traço fazendo um desenho em forma de serpentina. Ainda não havia os contornos. –Que imagem dar a este caminho?- pensava intimamente.  Mas deteve seu pensamento e buscou um mistura diferente. Pegou o laranja, misturou com o azul. Passou o pincel. Fez a primeira volta e viu a terra. Assim continuou com o traço, desenvolvendo outra serpentina facejando a outra linha vermelha. Elas percorriam caminhos diferentes apesar de se tocarem em algumas partes, mas não se alinhavam, nem se opunham. Estavam lá exigindo um valor para suas formas e esperando o contorno final para a assunção de suas existências. E ainda não havia sentido para aqueles caminhos. Olhou para a paleta como se fosse inventar outra cor. Apertou o tubo do azul. Não reconheceu vida, nem morte. Então pegou o amarelo; apertou o tubo amarelo e a tinta saiu como se tivesse vida própria, dando brilho à paleta inerte; mero instrumento daquele mister. E o amarelo pareceu recobrar-lhe o interesse. Pensava em misturar e, assim, emprestar ao azul um sentido maior. Pensou bem e molhou o pincel na água encheu-o de vida e transpôs uma linha maior de amarelo por entre os espaços brancos obedecendo ao mesmo princípio das serpentinas.

Distanciou-se como se tentasse vislumbrar e antecipar toda a obra. Virou a cabeça para um lado e para o outro e ainda não havia nada. Virou a tela de ponta cabeça e viu as ondas de um mar de arco-íris, faltavam-lhe outras cores. E então pensou num arco-íris. Colocou-o na vertical e imaginou um dragão chinês. No entanto, nada disso parecia com o que sua vontade de realização final havia endereçado à sua inspiração. Na realidade, ele queria que fosse uma interpretação poética de alguma obra literária; que dissesse algo mais simples e menos prolixo. Nada de aberrações.

[...]

A linha dessa vez era branca. Não mais preta e firme que davam contornos de vida, mas aquelas que separavam os azulejos quadrados. Ensaiou um cheque mate. Sentiu-se ousado e então avançou em movimento do cavalo. Desequilibrou-se. Voltou à posição inicial, procurando o lugar confortável de outrora. Desequilibrou-se. Já não era mais seu lugar.

- Pensei que não fosse me dar a oportunidade de brincar com você!- falou o novo ocupante do lugar escolhido.

Ele não acreditou que pudesse dialogar naquele local. Aventurar-se em sair dos quadrados e jogar esse xadrez solitário tinha sido o mais longe ao longo de tantos anos. Não houve ensaio. Foi tudo de primeira vez, de primeiro impulso direcionado pelo temor de não saber lidar com essa novidade. E então, depois de tentar alguém se aventurar em observar sua insólita dança, ele não entendia o porquê de tomar seu lugar. Pois ele havia chegado de mansinho, observando aquela multidão de corpos suados embalados por uma música quase incompreensível. Escolheu o melhor lugar, o mais discreto e então se dispusera a aproveitar apenas o prazer de duas cervejas, ainda que controladas, evitando que sua timidez virasse algo descontrolado. E virara certa vez.

[...]

A tela era bem maior do que pudera imaginar sua vontade de pintar. Foi um presente, mas não uma exigência de se pintasse para o doador. Era apenas um presente. Grande parede branca como uma página em branco em confronto com os desejos do poeta. Então pela primeira vez tinha a impressão que nem mesmo o primeiro traço poderia dar. Olhou diversas vezes para que pudesse entender o que poderia ser feito. Pensava nas primeiras impressões que poderia dar, iluminando a tela com um fundo claro ou lívido. Talvez as estrelas! Mas desistiu por insistir em cores claras em luz assim como os impressionistas. Sob a luz do dia. Plantados como árvores esguias sem folhagens a espiar o movimento das luzes e sombras sobre o jardim descampado. Ficavam ali, compenetrados nas dimensões certas da sombra e do efeito da luz sobre todas as coisas. E era fácil. Tinham todo um panteão de inspirações para rebuscar o trabalho, dar forma, dar vida e história. Mas ele se sentia uma inquietação nunca antes sentida.

Por alguns instantes pensara numa imitação; uma procura de imagens que pudesse continuar. Imaginou, segurando o pincel e com o polegar na sua parte superior- criou uma régua-, e distanciou-se para auferir a figura. E então vieram porções de amarelo pedidas por entre a imensidão daquela tela. Pensava em flores talvez. Monet e seus nenúfares. Desistiu. Seria uma cópia. – Todos fazem cópias, talvez uma apropriação!- pensara com seus pinceis. E parecia que naquele momento a inspiração não viria. Havia, também, desistido dos livros. Todos estavam sem sentido para eles até mesmo seu preferido. Pegou Cabral e começou a ver imagens; passado, infância. Mas havia crianças a brincar, lagos, o canavial. Na realidade não era seu favorito- estava à mão- e havia as intervenções humanas. Ele queria o abstrato, ainda que pensasse nas flores, nos grandes vestidos das senhoras. E apareceu do lado Mrs. Dallaway cortando as flores e preparando-as para a mesa. Estavam lá povoando a mente de possíveis intervenções. Mas nada lhe dava a medida certa.

Sentou-se ao lado do Bordeaux à mão também. Ali em casa poderia ficar a vontade. Sentado e ainda inquieto com a única preocupação daquele dia. A primeira taça veio de leve. Estava um pouco cheia e um pouco vazia ainda de sua tentativa. Pôs os pés na mesa, cruzando-os na mais perfeita posição no cômodo de sua divagação. O sabor estava a contento do sempre paladar apurado. Ali ele poderia tomar sozinho suas garrafas. Aliás, sozinho era a condição para suas incursões no seu mundo. E então foi um momento para parar e visualizar o tamanho de seu atelier. Olhou para as paredes e começou a contar suas telas. – Um, dois, três…-perdeu-se na sua medição idiota. Havia os vendidos e os que ficavam no andar debaixo.  No entanto, mantivera-se observando os arredores, voltou-se para o lado e observou seu brinco de princesa que ficava pendurado na varanda. Levemente o vento o deslocava de um lado por outro sem se incomodar com o fato de a vida estar nele. Mas estavam lá, dezenas de pequenas flores quem pendiam como brincos, mas poderia ser lanternas. – Podiam ser lanternas, ou câmeras a observar seu trabalho; sua inquietação. Então, parou para observar melhor e começou a contar o número de brincos. –Um, dois, três, quatro…Mais um gole depois de rodopiar o vinho na taça bebeu-o em suaves toques da língua. Ficou ali por horas…

Olhou a grade que sustentava a Azaléia e pensava na beleza das formas que pareciam suplantar a beleza das flores que sustentava. As formas imitavam os traços de mãos delicadas que se enroscam em torno de si, como se quisessem segurar toda a sorte de coisas com suas mãos frágeis. Eram mãos verdes, talvez musgo. Mas era uma obra de arte que tinha mais valor do que sua fortaleza suportava. E elas estavam lá há anos sem que ele soubesse do que se tratavam; do que representavam para ele.

Mais um gole veio. Ele estava na segurança de seu atelier, emoldurado pela sua vida gasta em pincéis e telas. O tempo tinha sido esse momento de razão no qual se pensou como parte de tudo aquilo. Era seu mundo, mas não havia comunicação. Assim como as plantas, as telas haviam passado despercebidas. Uma conversa longinquamente solitária mantinha sua estirpe. No entanto, era apenas um mundo sozinho cujas linhas ele havia traçado nas suas telas e na sua vida.

 

 teste

Capítulo 2

Amizade de Sangue

[...]

- Trouxe um vinho. É o seu favorito-, entregou a ela com o mesmo tipo de laço. Ela era sua única amiga.

- Entre! Quero te mostrar uma coisa- ela disse com olhos cheios de empolgação. Pegou-o pela mão e pediu-lhe que fechasse os olhos. Ele sentiu que seria mais uma tentativa dela de convencer que poderia mudar alguma coisa. No entanto, o status quo não poderia se modificado. Sua predileção era clara: o bronze de Rodin, a tez de São João Batista e o falo das esculturas romanas às gregas. Mas no fundo ele tinha certeza de sua predileção. O fato é que ela insistia para ele tivesse uma postura diferente em relação a sua vida. Os passos deveriam ser mais amplos; mais amplos que o caminho de seu atelier para casa; ou da casa dele para um jantar na vizinha casa da amiga. E por muito tempo essa amizade se manteve nesses contatos quase mudos regados à vinho e a tertúlias domésticas.

- Abra os olhos!- ela pediu sussurrando em seu ouvido. Ele se manteve parado e coçando os olhos com as pontas dos dedos, pôde ver a grande pintura. O quadro tinha quase 5 metros de largura e 2 de altura. Era uma pintura muito rica. Vários detalhes o colocaram em demorado silêncio, analisando, primeiramente a feição da amiga- ansiosa para um comentário inicial-, e depois ainda sem palavras para admirar a obra de arte. Aproximou-se e tentou cheirar o frescor das tintas- para ele cada cor tinha cheiro-, portanto o amarelo tinha cheiro de primavera, de flores. O verde claro, que emoldurava e preenchia a tela cheia de folhas, tinha cheiro de terra molhada, como a terra dos seus jardins que aguava todas as manhãs. Sentiu o cheiro dos lírios que ladeavam o caminho do quintal assim que se aproximou das gigantes begônias brancas. Distanciou-se e abriu os olhos para a dimensão da tela que o enchia de certa familiaridade. E finalmente reaproximou-se tocando suavemente os tijolos da estrada.

A única coisa viva que aparecia naquela tela era apenas um pequeno homem de costas vislumbrando o grande caminho de tijolos sobre o qual se encontrava um pequeno banco. A imagem parecia o solitário magpie de Monet. Aquele homem era o pequeno magpie, propositadamente aquele pequeno ponto preto e branco.

Ela deu dois passos para trás. Esperou que ele saísse daquele transe. Ele afirmava: – Sou eu esse magpie, sou eu aquele magpie… – esse pensamento reverberou por toda a dimensão da grande sala.

- Ainda você insiste nesta história de solidão? – bradou mais alto do que seu tom de voz normal.

- Por você me retrata como se eu fosse um só. E você então?- ele se pôs a discutir com o dedo em riste. Na direção dela, ele bradava como se fosse um maluco. Seus gritos ecoavam dentro do enorme vão. E revidou:

-Ainda não esqueceste o calor de meu sexo, minha boca entre tuas pernas? Não sabes que não pode frutificar essa fornicação? – Ele repetiu sua sentença duas vezes.

Havia sido no primeiro encontro num vernissage de um amigo em comum. Ele ainda não sabia de nada sobre essa libido para com mulheres. Havia nele a convicção de que não saberia nunca o que fazer com um desejo da raça, no entanto, não sobrevivia dentro dele. E por muitos anos ignorou. E ainda mais que se dizia puro, virgem.

Mas nesse dia tinha que provar a si mesmo que nenhuma mulher poderia entender o que fazer com a libido dele. Eles eram apenas admiradores do amigo pintor. Eram todos pintores. E este detalhe mudava sua atenção somente para ela. Ela era inteligente também. E o viço em sua pele administrava uma sensualidade fora do comum. Na verdade, seu interesse residia nos olhos inteligentes. E ela era inteligente. Seus comentários eram perfeitos e sua beleza estranhamente interessante. Tudo isso favoreceu a sua perdição momentânea. Uma recusa a um bom vinho não cairia bem. Ele precisou de um argumento mais contundente. Assim esqueceu-se do que não queria.

Os dois foram pra cama a convite de vinhos caros e impressões substanciais acerca das artes. Somente por isso, depois ele pensou. Mas o fato que daquela troca incômoda eles ganharam certa intimidade de amigos confidentes. E todo aquele novo e rápido mundo- pare ele- demorou apenas o instante do gozo; quanto a ela, isso poderia se desenvolver além de uma simples amizade. E pare ele o interesse permaneceu em sua inteligência e no seu talento; quanto a ela o interesse dava lugar ao amor.

[...]

- Vamos tomar o vinho!?- ela falou com a voz banda cheia ainda de sua inteligência incial. E acrescentou:

- Não quis ofendê-lo; nem tratar na tela uma figura solitária. Apenas pensava em você.

Ela quis desfazer o mal-entendido. Mas agora o entendimento da sua libido continha toda a reclusão de seu celibato em tempo definitivo. Ela quisera talvez convencê-lo de que poderia pintar maior, melhor do que ele; do que suas telas simplórias. Ou talvez ela o estivesse convencendo de outra coisa. E isto, na realidade, era o que preocupava ele. Afinal sua amizade estava fadada a mais uma estatística de que as mulheres são mais inteligentes do que os homens, quando o quesito é levar um homem para cama.

- Onde está minha garrafa de vinho?- Perguntou com os olhos cheios de raiva.

- Aqui está! Ela entregou como se tivesse acalmado a revolta em seu amigo.

Ele pegou a garrafa e num golpe certeiro arremessou em direção ao quadro. A tela se manchou de sangue; de vinho. Sua ira havia se esvaído. E sua amizade havia acabado ali.

                                                                                                                                   Continua…

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Ele voltou como se percorresse o caminho da tela. Parecia tudo ter o mesmo tom solitário, enquanto caminhava pensando um pouco no estrago do vinho, pensava um pouco em sua amiga. E por um momento, pensava em desculpas. No entanto, era tarde para pensar como ficara a obra final. Deveria haver um pouco de vida naquela tela. – Talvez ela me agradeça mais tarde- pensou enquanto chutava as pedrinhas do caminho. E era o caminho de casa. Ele coincidia com o caminho na pintura de forma fiel. – Eu posso sentir o mesmo cheiro quando toquei as tintas- ele falou sorvendo o ar enquanto o vento o atingia.

 

[...]

 

- O que podemos fazer de nós dois aqui ainda ébrios?- perguntou sem saber o que estava perguntando. O tempo ali dividido, enquanto o álcool solicitava algo incompreensível, fazia surgir um sentimento agora de repulsa. Acomodou novamente a perna, retirando a do outro vagarosamente. – O álcool definitivamente deixa as pessoas bonitas- ele pensava consigo. E muitos outros pensamentos estavam vindo à tona por conta de sua desilusão com a feiura das pessoas. Mas subsistia a beleza das estrelas e o que poderia ser dito.  E ele se deleitou com o colóquio sobre os mesmos medos acerca das estrelas. E por esta razão sua timidez o obrigava a voltar atrás e sentir-se amedrontado com toda aquela situação. Tentou silenciar-se, mas o outro disparou em histórias mais complicadas como: luar, intimidade, amor. – Amor!- pensou alto. Não queria ouvir sobre essas coisas. Ter saído do caminho de tijolos; ter saído de casa em direção a multidão; ter entrado em contato com pessoas; tudo isto havia o tornado numa experiência não pensada; nunca imaginada. Era um desafio. Era uma indireta de sua melhor amiga. Mas, afinal, estava ali em contato com outro de sua espécie. – O que mais poderia exigir-se?- perguntou-se como vitorioso.

 

Continua…

 

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Countdown to PSB show

I am anxious to the PANDEMONIUM  show. I’ve just got my tickets.

 psb1

Take a white t-shirt and put on it the name of a PSB’s Album or a piece of your favourite lyric and then  put  on the tee at the Pandemonium Show tour in Brasília-DF, 11th October 2009. Say yes to this message.

Pegue uma camiseta branca e coloque uma estampa com o nome de um álbum do Pet Shop Boys ou uma sua  música favorita e use-a no Show da PANDEMONIUM on Tour dos Pet Shop Boys no dia 11 de Outubro de 2009 no Marina Hall , Brasília- DF.

Do rodopio de antes, dei um passo para trás. Não havia mais dúvidas. Daquela caixa de mágicas, não poderia mais sair felicidade. É pura a falta de senso, de rumo. É assim que sinto seguindo meus passos para trás. Não há como intervir, não há mãos, preces, milagres. Não olho para o caminho que ficou nas costas.

Administro a culpa católica de ver pecado na devassidão, na boemia, na cachaçaria de minha solteirice. São apenas fases- todos já viveram e visitaram as paredes úmidas do poço. Todos gritaram de lá, ecoando a solidão; e ainda assim percorreram seus caminhos. Sem culpa. Apenas como o estágio necessário. É necessário.

O ócio do pensamento ativo dá uma conotação de senso perdido. Porém nunca andei tanto com meu carro; pra cima e pra baixo, adquirindo certo conhecimento da natureza. Banho de sol sozinho. Talvez uma manhã irresponsável, sem nenhuma obrigação da parceria. Mas não é o que me dá o tesão de agora. São tantas outras besteirinhas. Sou forte. Sou bonito dentro do meu esconderijo. E tudo aquilo que um flerte dividido sem culpa, nem obrigação, senão do sorriso de um gozo contido. Nada mais. Podem, depois, vir os braços, as pernas…

Eu era um estorvo removível, que de pronto, por minha própria vontade, retirei-me de uma trilha linda cheia de tulipas verdes e violetas. Como no quadro pintado repleto de história comum. E então, saí como a tinta que retira uma ou duas tulipas. Elas se vão e ainda assim subsiste a beleza do inteiro. Sou inteiro na metade que me cabe e na falta que me complementa. E, por incrível que pareça, desisti desta completude filosófica. Estou somente eu e meus caminhos, com tudo que vier pelas estradas coloridas.

The way it used to be

Hoje chorei bastante porque não me restava a alternativa de uma faca ao peito. Pois dói as duas coisas contundentemente pelo fato de subsistir o amor.  – Mas como canto esse amor em rimas de dor?- pergunto sem a menos intencionar um diálogo. Sou eu apenas. Talvez tenha a ver com culpa, mas de nada ela serve; só empresta um falso fundamento a tudo que quero dizer. E ainda não consigo dizer nada porque como posso falar de amor se desisti de tudo; de toda a segurança do amor; de toda a retribuição que possa existir. E insisto que não é um diálogo. Porque não quero suas respostas, caro amigo. Apenas desabafo com o peito ainda em soluço pueril, olhos vermelhos e revolta indigna.

“As coisas como estavam” é assim que a música repete e de quem mais gosto que me entende ao ponto de caber como luva, sem importar a distância e ignorar-me por completo. Mas é nisto que está a magia da boa música. “Then and there my life made sense, you were the evidence”, mas se não for apenas esse momento de arrependimento, os outros de putaria me dão outro sentido de vida, até que encontre de novo o vazio das noites chuvosas de domingo. Deixo a dor se repetir e a rima encravar-se como a faca que não existe.

Tento cantar mais triste; mudo o tom para secar as lágrimas e ainda continuo o mesmo. Mas o tempo vai passando. Troco as músicas e elas começam a falar de outras coisas mais cinzas, mais tristes. Ainda assim, detenho-me na letra confusa e na indecisão de meus sentimentos. Tudo para entender esse novo sentimento de tempo passado e vejo que as lágrimas secaram e os olhos requerem um pouco de vinho na garganta. – Será que o ritmo se repete?

Parei de escrever porque ainda procuro ressignificar algumas coisas, pois tudo era dois de alguma forma estranhamente harmoniosa; depois vieram três; depois quatro e de alguma forma a desarmonia se fez. Mas então, tem-se a saudade das coisas dividas e especialmente aquele abraço bem antes de o sono vir. E vêm as músicas tristes, e o choro desandou. Nada proposital. E por mais que nos sentimos fortes, as lágrimas são frágeis, tolas, fracas e caem. E sem faca, e sem soluções, nem soluços agora, continuo a escrever e sentir que certa forma a dor recrudesce naturalmente. Seja lá qual for o tipo de dor.

16 de outubro de 2009

É um leve desespero; o mesmo que enche o peito do suicida

É doce também como última colherada provando o sabor das coisas

E ainda assim parece com todo tipo de assunção de crime, qualquer um

Mas a noite passa da mesma forma que a música acabou

É um convite às avessas para continuar a empreender o edifício

Desisto do arquiteto, do fundamento, da obra final…

Vem a semente e edifica tudo, verdes, plantas, edifícios

Quem precisa de medidas para as coisas?

O arquiteto não inventou a felicidade apenas a obra

Não há nada de divino nesta busca de complemento

É um leve desespero que aumenta quando se acaricia

E quando existe não há quem administre

É doce como o último momento de duas sombras

Mas agora é apenas uma alma vagando pelas ruas.

Este pequeno texto participou da seletiva de um concurso promovido  pela Revista BRAVO. Infelizmente, não logrei êxito; no entanto, divido com você meu interesse pela obra de Arenas.


Responda a pergunta:Qual história real de guerra você conhece?

” Os originais, não sabia onde colocá-los. Pensou em destruí-los, pensou na prisão. Mas ele viu o telhado. Subiu na cadeira e colocou-os debaixo das telhas carcomidas. Escondeu-os, mas sabia que da França eles partiriam para o mundo. Sua história, sua vida revelados. A perseguição era ideológica, era a guerra de idéias. O Estado o considerou um revolucionário; gay; um poeta, um escritor. Sua luta não era somente em ser aceito; havia uma dimensão contestatória do sistema castrista. Sendo assim, as tertúlias eram proibidas- malfadadas reuniões conspiratórias. Mas a sua luta era mais complexa, mais longínqua; tinha a ver com seu sexo, com sua libido. Por não acreditar nos ideais vindouros da revolução cubana –antidemocráticos-, viu-se preso, torturado por uma guerra que não o entendia. Arenas muda o nome. Persona non grata e gay. Foge da prisão física. Liberta-se. Publica seus levantes, mas a vida lhe aprisiona na impossibilidade imortalidade. A AIDS lhe sentecia a morte ANTES QUE ANOITEÇA.

Abraços Partidos

Personagens verdadeiramente viscerais, apaixonadas pelas suas vidas simples e intensas.

A lágrima sobre o tomate cheio de vida revela a marca registrada da carga surreal de Almodóvar. Impagável essa cena metalingüística do filme dentro do filme.  Desnecessário comentar a cena final na qual Mateo – ou Hurry Caine, ou Hurricane-, tenta “ver” e sentir com seus dedos a última emoção de sua amada antes da morte. Cena simples, mas repleta de significância sensorial.

E Penélope Cruz que empresta beleza, emoção e simpatia para a personagem Lena. Uma das poucas atrizes que desnuda seu corpo e sua alma de forma simultânea; e quando o faz, não se torna vulgar. Entrega-se ao personagem e nos apaixona.

Abraços Partidos é uma inventiva narrativa no campo do amor passional e mais contundente: aquele cheio de intensidade, ciúmes, paixão e morte.

Não somente por conta da atuação de Cruz, mas dos outros personagens que empregam suor e expressão corporal para atuar em seus papeis mais do que coadjuvantes.

E como mais clichê usado em finais de filme: vale a pena ver Abraços Partidos porque mais vale uma imagem do que mil palavras.

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